Bule Voador

As Vantagens e Desvantagens do Nacionalismo (1956)

O nacionalismo tem vários aspectos, alguns bons e alguns ruins. A primeira grande clivagem é entre os aspectos culturais e os que têm a ver com a economia e a política. De um ponto de vista cultural, há argumentos muito fortes a favor do nacionalismo, mas de um ponto de vista político ou econômico o nacionalismo frequentemente é nocivo.

O nacionalismo é considerado em nossa época como parte da natureza humana e um fato perene que seria desvario ignorar. No entanto, isto não é verdade historicamente. O nacionalismo começou com o declínio do sistema medieval e mal existia em qualquer tempo anterior. Sua origem, em todo lugar, tem sido a resistência à dominação alheia ou à ameaça da mesma. Começou, na França, com a resistência de Joana d´Arc aos ingleses. Começou na Inglaterra com a resistência à Armada Espanhola e encontrou sua expressão em Shakespeare. Começou na Alemanha com a resistência a Napoleão, e na Itália com a resistência à Áustria. Nos princípios do seculo xix, foi aclamado pelos liberais e condenado pelos reacionários. Metternich, que governou um império poliglota contendo uma grande mistura de raças, foi o oponente mais veemente e poderoso do nacionalismo, enquanto movimentos pela unidade alemã e italiana e pela libertação da Grécia do governo da Turquia comandaram o apoio entusiástico de todos cuja política era progressista.

Mas uma nova era foi inaugurada por Bismark. Bismark unificou a Alemanha por três guerras bem sucedidas e tornou o nacionalismo militarista em vez de democrático. É esta nova forma de nacionalismo que dominou a Europa Ocidental desde então.

O desenvolvimento do nacionalismo fora da Europa Ocidental tem sido interessante e infeliz. O socialismo, como Marx o concebia, era para ser internacional e reteve este internacionalismo nas mentes de Lenin e Trotsky, dos quais ambos viveram no mundo ocidental e, no geral, pensavam melhor dele do que do seu próprio país. Mas Stalin, de um novo modo, fez pela Rússia o que Bismark fizera pela Alemanha. Ele tornou o comunismo nacionalista. Os russos que o apoiavam sentiam que estavam apoiando a Rússia, pela qual muitos deles tinham um entusiasmo maior do que pelo comunismo. É esta mudança que possibilitou ao comunismo russo adquirir um grau de força que Lenin jamais poderia ter-lhe dado.

O nacionalismo triunfante se torna imperialismo. Esta transformação ocorreu na Inglaterra, na França e na Alemanha. Após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu também na Rússia. A Europa Oriental fora da Rússia continha um grande número de pequenos países emancipados de modo tardio do governo externo. A maioria destes países odiava a maioria dos seus vizinhos e estava estultificada pela sua rivalidade. Stalin os subjugou todos exceto pela Turquia, a Grécia e, após um certo intervalo, a Iugoslávia.

Com extraordinária habilidade propagandista, o comunismo russo, enquanto escravizada a maior parte da Europa Oriental, ainda posava com sucesso como o libertador da Ásia e da África. O nacionalismo na Ásia e na África ainda tem o sabor liberal que tinha na Europa Ocidental nos princípios do século xix. É inspirado pela resistência ao imperialismo ocidental e tende a ser amistoso à Rússia porque a Rússia apoia esta resistência. A um observador imparcial parece altamente provável que qualquer independência adquirida pela Ásia e a África com o auxílio da Rússia será tão temporária quanto a desvanecida independência da Polônia, da Tchecoslováquia e da Hungria. Há toda razão para pensar que o imperialismo russo engolirá as migalhas de guloseimas que o imperialismo ocidental foi compelido a deixar cair. Mas é improvável que a Ásia e a África se darão conta deste perigo antes de ser tarde demais.

Que ganhos e perdas devem se esperar da propagação do nacionalismo a estas regiões? A questão tem dois aspectos, um político e um econômico. Não acho que alguém possa negar que a aspiração pela liberdade da dominação alheia seja um sentimento merecedor de respeito e que aqueles que têm que se curvar a um mestre estrangeiro sofrem um dano que é muito grande e muito indesejável. Não é uma coisa boa que uma nação domine outra e, na medida que o nacionalismo se opõe a tal dominação, deve se considerar que ele está fazendo um bom trabalho. Mas conforme o mundo se desenvolve tecnicamente há uma necessidade continuamente crescente de acordo e cooperação entre diferentes nações. A reivindicação da independência nacional é justa apenas onde diz respeito aos assuntos internos, mas se torna desastrosa quando se supõe que ela envolva o direito de infligir danos a outras nações. O mundo não pode ser salvo de seus presentes problemas pelo nacionalismo ilimitado, mas somente pelo desenvolvimento do internacionalismo. É um grande infortúnio que na Ásia e na África a cooperação entre diferentes regiões ocorreram principalmente como resultado do imperialismo estrangeiro. A consequência foi que estados recém emancipados rejeitaram formas de cooperação até quando o benefício comum era inteiramente óbvio. Um exemplo muito claro disto foi o destino do esquema traçado pelos britânicos para a irrigação do Punjab. Quando a Índia e o Paquistão se tornaram estados separados, nenhum dos dois podia concordar em deixar o outro ter qualquer partilha de suas águas e assim ambos tiveram que adotar esquemas inferiores.

Mas não é só na Ásia e na África que o nacionalismo inflige danos econômicos. Todos os países do mundo seriam muito mais ricos do que são se todos eles abolissem as taxas alfandegárias. Cem anos atrás, parecia que isto poderia acontecer, mas paixões nacionais se provaram muito fortes.


A teoria política no tempo presente não tem princípios claros pelos quais decidir a delimitação entre a esfera do nacionalismo e a esfera do internacionalismo. A necessidade de princípios até o momento não reconhecidos se tornou particularmente evidente pela disputa acerca do Canal de Suez. Considerando a questão no abstrato independentemente das disputas atuais, é evidente que a humanidade como um todo tem um interesse em manter abertas as rotas de comércio e que, onde um interesse geral está envolvido, não é certo ou justo que qualquer única nação, ou sequer quaisquer duas ou três, tenha o controle exclusivo. Mas isto nunca é evidente àqueles que, em qualquer momento, tem tal controle. Os britânicos tinham o controle de Suez e em algum grau de Gibraltar. Os americanos têm o controle do Panamá. Não nos ocorreu que havia qualquer coisa de injusto nisto. Pelo contrário, nos sentimos tão sábios e bons que todo o mundo devia se regozijar por termos qualquer coisa tão importante em nossas mãos. A visão que o Coronel Nasser proclamou é, do ponto de vista dos princípios, a mesma que os britânicos proclamaram anteriormente: a saber, que não há nenhuma injustiça em o Canal ser gerenciado por uma única potência. Deveria ser admitido em geral que qualquer coisa tão importante internacionalmente como o Canal de Suez ou o Canal do Panamá deveria estar sob uma autoridade internacional. A afirmação de que aqueles que calham de viver em suas margens deveriam ter o direito de infligir enormes danos àqueles que vivem alhures é uma na qual não há justiça nenhuma. Se assim fosse poderíamos afirmar também que duas pessoas que vivem uma de frente para a outra na Quinta Avenida deveriam ter um direito de construir um muro do outro lado da rua. Mas há um outro princípio sobrepujante mais importante do que o certo e o errado de qualquer disputa particular. É que num mundo de armas nucleares nenhuma disputa deve ser resolvida pela guerra exceto quando a decisão foi alcançada por uma autoridade internacional e a resistência a suas decisões é facilmente subjugada. Estas condições não existem na disputa por Suez e portanto qualquer um que ameace guerra como um meio de decidi-la é um inimigo da humanidade.

Mas, embora deva haver algum corpo com autoridade internacional em tais assuntos, não há no presente nenhum corpo semelhante. Dizendo isto não me esqueço das Nações Unidas, mas, contanto que o veto exista no Conselho de Segurança, as Nações Unidas não constituem um governo exceto quando todos os membros do Conselho de Segurança concordam, o que não acontece com frequência. É inteiramente correto que as questões do Canal de Suez sejam submetidas ao Conselho de Segurança, mas é extremamente improvável que esse corpo alcance uma solução, dado que podemos esperar que ou a Rússia ou as potências ocidentais vetem qualquer sugestão. Será útil submeter a disputa ao Conselho de Segurança por duas razões: a primeira é que o período de deliberação dará tempo para os sentimentos aquecidos se amainarem; e a segunda é que o impasse que é de se esperar mostrará a necessidade de algum método mais eficaz de alcançar decisões internacionais. Gostaria de ver o Conselho de Segurança decidir antecipadamente concordar com qualquer conclusão de uma disputa recomendada, após um inquérito imparcial, por um Comitê apontado ad hoc contendo números iguais dos dois lados da disputa com um equilíbrio composto de representantes de nações desinteressadas. Isto ofereceria uma alternativa genuína à guerra. No presente, todo homem são sabe que a guerra deve ser evitada a todo custo. Na ausência de algum método pacífico de alcançar decisões, isto supervaloriza sanidade, dado que homens sãos se dão conta, mas homens insanos não, de que a guerra é sempre o pior resultado possível de uma disputa.

As limitações do nacionalismo devem ser em muito as mesmas que as limitações da liberdade dos indivíduos. A liberdade individual é imensamente importante e sua preservação é vital a uma boa comunidade, mas todos nós reconhecemos que ela tem seus limites. Não pensamos que assassinato e roubo devem ser tolerados, e empregamos as forças do estado para impedi-los. Assassinato e roubo por uma nação são mais nocivos do que assassinato e roubo por um indivíduo pois são numa escala maior. Sua prevenção é portanto mais importante. O princípio do nacionalismo é igualmente iníquo numa forma ilimitada. Ele não pode fazer oposição nenhuma ao assassinato e roubo por uma nação, exceto resistência belicoide da parte da vítima. É óbvio que para renunciar-se à guerra será necessário estabelecer um reino da lei entre as nações de modo tão firme quanto foi estabelecido entre os indivíduos. A realização completa deste ideal está até o momento distante, dado que envolverá a dissolução das forças armadas nacionais exceto no grau exigido para suprimir a desordem civil. Um governo mundial terá que ser federal e terá que ter uma constituição incorporando o princípio que deve controlar todas as federações, a saber, que o governo federal se ocupa apenas dos atos externos dos estados constituintes ou, de qualquer modo, apenas dos atos que afetam muito diretamente os interesses dos outros estados. Com respeito aos assuntos internos de cada estado, o princípio do nacionalismo deveria prevalecer. Cada estado deveria ter o direito de estabelecer qualquer religião que preferir ou permanecer teologicamente neutro. Cada estado deveria ter o direito de estabelecer taxas alfandegárias. Cada estado deveria ter o direito a qualquer forma de governo que preferir: monárquico, democrático, totalitário, ou o que for. Cada estado deveria ter o direito de estabelecer qualquer tipo de educação que preferir, ou até dispensar a educação totalmente. Acho, no entanto, que com respeito à educação o governo federal deveria ter certos direitos de supervisão. Nelson deu a seus aspirantes à marinha três preceitos: ter palavra, falar a verdade e odiar os franceses como o demônio. Um governo internacional deveria ter o direito de objetar a este terceiro preceito se incorporado no sistema de educação nacional.


Do ponto de vista cultural, como disse acima, o nacionalismo tem grande mérito. As amplas uniformidades que cresceram num mundo cosmopolita são inimigas da arte e da literatura e tendem a ser opressoras do jovem talento. Nos grandes dias da Grécia e da Itália Renascentista, um homem podia ascender à eminencia em sua própria cidade e ser honrado por ela como um trunfo na rivalidade cultural com outras cidades. A Grécia antiga e a Itália renascentista igualmente, após espantosas contribuições à cultura, caíram por falta de unidade política. Para a cultura não sofrer, algum modo deve-se encontrar de combinar independência cultural com união política. Não sei se a variedade cultural que eu gostaria de ver preservada se provará possível num mundo onde o industrialismo, a educação estatal e o fácil transporte se tornaram universais. Tem havido até o momento características distintivas dos ingleses, dos franceses, dos alemães, dos italianos e estas características distintivas contribuíram aos méritos de seus homens mais eminentes. Leonardo não poderia ter sido se não italiano; Voltaire não poderia ter sido se não francês; Goethe não poderia ter sido se não alemão; e Shakespeare não poderia ter sido se não inglês. Se estes grandes homens tivessem sido esmagados pelas circunstâncias e a educação precoce a um nível morto de uniformidade, eles não teriam sido tão grandes como de fato foram.

Mas não é só com repeito a uns poucos indivíduos eminentes que a cultura nacional é importante. Quase qualquer tipo de excelência estética depende de uma longa tradição que tenha produzido sensibilidade a nuances de pouca importância utilitária. Um homem que sofre um impacto demasiado forte de uma tradição alheia é suscetível a perder o mérito de sua própria tradição sem adquirir os méritos da outra. Quando morei na China, me impressionei imensamente pela beleza das pinturas chinesas tradicionais, mas meus amigos chineses europeizados desprezavam estas pinturas dado que suas pinturas ignoravam a perspectiva. Essas tentativas que vi da parte dos pintores chineses modernos de pintar à maneira ocidental me pareciam ter perdido os méritos do Oriente sem adquirir os do Ocidente. Descobri o mesmo tipo de deterioração em questões mais cotidianas. A mobília chinesa tradicional era linda, mas a mobília chinesa ocidentalizada era hedionda. Talvez a propagação do industrialismo esteja tornando este tipo de declínio cultural inevitável. Talvez a unificação política e econômica, que se tornou necessária para a sobrevivência da raça humana, esteja tornando uma era de feiura universal inescapável. Se este é de fato o caso, é imensamente deplorável. Mas talvez, se a segura paz for estabelecida, o mundo se reverta a padrões menos utilitários do que deve ser admirado, e no curso do tempo diversidades de tradição novamente sejam toleradas e novamente se tornem benéficas. Entrementes, os perigos imediatos são tão grandes que tais considerações devem permanecer no plano de fundo.

A conclusão que nos é forçada é que no mundo moderno o nacionalismo é um grave mal e uma fonte de perigo aterradora e que, para escaparmos do desastre, devemos desenvolver o internacionalismo na esfera à qual ele pertence: a saber, a da economia, da política e da guerra. Todas as nações do mundo, tanto grandes como pequenas, pecaram em pôr seus próprios interesses acima do do mundo em geral. É de se esperar que elas continuarão a fazê-lo até o momento em que houver instituições internacionais fortes o bastante para insistirem nas decisões de questões controversas de acordo com o bem estar humano geral e não com a insolência desta ou daquela região particular. Alguns podem pensar que esta é uma esperança distante, mas é a única que oferece um futuro para nossa consternada espécie.


Autor: Bertrand Russell

Link para o original.

Luan Marques on sabfacebook
Luan Marques
  • Antonio Porto Rosa Filho

    Esta história do governo mundial já é antiga e Russel só está dizendo o que a
    bíblia já sinaliza a muito tempo :
    “Estes tem um mesmo intento e entregarão o seu poder e sua autoridade a Besta.”
    Esta “besta” será um homem que resolverá os problemas do mundo todo e com isso
    exercerá fascínio sobre todos que habitam sobre a Terra, a ponto de países e nações
    entregarem o controle de tudo em suas mãos, não por força nem por violência.

    • Luan Rafael

      Sim. Que idiota esse tal de Russell. Queimando seus neurônios fazendo uma análise cautelosa histórica, política, econômica e cultural sobre a questão do nacionalismo e do internacionalismo, quando ele podia simplesmente contornar toda essa complicação e chegar à certeza sobre essas questões lendo, no seu livro mágico favorito, os devaneios escatológicos de um judeu do século I que teve uma good que virou bad trip, com direito a dragões, gafanhotos mutantes, bestas com um superávit de cabeças e olhos, engolimento de espadas, e culminando punições moralistas sádicas e utopismo arroz-com-feijão.

      • Antonio Porto Rosa Filho

        Concordo com você, ele é um tremendo idiota.
        Achar que o comunismo é algo útil e bom.
        A magia da cortina de ferro, manchada de sangue, caiu na cabeça de muita gente.
        Os textos que você colocou de Russel é que são úteis á sociedade.

        • Luan Rafael

          p:os escritos de Russell sobre o comunismo russo são inúteis.

          q: os escritos que descreve as visões de João de Patmos são úteis para uma discussão sobre nacionalismo vs. internacionalismo.

          Suponha que p é verdade.

          O que se segue da verdade de p para a verdade de q?