Bule Voador

“Por que os odiamos e por que os combatemos”, segundo o Estado Islâmico

O que segue é a tradução de uma declaração, ostensivamente bem frustrada e bem articulada, da última edição da revista oficial do Estado Islâmico, Dabiq, sobre as motivações para a sua violência. Como se pode ver abaixo, segundo eles, as mesmas são explicitamente teológicas. Lê-la é importante tanto como um exercício de empatia (de ver o mundo pelos olhos deles) quanto como um modo de fazer cair a ficha sobre algo que muitos negam incessantemente: Que a crença religiosa é um motivador potente da violência islamista (quem deseja impor o Islã à sociedade) jihadista (quem deseja fazê-lo por meios violentos). Esta é a articulação deles das suas próprias motivações. Embora o fenômeno da confabulação (e vários outros) na psicologia demonstre que podemos estar radicalmente errados sobre por que fazemos o que fazemos, quando os relatos de alguém sobre suas motivações explicam muito bem o seu comportamento, enquanto outras explicações chamadas de “mais profundas” não tanto, isso ao menos é boa evidência para os negadores considerarem que eles sejam sinceros no que dizem.


Pouco depois do abençoado ataque a uma boate cruzada sodomita pelo mujahid Omar Mateen, políticos americanos foram rápidos em pular para as luzes dos holofotes e denunciar o tiroteio, declarando-o um crime de ódio, um ato de terrorismo e um ato de violência sem sentido. Um crime de ódio? Sim. Os muçulmanos sem dúvida odeiam os sodomitas liberalistas, assim como qualquer outra pessoa com um pingo de fitrah (natureza humana inata) ainda intacta odiaria. Um ato de terrorismo? Com certeza absoluta. Os muçulmanos foram ordenados a terrorizar os inimigos descrentes de Alá. Mas um ato de violência sem sentido? Pensar-se-ia que o ocidental mediano, a esta altura, teria abandonado a afirmação batida de que as ações dos muhajidin — que declararam repetidamente seus objetivos, intenções e motivações — não fazem sentido. A não ser que você verdadeira — e ingenuamente — creia que os crimes do Ocidente contra o Islã e os muçulmanos, seja insultar o Profeta, queimar o Corão, ou travar guerra contra o Califado, não provocarão uma retaliação brutal dos muhajidin, você sabe muito bem que ataques como os executados por Omar Mateen, Larossi Aballa e muitos outros antes e depois deles em vingança pelo Islã e os muçulmanos fazem completo sentido. A única coisa sem sentido seria não haver nenhuma retaliação violenta e feroz em primeiro lugar!

Muitos ocidentais, no entanto, já estão cientes de que afirmar que os ataques dos muhajidin são sem sentido e questionar incessantemente por que odiamos o Ocidente e por que os combatemos nada mais é que uma encenação política e uma ferramenta de propaganda. Os políticos o dirão independentemente do quanto contraria os fatos e o bom senso só para acumular tantos votos quanto puderem para o próximo ciclo de eleição. Os analistas e jornalistas o dirão a fim de não se tornarem um alvo por dizerem algo que as massas julgam “politicamente incorreto”. Os “imames” apóstatas no Ocidente aderirão ao mesmo cliché batido para evitar uma reação das sociedades descrentes em que escolheram residir. O negócio é que as pessoas sabem que é tolice, mas continuam repetindo mesmo assim porque estão com medo das consequências de desviarem do roteiro.

Há exceções entre os descrentes, sem dúvida, pessoas que declararão sem pudor que a Jihad e a lei da Shari´ah — assim como tudo o mais julgado tabu pela multidão do Islã-é-uma-religião-pacífica — são de fato completamente islâmicos, mas eles tendem a ser pessoas com muito menos credibilidade que são pintadas como uma margem social, daí suas vozes são ignoradas e um amplo segmento das massas ignorantes continua a crer na narrativa falsa. Desse modo, torna-se importante para nós esclarecer ao Ocidente em termos inequívocos — novamente — por que os odiamos e por que os combatemos.

1. Odiamos vocês, antes de mais nada, porque você são descrentes; vocês rejeitam a unidade de Alá — quer se deem conta disso ou não – por fazerem-Lhe parceiros em adoração, vocês blasfemam contra Ele, por afirmarem que Ele tem um filho, vocês fabricam mentiras contra os Seus profetas e mensageiros e se entregam a todo tipo de práticas demoníacas. É por esta razão que nos foi mandado declarar abertamente nosso ódio por vocês e nossa inimizade por vocês. “Já houve para vocês um excelente exemplo em Abraão e aqueles com ele, quando disseram ao seu povo ‘Deveras, dissociamo-nos de vocês e de tudo que adoram que não Alá. Rejeitamos vocês e surgiu, entre nós e vocês, inimizade e ódio para sempre até que você creiam somente em Alá'” (Al-Mumtahanah 4). Ademais, assim como sua descrença é a razão principal pela qual os odiamos, sua descrença é a razão principal pela qual os combatemos, como nos foi mandado combater os descrentes até que eles se submetam à autoridade do Islã, seja por tornarem-se muçulmanos, seja por pagarem a jizyah — para aqueles com esta opção — e viverem em humilhação sob o governo dos muçulmanos. Assim, ainda que deixassem de nos combater, o melhor dos cenários para vocês num estado de guerra seria suspendermos nossos ataques contra vocês — se o julgássemos necessário — a fim de nos concentrarmos em ameaças mais próximas e imediatas, antes de por fim retomarmos nossas campanhas contra vocês. Além da opção de trégua temporária, este é o único cenário provável que lhes traria uma suspensão fugaz de nossos ataques. De modo que, no fim das contas, vocês não podem trazer uma suspensão indefinitiva a nossa guerra contra vocês. No máximo, poderíamos somente delongá-la temporariamente. “E combatam-nos até que não haja fitnah [paganismo] e [até que] a religião, toda ela, seja por Alá” (Al-Baqarah 193).

dabiq 1(Descrença e paganismo cristãos.)

2. Odiamos vocês porque suas sociedades laicas liberais permitem exatamente as coisas que Alá proibiu ao mesmo tempo que banem muitas coisas que Ele permitiu, um problema que não os preocupa porque vocês separam a religião do estado, assim concedendo autoridade suprema a seus caprichos e desejos por meio dos legisladores em que votam para exercer poder. Ao fazê-lo, vocês desejam roubar de Alá o Seu direito de ser obedecido e desejam usurpar este direito para si próprios. “A legislação não é se não para Alá” (Ysuf 40). Seu liberalismo laico os levou a tolerar e até apoiar os “direitos dos gays”, a permitir que álcool, drogas, fornicação, jogatina e usura se tornassem generalizados e a encorajar as pessoas a zombar daqueles que denunciam estes pecados e vícios imundos. Desse modo, travamos guerra contra vocês para impedir que propaguem sua descrença e devassidão — seu secularismo e nacionalismo, seus valores liberais pervertidos, seu Cristianismo e ateísmo — e toda a depravação e corrupção que eles implicam. Vocês tornaram sua missão “libertar” as sociedades muçulmanas; tornamos nossa missão combater sua influência e proteger a humanidade de seus conceitos desencaminhados e seu modo de vida degenerado.

dabiq 2(Um exemplo da perversão que o Ocidente busca propagar.)

3. No caso da margem ateísta, odiamos vocês e travamos guerra contra vocês porque vocês descreem na existência do seu Senhor e Criador. Vocês testemunham a complexa composição das criaturas, e as espantosas e inexplicáveis leis físicas que governam o universo inteiro, mas insistem que tudo surgiu pelo acaso e que devemos ser criticados, escarnecidos e ostracizados por reconhecermos que os espantosos sinais que testemunhamos dia após dia são a criação de um Criador Sábio e Onisciente e não o resultado de uma ocorrência acidental. “Ou foram eles criados pelo nada, ou foram eles criadores [de si próprios]?” (Attur 35). Sua descrença em seu criador ainda os leva a negar o Dia do Juízo, afirmando que “só se vive uma vez“. “Aqueles que descreem afirmaram que nunca serão ressurretos. Digam ‘Sim, por meu Senhor, vocês certamente serão ressurretos; então certamente serão informados do que fizeram. E isso, para Alá, é fácil” (At-Taghabun 7).

4. Odiamos vocês pelos seus crimes contra o Islã e travamos guerra contra vocês para puni-los pelas suas transgressões contra nossa religião. Contanto que seus súditos continuem a escarnecer de nossa fé, insultar os profetas de Alá — incluindo Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé — queimar o Corão e abertamente vilificar as leis da Shari´ah, continuaremos a retaliar, não com slogans e cartazes, mas com balas e facas.

5. Odiamos vocês pelos seus crimes contra os muçulmanos; seus drones e caças bombardeiam, matam e mutilam nosso povo mundo afora, e seus fantoches nas terras usurpadas dos muçulmanos oprimem, torturam e travam guerra contra qualquer um que exija a verdade. Desse modo, combatemos vocês para os impedir de matar nossos homens, mulheres e crianças, para libertar os que vocês aprisionam e torturam e vingar-nos pelos incontáveis muçulmanos que sofreram como resultado de seus atos.

dabiq 3(Os cruzados continuam sua guerra contra o Islã.)

6. Odiamos vocês por invadirem nossas terra e os combatemos para repeli-los e afastá-los. Contanto que reste um centímetro de território para reivindicarmos, a jihad continuará a ser uma obrigação pessoal sobre todo muçulmano.

O que é importante para entender aqui é que, embora alguns possam argumentar que as suas políticas externas são a medida que move nosso ódio, esta razão particular para odiá-los é secundária, daí a razão pela qual a abordamos no fim da lista acima. O fato é que, ainda que vocês parassem de nos bombardear, nos aprisionar, nos torturar, nos vilificar e usurpar nossas terras, continuaríamos a odiá-los porque nossa razão principal para odiá-los não deixará de existir até que vocês adotem o Islã. Ainda que você pagassem a jizyah e vivessem sob a autoridade do Islã em humilhação, continuaríamos a odiá-los. Sem dúvida, deixaríamos de combatê-los então, assim como deixaríamos de combater quaisquer descrentes que entrem em convênio conosco, mas não deixaríamos de odiá-los.

O que é igualmente se não mais importante para entender é que combatemos vocês, não simplesmente para puni-los e detê-los, mas para trazer-lhes verdadeira liberdade nesta vida e salvação na Outra, liberdade de serem escravizados a seus caprichos e desejos assim como aos de seu clero e legislação, e salvação por adorar somente seu Criador e seguir seu mensageiro. Combatemos vocês a fim de tirá-los das trevas da descrença e trazê-los para a luz do Islã, e para libertá-los das restrições de viver só pela vida mundana de modo a desfrutarem tanto das bençãos da vida mundana como da beatitude da Outra.

O ponto da questão é que há sim uma razão para o nosso terrorismo, beligerância, crueldade e brutalidade. Por mais que algum jornalista liberal gostasse que vocês acreditassem que fazemos o que fazemos porque simplesmente somos monstros com nenhuma lógica por trás de nosso curso de ação, o fato é que continuamos a travar — e agravar — uma guerra calculada que o Ocidente pensou que acabou há vários anos. Continuamos a arrastar vocês mais e mais para dentro de um pântano de que vocês pensaram que já haviam escapado só para se darem conta de que estão atolados ainda mais fundo em suas águas turvas… E assim o fazemos enquanto lhes oferecemos uma saída em nossos termos. Então vocês podem continuar a crer que aqueles “terroristas desprezíveis” odeiam vocês por causa dos seus lattes e suas Timberlands, e continuar a gastar ridículas quantidades de dinheiro para tentar prevalecer numa guerra que não podem vencer, ou vocês podem aceitar a realidade e reconhecer que nunca deixaremos de odiá-los até que adotem o Islã, e nunca deixaremos de combatê-los até que estejam prontos para saírem do pântano da beligerância e do terrorismo pelas saídas que oferecemos, as próprias saídas propostas pelo nosso Senhor para os Povos da Escritura: Islã, jizyah ou — como um último meio de suspensão fugaz — uma trégua temporária.


Recomendo ouvir a análise da edição feita por Sam Harris que pode ser encontrada aqui.

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Luan Marques