Bule Voador

A prática e a teoria do Bolchevismo (1920) — parte 0/7

PREFÁCIO

A Revolução Russa é um dos grandes eventos heroicos da história mundial. É natural compará-la à Revolução Francesa, mas é de fato algo de ainda maior importância. Ela faz mais para mudar a vida diária e a estrutura da sociedade: ela também faz mais para mudar as crenças dos homens. A diferença é exemplificada pela diferença entre Marx e Rousseau: este, sentimental e brando, apelando à emoção, obliterando delineamentos bruscos; aquele, sistemático como Hegel, cheio de sério conteúdo intelectual, apelando à necessidade histórica e ao desenvolvimento técnico da indústria, sugerindo uma visão dos seres humanos como marionetes sob o jugo de forças materiais onipotentes. O Bolchevismo combina as características da Revolução Francesa com as da ascensão do Islã; e o resultado é algo radicalmente novo, que só pode ser entendido por um esforço paciente e apaixonado de imaginação.

Antes de entrar em qualquer detalhe, desejo declarar, tão clara e inequivocamente como puder, minha própria atitude quanto a esta coisa nova.

De longe, o aspecto mais importante da Revolução Russa é uma tentativa de realizar o Comunismo. Creio que o Comunismo é necessário para o mundo, e creio que o heroísmo da Rússia acendeu as esperanças dos homens de uma maneira que era essencial para a realização do Comunismo no futuro. Considerado como uma tentativa esplêndida, sem a qual o sucesso último teria sido muito improvável, o Bolchevismo merece a gratidão e a admiração de toda a parte progressista da humanidade.

Mas o método pelo qual Moscou busca estabelecer o Comunismo é um método pioneiro, áspero e perigoso, heroico demais para dar conta dos custos da oposição que ele excita. Não creio que por este método uma forma estável ou desejável de Comunismo possa ser estabelecida. Três problemas parecem-me possíveis vindos da presente situação. O primeiro é a derrota última do Bolchevismo pelas forças do capitalismo. O segundo é a vitória dos bolcheviques acompanhada pela perda completa dos seus ideais e um regime de imperialismo napoleônico. O terceiro é uma guerra prolongada, à qual a civilização se submeterá, e todas as suas manifestações (incluindo o Comunismo) serão esquecidas.

É porque não creio que os métodos da Terceira Internacional possam levar ao objetivo desejado que pensei valer a pena observar o que me parecem características indesejáveis do estado presente da Rússia. Acho que há lições a serem aprendidas que devem ser aprendidas se o mundo for algum dia atingir o que é desejado por aqueles no Ocidente que têm simpatia pelas metas originais dos bolcheviques. Não penso que estas lições possam ser aprendidas exceto por encarar com franqueza e plenitude quaisquer elementos de fracasso que há na Rússia. Acho que estes elementos de fracasso são menos atribuíveis a defeitos de detalhe do que a uma filosofia impaciente, que visa a criar um mundo novo sem preparo suficiente nas opiniões dos homens e mulheres comuns.

Mas, embora não creia que o Comunismo possa ser realizado imediatamente pela difusão do Bolchevismo, creio sim que, se o Bolchevismo cair, ele terá contribuído a uma lenda e a uma tentativa heroica sem a qual o sucesso último poderia nunca ter vindo. Uma reconstrução econômica, trazendo consigo mudanças bastante abrangentes nos modos de pensar e sentir, na filosofia e na arte e nas relações privadas, parece absolutamente necessária se o industrialismo for se tornar o servo do homem em vez de seu mestre. Em tudo isto, estou de acordo com os bolcheviques; politicamente, critico-os apenas quando seus métodos parecem envolver um afastamento dos seus ideais.

Há, no entanto, outro aspecto do Bolchevismo do qual difiro mais fundamentalmente. O Bolchevismo não é meramente uma doutrina política; é também uma religião, que elabora dogmas e escrituras inspiradas. Quando Lenin deseja provar alguma proposição, ele o faz, se possível, citando textos de Marx e Engels. Um comunista digno do nome não é meramente um homem que crê que a terra e o capital devem ser apropriados em comunidade, e seu produto distribuído com o máximo de igualdade possível. Ele é um homem que sustenta um número de crenças elaboradas e dogmáticas — tais como o materialismo filosófico, por exemplo — que podem ser verdadeiras, mas não são, a um temperamento científico, capazes de serem conhecidas como verdadeiras com qualquer certeza. Este hábito, de certeza militante acerca de questões objetivamente duvidosas é um do qual, desde a Renascença, o mundo tem emergido gradualmente, em direção a um temperamento de ceticismo construtivo e frutífero que constitui o ponto de vista científico. Creio que o ponto de vista científico é imensuravelmente importante para a raça humana. Se um sistema econômico mais justo fosse alcançável somente por fechar as mentes dos homens contra a livre investigação, e por mergulhá-las de volta na prisão intelectual da idade média, devo considerar o preço alto demais. Não se pode negar que, ao longo de qualquer curto período de tempo, a crença dogmática é de ajuda na luta. Se todos os comunistas se tornarem fanáticos religiosos, enquanto os apoiadores do capitalismo retiverem um temperamento cético, pode ser presumido que os comunistas vencerão, enquanto que no caso contrário os capitalistas venceriam. Parece evidente, da atitude do mundo capitalista à Rússia Soviética, da Entente aos Impérios Centrais e da Inglaterra à Irlanda e à Índia, que não há nenhuma profundidade de crueldade, perfídia ou brutalidade à qual os presentes detentores do poder não se rebaixarão quando se sentirem ameaçados. Se, a fim de depô-los, nada além de fanatismo religioso servirá, são eles que são as primeiras fontes do mal resultante. E é permissível ter a esperança de que, quando eles tiverem sido depostos, o fanatismo venha a se esvair, como outros fanatismos se esvaíram no passado.

Os presentes detentores do poder são homens maus, e o presente modo de viver está condenado. Fazer a transição com um mínimo de derramamento de sangue, com um máximo de preservação de seja o que for que tiver valor em nossa civilização existente, é um problema difícil. É este problema que tem principalmente ocupado a minha mente ao escrever as páginas seguintes. Desejo que pudesse pensar que a sua solução pudesse ser facilitada por algum leve grau de moderação e sentimento humano da parte dos que desfrutam de privilégios injustos no mundo conforme ele é.

A presente obra é o resultado de uma visita à Rússia, suplementada por muita leitura e discussão tanto antes como depois. Pensei que seria melhor registrar o que vi separadamente de considerações teóricas, e me empenhei para declarar minhas impressões sem quaisquer vieses a favor ou contra os bolcheviques. Recebi das mãos deles a maior gentileza e cortesia, e lhes devo uma conta de gratidão pela perfeita liberdade que me permitiram em minhas investigações. Estou consciente de que passei muito pouco tempo na Rússia para poder formar juízos realmente confiáveis; no entanto, partilho desta desvantagem com a maioria dos outros ocidentais que escreveram sobre a Rússia desde a Revolução de Outubro. Sinto que o Bolchevismo é uma questão de tamanha importância que é necessário, para quase toda questão política, definir a nossa própria atitude com respeito a ele; e tenho esperanças de que eu possa ajudar outros a definir a sua atitude, ainda que apenas por meio de oposição ao que escrevi.

Recebi assistência inestimável de minha secretária, Senhorita D.W. Black, que esteve na Rússia logo após eu ter partido. O capítulo sobre Arte e Educação é escrito por ela inteiramente. Nenhum dos dois é responsável pelas opiniões dos outros.

BERTRAND RUSSELL
Setembro de 1920.


Parte 1.

Link para o original

“A Prática e a Teoria” do bolchevismo” é um livro de Bertrand Russell, escrito em 1920 após sua visita à Russia, sobre seus pensamentos sobre a Revolução Russa. Como se pode ver pelo título, ele se divide em duas partes: “a prática” e “a teoria” do Bolchevismo. Nesta série só constará a tradução da parte da teoria do Bolchevismo, e ela se dividirá em 7 partes.

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Luan Marques
  • RaimundoJoel

    Adorei esse prefácio. Sempre me falam que o comunismo não presta, então decide fazer me uma pergunta: quem mim fala sobre comunismo?