Bule Voador

A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 5/7

V. O MECANISMO E O INDIVÍDUO

É possível efetuar uma reforma fundamental do sistema econômico existente por qualquer outro método que não o do Bolchevismo? A dificuldade de responder a esta questão é o que principalmente atrai os idealistas à ditadura do proletariado. Se, como argumentei, o método da revolução violenta e do governo comunista não tem probabilidade de ter os resultados que os idealistas desejam reduzimo-nos ao desespero, a não ser que possamos enxergar esperança em outros métodos. Os argumentos bolcheviques contra todos os outros métodos são poderosos. Confesso que, quando o espetáculo da Rússia atual me forçou a descrer nos métodos bolcheviques, fiquei no começo incapaz de enxergar qualquer maneira de curar os males essenciais do capitalismo. Meu primeiro impulso foi abandonar o pensamento político como um trabalho ruim e concluir que os fortes e cruéis devem sempre explorar as seções mais fracas e dóceis da população. Mas esta não é uma atitude que pode ser mantida por muito tempo por qualquer pessoa vigorosa e esperançosa em temperamento. É claro que, se fosse a verdade, teríamos que aquiescer. Algumas pessoas creem que vivendo de leite coalhado pode-se alcançar a imortalidade. Tais otimistas são respondidos por uma mera refutação; não é necessário prosseguir e observar algum outro modo de escapar da morte. Similarmente, um argumento de que o Bolchevismo não levará ao milênio continuaria válido ainda que pudesse ser demonstrado que o milênio não pode ser alcançado por nenhum outro caminho. Mas a verdade em questões sociais não é bem como a verdade na psicologia ou na física, dado que depende das crenças dos homens. O otimismo tende a verificar a si mesmo tornando as pessoas impacientes com males evitáveis; enquanto que o desespero, por outro lado, torna o mundo tão ruim quanto crê ser. É portanto imperativo para aqueles que não creem no Bolchevismo pôr alguma outra esperança em seu lugar.

Acho que há duas coisas que devem ser admitidas: primeiro, que muitos dos piores males do capitalismo poderiam sobreviver sob o Comunismo; segundo, que a cura para estes males não pode ser súbita, dado que requer mudanças na mentalidade da média.

Quais são os principais males no sistema presente? Não acho que a desigualdade de riqueza pura e simples, em si, seja um grande mal. Se todos tivessem o bastante, o fato de que alguns têm mais que o bastante seria desimportante. Com um melhoramento muito moderado nos métodos de produção, seria fácil assegurar que todos devam ter o bastante, até sob o capitalismo, se as guerras e preparações para as guerras fossem abolidas. O problema da pobreza é de jeito nenhum insolúvel dentro do sistema existente, exceto quando dá-se conta de fatores psicológicos e da distribuição desigual de poder.

Os grandes males do sistema capitalista todos surgem de sua distribuição desigual de poder. Os proprietários do capital exercem uma influência bem fora de proporção do que os seus números ou seus serviços à comunidade. Eles controlam quase toda a educação e a imprensa; eles decidem o que o homem médio saberá ou não saberá; o cinema lhes deu um novo método de propaganda, pelo qual conseguem o apoio daqueles que são frívolos demais até para os jornais ilustrados. Muito pouco da inteligência do mundo é realmente livre: a maioria dela é, direta ou indiretamente, paga por empresas ou filantropos ricos. Para satisfazer os interesses capitalistas, os homens são obrigados a trabalhar muito mais arduamente e mais monotonamente do que devem trabalhar, e sua educação é feita de modo relaxado. Seja onde for, como em países bárbaros ou semicivilizados, que o trabalho seja muito fraco ou muito desorganizado para proteger a si mesmo, crueldades aterradoras são praticadas pelo lucro privado. Organizações econômicas e políticas tornam-se mais e mais vastas, deixando menos e menos espaço para o desenvolvimento e a iniciativa individuais. É este sacrifício do indivíduo à máquina que é o mal fundamental do mundo moderno.

Curar este mal não é fácil, pois a eficiência é promovida, em qualquer dado momento, embora não no longo prazo, pelo sacrifício do indivíduo ao bom funcionamento de uma vasta organização, seja militar ou industrial. Na guerra e na competição comercial, é necessário controlar os impulsos individuais, tratar os homens como muitas “baionetas”, ou “sabres”, ou “mãos”. É claro que algum sacrifício dos impulsos individuais é essencial à existência de uma comunidade ordenada, e este grau de sacrifício não é, como regra, lamentável até do ponto de vista do indivíduo. Mas o que é exigido numa nação altamente militarizada ou industrializada vai muito além deste grau moderado. Uma sociedade que permita muita liberdade ao indivíduo deve ser forte o bastante para não estar ansiosa acerca da defesa, moderada o bastante para abster-se de conquistas externas difíceis e rica o bastante para valorizar o lazer e uma existência civilizada mais do que um aumento de comódites consumíveis.

Mas onde as condições materiais para tal estado de coisas existem, as condições psicológicas não têm probabilidade de existir a não ser que o poder seja muito amplamente difundido ao longo da comunidade. Onde o poder é concentrado entre poucos, acontecerá, a não ser que estes poucos sejam pessoas muito excepcionais, que eles valorizarão realizações tangíveis como o aumento no comércio ou no império mais do que os melhoramentos lentos e menos óbvios que resultariam de uma melhor educação combinada com mais lazer. As alegrias da vitória são especialmente grandes para os que detêm o poder, ao passo que os males de uma organização mecânica caem quase exclusivamente sobre os menos influentes. Por estas razões, não creio que qualquer comunidade na qual o poder é muito concentrado se absterá por muito tempo de conflitos do tipo que envolve um sacrifício do que é mais valioso no indivíduo. Na Rússia neste momento, o sacrifício do indivíduo é amplamente inevitável, por causa da severidade da luta econômica e militar. Não senti, nos bolcheviques, qualquer consciência da magnitude deste infortúnio, ou qualquer ideia da importância do indivíduo enquanto contra o estado. Tampouco creio que os homens que de fato se dão conta disso têm probabilidade de ter sucesso, ou de chegar ao topo, em tempos quando tudo deve ser feito contra a liberdade pessoal. A teoria bolchevique requer que todo país, mais cedo ou mais tarde, deva passar pelo que está passando a Rússia agora. E em todo país em tal condição podemos esperar encontrar o governo caindo nas mãos de homens cruéis, que não têm por natureza qualquer amor pela liberdade, que verão pouca importância em apressar a transição da ditadura para a liberdade. É muito mais provável que semelhantes homens sejam tentados a embarcar em novos empreendimentos, requerendo mais concentração de forças, e protelando indefinidamente a libertação das populações que eles usam como seu material.

Por estas razões, a equalização da riqueza sem a equalização do poder parece-me uma realização bastante pequena e instável. Mas a equalização do poder não é uma coisa que pode ser atingida num dia. Requer um nível considerável de educação moral, intelectual e técnica. Requer um longo período sem crises extremas, a fim de que hábitos de tolerância e boa natureza possam se tornar comuns. Requer vigor da parte daqueles que estão adquirindo poder, sem uma resistência desesperada demais da parte daqueles cuja partilha está diminuindo. Isto é apenas possível se aqueles que estão adquirindo poder não são muito ferozes e não apavorarem os seus oponentes por ameaças de ruína e morte. Não pode ser feito rapidamente, pois métodos rápidos requerem aqueles próprios mecanismo e subordinação do indivíduo que devemos lutar para impedir.

Mas até a equalização do poder não é tudo o que é necessário politicamente. O agrupamento correto dos homens para diferentes propósitos também é essencial. A autogestão na indústria, por exemplo, é uma condição indispensável de uma boa sociedade. Os atos de um indivíduo ou de um grupo que não têm nenhuma importância muito grande para os forasteiros devem ser decididos livremente por esse indivíduo ou grupo. Isto é reconhecido no que concerne à religião, mas deve ser reconhecido sobre um campo muito mais amplo.

A teoria bolchevique parece-me errar por concentrar a sua atenção em um mal, a saber, a desigualdade de riqueza, que ela crê estar no fundo de todas as outras. Não creio que nenhum outro mal pode ser assim isolado, mas se tivesse que selecionar um como o maior dos males políticos, deveria selecionar a desigualdade de poder. E deveria negar que isto tenha probabilidade de ser curado pela guerra de classes e pela ditadura do partido comunista. Apenas a paz e um longo período de melhoramento gradual pode ocasioná-lo.

Boas relações entre indivíduos, liberdade do ódio, da violência e da opressão, difusão geral da educação, lazer empregado racionalmente, o progresso da arte e da ciência — estas me parecem estar entre as finalidades mais importantes que uma teoria política deve ter em vista. Não creio que possam ser avançadas, exceto muito raramente, pela revolução e pela guerra; estou convencido de que no presente momento podem ser promovidas somente por uma diminuição no espírito de crueldade gerado pela guerra. Por estas razões, enquanto admito a necessidade e até a utilidade do Bolchevismo na Rússia, não desejo vê-lo se alastrar, ou encorajar a adoção da sua filosofia por partidos avançados nas nações ocidentais.


Parte 6.

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Luan Marques
  • Antonio Porto Rosa Filho

    Parece que a visita de Russel não teve tanto barulho quanto os tiros de execução
    que ele ouvia enquanto recluso em seu quarto.
    Visitar Lênin e não confrontá-lo com seu ateísmo é o mesmo que visitar o papa
    e não falar sobre o cristianismo, mas acho que isso não incomodou Russel.