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A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 6/7

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VI. POR QUE O COMUNISMO RUSSO FRACASSOU

Parece quase certo que o mundo civilizado, mais cedo ou mais tarde, seguirá o exemplo da Rússia em tentar uma organização comunista da sociedade. Creio que a tentativa é essencial para o progresso e a felicidade da humanidade durante os próximos anos imediatos, mas creio também que a transição tem perigos aterradores. Creio que, se a teoria bolchevique quanto ao método de transição for adotada pelos comunistas em nações ocidentais, o resultado será um caos prolongado, levando nem ao Comunismo nem a qualquer outro sistema civilizado, mas a um relapso ao barbarismo da Era das Trevas. Nos interesses do Comunismo, não menos que nos interesses da civilização, acho que é imperativo que o fracasso russo deva ser admitido e analisado. Por esta razão, se não por nenhuma outra, não posso entrar na conspiração de ocultação que muitos socialistas ocidentais que visitaram a Rússia consideram necessária.

Tentarei primeiro recapitular os fatos que me fazem considerar o experimento russo como um fracasso, e então buscarei as causas do fracasso.

O fracasso mais elementar na Rússia concerne à comida. Num país que anteriormente produzia um vasto excedente exportável de cereais e outros produtos agrícolas, e no qual a população não-agrícola é apenas 15 por cento do total, deve ser possível, sem grande dificuldade, prover comida suficiente para as cidades. Não obstante, o governo fracassou horrivelmente com respeito a isto. As rações são inadequadas e irregulares, de modo que é impossível preservar a saúde e o vigor sem o auxílio de comida adquirida ilicitamente nos mercados por preço especulativos. Já dei razões para pensar que o colapso do transporte, embora uma causa contribuidora, não é a principal razão para a escassez. A principal razão é a hostilidade dos camponeses, que, por sua vez, deve-se ao colapso da indústria e à política de requisições forçadas. Com respeito ao milho e à farinha, o governo requisita tudo que o camponês produz acima de um certo mínimo requerido para si mesmo e sua família. Se, em vez disso, ele exigisse uma quantidade fixa como aluguel, não destruiria o seu incentivo à produção, e não ofereceria um motivo tão forte para a ocultação. Mas este plano teria possibilitado aos camponeses enriquecer, e teria envolvido um abandono confessado da teoria comunista. Pensou-se, portanto, ser melhor empregar métodos coercivos, que levaram ao desastre, como estão fadados a levar.

O colapso da indústria foi a causa principal das dificuldades alimentares, e por sua vez foi agravada por elas. Devido ao fato de que há comida abundante no país, os trabalhadores industriais e urbanos estão tentando perpetuamente abandonar o seu emprego pela agricultura. Isto é ilegal, e é severamente punido, pela prisão ou pelo trabalho forçado. Não obstante, continua, e num país tão vasto como a Rússia não e possível impedi-lo. Assim as fileiras da indústria tornam-se ainda mais reduzidas.

Exceto quanto às munições de guerra, o colapso da indústria na Rússia está extraordinariamente completo. As resoluções passadas pelo Nono Congresso do Partido Comunista (Abril de 1920) fala d´ “as incríveis catástrofes da economia pública”. Esta linguagem não é muito forte, embora a recuperação do petróleo de Baku tenha feito algo para produzir um reavivamento junto com a bacia do Volga.

O fracasso de todo o lado industrial da economia nacional, incluindo o transporte, está no fundo de outros fracassos do governo soviético. É, para começar, a principal causa da impopularidade dos comunistas tanto na cidade como no campo: na cidade, pois as pessoas estão com fome; no campo, pois a comida é levada sem retorno nenhum a não ser papel. Se a indústria tivesse sido próspera, os camponeses poderiam ter tido vestimenta e maquinário agrícola, pelos quais eles teriam voluntariamente trocado comida suficiente para as necessidades das cidades. A população das cidades poderia então ter subsistido em conforto tolerável; as doenças poderiam ser aturadas, e o rebaixamento geral da vitalidade, evitado. Não teria sido necessário, como foi em muitos casos, para homens de capacidade científica e artística abandonar as buscas nas quais eles eram peritos pelo trabalho manual sem perícia. A República Comunista poderia ter sido agradável de viver — ao menos para os que foram muito pobres antes.

A impopularidade dos bolcheviques, que é primeiramente devida ao colapso da indústria, foi por sua vez acentuada pelas medidas que ela levou o governo a adotar. Em vista do fato de que era impossível dar alimentação adequada à população comum de Petrogrado e Moscou, o governo decidiu que de qualquer maneira os homens empregados em trabalhos públicos importantes deveriam ser nutridos suficientemente para preservar a sua eficiência. É um libelo grosseiro dizer que os comunistas, ou até os principais Comissários do Povo, levam vidas luxuosas de acordo com os nossos padrões; mas é um fato que eles não são expostos, como os seus súditos, à fome aguda e ao enfraquecimento de energia que a acompanha. Não se pode culpá-los por isso, dado que o trabalho do governo deve prosseguir; mas é um dos jeitos como as distinções de classe reapareceram onde a intenção era que elas fossem banidas. Conversei com um trabalhador obviamente faminto em Moscou, que apontou para o Kremlin e observou: “Ali dentro eles têm o bastante para comer”. Ele estava expressando um sentimento generalizado que é fatal para o apelo idealista que o Comunismo tenta fazer.

Devido à impopularidade, os bolcheviques tiveram que confiar no exército e na Comissão Extraordinária, e foram compelidos a reduzir o sistema soviético a uma forma vazia. Mais e mais a pretensão de representar o proletariado se tornou batida. Em meio a demonstrações, procissões e encontros oficiais o proletariado genuíno observa, apático e desiludido, a não ser que esteja possuído de incomum energia e ardor, caso este em que ele recorre às ideias do sindicalismo ou da I Guerra Mundial, para libertá-lo de uma escravidão muito mais completa do que a do capitalismo. O salário suado, as longas horas, o recrutamento industrial, a proibição das greves, o encarceramento dos preguiçosos, a diminuição das já insuficientes rações nas fábricas onde a produção cai abaixo do que as autoridades esperam, um exército de espiões preparados para reportar qualquer tendência à insatisfação política e a assegurar o encarceramento para os seus provocadores — esta é a realidade de um sistema que ainda professa governar em nome do proletariado.

Ao mesmo tempo o perigo interno e externo necessitou a criação de um vasto exército recrutado por conscrição, exceto com respeito aos núcleos comunistas, dentre uma população completamente farta de guerra, que pôs os bolcheviques no poder porque só eles prometiam a paz. O militarismo produziu os seus resultados inevitáveis na forma de um espírito áspero e ditatorial: os homens no poder seguem o seu dia de trabalho com a consciência de que comandam três milhões de homens armados, e que a oposição civil à sua vontade pode ser facilmente esmagada.

De tudo isso cresceu um sistema dolorosamente similar ao antigo governo do Tsar — um sistema que é asiático em sua burocracia centralizada, seu serviço secreto, sua atmosfera de mistério governamental e terror de submissão. De muitos modos, ele se assemelha ao nosso governo da Índia. Como aquele governo, defende a civilização, a educação, o saneamento e os ideais ocidentais do progresso; é composto no geral por homens honestos e trabalhadores, que desprezam aqueles que eles governam, mas creem possuir algo de valor que devem comunicar à população, por menos que possa ser desejado. Como o nosso governo na Índia, eles vivem em terror de levantes populares e são compelidos a recorrer a repressões cruéis a fim de preservar o seu poder. Como ele, eles representam uma filosofia de vida alheia, que não pode ser imposta a outras pessoas sem uma mudança de instinto, hábito e tradição tão profunda a ponto de secar as fontes vitais de ação, produzindo apatia e desespero entre as vítimas ignorantes do esclarecimento militante. Pode ser que a Rússia precise de austeridade e disciplina mais que qualquer outra coisa; pode ser que um reavivamento dos métodos de Pedro, o Grande seja essencial ao progresso. Deste ponto de vista, muito do que é natural criticar nos bolcheviques se torna defensável; mas este ponto de vista tem pouca afinidade com o Comunismo. O Bolchevismo pode ser defendido, possivelmente, como uma disciplina medonha pela qual uma nação atrasada deve ser rapidamente industrializada; mas enquanto um experimento do Comunismo ele fracassou.

Há duas coisas que um defensor dos bolcheviques pode dizer contra o argumento de que eles fracassaram porque o presente estado da Rússia é ruim. Pode ser dito que é cedo demais para julgar, e pode ser instado que qualquer falha que tenha havido é atribuível à hostilidade do mundo exterior.

Quanto à alegação de que é cedo demais para julgar, isso é, claro, inegável num sentido. Mas num sentido é sempre cedo demais para julgar qualquer movimento histórico, pois seus efeitos e desenvolvimentos prosseguem para sempre. O Bolchevismo tem, sem dúvida, grandes mudanças à frente si. Mas os últimos três anos forneceram material para alguns julgamentos, embora juízos mais definitivos sejam possíveis mais adiante. E, por razões que já dei em capítulos anteriores, acho impossível crer que desenvolvimentos posteriores realizarão mais plenamente o ideal comunista. Se o comércio é aberto com o mundo exterior, haverá uma tendência quase irresistível à retomada da iniciativa privada. Se o comércio não é reaberto, os planos de conquista asiática maturarão, levando a um reavivamento de Gengis Khan e Tamerlão. Em nenhum dos casos é provável que a pureza do Comunismo sobreviva.

Quanto à hostilidade da Entente, é, claro, verdade que o Bolchevismo poderia ter se desenvolvido muito diferentemente se tivesse sido tratado num espírito amistoso. Mas em vista do seu desejo de promover a revolução mundial, ninguém poderia esperar — e os bolcheviques certamente não esperam — que os governos capitalistas seriam amistosos. Se a Alemanha tivesse vencido a guerra, ela teria mostrado uma hostilidade mais efetiva do que a da Entente. No entanto, por mais que possamos culpar os governos ocidentais pela sua política, devemos dar-nos conta de que, segundo a teoria econômica determinista dos bolcheviques, nenhuma outra política era de se esperar deles. Outros homens poderiam ter sido desculpados por não prever a atitude de Churchill, Clemenceau e Millerand; mas os marxistas não poderiam ser desculpados, dado que esta atitude estava em exata concordância com a sua própria fórmula.

Temos os sintomas do fracasso bolchevique; chego agora à questão das suas causas mais profundas.

Tudo que é de pior na Rússia descobrimos que é traçável ao colapso da indústria. Por que a indústria entrou em colapso de modo tão pleno? E entraria igualmente em colapso se uma revolução comunista ocorresse num país ocidental?

A indústria russa nunca foi altamente desenvolvida, e dependeu sempre do auxílio exterior para muito da sua planta. A hostilidade do mundo, como incorporada no bloqueio, deixou a Rússia impotente para substituir o maquinário e locomotivas desgastados durante a guerra. A necessidade de autodefesa compeliu os bolcheviques a enviar os melhores trabalhadores para a linha de frente, pois eram os comunistas mais confiáveis, e a perda deles tornou as fábricas ainda mais ineficientes do que eram sob Kerensky. Com respeito a isto, e à preguiça e incapacidade do trabalhador russo, os bolcheviques tiveram que encarar dificuldades especiais que seriam menores em outros países. Por outro lado, eles tiveram vantagens especiais no fato de que a Rússia é autossuficiente na questão da comida; nenhum outro país poderia ter aguentado o colapso da indústria por tanto tempo, e nenhuma outra Grande Potência exceto os Estados Unidos poderia ter sobrevivido a anos de bloqueio.

A hostilidade do mundo era de jeito e maneira uma surpresa para aqueles que fizeram a Revolução de Outubro; estava de acordo com a teoria geral deles e as suas consequências deveriam ter sido levadas em conta no fazer da revolução.

Outras hostilidades além daquelas do mundo exterior foram incorridas pelos bolcheviques de olhos abertos, notavelmente a hostilidade dos camponeses e a de uma grande parte da população industrial. Eles tentaram, de acordo com o seu habitual desprezo por métodos conciliatórios, substituir a recompensa pelo terror como o incentivo ao trabalho. Alguns socialistas cordiais imaginaram que, quando o capitalista privado tivesse sido eliminado, os homens trabalhariam por um senso de obrigação à comunidade. Os bolcheviques não terão nada desse sentimentalismo. Numa das resoluções do nono Congresso Comunista eles dizem:

Todo sistema social, seja baseado na escravidão, no feudalismo ou no capitalismo, teve os seus modos e meios de coagir o trabalho e educar o trabalho nos interesses dos exploradores.

 

O sistema soviético encara a tarefa de desenvolver os seus próprios métodos de coagir o trabalho para atingir um aumento da intensidade e salubridade do trabalho; este método deve se basear na socialização da economia pública nos interesses da nação inteira.

Além da propaganda pela qual as pessoas devem ser influenciadas e as repressões que devem ser aplicadas a todos os vadios, parasitas e desorganizadores que se empenham para minar o zelo público — o método principal para o aumento da produção se tornará a introdução do sistema de trabalho compulsório.

Em sociedades capitalistas a rivalidade assumia o caráter da competição e levava à exploração do homem pelo homem. Numa sociedade onde os meios de produção são nacionalizados, a rivalidade no trabalho deve aumentar os produtos do trabalho sem infringir a sua solidariedade.

A rivalidade entre fábricas, regiões, guildas, oficinas e trabalhadores individuais deveria se tornar o assunto de uma organização cuidadosa e do estudo íntimo da parte dos sindicatos e dos órgãos econômicos.

O sistema de abonos que deve ser introduzido deveria se tornar um dos mais poderosos meios de excitar a rivalidade. O sistema de racionamento do suprimento de comida deve se alinhar com ele; contanto que a Rússia Soviética sofra de insuficiência de provisões, é simplesmente justo que o trabalhador diligente e esmerado receba mais que os trabalhador imprudente.

Deve ser lembrado que até o “trabalhador diligente e esmerado” recebe menos comida do que se requer para manter a eficiência.

Ao longo de todo o desenvolvimento da Rússia e do Bolchevismo desde a Revolução de Outubro paira uma trágica fatalidade. Apesar do sucesso externo, o fracasso interno procedeu pelos estágios inevitáveis — estágios que poderiam, por astúcia suficiente, ter sido previstos do primeiro. Por provocar a hostilidade do mundo exterior os bolcheviques foram forçados a provocar a hostilidades dos camponeses, e finalmente a hostilidade ou completa apatia da população urbana e industrial. Estas várias hostilidades trouxeram desastre material, e desastre material trouxe colapso espiritual. A fonte última de todo o trem de males se encontra no ponto de vista bolchevique sobre a vida: em seu dogmatismo de ódio e sua crença de que a natureza humana pode ser completamente transformada pela força. Injuriar os capitalistas não é o objetivo último do Comunismo, embora entre homens dominados pelo ódio ele seja parte do que dá tempero a suas atividades. Encarar a hostilidade do mundo pode demonstrar heroísmo, mas é um heroísmo para o qual o país, não os seus governantes, tem que pagar o preço. Nos princípios do Bolchevismo há mais desejo de destruir males antigos do que construir novos bens; é por esta razão que o sucesso na destruição foi muito maior do que na construção. O desejo de destruir é inspirado pelo ódio, que não é um princípio construtivo. Desta característica essencial da mentalidade bolchevique saltou a disposição a sujeitar a Rússia ao seu presente martírio. É só de uma mentalidade bastante diferente que um mundo mais feliz pode ser criado.

E disto se segue uma conclusão adicional. O ponto de vista bolchevique é o resultado da crueldade do regime tsarista e da ferocidade dos anos da Grande Guerra, operando sobre uma nação arruinada e faminta ensandecida a um ódio universal. Se uma mentalidade diferente é necessária para o estabelecimento de um Comunismo de sucesso, então uma conjuntura bastante diferente deve ver a sua inauguração; os homens devem ser persuadidos à tentativa pela esperança, não movidos a ela pelo desespero. Ocasioná-la deveria ser a meta de todo comunista que deseja a felicidade da humanidade mais do que o castigo dos capitalistas e seus satélites governamentais.


Parte 7.

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