Bule Voador

O Mundo Está Melhorando

A memorável fala de abertura de Steven Pinker no Munk Debate sobre o progresso da humanidade

Colegas canadenses, cidadãos do mundo: eu pretendo convencê-los de que os melhores dias da humanidade estão por vir — sim, convencer.

Declinistas [pessimistas] falam de uma ‘fé’ ou ‘crença’ no progresso, mas não há nada aqui baseado em fé.

A nossa compreensão da condição humana não deve ser baseada em mitos sobre a queda do Éden ou sobre uma ascensão à utopia, nem sobre genes para um temperamento iluminado ou sombrio, nem com que pé vocês levantaram da cama esta manhã. E não deve vir das manchetes dos jornais — os jornalistas informam acidentes de avião, não aviões que decolam e pousam. Enquanto as coisas ruins não tiverem desaparecido da face da terra por completo, sempre haverá o bastante delas para preencher o noticiário, e as pessoas vão acreditar, como fizeram por séculos, que o mundo está caindo aos pedaços.

Não, a única maneira de entender o destino do mundo é com fatos e números. Ou seja, pôr em gráficos os episódios de coisas boas e ruins ao longo do tempo — não apenas para lugares encantados como o Canadá, mas para o mundo como um todo — ver por qual caminho as linhas do gráfico estão indo, e identificar as forças que as estão dirigindo. Permita-me fazer isso para dez das coisas boas da vida.

Primeira, a própria vida. Um século e meio atrás, a perspectiva humana de vida era de 30 anos; hoje é de 70, e não mostra sinais de estabilização.

Segunda, a saúde. Dê uma olhada em varíola e peste bovina na Wikipédia; as definições estão no pretérito: varíola foi uma doença, indicando que duas das maiores fontes de miséria na existência humana foram erradicadas para sempre. O mesmo irá em breve ser verdade para a poliomielite e dracunculose, e atualmente estamos dizimando ancilostomíase, malária, filariose, sarampo, rubéola e bouba.

Terceira, a prosperidade. Dois séculos atrás, 85% da população mundial vivia em condições de extrema pobreza. Hoje isso foi reduzido para 10%, e, de acordo com a ONU, em 2030 poderia chegar a zero. Em todos os continentes as pessoas estão trabalhando menos horas e podendo pagar mais alimentos, roupas, iluminação, lazer, viagens, telefonemas, dados e cerveja [risos da audiência].

Quarta, a paz. A mais destrutiva atividade humana — a guerra entre nações poderosas — está se tornando obsoleta. Os países desenvolvidos não travaram uma guerra por 70 anos, as grandes potências por 60 anos. As guerras civis continuam a existir, mas elas são menos destrutivas do que as guerras entre Estados, e há menos delas. Este broche [aponta seu broche] é uma lembrança de uma viagem no início desta semana à Colômbia, que está em processo de terminar a última guerra no hemisfério ocidental. Globalmente, a taxa de mortalidade anual em guerras tem estado em um acidentado declínio, de 300 [mortes] por 100.000 [habitantes] durante a Segunda Guerra Mundial, para 22 em 1950, 9 na década de 70, 5 na década de 80, 1,5 na década de 90 e 0,2 nos 00. Mesmo a terrível Guerra Civil na Síria apenas moveu os números de volta para onde eles estavam nos anos 2000.

Quinta, a segurança. As taxas globais de crimes violentos estão em queda, em muitos lugares vertiginosamente. Os principais criminologistas do mundo têm calculado que, dentro de 30 anos, podemos reduzir a taxa mundial de homicídios pela metade.

Sexta, a liberdade. Apesar de recaídas neste ou naquele país, o Índice de Democracia Global está em um ponto alto jamais igualado. Mais de 60% da população do mundo vive agora em sociedades abertas — a mais alta percentagem já atingida.

Sete: conhecimento. Em 1820, 17% das pessoas tinham uma educação básica; hoje 82% a tem, e a percentagem está rapidamente se dirigindo a 100.

Oito: direitos humanos. Campanhas globais em andamento têm como alvo o trabalho infantil, a pena de morte, o tráfico de seres humanos, a violência contra as mulheres, a mutilação genital feminina e a criminalização da homossexualidade. Cada uma tem conseguido progressos mensuráveis, e, se a história serve de guia, esses costumes bárbaros vão seguir o mesmo caminho do sacrifício humano, canibalismo, infanticídio, escravidão [chattel slavery], queima de hereges, execuções de tortura, enforcamentos públicos, servidão por dívidas, duelos, haréns, eunucos, circos de horror [freak shows], pés-de-lótus, rir dos loucos [laughing at the insane] e o chamado ‘goon’(*) no hóquei [risos].

*Goon, como o Google define, é “um valentão ou bandido, especialmente um contratado para aterrorizar ou acabar com a oposição”.

Nove: equidade de gênero. Dados globais mostram que as mulheres estão ficando mais instruídas, se casando mais tarde, ganhando mais e em mais posições de poder e influência.

Finalmente: inteligência. Em cada país o QI tem aumentado em três pontos por década.

Então, qual é a resposta dos pessimistas para todas essas deprimentes boas notícias? [risos]. É: “Apenas espere — a qualquer momento uma catástrofe irá interromper esse progresso ou colocá-lo em marcha à ré”. Mas, com a possível exceção de guerra, nenhum destes indicadores está sujeito a caóticas idas e vindas [bubbles and crashes] como o mercado de ações. Cada um é gradual e cumulativo, e coletivamente eles se reforçam mutuamente. Um mundo mais rico pode se dar mais o luxo de cuidar do meio ambiente, policiar suas gangues e ensinar e curar os seus cidadãos. Um mundo com mais educação e mais mulheres no poder irá favorecer menos autocratas e começar menos guerras estúpidas. Os avanços tecnológicos que impulsionaram esse progresso só vão acelerar, a lei de Moore está se mantendo, e a genômica, neurociência, inteligência artificial, ciência de materiais e políticas baseadas em evidências estão progredindo em disparada [skyrocketing].

E quanto às distopias da ficção científica? A maioria delas, como ciborgues furiosos e pragas de nanorrobôs, são inteiramente fantasiosas e seguirão o mesmo caminho do Bug do Milênio e outros tolos tecnopânicos. Duas outras são sérias, mas solucionáveis:

Apesar das profecias de uma III Guerra Mundial termonuclear e de terrorismo ao estilo de Hollywood, lembre-se de que nenhuma arma nuclear foi usada desde Nagasaki; a Guerra Fria acabou; 16 países desistiram dos programas de armas nucleares, incluindo, este ano, o Irã; o número de armas nucleares foi reduzido em mais de 80%; e um acordo global de 2010 bloqueou armas nucleares e material físsil. Mais importante, o mundo talvez só precise estender a sua paz de 70 anos em mais algumas décadas — um roteiro para a eliminação gradual de todas as armas nucleares foi aprovado, em princípio, pelos principais líderes mundiais, incluindo os da Rússia e Estados Unidos.

A outra ameaça é a mudança climática. Este pode ser o problema mais duro da humanidade, mas os economistas concordam que é um problema solucionável. Um imposto global sobre o carbono iria incentivar bilhões de pessoas a economizar, inovar e mudar para fontes de energia de baixo carbono, enquanto P&D [pesquisa e desenvolvimento] acelerado nas energias renováveis, a quarta geração de energia nuclear e a captura de carbono reduziria os seus custos.

Será que o mundo irá ignorar essas soluções de forma suicida? Bem, aqui estão três títulos da revista Time a partir de apenas o último mês: “A China mostra que leva a sério a mudança climática”; “Walmart, McDonald’s e 79 outros se comprometem a combater o aquecimento global”; e “A negação da mudança climática, entre americanos, atinge seu recorde de baixa”.

Um mundo melhor, com certeza, não é um mundo perfeito. Como um notório defensor da ideia de “natureza humana”, acredito que a partir da madeira torta da humanidade nada de realmente reto pode ser feito e, para mal citar uma grande canadense, “Nós não somos poeira das estrelas, não somos de ouro, e não há nenhuma maneira de voltarmos ao Jardim”(*) [risos].

*A cantora Joni Mitchell, na música Woodstock [que refere o famoso festival de contracultura de 1969, anunciado como Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música], canta: Somos poeira das de estrelas / Somos de ouro / E devemos nos levar / de volta para o Jardim. Claro, o Jardim do Paraíso, o Éden.

No glorioso futuro que eu estou vislumbrando, haverá doença e pobreza, haverá terrorismo e opressão e guerra e crimes violentos, mas haverá muito, muito menos desses flagelos, o que significa que bilhões de pessoas estarão em melhor situação do que estão hoje. E isso, eu quero lembrá-lo, é a resolução do debate desta noite.


N. do. T.: quanto ao debate em si — onde também participaram o evolucionista Matt Ridley, no lado de Pinker, e o jornalista Malcolm Gladwell e o filósofo Alain de Botton, no lado adversário — devo dizer que o assisti, e é fácil concordar com as avaliações de Sam Harris“Gladwell e de Botton foram simplesmente terríveis. Vale à pena assistir, para ver a estupidez pretensiosa ser esmagada pela calma razão” — e Peter Boghossian“Estou sozinho ao pensar que os argumentos e o estilo do time Con [Gladwell e de Botton], nesse debate, são bizarros?”. O debate pode ser visto em inglês no Munk Debates, bastando pra isso se cadastrar.


Autor: Steven Pinker

Original (transcrição): http://www.intelligentoptimism.com/#!blank/vp9lg

Tradução: Lauro Edison

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Lauro Edison
Autodidata interessado em Filosofia, sobretudo da mente e metafísica, também moral (esta última como crítico, na linha de Richard Joyce em "The Myth of Morality"). Observando com cinismo a romântica paisagem ideológica.
  • AntonioOrlando

    O mundo está melhor para quem?

    Vivemos, no século da tecnologia/mídia da informação (internet, redes sociais etc), um apagão intelectual e de real aquisição de conhecimento. Pessoas mimetizadas pela tela do computador ou, em transe, caçando pokémons pela rua. Se há avanço tecnológico e científico em algumas áreas, infelizmente, ainda, não é acessível a mais da metade da população do planeta. Ademais, em metade do mundo, ainda, impera a fome e miséria, grosso modo.

    Não da para “medir” avanço ou “progresso” da humanidade apenas pela capacidade de desenvolvimento científico, mas, e sobretudo, pela capacidade de mudança profunda na capacidade do homem mudar a si mesmo. Em outras palavras, a mudança para melhor se dá, efetivamente, na qualidade das relações interpessoais dos seres humanos. O resto é consequência.

  • Antonio Porto Rosa Filho

    A quantidade de conflitos no século 20 e a quantidade de mortes supera séculos de história.
    E ainda nem chegamos ao vigésimo ano do século 21.
    Quem está sofrendo com guerras, fome ou peste, com certeza tem uma opinião contrária a do
    anjinho de cabelos grisalhos cacheados.

  • Zé do Pântano

    Daniel Kahneman e Amos Tversky estão rindo dos comentários heurísticos dos Antônios.