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A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 2/7

II. FORÇAS DECISIVAS NA POLÍTICA

Os maiores eventos na vida política mundial são determinados pela interação de condições materiais e paixões humanas. A operação das paixões sobre as condições materiais é modificada pela inteligência. As paixões em si podem ser modificadas por uma inteligência alheia guiada por paixões alheias. Até agora tal modificação tem sido totalmente acientífica, mas pode em devido tempo tornar-se tão precisa quanto a engenharia.

A classificação das paixões que é mais conveniente na teoria política é um tanto diferente da que adotamos na psicologia. Podemos começar com desejos pelas necessidades da vida: comida, bebida, sexo e (em climas frios) vestimenta e abrigo. Quando estas são ameaçadas, não há nenhum limite à atividade e violência que os homens exporão.

Plantados sobre estes desejos primitivos estão um número de desejos secundários. O amor pela propriedade, do qual a importância política fundamental é óbvia, pode ser derivado histórica e psicologicamente do instinto de acumulação. O amor pela boa opinião dos outros (que podemos chamar de vaidade) é um desejo que o homem partilha com muitos animais; é talvez derivável do cortejo, mas tem grande valor de sobrevivência, entre animais gregários, com respeito a outros além de possíveis parceiros. Rivalidade e amor pelo poder são talvez desenvolvimentos do ciúme; são similares, mas não idênticos.

Estas quatro paixões — aquisitividade, vaidade, rivalidade e amor pelo poder — são, após os instintos básicos, os motores primários de quase tudo o que acontece na política. A sua operação é intensificada e regularizada pelo instinto de rebanho. Mas o instinto de rebanho, pela sua própria natureza, não pode ser um motor primário, dado que ele meramente faz o rebanho agir em uníssono, sem determinar o que a ação unida deve ser. Entre os homens, como entre outros animais gregários, a ação unida, em quaisquer dadas circunstâncias, é determinada em parte pelas paixões comuns do rebanho, em parte pela imitação dos líderes. A arte da política consiste em fazer esta prevalecer sobre aquelas.

Das quatro paixões que enumeramos, apenas uma, a saber, a aquisitividade, concerne sequer diretamente às relações dos homens com as suas condições materiais. As outras três — vaidade, rivalidade e amor pelo poder — concernem a relações sociais. Acho que esta é a fonte do que é errôneo na interpretação marxiana da história, que presume tacitamente que a aquisitividade é a fonte de toda ação política. É claro que muitos homens voluntariamente renunciam à riqueza pelo poder e pela glória e que nações habitualmente sacrificam riquezas à rivalidade com outras nações. O desejo por alguma forma de superioridade é comum a quase todo homem enérgico. Nenhum sistema que tenta frustrá-lo pode ser estável, dado que a maioria preguiçosa nunca será páreo para a minoria enérgica.

O que se chama de “virtude” é uma extensão da vaidade: é o hábito de agir de uma maneira que os outros glorificam.

A operação de condições materiais pode ser ilustrada pela declaração (Dawn of History de Myers) de que quatro dos maiores movimentos de conquista se deveram à estiagem na Arábia, fazendo os nômades desse país migrar para regiões já habitadas. O último destes movimentos foi a ascensão do Islã. Nestes quatro casos, a necessidade primordial por comida e bebida foi suficiente para estabelecer os eventos em movimento; mas como esta necessidade não podia ser somente satisfeita pela conquista, as quatro paixões secundárias devem ter bem logo entrado em cena. Nas conquistas do industrialismo moderno, as paixões secundárias têm sido quase totalmente dominantes, dado que aqueles que as direcionaram não tinham nenhuma necessidade de temer a fome ou a sede. É a potência da vaidade e do amor pelo poder que dá esperança pelo futuro industrial da Rússia Soviética, dado que possibilita ao Estado Comunista alistar em seu serviço homens cujas habilidades poderiam lhes dar vasta riqueza numa sociedade capitalista.

A inteligência modifica profundamente a operação das condições materiais. No começo da descoberta da América, os homens só desejavam ouro e prata; consequentemente as porções que foram colonizadas primeiro não foram as que são agora mais lucrativas. O processo de Bessemer criou a indústria alemã de ferro e aço; invenções que requerem petróleo criaram uma demanda por essa comódite que é uma das principais influências na política internacional.

A inteligência que tem este profundo efeito sobre a política não é política, mas científica e técnica: é o tipo de inteligência que descobre como fazer a natureza servir às paixões humanas. O tungstênio não tinha nenhum valor até se descobrir que é útil na manufatura de conchas e luz elétrica, mas agora as pessoas, se necessário, matarão umas as outras a fim de adquirir tungstênio. A inteligência científica é a causa desta mudança.

O progresso e o retrocesso do mundo dependem, falando de modo geral, do equilíbrio entre a aquisitividade e a rivalidade. Aquela conduz ao progresso, esta, ao retrocesso. Quando a inteligência oferece métodos aperfeiçoados de produção, estes podem ser empregados para aumentar a partilha geral de bens, ou para separar mais do poder de trabalho da comunidade para o negócio de matar os seus rivais. Até 1914, a aquisitividade prevalecera, no geral, desde a queda de Napoleão; os últimos seis anos viram uma prevalência do instinto da rivalidade. A inteligência científica torna possível dar indulgência a este instinto mais plenamente do que é possível para os povos primitivos, dado que liberta mais homens do trabalho de produzir necessidades. É possível que a inteligência científica possa, com o tempo, atingir o ponto em que possibilitará à rivalidade exterminar a raça humana. Este é o método mais esperançoso de trazer o fim da guerra.

Para os que não se agradam com este método, há um outro: o estudo da psicologia e da fisiologia científicas. As causas fisiológicas das emoções começaram a ser conhecidas, através dos estudos de homens tais como Cannon (Bodily Changes in Pain, Hunger, Fear and Rage). Com o tempo, pode tornar-se possível, por meios fisiológicos, alterar o todo da natureza emocional de uma população. Então dependerá das paixões dos governantes como este poder será usado. O sucesso virá para o estado que descobrir como promover combatividade na medida exigida para a guerra externa, mas não na medida que levaria a dissensões domésticas. Não há método pelo qual pode ser assegurado que os governantes venham a desejar o bem da humanidade, e portanto não há razão nenhuma para supor que o poder de modificar a natureza emocional dos homens causaria progresso.

Se os homens desejassem diminuir a rivalidade, há um método óbvio. Hábitos de poder intensificam a paixão da rivalidade; portanto, um estado no qual o poder é concentrado será, outras coisas sendo iguais, mais belicoso do que um no qual o poder é difuso. Para os que se desagradam com a guerra, este é um argumento adicional contra todas as formas de ditadura. Mas o desgosto pela guerra é muito menos comum do que costumávamos supor; e os que gostam de guerra podem usar o mesmo argumento para apoiar as ditaduras.


Parte 3.

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