Bule Voador

A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 3/7

III. CRÍTICA BOLCHEVIQUE À DEMOCRACIA

O argumento bolchevique contra a democracia parlamentar enquanto um método de atingir o Socialismo é poderoso. Minha resposta a ele se encontra, antes, em observar o que creio ser falácias no método bolchevique, do qual concluo que nenhum método ligeiro existe de estabelecer qualquer forma desejável de Socialismo. Mas vejamos primeiro o que é o argumento bolchevique.

Em primeiro lugar, ele presume que aqueles a quem ele é direcionado estão absolutamente certos de que o Comunismo é desejável; tão certos que estão dispostos, se necessário, a impô-lo a uma população indisposta à ponta da baioneta. Procede então a argumentar que, enquanto o capitalismo retiver seu controle sobre a propaganda e seus meios de corrupção, os métodos parlamentares têm pouca probabilidade de dar uma maioria para o Comunismo na Câmara dos Comuns, ou de levar à ação eficaz de uma maioria ainda que ela existisse. Os comunistas observam como as pessoas são enganadas e como os seus líderes eleitos repetidamente as traíram. Disto eles argumentam que a destruição do capitalismo deve ser súbita e catastrófica; que deve ser a obra de uma minoria; e que não pode ser efetuada constitucionalmente ou sem violência. É portanto, na visão deles, o dever do partido comunista num país capitalista preparar-se para o conflito armado e tomar toda medida possível para desarmar a burguesia e armar aquela parte do proletariado que está disposta a apoiar os comunistas.

Há um ar de realismo e desilusão a respeito desta posição, o que a torna atraente àqueles idealistas que desejam achar-se cínicos. Mas acho que há vários pontos em que falha em ser tão realista quanto pretende.

Em primeiro lugar, faz muito da perfídia dos líderes trabalhistas nos movimentos constitucionais, mas não considera a possibilidade da perfídia dos líderes comunistas numa revolução. A isto o marxista responderia que nos movimentos constitucionais os homens são comprados, direta ou indiretamente, pelo dinheiro dos capitalistas, mas que o Comunismo revolucionário não deixaria aos capitalistas dinheiro nenhum com que intentar corrupção. Isto foi alcançado na Rússia, e poderia ser alcançado alhures. Mas vender-se aos capitalistas não é a única forma de perfídia. Também é possível, tendo adquirido poder, usá-lo para as suas próprias finalidades em vez de pelo povo. Isto é o que creio ser provável que venha a acontecer na Rússia: o estabelecimento de uma aristocracia burocrática, concentrando a autoridade em suas próprias mãos e criando um regime tão opressor e cruel quanto o do capitalismo. Os marxistas nunca reconhecem suficientemente que o amor pelo poder é um motivo tão forte, e uma fonte tão grande de injustiça, quanto o amor pelo dinheiro; não obstante, isto deve ser óbvio para qualquer estudante de política imparcial. É também óbvio que o método da revolução violenta levando a uma ditadura de uma minoria é um calculado peculiarmente para criar hábitos de despotismo que sobreviveriam à crise pela qual eles foram gerados. Os políticos comunistas têm probabilidade de se tornarem exatamente iguais aos políticos dos outros partidos: alguns serão honestos, mas a grande maioria meramente cultivará a arte de contar uma estória plausível com a visão de enganar as pessoas para lhes confiarem o poder. O único jeito possível pelo qual os políticos enquanto uma classe podem ser melhorados é a educação política e psicológica do povo, de modo que possa aprender a detectar uma balela. Na Inglaterra os homens atingiram o ponto de suspeitar de um bom orador, mas se um homem se expressa mal eles acham que ele deve ser honesto. Infelizmente, a virtude não é tão amplamente difundida como esta teoria implicaria.

Em segundo lugar, é presumido pelo argumento comunista que , embora a propaganda capitalista possa impedir que a maioria torne-se comunista, ainda assim as leis e a polícia capitalistas não podem impedir que os comunistas, enquanto ainda uma minoria, adquiram uma supremacia de poder militar. É pensado que a propaganda secreta pode minar o exército e a marinha, embora seja admitidamente impossível conseguir que a maioria vote nas eleições no programa dos bolcheviques. Esta visão se baseia na experiência russa, onde o exército e a marinha sofreram derrota e foram brutalmente mal usados pelas incompetentes autoridades tsaristas. O argumento não tem nenhuma implicação para estados mais eficientes e bem sucedidos. Entre os alemães, até em derrota, foi a população civil que começou a revolução.

Há mais uma presunção no argumento bolchevique que me parece bastante injustificável. É presumido que os governos capitalistas terão aprendido nada da experiência da Rússia. Antes da Revolução Russa, os governos não estudaram a teoria bolchevique. E a derrota na guerra criou um humor revolucionário por toda a Europa Central e Oriental. Mas agora os que detêm o poder estão em guarda. Parece haver absolutamente nenhuma razão para supor que eles permitirão passivamente que uma preponderância da força armada passe para as mãos daqueles que desejam depô-los, enquanto, segundo os bolcheviques, eles são ainda suficientemente populares para serem apoiados por uma maioria nas pesquisas. Não é claro como o meio-dia que num país democrático é mais difícil para o proletariado destruir o governo pelas armas do que derrotá-lo numa eleição geral? Ao ver a imensa vantagem de um governo na lida com os rebeldes, parece claro que a rebelião poderia ter pouca esperança de sucesso a não ser que uma maioria a apoiasse. É claro que, se o exército e a marinha fossem especialmente revolucionários, eles poderiam efetuar uma revolução impopular; mas esta situação, embora algo similar tenha ocorrido na Rússia, dificilmente é de se esperar nas nações ocidentais. Toda esta teoria bolchevique de revolução por uma minoria é uma que poderia apenas concebivelmente ter tido sucesso como uma conspiração secreta, mas torna-se impossível assim que é declarada e defendida abertamente.

Mas talvez digam que estou caricaturando a doutrina bolchevique da revolução. É advertido pelos advogados desta doutrina, com bastante verdade, que todos os eventos políticos são causados por minorias, dado que a maioria é indiferente à política. Mas há uma diferença entre uma minoria à qual os indiferentes aquiescem e uma minoria tão odiada a ponto de alarmar os indiferentes a ponto de uma ação tardia. Para tornar a doutrina bolchevique razoável, é necessário supor que eles creem que a maioria pode ser induzida a aquiescer, ao menos temporariamente, à revolução feita pela minoria com consciência de classe. Isto, novamente, baseia-se na experiência russa: o desejo pela paz e pela terra levou a um apoio generalizado aos bolcheviques em Novembro de 1917 da parte de pessoas que subsequentemente não têm mostrado amor nenhum pelo Comunismo.

Acho que chagamos aqui a uma parte essencial da filosofia bolchevique. No momento da revolução, os comunistas devem ter algum grito popular pelo qual ganhem mais apoio do que o Comunismo puro e simples poderia ganhar. Tendo assim adquirido a máquina do estado, eles devem usá-la para as suas próprias finalidades. Mas este, novamente, é um método que só pode ser praticado com sucesso contanto que não seja declarado. É em alguma medida habitual na política. Os unionistas em 1900 ganharam uma maioria quanto à Guerra dos Bôeres, e usaram-na para dotar os cervejeiros e as escolas religiosas. Os liberais em 1906 ganharam uma maioria quanto ao trabalho na China, e usaram-na para cimentar a aliança secreta com a França e fazer uma aliança com a Rússia tsarista. O presidente Wilson, em 1916, ganhou a sua maioria quanto à neutralidade, e usou-a para entrar na guerra. Este método é parte da ferramenta de trabalho da democracia. Mas o seu sucesso depende de repudiá-lo até que o momento chegue de praticá-lo. Os que, como os bolcheviques, têm a honestidade de proclamar antecipadamente a sua intenção de usar o poder para outras finalidades do que as para que lhes foi dado, não é provável que tenham uma chance de executar os seus desígnios.

O que me parece emergir destas considerações é isto: Que, num país democrático e politicamente alfabetizado, a revolução armada a favor do Comunismo não teria nenhuma chance de ter sucesso a não ser que fosse apoiada por uma maioria maior do que seria requerida para a eleição de um governo comunista por métodos constitucionais. É possível que, se tal governo viesse a existir, e procedesse a executar o seu programa, encontraria uma resistência armada da parte do capital, incluindo uma grande proporção dos oficiais no exército e na marinha. Mas, ao subjugar esta resistência, ele teria o apoio daquele grande corpo de opinião que crê na legalidade e defende a constituição. Ademais, tendo, por hipótese, convertido uma maioria da nação, um governo comunista poderia estar seguro do auxílio leal de imensos números de trabalhadores e não seria forçado, como os bolcheviques na Rússia, a suspeitar de perfídia em tudo quanto é lugar. Sob estas circunstâncias, creio que a resistência dos capitalistas poderia ser sufocada sem muita dificuldade e receberia pouco apoio de gente moderada. Ao passo que, numa revolta minoritária de comunistas contra um governo capitalista, toda a opinião moderada estaria do lado do capitalismo.

A alegação de que a propaganda capitalista é o que impede a adoção do Comunismo pelos assalariados só é uma verdade muito parcial. A propaganda capitalista nunca foi capaz de impedir que os irlandeses votassem contra os ingleses, embora tenha sido aplicada a este objetivo com grande vigor. Provou-se impotente, repetidamente, em contrariar movimentos nacionalistas que não tinham quase nenhum apoio financeiro. Tem sido incapaz de lidar com os sentimentos religiosos. E aquelas populações industriais que se beneficiariam mais obviamente do Socialismo, na maior parte, adotaram-no, apesar da oposição dos empregadores. A pura verdade é que o Socialismo não excita o mesmo interesse apaixonado no cidadão médio como ele é excitado pela nacionalidade e costumava ser excitado pela religião. Não é improvável que as coisas possam mudar com respeito a isto: podemos estar nos aproximando de um período de guerras civis econômicas comparáveis àquele das guerras civis religiosas que se seguiram à Reforma. Em tal período, o nacionalismo é submergido pelo partido: os socialistas britânicos e alemães, ou os capitalistas britânicos e alemães, sentirão mais afinidade uns com os outros do que com os compatriotas da facção política oposta. Mas quando esse dia chegar, não haverá nenhuma dificuldade, em países altamente industrializados, em assegurar maiorias socialistas; se o Socialismo não for então executado sem derramamento de sangue, será devido à ação inconstitucional dos ricos, não à necessidade de violência revolucionária da parte dos advogados do proletariado. Se semelhante estado de opinião crescerá ou não depende principalmente da teimosia ou conciliatoriedade das classes de posses, e, inversamente, da moderação ou violência daqueles que desejam mudanças econômicas fundamentais. A maioria que os bolcheviques considera inatingível é impedida principalmente pela crueldade das suas próprias táticas.

Afora todos os argumentos detalhados, há duas objeções amplas à revolução violenta numa comunidade democrática. A primeira é que, uma vez que o princípio de respeitar as maiorias conforme expressas nas urnas eleitorais é abandonado, não há nenhuma razão para supor que a vitória será assegurada pela minoria particular à qual calhamos de pertencer. Há muitas minorias além dos comunistas: minorias religiosas, minorias de abstemia, minorias militaristas, minorias capitalistas. Qualquer uma destas poderia adotar o método de obter poder advogado pelos bolcheviques e qualquer uma teria igual probabilidade de ter sucesso que eles têm. O que restringe estas minorias, mais ou menos, no presente, é o respeito pela lei e pela constituição. Os bolcheviques presumem tacitamente que todos os outros partidos preservarão este respeito enquanto eles próprios, sem entraves, preparam a revolução. Mas, se a sua filosofia de violência se torna popular, não há a menor razão para supor que eles serão os beneficiários. Eles creem que o Comunismo é para o bem da maioria; eles devem crer que podem persuadir a maioria sobre esta questão e ter a paciência de lançarem-se na tarefa de ganhar pela propaganda.

O segundo argumento de princípio contra o método da violência minoritária é que o abandono da lei, quando se torna generalizado, liberta a besta selvagem e dá livre reinado às concupiscências e egoísmos primitivos que a civilização em certo grau refreia. Todo estudante do pensamento medieval deve ter se impressionado pelo valor extraordinariamente alto posto na lei naquele período. A razão era que, nos países infestados por barões gatunos, a lei era o primeiro requisito do progresso. Nós, no mundo moderno, achamos evidente que a maioria das pessoas acatará à lei e dificilmente damo-nos conta de quantos séculos de esforço levou para tornar semelhante presunção possível. Esquecemo-nos do quanto das boas coisas que esperamos inquestionavelmente desapareceriam da vida se o assassinato, o estupro e o roubo violento se tornassem comuns. E nos esquecemos ainda mais de quão facilmente isto pode acontecer. A guerra de classes universal prefigurada pela Terceira Internacional, seguindo-se ao afrouxamento das restrições produzido pela última guerra, e combinado com a instilação deliberada do desrespeito pela lei e pelo governo constitucional, poderia, e creio que iria, produzir um estado de coisas no qual seria habitual assassinar os homens por uma casca de pão, e no qual as mulheres estariam seguras somente enquanto homens armados as protegerem. As nações civilizadas aceitaram o governo democrático como um método de resolver disputas internas sem violência. O governo democrático pode ter todas as faltas atribuídas a ele, mas tem o grande mérito de que as pessoas estão, no geral, dispostas a aceitá-lo como um substituto para a guerra civil em disputas políticas. Seja quem for que trabalhe para enfraquecer esta aceitação, seja no Ulster ou em Moscou, está assumindo uma temerosa responsabilidade. A civilização não é tão estável que não possa ser rompida; e uma condição de violência sem lei não é uma da qual qualquer coisa boa é provável que venha à tona. Por esta razão, e por nenhuma outra, a violência revolucionária numa democracia é infinitamente perigosa.


Parte 4.

Luan Marques on sabfacebook
Luan Marques