A consciência é um dos maiores mistérios com que nos deparamos. Enfrentado pela filosofia há milênios, foi apenas muito recentemente considerada como um objeto legítimo de estudo científico. Essa mudança sem dúvida foi devida aos desenvolvimentos das ciências cognitivas e, principalmente, das neurociências que tiveram lugar nas últimas décadas. Hoje é muito difícil negar, frente a avassaladora montanha de dados comparativos, clínicos e das neurociências cognitivas, que o cérebro tenha um papel fundamental na gênese e manutenção das nossas memórias, da nossa capacidade de experienciar o mundo (e nossas ideias sobre ele) de uma perspectiva subjetiva e, por assim, dizer, do nosso senso de identidade pessoal. Mesmo as emoções, como mostram os estudos em
neurobiologia
comparativa que deram origem a áreas como a neurociência afetiva, são consensualmente aceitas como dependentes da atividade cerebral e, de certo modo, compartilhadas com outros mamíferos e vertebrados sendo a base de nossos sistemas atencionais e motivacionais [Veja os títulos recomendados no final].
Esta perspectiva científica da mente humana não é inócua, repercutindo em várias áreas importantes da nossa sociedade, como no tratamento e diagnósticos de condições mentais, nas discussões sobre a imputabilidade criminal, na resolução de dilemas éticos e na própria forma como vemos a nós mesmos. Entretanto, esmiuçar os recônditos do cérebro humano em busca da elusiva consciência continua sendouma tarefa e tanto na qual ainda engatinhamos por meio de uma abordagem fragmentada em que muitas frentes são exploradas ao mesmo tempo.
A capacidade de experimentar a dor é uma das janelas óbvias para a investigação da mente, mas ela é limitada pela capacidade de autorrelato dos indivíduos que só entra em cena muito tarde no processo de desenvolvimento, quando já não há mais dúvidas que o indivíduo é completamente consciente. Porém, ao invés da dor, é possível investigar um processo análogo intimamente ligado a ela, na verdade um pré-requisito para a mesma, a chamada nocicepção, isto é, a habilidade de conduzir e diferenciar (de outros tipos) estímulos nóxios (ou seja, aqueles associados ao dano tecidual) que, quando estamos completamente conscientes, experimentamos como a complexa e primordial experiência chamada “dor”.
Em 2011, Fabrizi e colaboradores [1] utilizando-se de técnicas não-invasivas de registro de eletroencefalográfico (EEG), relataram no periódico Current Biology que conseguiram detectar mudanças nos padrões de atividade neuronal que marcam o início da nocicepção e da discriminação tátil em bebês prematuros e não prematuros.










