
Susan Haack no Museu de Xangai, China
Com um oceano entre nós, a filósofa Susan Haack gentilmente concedeu-me esta entrevista sobre seu artigo “Seis Sinais de Cientificismo“, que acabamos de publicar em português. Dotada de um currículo extenso e um pensamento claro e rigoroso, a professora inglesa radicada na Universidade de Miami, ex-aluna das universidades de Oxford e de Cambridge, atraiu a atenção de entidades como o CSICOP de Carl Sagan ao defender a ciência em duas frentes: tanto ao colocar em perspectiva que a ciência é uma forma de investigação valiosa e em vários aspectos singular, contra o que dizem os relativistas “cínicos” do pensamento acadêmico que convencionou-se chamar de “pós-modernismo” (como ela faz, por exemplo, no recém-traduzido, pela PUC-Rio, “Manifesto de uma moderada apaixonada“); quanto ao combater o excesso de deferência às ciências conhecido como cientificismo, assunto tratado aqui. A Dra. Haack agora integra o time de membros honorários internacionais da Liga Humanista, junto a Daniel Dennett, Daniel Everett e Maryam Namazie.
LiHS: Você considera o cientificismo uma forma de preconceito, como Hayek o chama em sua citação? Hoje em dia muitas pessoas preocupam-se bastante com preconceitos como racismo, sexismo e homofobia. Se o cientificismo é um preconceito como esses, o que ele tem em comum com eles?
SH: Citei Hayek usando a palavra “preconceito” ao descrever o cientificismo para indicar aproximadamente quando o termo “scientism” deixou de significar, simplesmente, “o hábito e modo de expressão de um homem da ciência” e passou a assumir um tom negativo. Mas, entretanto, não uso, eu mesma, a palavra “preconceito” nesse contexto.
Por que não? — Porque hoje (ao menos na língua inglesa) um preconceito é quase sempre entendido como um preconceito contra algo; de fato, o dicionário Merriam Webster — um dicionário padrão do inglês americano — define um preconceito como “uma opinião ou tendência adversa formada sem fundamentos justos ou conhecimento suficiente”.[1] Racismo, sexismo e homofobia são, como você diz, muitas vezes considerados preconceitos ou expressões dele — preconceito, isto é, contra este ou aquele grupo ou categoria de pessoas.
Mas enquanto o cientificismo é, seguramente, “uma tendência formada sem fundamentos justos ou conhecimento suficiente”, ele é uma tendência favorável à ciência, não contrária a ela. Então, diferente do sexismo, ou do racismo ou da homofobia, o que é lamentável sobre o cientificismo não é que ele seja um pré-julgamento contra algo, mas que é um pré-julgamento a favor de algo. Então, em vez de usar a palavra “preconceito” nesse contexto, eu simplesmente descrevo o cientificismo pelo que ele é: “um tipo de atitude excessivamente entusiástica e acriticamente reverente para com a ciência, uma incapacidade de ver ou falta de vontade de admitir sua falibilidade, suas limitações e seus potenciais perigos”.
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