Bule Voador

A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 4/7

IV. REVOLUÇÃO E DITADURA

Os bolcheviques têm um programa bem definido para atingir o Comunismo — um programa que foi estabelecido e exposto por Lenin repetidamente, e bem recentemente na resposta da Terceira Internacional ao questionário submetido pelo Partido Trabalhista Independente.

O capitalistas, asseguram-nos, não se deterão por nada na defesa de seus privilégios. É a natureza do homem, à medida que é politicamente cônscio, lutar pelos interesses da sua classe enquanto a classe existir. Quando o conflito não é levado aos extremos, métodos de conciliação e engano político podem ser preferíveis à guerra física efetiva; mas tão logo que o proletário faça um ataque realmente vital sobre os capitalistas, enfrentarão armas e baionetas. Sendo isto certo e inevitável, é bom estar preparado, e conduzir a propaganda de acordo. Aqueles que acham que métodos pacíficos podem levar à realização do Comunismo são falsos amigos dos assalariados; com ou sem intenção, são aliados secretos da burguesia.

Deve haver, então, segundo a teoria bolchevique, conflito armado mais cedo ou mais tarde, se as injustiças do presente sistema econômico forem algum dia remediadas. Não só presumem eles o conflito armado: eles têm uma concepção bastante definida do modo como deve ser conduzido. Esta concepção foi executada na Rússia e deve ser executada, antes de muito tempo, em todo país civilizado. Os comunistas, que representam os assalariados com consciência de classe, aguardam algum momento propício quando os eventos tiverem causado um humor de descontentamento revolucionário com o governo existente. Então eles se põem na linha de frente do descontentamento, levam a cabo uma revolução de sucesso, e ao fazê-lo adquirem as armas, as ferrovias, o tesouro do estado e todos os outros recursos sobre os quais o poder dos governos modernos é erguido. Então confinam o poder político aos comunistas, não importa quão pequena essa minoria seja comparada à nação inteira. Põem-se a trabalhar para aumentar o seu número pela propaganda e pelo controle da educação. E, neste interim, introduzem o Comunismo em todo departamento da vida econômica tão rápido quanto possível.

Em última instância, após um período mais longo ou mais curto, segundo as circunstâncias, a nação será convertida ao Comunismo, as relíquias das instituições capitalistas terão sido obliteradas e será possível restaurar a liberdade. Mas os conflitos políticos aos quais estamos acostumados não reaparecerão. Todas as questões políticas urgentes do nosso tempo, segundo os comunistas, são questões de conflito de classe e desaparecerão quando a divisão de classes desaparecer. De acordo, o estado não mais será necessário, dado que o estado é essencialmente um gerador de poder projetado para dar a vitória a um lado no conflito de classes. Os estados comuns são projetados para dar a vitória aos capitalistas; o estado proletário (Rússia Soviética) é projetado para dar a vitória aos assalariados. Tão logo que a comunidade contenha somente assalariados, o estado deixará de ter quaisquer funções. E assim, por um período de ditadura, finalmente chegaremos a uma condição muito similar àquela visada pelo Comunismo Anarquista.

Três questões surgem com respeito a este método de alcançar a Utopia. Primeiro, o estado último prefigurado pelos bolcheviques seria desejável em si mesmo? Segundo, o conflito envolvido em alcançá-lo pelo método bolchevique seria tão amargo e prolongado que os seus males pesariam mais que o bem último? Terceiro, é provável que este método leve, no fim, ao estado que os bolcheviques desejam, ou falhará em algum ponto e chegará a um resultado bastante diferente? Para sermos bolcheviques, devemos responder a todas estas questões num sentido favorável ao seu programa.

Com respeito à primeira questão, não hesito em respondê-la de uma maneira favorável ao Comunismo. É claro que as presentes desigualdades de riqueza são injustas. Em parte, elas podem ser defendidas como fornecendo um incentivo à útil diligência, mas não acho que esta defesa nos levará muito longe. No entanto, já argumentei esta questão antes em meu livro sobre Caminhos para a Liberdade, e não gastarei tempo nisso agora. Nesta questão, concedo o caso bolchevique. São as outras duas questões que desejo discutir.

Nossa segunda questão era: O bem último visado pelos bolcheviques é suficientemente grandioso para valer a pena que, segundo a sua própria teoria, terá que ser paga por alcançá-lo?

Se qualquer coisa humana fosse absolutamente certa, poderíamos responder a esta questão afirmativamente com alguma confiança. Os benefícios do Comunismo, se fossem alcançados, poderíamos esperar que seriam duradouros; podemos legitimamente ter a esperança de que mudanças futuras fossem em direção a algo ainda melhor, não em direção a um reavivamento de males antigos. Mas se admitimos, como devemos, que o resultado da revolução comunista é em algum grau incerto, torna-se necessário contar o custo; pois uma grande parte do custo é quase certa.

Desde a revolução de Outubro de 1917, o governo soviético tem estado em guerra com quase todo o mundo, e tem tido ao mesmo tempo que encarar a guerra civil em casa. Isto não deve ser considerado como acidental, ou como um infortúnio que não poderia ser previsto. Segundo a teoria marxiana, o que aconteceu estava fadado a acontecer. De fato, a Rússia foi maravilhosamente afortunada em não ter que encarar uma situação ainda mais desesperada. Primeiramente, o mundo estava exaurido pela guerra e com humor nenhum para aventuras militares. Depois, o regime tsarista era o pior na Europa, e portanto reunia menos apoio do que seria assegurado por qualquer outro governo capitalista. Novamente, a Rússia é vasta e agrícola, tornando-a capaz de resistir tanto a invasões como a bloqueios melhor do que a Grã-Bretanha, ou a França, ou a Alemanha. O único outro país que poderia ter resistido com igual sucesso são os Estados Unidos, que está no presente muito longe de uma revolução proletária, e é provável que permaneça por muito tempo como o principal baluarte do sistema capitalista. É evidente que a Grã-Bretanha, intentando uma revolução similar, seria forçada pela fome a ceder em poucos meses, contanto que a América liderasse uma política de bloqueio. O mesmo é verdade, embora num grau menor, sobre os países continentais. Portanto, a não ser e até que uma revolução comunista internacional se torne possível, devemos esperar que qualquer outra nação que siga o exemplo da Rússia terá que pagar um preço muito mais alto do que a Rússia teve que pagar.

Ora, o preço que a Rússia está tendo que pagar é muito grande. A pobreza quase universal poderia ser pensada como sendo um pequeno mal em comparação com o ganho último, mas traz consigo outros males dos quais a magnitude seria reconhecida até por aqueles que jamais conheceram a pobreza e portanto a minimizam. A fome traz uma preocupação com a questão da comida, que, à maioria das pessoas, torna a vida quase puramente animal. A escassez geral torna as pessoas ferozes e reage sobre a atmosfera política. A necessidade de instilar o Comunismo produz uma condição de estufa, onde todo respiro de ar puro deve ser excluído: as pessoas são ensinadas a pensar de uma certa maneira e toda a inteligência livre torna-se tabu. O país vem a se assemelhar a um colégio jesuíta imensamente magnificado. Todo tipo de liberdade é banido como sendo “burguês”; mas continua sendo um fato que a inteligência languesce onde o pensamento não é livre.

Tudo isto, no entanto, segundo os líderes da Terceira Internacional, é só um pequeno começo da luta, que deve se tornar mundial antes que alcance a vitória. Em sua resposta ao Partido Trabalhista Independente eles dizem:

É provável que ao se livrar das cadeias dos governos capitalistas o proletariado revolucionário da Europa encontre resistência do capital anglossaxão nas pessoas dos capitalistas britânicos e americanos que tentarão bloqueá-lo. É então possível que o proletariado revolucionário da Europa ascenda em união com os povos do Oriente e comece uma luta revolucionária, cuja cena será o mundo inteiro, para dar um sopro final no capitalismo britânico e americano (The Times, 30 de julho de 1920).

A guerra aqui profetizada, se sequer ocorrer, será uma que, comparada à qual, a última guerra parecerá um mero caso de postos militares. Os que se dão conta da destrutividade da última guerra, da devastação e do empobrecimento, do rebaixamento do nível de civilização ao longo de vastas áreas, do crescimento geral do ódio e da selvageria, do afrouxamento dos instintos bestiais que foram refreados durante a paz — aqueles que se dão conta disso tudo hesitarão em incorrer horrores inconcebivelmente grandes, ainda que creiam firmemente que o Comunismo em si é muito desejável. Um sistema econômico não pode ser considerado independentemente da população que deve efetuá-lo; e a população resultante de tal guerra mundial conforme Moscou calmamente contempla seria selvagem, sedenta por sangue e cruel numa medida que deve fazer de qualquer sistema um mero gerador de opressão e crueldade.

Isto me traz à terceira questão: O sistema que os comunistas consideram como a sua meta tem probabilidade de resultar da adoção dos seus métodos? Esta é realmente a mais vital questão das três.

A advocacia do Comunismo pelos que creem nos métodos bolcheviques se apoia na presunção de que não há nenhuma escravidão que não a escravidão econômica, que quando todos os bens não apropriados em comunidade deve haver perfeita liberdade. Temo que isto seja uma ilusão.

Deve haver administração, deve haver oficiais que controlam a distribuição. Estes homens, num estado comunista, são os receptáculos do poder. Contanto que eles controlem o exército, são capazes, como na Rússia neste momento, de exercer poder despótico ainda que sejam uma pequena minoria. O fato de que há Comunismo — numa certa medida — não quer dizer que há liberdade. Se o Comunismo fosse mais completo, não significaria necessariamente mais liberdade; ainda haveria certos oficiais em controle do fornecimento de alimentos e estes oficiais poderiam governar conforme lhes conviesse contanto que retivessem o apoio dos soldados. Isto não é mera teoria: é a lição evidente da condição presente da Rússia. A teoria bolchevique é que uma pequena minoria deve apossar-se do poder e deve mantê-lo até que o Comunismo seja aceito praticamente universalmente, o que, eles admitem, pode levar um longo tempo. Mas o poder é doce, e poucos homens o cedem voluntariamente. É especialmente doce para aqueles que se habituam a ele, e o hábito torna-se mais entrincheirado naqueles que governaram pelas baionetas, sem apoio popular. Não é quase inevitável que homens posicionados como estão os bolcheviques na Rússia, e como eles mantêm que o comunistas devem se posicionar sempre que a revolução tem sucesso, serão relutantes em renunciar ao seu monopólio do poder, e encontrarão razões para permanecer até alguma revolução os depor? Não seria fatalmente fácil para eles, sem alterar a estrutura econômica, decretar altos salários para altos oficiais do governo, e assim reintroduzir as antigas desigualdades de riqueza? Que motivo teriam eles para não o fazerem? Que motivo é possível exceto o idealismo, o amor pela humanidade, motivos não-econômicos da sorte que os bolcheviques deploram? O sistema criado pela violência e pelo governo imposto de uma minoria deve necessariamente permitir tirania e exploração; e, se a natureza humana é o que os marxistas afirmam ser, por que os governantes deveriam negligenciar tais oportunidades de vantagem egoísta?

É pura asneira fingir que os governantes de um grande império tal como a Rússia Soviética, quando tiverem se tornado acostumados com o poder, reterão a psicologia proletária, e sentirão que o seu interesse de classe é o mesmo que o do trabalhador comum. Este não é o caso de fato da Rússia agora, por mais que a verdade possa ser ocultada por expressões belas. O governo tem uma consciência de classe e um interesse de classe bastante distintos dos do proletariado genuíno, que não deve ser confundido com o proletário de papel do esquema marxiano. Num estado capitalista, o governo e os capitalistas no geral interligam-se, e formam uma classe; na Rússia Soviética, o governo absorveu a mentalidade capitalista junto com a governamental, e a fusão deu acentuada força à classe alta. Mas não vejo razão nenhuma para esperar que igualdade ou liberdade resultem de semelhante sistema, exceto razões derivadas de uma falsa psicologia e de uma análise enganada das fontes do poder político.

Estou convencido a rejeitar o Bolchevismo por duas razões: Primeiro, porque o preço que a humanidade deve pagar para atingir o Comunismo pelos métodos bolcheviques é demasiado terrível; e, segundo, porque, mesmo após pagar o preço, não creio que o resultado deva ser o que os bolcheviques professam desejar.

Mas, se seus métodos são rejeitados, como algum dia chegaremos a um sistema econômico melhor? Esta não é uma questão fácil, e tratarei dela num outro capítulo.


Parte 5.

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