Bule Voador

A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 7/7

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VII. CONDIÇÕES PARA O SUCESSO DO COMUNISMO

As ideias fundamentais do Comunismo são de jeito e maneira impraticáveis, e, se realizado, adicionariam imensuravelmente ao bem-estar da humanidade. As dificuldades que têm que ser encaradas não concernem às ideias fundamentais, mas à transição do capitalismo. Deve ser presumido que os que lucram com o sistema existente lutaram para preservá-lo, e a sua luta pode ser severa o bastante para destruir tudo o que é de melhor no Comunismo durante a luta, assim como tudo o mais que tem valor na civilização moderna. A seriedade deste problema da transição é ilustrada pela Rússia, e não pode ser satisfeita pelos métodos da Terceira Internacional. O governo soviético, no presente momento, está ansioso para obter bens manufaturados dos países capitalistas, mas a Terceira Internacional está, neste ínterim, empenhando-se para promover revoluções que, se ocorressem, paralisaram as indústrias dos países concernidos, e os deixariam incapazes de fornecer o que a Rússia necessita.

A condição suprema de sucesso numa revolução comunista é que ela não deva paralisar a indústria. Se a indústria é paralisada, os males que existem na Rússia moderna, ou outros tão grandes quanto, parecem praticamente inevitáveis. Haverá o problema da cidade e do campo, haverá fome, haverá ferocidade e revoltas e tirania militar. Todas estas coisas se seguem numa sequência fatal; e é quase certo que o fim delas é algo bastante diferente do que os comunistas genuínos desejam.

Se a indústria sobreviver ao longo de uma revolução comunista, um número de condições deve ser satisfeito que não é, no presente, satisfeito em lugar nenhum. Considere, pelo propósito de precisão, o que aconteceria se uma revolução comunista ocorresse na Inglaterra amanhã. Imediatamente a América poria um embargo sobre todo o comércio conosco. A indústria do algodão entraria em colapso, deixando cerca de cinco milhões da porção mais produtiva da população ociosa. O fornecimento de comida se tornaria inadequado, e cairia desastrosamente se, como é de se esperar, a Marinha fosse hostil ou desorganizada pela sabotagem dos oficiais. O resultado seria que, a não ser que houvesse uma contrarrevolução, cerca de metade da população morreria dentro de vinte meses. Com base em algo assim, seria evidentemente impossível erigir um estado comunista de sucesso.

O que se aplica à Inglaterra se aplica, de uma forma ou de outra, aos países remanescentes da Europa. Os socialistas italianos e alemães estão, muitos deles, numa mentalidade revolucionária e poderiam, se decidissem, provocar revoltas formidáveis. Eles são exortados por Moscou a fazê-lo, mas dão-se conta de que, se o fizessem, a Inglaterra e a América os faria morrer de fome. A França, por muitas razões, não ousa ofender a Inglaterra e a América além de um ponto. Assim, em todo país exceto a América, uma revolução comunista é impossível por razões econômico-políticas. A América, sendo autocontida e forte, seria capaz, no que diz respeito a condições materiais, de alcançar uma revolução de sucesso; mas na América as condições psicológicas são ainda adversas. Não há nenhum outro país civilizado onde o capitalismo seja tão forte e o Socialismo revolucionário tão fraco como na América. No presente momento, portanto, embora seja de jeito e maneira impossível que as revoluções comunistas possam ocorrer por todo o Continente, é quase certo que elas não podem ser bem sucedidas em qualquer sentido. Terão que começar por uma guerra contra a América, e possivelmente a Inglaterra, por uma paralisia da indústria, pela fome, militarismo e todo o trem de males com que a Rússia nos familiarizou.

Que o Comunismo, sempre e em qualquer lugar que é adotado, terá que começar por lutar contra a burguesia é altamente provável. A questão importante não é se deverá haver luta, mas quão longa e severa deverá ser. Uma guerra curta, na qual o Comunismo tivesse uma vitória rápida e fácil, faria pouco mal. São guerras longas, amargas e duvidosas que devem ser evitadas para qualquer coisa que torne o Comunismo desejável sobreviver.

Duas consequências práticas fluem desta conclusão: primeiro, que nada pode ter sucesso até que a América seja ou convertida ao Comunismo, ou de qualquer maneira permaneça neutra; segundo, que é um erro tentar inaugurar o Comunismo num país onde a maioria é hostil, ou melhor, onde os oponentes ativos são tão fortes quanto os apoiadores ativos, pois em tal estado de opinião uma guerra civil severa é provável que resulte. É necessário ter um grande corpo de opinião favorável ao Comunismo, e uma oposição um tanto fraca, antes que um estado comunista de sucesso possa ser introduzido ou pela revolução, ou por métodos mais ou menos constitucionais.

Pode ser presumido que quando o Comunismo for introduzido, inicialmente a equipe técnica e de negócios mais elevada ficará do lado dos capitalistas e tentará uma sabotagem a não ser que não tenham esperanças de uma contrarrevolução. Por estas razões, é muito necessário que entre os assalariados deva haver uma difusão tão ampla quanto possível de educação técnica e nos negócios, de modo que possam ser capazes de assumir o controle imediatamente das indústrias complexas de grande porte. Com respeito a isto a Rússia estava muito mal, enquanto a Inglaterra e a América seriam muito mais afortunadas.

A autogestão na indústria é, creio eu, o caminho pelo qual a Inglaterra pode da melhor forma se aproximar do Comunismo. Não duvido de que as ferrovias e as minas, após um pouco de prática, pudessem ser dirigidas mais eficientemente pelos trabalhadores, do ponto de vista da produção, do que são no presente pelos capitalistas.

Os bolcheviques se opõem à autogestão na indústria em tudo quanto é lugar, pois fracassou na Rússia e a sua autoestima nacional impede-os de admitir que isto se deva ao atraso da Rússia. Este é um dos aspectos nos quais eles são enganados pela presunção de que a Rússia deve ser de todas as maneiras um modelo para o resto do mundo. Eu ousaria dizer que a vitória da autogestão em tais indústrias como as ferrovias e a mineração é uma preliminar essencial para o Comunismo pleno. Na Inglaterra, especialmente, este é o caso. Os sindicatos podem ter comando sobre qualquer habilidade técnica que possam requerer; são politicamente poderosos; a demanda pela autogestão é uma pela qual há simpatia generalizada, e poderia haver muito mais com a propaganda adequada; ademais (o que é importante com o temperamento britânico) a autogestão pode ser ocasionada gradualmente, por estágios em cada ofício, e por extensão de um ofício a outro. Os capitalistas valorizam duas coisas, o seu poder e o seu dinheiro; muitos indivíduos entre eles valorizam somente o dinheiro. É mais sábio concentrar-se primeiro no poder, como é feito perseguindo a autogestão na indústria sem o confisco da renda capitalista. Por este meio os capitalistas são gradualmente transformados em óbvios zangões, sua função ativa na indústria torna-se nula, e podem ser derradeiramente despojados sem perturbação e sem a possibilidade de qualquer luta de sucesso da parte deles.

Outra vantagem de proceder pelo caminho da autogestão é que ela tende a impedir o regime comunista, quando chegar, de ter aquele terrível grau de centralização que agora existe na Rússia. Os russos foram forçados a centralizar, em parte pelos problemas da guerra, porém mais pela escassez de todo tipo de perícia. Isto compeliu os poucos homens competentes a tentar cada um fazer o trabalho de dez homens, o que não se provou satisfatório apesar de esforços heroicos. A ideia da democracia tornou-se desacreditada como o resultado primeiro do sindicalismo, e daí do Bolchevismo. Mas há duas coisas diferentes que pode ser significado por democracia: podemos significar o sistema de governo parlamentar, ou podemos significar a participação das pessoas nos assuntos. O descrédito daquele é em grande parte merecido, e não tenho desejo nenhum de defender o parlamento como uma instituição ideal. Mas é um grande infortúnio se, de uma confusão de ideias, os homens vierem a pensar que, porque o parlamento é imperfeito, não há razão nenhuma pela qual deva haver autogestão. Os fundamentos para advogar a autogestão são familiares: primeiro, que não se pode confiar que nenhum déspota benevolente conheça ou persiga os interesses dos seus súditos; segundo, que a prática da autogestão é o único método eficaz de educação política; terceiro, que tende a colocar a preponderância da força do lado da constituição, e assim promover a ordem e o governo estável. Outras razões poderiam ser encontradas, mas acho que estas são as principais. Na Rússia a autogestão desapareceu, exceto dentro do Partido Comunista. Se não desaparecer alhures durante uma revolução comunista, é muito desejável que já deva haver indústrias importantes administradas competentemente pelos próprios trabalhadores.

A filosofia bolchevique é incitada em muito grande parte pelo desespero de métodos mais graduais. Mas este desespero é uma marca da impaciência, e não é realmente justificada pelos fatos. É de jeito e maneira impossível, no futuro próximo, assegurar a autogestão nas ferrovias e minas britânicas por meios constitucionais. Este não é o tipo de medida que traria em operação um bloqueio americano, ou uma guerra civil, ou qualquer dos outros perigos catastróficos que devem ser temidos de uma revolução comunista digna do nome na situação internacional presente. A autogestão na indústria é viável, e seria um grande passo em direção ao Comunismo. Tanto proveria muitas das vantagens do comunismo como também tornaria a transição muito mais fácil sem um colapso técnico da produção.

Há outro defeito nos métodos advogados pela Terceira Internacional. A sorte de revolução que é recomendada nunca é viável de um ponto de vista prático exceto num tempo de infortúnio nacional; de fato, a derrota na guerra parece ser uma condição indispensável. Consequentemente, por este método, o Comunismo só será inaugurado onde as condições de vida são difíceis, onde a desmoralização e a desorganização tornam o sucesso quase impossível, e onde os homens estão num humor de desespero feroz muito hostil à construção industrial. Se o Comunismo tiver uma justa chance, deve ser inaugurado num país próspero. Mas um país próspero não será movido prontamente pelos argumentos de ódio e agitação universal que são empregados pela Terceira Internacional. É necessário, ao apelar a um país próspero, enfatizar a esperança em vez do desespero, e mostrar como a transição pode ser efetuada sem uma perda calamitosa de prosperidade. Tudo isso requer menos violência e subversividade, mais paciência e propaganda construtiva, menos apelo à força armada de uma minoria determinada.

A atitude de heroísmo intransigente é atraente, e apela especialmente ao instinto dramático. Mas o propósito do revolucionário sério não é o heroísmo pessoal, tampouco o martírio, mas a criação de um mundo mais feliz. Aqueles que desejam a felicidade do mundo recuarão diante de atitudes e da histeria superficial de “nada de conversa com o inimigo”. Não embarcarão em empreitadas, por mais árduas e austeras que sejam, que tenham probabilidade de envolver o martírio do seu país e o descrédito dos seus ideais. É por métodos mais lentos e menos chamativos que o novo mundo deve ser erguido: por esforços diligentes em busca da autogestão, pelo treinamento do proletariado em técnica e administração de negócios, pelo estudo cuidadoso da situação internacional, por uma propaganda prolongada e dedicada de ideias em vez de tática, especialmente entre os assalariados dos Estados Unidos. Não é verdade que nenhuma abordagem gradual ao Comunismo é possível: a autogestão na indústria é um exemplo importante do contrário. Não é verdade que qualquer país europeu isolado, ou até o continente todo em uníssono, pode, após a exaustão produzida pela guerra, introduzir uma forma bem sucedida de Comunismo no momento presente, devido à hostilidade e supremacia econômica da América. Achar defeito naqueles que instam estas considerações, ou acusá-los de pusilanimidade, é mera autoindulgência sentimental, sacrificando o bem que podemos fazer à satisfação das nossas próprias emoções.

Até sob as condições presentes na Rússia, é possível ainda sentir a inspiração do espírito essencial do Comunismo, o espírito da esperança criativa, buscando varrer as onerações da injustiça, e da tirania, e da rapacidade que obstruem o crescimento do espírito humano, substituir a competição individual pela ação coletiva, a relação de mestre e escravo pela livre cooperação. Esta esperança ajudou os melhores dos comunistas a aguentar os anos duros pelos quais a Rússia têm passado, e se tornou uma inspiração para o mundo. A esperança não é quimérica, mas só pode ser realizada por um trabalho mais paciente, um estudo mais objetivo dos fatos, e acima de tudo uma propaganda mais longa, para tornar a necessidade da transição óbvia à grande maioria dos assalariados. O Comunismo russo pode fracassar e sucumbir, mas o Comunismo em si não morrerá. E se a esperança em vez do ódio inspirar os seus advogados, pode ser ocasionado sem o cataclismo universal pregado por Moscou. A guerra e a sua sequência provaram a destrutividade do capitalismo; certifiquemo-nos de que a próxima época não prove a destrutividade ainda maior do Comunismo, mas, antes, o seu poder de sarar as feridas que o antigo sistema malvado infligiu sobre o espírito humano.

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Luan Marques