Bule Voador

Reflexões sobre Gandhi (1949)

Os santos deveriam sempre ser julgados culpados até que sejam provados inocentes, mas os testes que devem ser aplicados a eles não são, claro, os mesmos em todos os casos. No caso de Gandhi as perguntas que nos sentimos inclinados a fazer são: em que medida Gandhi foi movido pela vaidade — pela consciência de si mesmo como um idoso humilde e nu, sentado num tapete de oração e balançando impérios pelo puro poder espiritual — e em que medida ele comprometeu seus próprios princípios por entrar na política, que por natureza é inseparável da coerção e da fraude? Para dar uma resposta definitiva, teríamos que estudar os atos e escritos de Gandhi em imenso detalhe, pois sua vida inteira foi um tipo de peregrinação na qual cada ato é significativo. Mas esta autobiografia parcial, que termina nos anos 1920, é uma evidência forte em seu favor, mais ainda porque ela cobre o que teríamos chamado de parte irregenerada de sua vida e nos lembra de que dentro do santo, ou quase-santo, sempre houve uma pessoa bem sagaz e capaz que poderia, se tivesse escolhido, ter sido um sucesso brilhante como advogado, administrador ou talvez até homem de negócios.

Pela época em que a autobiografia apareceu pela primeira vez, lembro-me de ter lido seus primeiros capítulos nas páginas mal impressas de algum jornal indiano. Eles me causaram uma boa impressão, o que o próprio Gandhi não me causou. As coisas que se associavam a ele — roupa feita em casa, “forças espirituais” e vegetarianismo — não tinham apelo, e seu programa medievalista obviamente não era viável num país atrasado, faminto e superpovoado. Era também aparente que os britânicos estavam usando-o, ou pensavam que estavam usando-o. Falando estritamente, enquanto nacionalista, ele era um inimigo, mas como em toda crise ele se esforçaria para impedir a violência — o que, da perspectiva dos britânicos, significava impedir absolutamente qualquer ação efetiva — ele poderia ser considerado como “o nosso homem”. Em privado, isto era as vezes admitido cinicamente. A atitude dos milionários indianos era similar. Gandhi os chamou para se arrependerem, e naturalmente eles o preferiram aos socialistas e comunistas que, dada a oportunidade, efetivamente teriam levado o seu dinheiro. Quão confiáveis cálculos assim são no longo prazo é duvidoso; como Gandhi em pessoa diz, “no fim os enganadores só enganam a si mesmos”; mas de qualquer modo, a gentileza com que quase sempre lidavam com ele se devia em parte ao sentimento de que ele era útil. Os conservadores britânicos só ficaram realmente bravos com ele quando, lá por 1942, ele estava com efeito virando a sua não-violência contra um conquistador diferente.

Mas eu podia ver até naquela época que os oficiais britânicos que falavam dele com uma mistura de divertimento e desaprovação também genuinamente o admiravam e gostavam dele, de certo modo. Ninguém jamais sugeriu que ele era corrupto, ou ambicioso de qualquer maneira vulgar, ou que qualquer coisa que ele fez foi movida por medo ou malícia. Ao jugar um homem como Gandhi parecemos aplicar instintivamente padrões elevados, de modo que algumas de suas virtudes passaram quase desapercebidas. Por exemplo, é claro até pela autobiografia que sua coragem física natural era bastante impressionante: o modo como morreu foi uma ilustração posterior disto, pois um homem público que pusesse qualquer valor na sua própria pele teria se guardado mais adequadamente. Novamente, ele parece ter sido bastante livre daquela maníaca desconfiança que, como E. M. Forster diz com razão em A Passage to India, é o perturbador vício indiano, como a hipocrisia é o vício britânico. Embora sem dúvida fosse sagaz o bastante para detectar desonestidade, ele parece sempre que possível ter crido que as outras pessoas estavam agindo de boa fé e tinham uma melhor natureza pela qual elas poderiam ser aproximadas. E, embora ele tivesse vindo de uma família pobre de classe média, começado a vida de modo bem desfavorável e não causasse boa impressão em aparência física, ele não era afligido pela inveja ou pelo sentimento de inferioridade. Antes, o sentimento de cor, quando ele o conheceu pela primeira vez em sua pior forma na África do Sul, parece tê-lo impressionado. Até quando estava lutando o que era de fato uma guerra de cor, ele não pensou nas pessoas em termos de raça ou status. O governador de uma província, um milionário do algodão, um coolie dravidiano quase morto de fome, um soldado raso britânico pareciam todos seres humanos iguais, a serem aproximados em muito do mesmo jeito. É de se notar que até nas piores circunstâncias possíveis, como na África do Sul quando ele estava se tornando impopular como o defensor da comunidade indiana, ele não careceu de amigos europeus.

Escrita em curtas extensões para a serialização em jornal, a autobiografia não é uma obra de arte literária, mas é mais impressionante por causa da banalidade de muito do seu material. É bom lembrarmos que Gandhi começou com as ambições normais de um jovem estudante indiano e só adotou suas opiniões extremistas por graus e, em alguns casos, de um modo um tanto involuntário. Houve uma vez, é interessante saber, que ele pôs uma cartola, fez aulas de dança, estudou francês e latim, subiu a Torre Eiffel e até tentou aprender a tocar violino — tudo isto era a ideia de assimilar a civilização europeia de modo tão minucioso quanto possível. Ele não foi um daqueles santos que são marcados por sua piedade fenomenal desde a infância, tampouco um do outro tipo que abandonou o mundo após devassidões sensuais. Ele faz confissões plenas dos delitos da sua juventude, mas de fato não havia muito para confessar. Como um frontispício para o livro havia uma fotografia das posses de Gandhi no tempo de sua morte. Todo o traje podia ser comprado por 5 libras, e os pecados de Gandhi, pelo menos seus pecados da carne, teriam o mesmo tipo de aparência se colocados todos em uma pilha. Uns cigarros, umas bocadas de carne, uns abacaxis surrupiados da criada na infância, duas visitas a um bordel (ocasião em que ele saiu sem “fazer nada”), um deslize de que escapou por pouco com sua senhoria em Plymouth, uma explosão de raiva — essa é mais ou menos toda a coleção. Mais ou menos desde a infância ele teve uma profunda seriedade, uma atitude ética em vez de religiosa, mas, até cerca dos trinta, nenhum senso de direção muito definido. Sua primeira entrada em qualquer coisa que possa ser descrita como vida pública foi feita por meio do vegetarianismo. Por debaixo de suas qualidades menos comuns, sentimos todo o tempo os sólidos homens de negócios de classe média que foram seus ancestrais. Sentimos que, até após ter abandonado ambições pessoais, ele deve ter sido um advogado engenhoso e enérgico e um organizador político prático, cauteloso em manter os gastos baixos, um hábil encarregado de comitês e um incansável caçador de subscrições. O seu era um caráter extraordinariamente misto, mas não havia quase nada em que se possa pôr o dedo e chamar de mau, e creio que até os piores inimigos de Ganhdi admitiriam que ele era um homem interessante e incomum que enriqueceu o mundo simplesmente por ter vivido. De se ele foi também um homem amável, e de se seus ensinamentos podem ter muita coisa para os que não aceitam as crenças religiosas em que eles são fundamentados, nunca me senti plenamente certo.


Nos últimos anos a moda tem sido falar de Gandhi como se ele fosse não só simpático ao movimento esquerdista ocidental como integralmente parte dele. Anarquistas e pacifistas, em particular, o reivindicaram como um dos seus, observando apenas que ele se opunha ao centralismo e à violência estatal e ignorando as tendências extramundanas e anti-humanistas de suas doutrinas. Mas devemos nos dar conta, acho eu, de que os ensinamentos de Gandhi não podem ser enquadrados na crença de que o Homem é a medida de todas as coisas e que o nosso trabalho é fazer a vida valer a pena nesta terra, que é a única que temos. Elas fazem sentido somente com a pressuposição de que Deus existe e que o mundo de objetos sólidos é uma ilusão de que devemos escapar. Vale a pena considerar as disciplinas que Gandhi impôs a si mesmo e que — embora ele pudesse não insistir que cada um de seus seguidores observe cada detalhe — ele considerava indispensável para alguém que quisesse servir a Deus ou à humanidade. Primeiramente, nada de carne, e se possível nada de consumo de animais em qualquer forma. (O próprio Gandhi, pelo bem de sua saúde, teve que fazer uma concessão ao leite, mas parece ter sentido que isso era um retrocesso.) Nada de álcool ou tabaco, e quaisquer especiarias ou condimentos até de um tipo vegetal, dado que a comida não deve ser ingerida por si mesma, mas somente a fim de preservar a nossa força. Em segundo lugar, se possível, nada de relações sexuais. Se relações sexuais devem ocorrer, então devem ser pelo único propósito de gerar filhos e presumivelmente em longos intervalos. O próprio Gandhi, em seus trinta e poucos, fez o voto de brahmacharya, que significa não só completa castidade como a eliminação do desejo sexual. Esta condição, parece, é difícil de alcançar sem uma dieta especial e frequentes jejuns. Um dos perigos de beber leite é que é suscetível a estimular o desejo sexual. E finalmente — este é o ponto cardeal — para o buscador da bondade não deve haver amizades íntimas e absolutamente nenhum amor exclusivo.

Amizades íntimas, diz Gandhi, são perigosas, pois “amigos reagem um para com o outro” e por lealdade a um amigo podemos ser levados a maus atos. Inquestionavelmente, isto é verdade. Ademais, para amar a Deus, ou amar a humanidade como um todo, não podemos dar nossa preferência a qualquer pessoa individual. Isto, novamente, é verdade, e marca o ponto em que a atitude humanista e a religiosa deixam de ser reconciliáveis. A um ser humano comum, amor nada significa se não significa amar algumas pessoas mais que outras. A autobiografia deixa incerto se Gandhi se comportou de um modo indelicado com a sua mulher ou filhos, mas de qualquer maneira deixa claro em três ocasiões que ele estava disposto a deixar sua mulher ou um filho morrer a dar a comida animal receitada pelo médico. É verdade que a morte ameaçada nunca ocorreu de fato, e também que Gandhi — com, pensa-se, um bom tanto de pressão moral na direção oposta — sempre deu ao paciente a escolha de ficar vivo às custas de cometer um pecado: ainda assim, se a decisão tivesse sido somente dele, ele teria proibido a comida animal, quais fossem os riscos. Deve haver, diz ele, algum limite no que faremos a fim de nos mantermos vivos, e o limite está bem do lado da canja de galinha. Esta atitude talvez seja nobre, porém, no sentido que — acho eu — a maioria das pessoas daria à palavra, desumana. A essência de ser humano é que não se busca perfeição, que se está disposto por vezes a cometer pecados pela lealdade, que não se leva o ascetismo ao ponto em que torne as relações de amizade impossíveis e que se está preparado no fim para ser derrotado e desmembrado pela vida, que é o preço inevitável de amarrar o nosso amor em outros indivíduos humanos. Sem dúvida o álcool, o tabaco, e assim por diante, são coisas que um santo deve evitar, mas a santidade é também uma coisa que seres humanos devem evitar. Há uma óbvia réplica a isto, mas devemos ser cautelosos quanto a fazê-la. Nesta época dominada pelo iogue, é presumido demasiado prontamente que o “desapego” não só é melhor do que uma aceitação plena da vida terrena como que o homem comum só o rejeita porque é demasiado difícil: em outras palavras, que o ser humano da média é um santo fracassado. É duvidoso se isto é verdade. Muitas pessoas genuinamente não desejam ser santos, e é provável que alguns que alcançam ou aspiram à santidade nunca sentiram muita tentação a serem seres humanos. Se pudéssemos segui-lo às suas raízes psicológicas, descobriríamos, creio eu, que o motivo principal para o “desapego” é um desejo de escapar da dor de viver, e acima de tudo do amor, que, sexual ou não, é trabalho duro. Mas não é necessário aqui argumentar se o ideal extramundano ou o humanista é o mais “elevado”. O ponto é que eles são incompatíveis. Devemos escolher entre Deus e Homem, e todos os “radicais” e “progressistas”, do mais leve liberal ao mais extremo anarquista, com efeito escolheram o Homem.

No entanto, o pacifismo de Gandhi pode ser separado em alguma medida de seus outros ensinamentos. Seu motivo era religioso, mas ele afirmou também a seu favor que era uma técnica definitiva, um método, capaz de produzir resultados políticos desejados. A atitude de Gandhi não era a da maioria dos pacifistas ocidentais. A Satyagraha, evoluída primeiro na África do Sul, era um tipo de beligerância não-violenta, um modo de derrotar o inimigo sem machucá-lo e sem sentir ou excitar ódio. Implicou coisas tais como desobediência civil, greves, deitar na frente de trens ferroviários, aguentar investidas policiais sem fugir e sem revidar, e afins. Gandhi objetou à “resistência passiva” enquanto uma tradução de Satyagraha: em gujarati, parece, a palavra significa “firmeza na verdade”. Em seus primeiros dias, Gandhi serviu como um carregador de macas do lado dos britânicos na Guerra dos Bôeres, e estava preparado para fazer o mesmo de novo na guerra de 1914-18. Até após ter renunciado completamente à violência ele foi honesto o bastante para ver que na guerra é geralmente necessário escolher lados. Ele não tomou — de fato, dada toda a sua vida centrada em torno de uma luta pela independência nacional, ele não podia tomar — a linha estéril e desonesta de fingir que em toda guerra ambos os lados são exatamente a mesma coisa e que não faz diferença quem vence. Tampouco se especializou ele, como a maioria dos pacifistas ocidentais, em evitar perguntas embaraçosas. Com relação à última guerra, uma pergunta que todo pacifista tinha uma clara obrigação de responder era: “E quanto aos judeus? Está preparado para vê-los exterminados? Se não, como você propõe salvá-los sem recorrer à guerra?” Devo dizer que nunca ouvi, de qualquer pacifista ocidental, uma resposta honesta a esta pergunta, embora tenha ouvido um bocado de evasivas, geralmente do tipo “você é mais um”. Mas acontece que Gandhi foi solicitado a responder uma pergunta semelhante em 1938 e que sua resposta está documentada em Gandhi and Stalin do Sr. Louis Fischer. Segundo o Sr. Fischer, a opinião de Gandhi era que os judeus alemães deveriam cometer suicídio coletivo, o que “teria despertado o mundo e o povo da Alemanha à violência de Hitler”. Depois da guerra, ele se justificou: os judeus foram mortos de qualquer jeito, e seria melhor que tivessem morrido significativamente. Tem-se a impressão de que esta atitude desconcertou até um admirador tão caloroso como o Sr. Fischer, mas Gandhi estava meramente sendo honesto. Se você não está preparado para tirar uma vida, deve com frequência estar preparado para que vidas sejam perdidas de um outro modo. Quando, em 1942, ele instou a resistência não-violenta contra uma invasão japonesa, ele estava preparado para admitir que poderia custar vários milhões de mortes.

Ao mesmo tempo há razão para pensar que Gandhi, que afinal nasceu em 1869, não entendia a natureza do totalitarismo e via tudo em termos da sua própria luta contra o governo britânico. O ponto importante aqui não é tanto que os britânicos o trataram de um modo indulgente quanto que ele sempre foi capaz de dominar a publicidade. Como pode ser visto da frase supracitada, ele cria em “despertar o mundo”, o que só é possível se o mundo tem uma chance de ouvir o que você está fazendo. É difícil ver como os métodos de Gandhi poderiam ser aplicados a um país onde oponentes do regime desaparecem no meio da noite e deles nunca se ouve novamente. Sem uma imprensa livre e o direito à reunião, é impossível não meramente apelar à opinião externa como trazer à existência um movimento de massa, ou sequer tornar conhecidas suas intenções ao seu adversário. Há um Gandhi na Rússia neste momento? E se há, o que ele está realizando? As massas russas só poderiam praticar a desobediência civil se a mesma ideia calhasse de ocorrer a todos eles simultaneamente, e até então, a julgar pela história da fome ucraniana, não faria nenhuma diferença. Mas aceitemos que a resistência não-violenta possa ser eficaz contra o nosso próprio governo, ou contra uma potência ocupante: ainda assim, como a pomos em prática internacionalmente? As várias declarações conflitantes de Gandhi sobre a última guerra parecem mostrar que ele sentia a dificuldade nisto. Aplicado à política externa, o pacifismo ou deixa de ser pacifista ou se torna apaziguamento. Ademais, a pressuposição, que serviu a Gandhi tão bem ao lidar com indivíduos, de que todos os seres humanos são mais ou menos aproximáveis e responderão a um gesto generoso, carece de ser questionada seriamente. Não é verdade necessariamente, por exemplo, quando você está lidando com lunáticos. Então a questão se torna: Quem é são? Era Hitler são? E não é possível que toda uma cultura seja insana pelos padrões de outra? E, na medida que podemos medir os sentimentos de nações inteiras, há qualquer ligação aparente entre um ato generoso e uma resposta amistosa? É a gratidão um fator na política internacional?

Estas e questões similares carecem de discussão, e com urgência, nos poucos anos que nos restam antes que alguém pressione o botão e os foguetes comecem a voar. Parece duvidoso se a civilização pode aguentar mais uma guerra de grande porte, e é ao menos pensável que a saída se encontra pela não-violência. É uma virtude de Gandhi que ele estivesse pronto para dar consideração honesta ao tipo de questão que levantei acima; e, de fato, ele provavelmente discutiu sim a maior parte destas questões em algum lugar ou outro em seus inúmeros artigos de jornal. Sente-se dele que havia muito que não entendia, mas não que havia qualquer coisa que ele tivesse medo de dizer ou pensar. Nunca fui capaz de sentir muito gosto por Gandhi, mas não me sinto certo de que enquanto um pensador político ele estava errado no geral, tampouco creio eu que a sua vida foi um fracasso. É curioso que quando ele foi assassinado, muitos dos seus mais calorosos admiradores exclamaram com pesar que ele vivera só tanto o bastante para ver o seu trabalho de uma vida em ruínas, pois a Índia estava empenhada numa guerra civil que sempre fora prevista como um dos subprodutos da transferência de poder. Mas não foi na tentativa de suavizar a rivalidade entre os hindus e os muçulmanos que Gandhi despendeu a sua vida. Seu objetivo político principal, o fim pacífico do governo britânico, fora afinal atingido. Como é em geral, os fatos relevantes vão além uns dos outros. Por um lado, os britânicos de fato saíram da Índia sem lutar, um evento que muitos poucos observadores de fato teriam predito até cerca de um ano antes de ter ocorrido. Por outro lado, isto foi feito por um governo trabalhista, e é certo que um governo conservador, especialmente um governo encabeçado por Churchill, teria agido de modo diferente. Mas se, à altura de 1945, crescera na Grã-Bretanha um grande corpo de opinião simpático à independência da Índia, quanto isso se deveu à influência pessoal de Gandhi? E se, como pode acontecer, a Índia e a Grã-Bretanha finalmente sossegarem num relacionamento decente e amistoso, será isso em parte porque Gandhi, por seguir com a sua luta obstinadamente e sem ódio, desinfetou o ar político? Que sequer pensemos em fazer estas perguntas indica a sua estatura. Pode-se sentir, como eu sinto, um tipo de desgosto estético por Gandhi, pode-se rejeitar as afirmações de santidade feitas em seu nome (ele próprio nunca fez nenhuma afirmação dessas, à propósito), pode-se também rejeitar a santidade como um ideal e portanto sentir que as metas básicas de Gandhi era anti-humanas e reacionárias: mas considerado simplesmente como um político, e comparado com as outras principais figuras políticas de nosso tempo, que cheiro limpo ele conseguiu deixar para trás!


Autor: George Orwell.

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