Bule Voador

A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 1/7

I. A TEORIA MATERIALISTA DA HISTÓRIA

A concepção materialista da história, como é chamada, deve-se a Marx e subjaz a toda a filosofia comunista. Não quero dizer, é claro, que um homem não poderia ser comunista sem aceitá-la, mas que de fato ela é aceita pelo Partido Comunista e que influencia profundamente as suas visões quanto a política e tática. O nome não transmite de jeito e maneira acuradamente o que se quer dizer pela teoria. Significa que todos os fenômenos de massa da história são determinados por motivos econômicos. Esta visão não tem nenhum vínculo essencial com o materialismo no sentido filosófico. O materialismo no sentido filosófico pode ser definido como a teoria de que todas as ocorrências mentais são realmente físicas, ou que de qualquer maneira têm causas puramente físicas. O materialismo neste sentido também era pregado por Marx e é aceito por todos os marxistas ortodoxos. Os argumentos a favor e contra ele são longos e complicados e não precisam nos preocupar, dado que, de fato, a sua verdade ou falsidade pouco ou nenhum peso tem sobre a política.

Em particular, o materialismo filosófico não prova que causas econômicas são fundamentais na política. A visão de Buckle, por exemplo, segundo a qual o clima é um dos fatores decisivos, é igualmente compatível com o materialismo. Tanto o é a visão freudiana, que liga tudo ao sexo. Há inúmeros modos de ver a história que são materialistas no sentido filosófico sem ser econômicos ou cair dentro da fórmula marxiana. Assim, a “concepção materialista da história” pode ser falsa ainda que o materialismo no sentido filosófico seja verdadeiro.

Por outro lado, causas econômicas poderiam estar no fundo de todos os eventos políticos ainda que o materialismo fosse falso. Causas econômicas operam através do desejo dos homens pela posse e seriam supremas se este desejo fosse supremo, ainda que o desejo não pudesse, de um ponto de vista filosófico, ser explicado em termos materialistas.

Portanto, não há nenhum vínculo lógico de qualquer modo entre o materialismo filosófico e o que é chamado de “concepção materialista da história”.

É de certa importância dar-se conta de fatos tais como este, pois se não as teorias políticas são tanto apoiadas como contrariadas por razões bastante irrelevantes e argumentos de filosofia teórica são empregados para determinar questões que dependem de fatos concretos da natureza humana. Esta mistura danifica tanto a filosofia como a política, e é portanto importante evitar.

Por outra razão, também, a tentativa de basear uma teoria política numa doutrina filosófica é indesejável. A doutrina filosófica do materialismo, se sequer verdadeira, é verdadeira em todo tempo e lugar; não podemos esperar exceções a ela, digamos, no Budismo ou no movimento Hussita. E também acontece que as pessoas cuja política supõe ser consequência da sua metafísica tornam-se absolutas e radicais, incapazes de admitir que uma teoria geral da história tem probabilidade, na melhor das hipóteses, de ser verdadeira em suma e no geral. O caráter dogmático do Comunismo Marxiano encontra apoio na suposta base filosófica da doutrina; tem a certeza fixa da teologia católica, não a fluidez cambiante e praticidade cética da ciência moderna.

Tratada como uma aproximação prática, não como uma lei metafísica estática, a concepção materialista da história tem uma medida bastante grande de verdade. Considere, como um exemplo de sua verdade, a influência do industrialismo sobre as ideias. É o industrialismo, em vez dos argumentos dos darwinistas e dos críticos bíblicos, que levou ao decaimento das crenças religiosas na classe trabalhadora urbana. Ao mesmo tempo, o industrialismo reavivou a crença religiosa entre os ricos. No século dezoito os aristocratas franceses na maior parte tornaram-se livres pensadores; agora seus descendentes são na maioria católicos, pois se tornou necessário para todas as forças da reação unirem-se contra o proletariado revolucionário. Considere, novamente, a emancipação das mulheres. Platão, Mary Wolstonecraft e John Stuart Mill produziram admiráveis argumentos, mas influenciaram apenas alguns idealistas impotentes. A guerra veio, levando ao emprego das mulheres na indústria numa grande escala, e instantaneamente os argumentos a favor do voto para as mulheres foram vistos como irresistíveis. Mais que isso, a moralidade sexual tradicional entrou em colapso, pois toda a sua base era a dependência econômica das mulheres com relação aos seus pais e maridos. Mudanças em tal questão como a moralidade sexual trazem consigo alterações profundas nos pensamentos e sentimentos dos homens e mulheres normais; modificam a lei, a literatura, a arte e todo tipo de instituições que parecem remotas à economia.

Tais fatos justificam os marxistas em falarem, como fazem, de “ideologia burguesa”, querendo dizer aquele tipo de moralidade que tem sido imposto ao mundo pelos possuidores do capital. O contentamento com a própria situação pode ser considerado como típico das virtudes pregadas pelos ricos aos pobres. Eles creem honestamente que é uma virtude — de qualquer modo creram anteriormente. Os mais religiosos entre os pobres também acreditam, em parte da influência da autoridade, em parte de um impulso à submissão, o que MacDougall chama de “autossentimento negativo”, que é mais comum do que algumas pessoas pensam. Similarmente, os homens pregaram a virtude da castidade feminina e as mulheres geralmente aceitaram o seu ensinamento; ambos realmente creram na doutrina, mas sua persistência era somente possível pelo poder econômico dos homens. Isto levou mulheres errantes ao castigo aqui na terra, o que fazia o castigo futuro no além parecer provável. Quando a penalidade econômica cessou, a convicção de pecaminosidade gradualmente decaiu. Em tais mudanças vemos o colapso da “ideologia burguesa”.

Mas apesar da importância fundamental dos fatos econômicos na determinação da política e das crenças de uma época ou nação, não acho que fatores não-econômicos possam ser negligenciados sem riscos de erros que podem ser fatais na prática.

O fato não-econômico mais óbvio, e um cuja negligência mais desencaminhou os socialistas, é o nacionalismo. É claro que uma nação, uma vez formada, tem interesses econômicos que em grande parte determinam a sua política; mas não são, como regra, os motivos econômicos que decidem que grupo de seres humanos formará uma nação. Trieste, antes da guerra, considerava-se italiano, embora toda a sua prosperidade enquanto um porto dependia de pertencer à Áustria. Nenhum motivo econômico pode dar conta da oposição entre o Ulster e o resto da Irlanda. Na Europa Oriental a balcanização produzida pela autodeterminação obviamente tem sido desastrosa de um ponto de vista econômico e foi exigida por razões que eram em essência sentimentais. Ao longo da guerra, os assalariados, com apenas poucas exceções, permitiram-se ser governados por sentimentos nacionalistas e ignoraram a exortação comunista tradicional: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”. Segundo a ortodoxia marxista, eles foram ludibriados por capitalistas ardilosos, que lucraram com a chacina. Mas para qualquer um capaz de observar fatos psicológicos, é óbvio que isto é em grande parte um mito. Números imensos de capitalistas foram arruinados pela guerra; os que eram jovens estavam tão passíveis de ser mortos quanto estavam os proletários. Sem dúvida, a rivalidade comercial entre a Inglaterra e a Alemanha teve muito a ver com a causação da guerra; mas rivalidade é uma coisa diferente de busca de lucro. Provavelmente por combinação os capitalistas ingleses e alemães poderiam ter feito muito mais que fizeram por rivalidade, mas a rivalidade era instintiva, e sua forma econômica era acidental. Os capitalistas estavam sob o jugo de instintos nacionalistas tanto quanto as suas “vítimas” proletárias. Em ambas as classes alguns ganharam com a guerra; mas a vontade universal de guerrear não foi produzida pela esperança de ganho. Foi produzida por um diferente conjunto de instintos, e um que a psicologia marxiana falha em reconhecer adequadamente.

O marxista presume que o “rebanho” de um homem, do ponto de vista do instinto de rebanho, é a sua classe, e que ele combinará com aqueles cujo interesse econômico de classe é o mesmo que o dele. Isto é apenas verdade em parte, de fato. A religião tem sido o fator mais decisivo na determinação do rebanho de um homem ao longo de longos períodos da história mundial. Até agora, um trabalhador católico votará num capitalista católico em vez de um socialista descrente. Na América as divisões em eleições locais são principalmente em linhas religiosas. Isto é, sem dúvida, conveniente para os capitalistas e tende a torná-los homens religiosos; mas os capitalistas por si sós não poderiam produzir o resultado. O resultado é produzido pelo fato de que muitos trabalhadores preferem o avanço do seu credo ao melhoramento do seu padrão de vida. Por mais deplorável que tal mentalidade possa ser, não é necessariamente devida a mentiras capitalistas.

Toda a política é governada por desejos humanos. A teoria materialista da história, em última análise, requer o pressuposto de que toda pessoa politicamente consciente é governada por um único desejo — o desejo de aumentar a sua partilha de comódites; e, mais ainda, que seu método de atingir este desejo habitualmente será buscar aumentar a partilha da sua classe, não só a sua partilha individual. Mas este pressuposto está muito longe da verdade. Os homens desejam poder, desejam satisfações para o seu orgulho e seu respeito próprio. Desejam vitória sobre os rivais tão profundamente que inventarão uma rivalidade pelo propósito consciente de tornar uma vitória possível. Todos estes motivos ultrapassam o puro motivo econômico de modo que são importantes de um modo prático.

Há necessidade de um tratamento de motivos políticos pelos métodos da psicanálise. Na política, como na vida privada, os homens inventam mitos para racionalizar a sua conduta. Se um homem pensa que o único motivo razoável na política é o avanço econômico próprio, ele se persuadirá de que as coisas que ele deseja fazer o enriquecerá. Quando ele quer lutar contra os alemães, ele se diz que a competição deles está arruinando o seu comércio. Se, por outro lado, ele é um “idealista”, que sustenta que a sua política deve visar ao avanço da raça humana, ele se dirá que os crimes dos alemães demandam a humilhação deles. O marxista vê através desta camuflagem, mas não daquela. Desejar o próprio avanço econômico é comparativamente razoável; para Marx, que herdou a psicologia racionalista do século dezoito dos economistas britânicos ortodoxos, o enriquecimento próprio parecia a meta natural das ações de um homem. Mas a psicologia moderna mergulhou muito mais fundo no oceano da insanidade sobre o qual a barquinha da razão humana flutua inseguramente. O otimismo intelectual de uma era passada não é mais possível para os estudantes modernos da natureza humana. Ainda assim, ele se arrasta no Marxismo, tornando os marxistas rígidos e procrusteanos em seu tratamento da vida do instinto. Desta rigidez a concepção materialista da história é uma instância proeminente.

No próximo capítulo tentarei esboçar uma psicologia política que me parece mais próxima da verdade do que a de Marx.


Parte 2.

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