Autores: Leonardo Veloso Pin e Marcos Sabatini
Editor: Tiago Angelo
Segundo Nietzsche, não há nada que torne o homem mais especial do que qualquer outra coisa: não há intenções que o criaram como um ser sublime, não há nenhuma vontade especial que o admira, não há um fim, muito menos um começo, em que o homem seja o protagonista de uma trama universal e divina cuja inteligência o ponha em primeiro plano perante toda a natureza, de modo que Houve eternidades, em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele.[1] A vida repousa, então, sobre uma total ausência de sentido, ou seja, sobre o [...] mais sinistro de todos os hóspedes [...][2]: o niilismo; disso resulta que também não há nenhuma verdade. para nos guiarmos, para alcançarmos, a não ser os nossos próprios valores, as nossas próprias morais tomadas como tal e, por isso, a falsidade de um juízo ainda não é para nós nenhuma objeção contra esse juízo [...][3]: porque, justamente por não ter valor algum, o mundo pode ser preenchido por quaisquer valorações. No entanto, são tais valores que elevam ou sucumbem o homem e sua vida, e, aí, está o que deve ser motivo de objeção contra uma moral para Nietzsche; mas, por mais que enfraqueçam a vida como é o caso do cristianismo , elas tentam salvaguardar o homem desta ausência de sentido, mesmo que, para isso, devam torná-lo cada vez mais doente; através do Ideal Ascético ou seja, a moral cristã , o cristão tenta combater o niilismo para reduzir o horror que esta ausência de sentido lhe causa. Mas, mesmo esse Ideal recai em uma forma de niilismo porque a crença contida nele continua no nada: mas Não se diz nada: diz-se, em vez disso, além; ou Deus; ou a verdadeira vida; ou Nirvana, redenção, bem-aventurança…[4]; assim, o próprio Ideal Ascético se torna niilismo porque o seu sentido está fora da própria vida, ou seja, no nada. Nota-se dois pontos: o cristão e, através da estrutura de seu Ideal, também o socialista e o anarquista tenta se defender de um niilismo no qual a própria vida existe: para tal, ele forja o que o Nietzsche chama de Ideais Ascéticos; mas, tais Ideais, acabam por não só deixar o homem no terreno em que estava o do niilismo , como também por torná-lo um niilista enquanto praticante e crente de tais crenças. Temos então a problemática, enquanto aparente paradoxo (torna-se niilista para se proteger do niilismo), que permite formular a pergunta: como o Ideal Ascético do cristão, do socialista e do anarquista (que quase são a mesma coisa, mudando apenas o nome) pode confortá-los contra o horror e o sofrimento que a vida causa enquanto existente no próprio niilismo se, para isso, eles se tornam niilistas? Read more…