Bule Voador

Más concepções da educação

No Brasil, uma de muitas reivindicações é a educação. Provavelmente, a isto se refere a educação formal que é ofertada em creches, escolas, colégios e universidades, ainda que exista muita confusão no senso comum de educação formal com educação de regras sociais. Porém existem muitos problemas sobre a educação, desde sua definição até os seus propósitos que valem a pena serem discutidos e esclarecidos, se quisermos dar os primeiros passos para realmente melhorar este problema e não apenas passar um verniz de solução como constantemente é feito ao longo dos séculos.

Primeiro, o senso comum e a academia destoam a respeito da ideia do que seria educação. Enquanto a academia (em uma boa parte) busca na definição do termo um conceito que a irá resolver problemas a longo prazo e procura dignificar o espírito humano, avançar as nações, encontrar talentos, está não é realmente a visão do senso comum. O discurso acadêmico pode até certo modo ser imitado pelo senso comum, mas sem o componente de convicção, muitas vezes sendo apenas uma imitação vazia, sem nenhuma confiança plena naquilo que se pronuncia.

Ao observar mais a fundo, parece que o senso comum define a finalidade da educação na pratica a uma melhor chance de empregos, a um aumento da renda e status em meio as pessoas sem educação. Isto acontece em partes e a imensa quantidade de pessoas no Brasil com péssimo nível social devido a pobreza necessita desta visão como uma perspectiva de mobilidade social e aumento das condições de vida, já os valores extras são descartados. É pouco estimulante ponderar muito quando a vida exige atitudes emergenciais para sobrevivência.

Ainda assim, muitas pessoas possuem condições de base preenchidas que as permitem fazer escolhas, e também a visão da educação como meios para um fim financeiro e uma escada social ainda é muito presente. É bastante notório a valorização do diploma ou da nota da prova, mecanismos criados para legitimar o processo educacional, mas que são utilizados de forma indiscriminada para o único fim de conseguir a nota apenas pela nota. Avaliar o ensino se tornou parecido a um teatro em que se finge ensinar e se finge aprender, mas tanto a platéia quanto os atores acreditam não estar em um teatro, mas realmente fora dele no meio da vida da pólis. Talvez seria necessário sofisticar nossos métodos de avaliação de conhecimento como testes e exercícios, com a produção de algo indireto através de associação de ideias ao invés de apenas citação de ideias. Provavelmente o senso crítico tão famoso nas escolas, que possuí honras de todas as pessoas e é adorado por inúmeros educadores deva ser retirado das nuvens e voltar a terra, e as pessoas se tornarem mais cínicas com as notas das provas que lhe são apresentadas como se fossem verdades absolutas de habilidade mental.

Isso nos leva a um segundo problema, que se apresenta como visão da educação em uma lista de fatos e não como uma associação de ideias. Infelizmente, somos levados a acreditar apenas em um propósito infeliz e depressivo, no qual temos que aprender a decorar os conteúdos pois todos assim o fazem e com isso não iremos virar moradores de rua. As pessoas tendem a possuir a visão que saber algo é o mesmo que pronuncia-lo, assim quem sabe consegue pronunciar uma sentença sobre o assunto e quem não sabe permanece em silêncio ou no máximo pronúncia um “não sei”. É necessário uma alta dose de inocência para aceitar está ideia pura e simples, porém ela é extremamente popular. Podemos utilizar muitas palavras para preencher um espaço porém podem não ter nenhum conteúdo. Assim, ao invés de ser utilizada palavras para auxiliar a formação de uma ideia, as palavras quando juntas e analisadas formam um “nada composto”, talvez no máximo um emaranhado coeso gramaticalmente, mas com nenhum sentido semântico.

Muito da crença do conhecimento como apenas fatos pronunciados existe devido a falta de um componente, chamado imaginação. As pessoas possuem o conhecimento de fatos, mas eles se tornam petrificados em suas mentes sem nenhuma relação uns com os outros. O Conhecimento não é isso, mas é matéria prima que se une para mais ideias serem fabricadas ou mesmo destruídas, é dinâmico e fluído e pode ser utilizado com imaginação para inúmeros propósitos como a interpretação do mundo e das coisas que acontecem nele, não é apenas um corpo sólido imutável como um monólito. A própria história demonstra como o conhecimento se modificou e foi se aprimorando conforme o tempo.

Como um jogo, é permitido se modificar a partida dentro das regras estabelecidas, porém diferente de um jogo comum, pode-se extrapolar as regras do próprio jogo e elas mesmo se tornarem o jogo para regras mais externas. É uma maneira semelhante ao processo da criação que artistas experimentam e permite se modificar e/ou compreender melhor a realidade que estamos.

Uma ilusão que também existe é a ideia de satisfação que o conhecimento produz. Aprender no senso comum está ligado a estar em uma posição confortável de controle onde por se aprender mais, maior certeza se possui sobre a realidade. No entanto, é quase o inverso, pois o conhecimento leva a caminhos pouco andados, onde as dúvidas brotam conforme se avança e muitas das certezas são colocadas de lado. Este aspecto inicial de dúvida e de certezas destruídas também entra em contradição com uma forte crença do senso comum, onde o conhecimento seria algo correto no sentido de bom moralmente apenas por ser bom, mas isso não é inteiramente verdade. Pois o mesmo conhecimento começa a abrir caminhos perigosos onde irão conflitar com tradições estabelecidas, e se existe algo no qual as pessoas gostam é a estabilidade onde as tradições são suas principais expressões. É neste ponto que a educação formal também pode começar a se embrenhar com a educação do meio social, onde os comportamentos poderão ser modificados devido ao que se aprendeu. A ferramenta de analise do conhecimento (uma das finalidades da educação) permite, ao chegar mais próximo do seu objeto de estudo, verificar que muitas das impressões que temos do mundo são na verdade o que a própria palavra impressão significa; algo que resumimos para expressar rapidamente, mas que na verdade não identifica toda a natureza do objeto.

Em tempos de discussão de mudanças no sistema de ensino, é necessário não apenas lembrar que o próprio sistema falha em comportar alguns destes valores como também a natureza individual das pessoas não parece ser a desta inclinação. É necessário tomar não só cuidado para se evitar observar o processo de aprendizagem como algo simplista e óbvio como também evitar escorregar em lutas partidárias quase dogmáticas, o contrário exatamente do que é a proposta de educação. No momento atual, o Brasil deve tomar extremo cuidado para equilibrar dois aspectos: o diálogo de idéias na tentativa de evitar o autoritarismo e a marcação de limites a se atingir com o diálogo, visto que não existe tempo ilimitado e não se deve chegar a uma digressão infinita sobre infinitos aspectos a serem questionados. Não tenho certeza que estas condições sejam satisfeitas hoje, talvez apenas a passos lentos através da simbiose entre o sistema de educação que uma sociedade oferece e o quanto de educação individual cada componente desta sociedade busca.

Eduardo Silveira
Formado em Biologia, pós graduado em Biotecnologia. Autodidata em idiomas (alemão e inglês), procurando agora aprender o grego antigo. Interesses atualmente nas mais diversas áreas do conhecimento e tentando entender sua evolução histórica.