Bule Voador

Um pouco sobre Horóscopo

Vamos só lembrar umas coisinhas: resumindo tudo, o horóscopo é um sistema que busca predizer tendências comportamentais e fisiológicas das pessoas de acordo com a posição dos astros no instante e local de seu nascimento, dando especial ênfase ao zodíaco. Zodíaco são as constelações de fundo da Eclíptica (esta é a trajetória anual aparente do Sol em relação à Abóboda Celeste [e esta são as estrelas “fixas” de fundo do resto do céu]).
 
O Zodíaco, que significa algo como “caminho dos animais”, tradicionalmente considera 12 constelações dividindo a Eclíptica em 12 arcos iguais e seu ponto de origem é o Ponto Vernal (posição do Sol no Equinócio de Primavera no Hemisfério Norte). E são aquelas 12 constelações que todo fã de Saint Seiya conhece: Áries (carneiro), Touro, Gêmeos (que bicho?), Câncer (caranguejo), Leão, Virgem (que bicho? e, inicialmente, essa constelação representava só um ramo de trigo…), Libra (balança, que não é bicho), Escorpião, Sagitário (um arqueiro e, mais tarde, um centauro arqueiro), Capricórnio (uma besta híbrida entre cabra e peixe), Aquário (alguém carregando uma ânfora e/ou simplesmente um rio) e Peixes.

Problema 1
: tais constelações NÃO se estendem por áreas iguais, portanto não seccionam a Eclíptica em arcos iguais: o “calendário” do horóscopo não considera isso e, de fato, tem divisões arbitrárias entre as áreas ocupadas por cada constelação;
 
Problema 2: nem todas estas constelações AINDA se sobrepõem à Eclíptica, ou seja, há signo que não está mais no Zodíaco;
 
 Problema 3: estas não são todas as constelações que se sobrepõem à Eclíptica, há pelo menos outras três constelações que ocupam uma área até maior na Eclíptica do que várias destas constelações “clássicas”: ou seja, há signos “fantasmas” de monte por aí;
 
Problema 4: ao longo do tempo, a configuração das constelações muda;
 
Problema 5: o nome, o “desenho”, a posição e o que se diz de cada constelação zodiacal varia conforme a cultura e o gosto do “freguês”: para os gregos, Touro era a imagem do touro no qual Zeus se transformou pra seduzir a ninfa Europa: e tamanho foi seu contentamento com aquele coito que ele homenageou o animal preservando sua silhueta no céu; para os babilônios, Touro não tinha a ver com Zeus, mas com o sacrifício sagrado devido a Marduk, que exigia a imolação de touros; para os persas, Touro era o touro imolado por Mithra para a purificação do mundo; para os egípcios, não havia Touro algum ali e apenas parte da constelação que chamamos de touro era, pra eles, um ibis vasculhando o lamaçal com o bico rente ao lodo; para os chineses também não há touro ali, nem ibis, mas as flores de uma enorme constelação de uma mulher carregando uma cesta com flores…
 
Então, só considerando a geometria zodiacal já se vê que não tem nada de observável ali… Cada observador liga as estrelas (ou, em alguns casos mais raros, o espaço escuro entre as estrelas) para formar os desenhos que lhe vier à mente, de acordo com sua cultura, ambiente, experiência de vida (por exemplo, dentre todos os índios americanos, não há uma constelação do cavalo, porque não havia cavalos nas Américas, mas há constelações de antas, inexistentes nas culturas da Sibéria e do Oriente Médio, onde não há antas).

Do ponto de vista astronômico e geométrico, não há defesa para o Zodíaco, já que ele não é exatamente muito bem comprometido com a posição real dos astros no momento requerido, mas trabalha com um sistema abstrato e representativo, extremamente simétrico, aos quais se atribui filiação com determinadas constelações, mas sem obrigatoriamente depender da exatidão de sua posição no céu. O que ocorre mesmo é que apenas a Eclíptica é seccionada em doze partes iguais e se estabelece a posição deste “relógio anual” no horizonte no momento requerido. É uma forma na verdade muito refinada de gerir o ano solar, mas nada além disso.

Entremos agora na questão das misteriosas “influências celestiais” alegadas pelos defensores do Horóscopo. Por que importam só os astros de fundo ao redor da Eclíptica? Por que as estrelas mais próximas do Sol, muitas delas não visíveis a olho nu e distantes da Eclíptica, que de fato exercem maior influência gravitacional por aqui (e ainda está é ínfima), não são contempladas pelo Horóscopo? E o mais importante, como e de que maneira os astros que, alegadamente, influenciam as pessoas exercem tal influência? Como se mede esta influência e como se faz um teste que comprove esta influência mensurável? Ou seja, qual o arcabouço descritivo e prescritivo empiricamente testável, dos fenômenos alegados?

Alguém pode alegar, com razão, que nem tudo que sabemos se conhece como a mecânica clássica, que muitas vezes é uma questão menos de compreender a dinâmica “íntima” dos fenômenos, mas reconhecer padrões recorrentes e correlações. Funciona na medicina, por exemplo, pra determinar quais hábitos são relacionados a um aumento das probabilidades de se desenvolver determinado quadro, ainda que nem sempre se compreenda exatamente como tais hábitos acabam por favorecer tal quadro. Estabelecida a relação, cabe investigar os mecanismos responsáveis pela ocorrência. E este tipo de conhecimento, embora pareça meio vago, é de grande utilidade em engenharia, química, medicina e até em determinadas áreas da física aplicada. Assim, alguém poderia alegar que o mecanismo íntimo pelo qual aqueles astros influenciam as pessoas é desconhecido, no entanto se verifica uma forte correlação entre a posição dos astros no céu e as características pessoais das pessoas. E esta seria uma afirmação válida.

Acontece, simplesmente, que ela não é verdadeira. A forte correlação que eu sugeri acima nunca foi estatisticamente comprovada: ao contrário, diversos experimentos mostram que não há relação alguma entre a posição dos objetos celestes no horizonte no momento e local que alguém nasce com suas características pessoais. A mesma metodologia matemática, no entanto, é capaz de correlacionar determinados genes a características específicas, algumas delas comportamentais, ainda que nem sempre compreendemos completamente o mecanismo de ação de um gene em específico e todos os seus desdobramentos decorrentes na fisiologia. Ou seja, o comportamento das pessoas não é influenciado pelo instante de seu nascimento no “relógio eclíptico” zodiacal. Diversos estudos psicológicos explicam os vieses cognitivos que permitem às pessoas se identificarem com as descrições vagas do Horóscopo, como o “Efeito Forer“, um caso específico do viés de de validação subjetiva.

Brincar com o Horóscopo é, na verdade, uma forma eficiente e às vezes divertida de treinar as habilidades adquiridas no estudo de Astronomia de Posição. Hoje é possível mesclar isso às tecnologias de georreferenciamento e obter resultados muito precisos no “relógio eclíptico” do Horóscopo. Para quem se interessa por estes temas, construir um bom programa para brincar de Horóscopo é um desafio à altura e pode impressionar colegas. O Zodíaco também pode ser uma boa porta de entrada para a educação em astronomia, capturando elementos difusos na cultura popular para fomentar interesse no público leigo.

Leandro Bellato
Curioso insaciável, eternamente apaixonado por filosofia, história, biologia, antropologia, arqueologia e com paixonites por linguística, sociologia e literatura, tendo a cabeça literalmente nas nuvens, dada a minha formação em Ciências Atmosféricas e minha quedinha por astronomia.
  • Marcelo Gaio

    Bom começo para o estudo da astrologia. Sobre o tamanho diferente das constelações, na verdade deve ser considerado o tamanho das casas, divididas por igual. A constelação é a referencia pra cada casa. Voce sabe que a medida que o seus estudos forem se aprofundando, muitas dessas coisas que voce está esta pensando agora voce vai reformular depois, então é cedo categorizar certas conclusões. Uma dica é focar nas questões de arquétipos, trânsito, mitos. Acho que você vai achar interessante e te incentivar no estudo. Não se esqueça de refletir as sutilezas e usar sempra pra se auto conhecimento, aprimoramento pessoal e crescimento em todas as areas da sua vida. Continue compartilhando conhecimento. Valeu.