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Feminismo Vitoriano |Bule Voador

A Era Vitoriana por muitos é reconhecida como um período de classe e espartilhos, estes que poderiam representar as exigências da época: Sufocamento.
As mulheres da alta classe eram “abençoadas” com o título de “anjos do lar.” Encantadoras, castas, puras, pálidas, incorruptíveis, voz passiva, submissas decoravam versículos bíblicos, participavam de encontros paroquiais, literalmente ensaiavam desmaios. Para a sociedade eram incapazes de exercer profissão, pois eram instáveis emocionalmente, menores civis, fragilíssimas. Negócios ou ciência era esforço mental demais para suas cabecinhas. Não se deveria exigir muito delas. A dependência era correspondente com a condescendência de seu caráter “lúdico”, imaginativo, fora de si. Uma mulher “histérica” era apenas uma mulher. Se lidava com crianças em corpos de adultos.
Uma mulher médica ou cirurgiã?
Nem em sonho.

Por ironia o feminismo tem se demonstrado uma faceta da mulher vitoriana. Mulheres que exigem demais dos outros, que apesar de causa legítima e razão de ser, reagem como se o Estado da Arte lhes justificasse toda e qualquer reação lhes tornando inimputáveis tal qual uma Lady. Pode-se xingar as pessoas, lhes negar didatismo ou voz “porque são mulheres, porque a causa justifica”, como medievais justificavam torturas para a purificação, como qualquer ideologia “sublime” se satisfaz enquanto os pobres mortais ainda despreparados em onisciência e iluminação não conseguem concebê-las. As pessoas tem dever moral de serem penicos de ofensas.

Incentivam a segregação, lugares seguros (safe space) para lhes proteger, pois são extremamente quebradiças diante dos homens e dos perigos do mundo convivendo apenas entre mulheres que se amam (não parece narrativa de conto infantil?), mas que transformam-se em algozes em poucos segundos quando alguma discorda de suas posições sagradas: “Biscoiteira”.

São perfeitas e puras. O seu interior é imaculado. Qual a serventia de investigar acusações de crimes? Elas nem mentem. Nunca.
Quem se importa se as mentiras põem em risco a palavra da mulher em casos factuais? Quem se importa sem em casos verídicos ninguém irá acreditar?
Importa mesmo é encontrar culpados e “direitos humanos para humanos direitos.”

Emocionais. Incrivelmente emocionais já que o que importa é apenas a vivência, a subjetividade e o exagero do pânico moral transmitido e absorvido “telepaticamente” já que muitas apenas se contaminam com narrativas tóxicas e sensacionalistas. Ao invés de serem incentivadas a superar o abusos e traumas sob cuidados de um profissional fomentam criando verdadeiros “monstros de medo”, capazes de culpar qualquer árvore, graveto ou sombra mal posicionada, pois todos são possíveis agressores. Não se ofendem apenas com o preconceito, mas com o esforço do argumento, das críticas, do rigor e até mesmo da DÚVIDA honesta e despretensiosa.

Os ensaios de desmaio agora são “TRIGGER WARNING“, SAFE SPACE, GASLIGHTING, TOKEN, DISFORIA, “não me toquem”, “não me olhem”, “não duvidem de mim”.
Mas há uma diferença entre as vitorianas e as feministas atuais: As do passado não podiam sentir prazer sexual, era indecoroso, vulgar e corrompia suas angelicalidades. As de hoje exigem liberdade sexual, sensualidade sem serem rechaçadas por isso. E elas tem razão em lutar por isso. O problema é pensarem que não estimulam interesse, atração e esperam que ninguém as olhe, as admire iguaizinhas as vitorianas que não podiam trocar olhares com qualquer homem estranho da rua, pois era falta de respeito. Querem uma sexualidade empoderadora, mas plena de medo. Em nenhuma civilização a imposição sexual deve ser aceita, mas é da nossa responsabilidade saber dizer “não” corajosamente quando estamos propositalmente nos expondo em risco e cabe aos homens ter a decência de aceitá-lo, submeter-se a recusa. Eu não penso que homens em média sabem reconhecer muito bem seus limites, no entanto nós somos capazes na maioria das vezes em colocá-los em seus devidos lugares.
Se as mulheres são tão fracas, obviamente os homens são assim tão fortes? Hoje eles não são o que me parecem há um século. Os homens atuais parecem tão levianos quanto nós, cabe a cada um interpretar isso como se fosse uma vitimização dos problemas e limitações masculinas ou reconhecimento do nosso poder e liberdade atual.

Sigourney Weaver

Nunca me esqueço de uma reclamação de uma feminista que após postar um vídeo dançando dança do ventre, um homem veio elogiá-la e em disparada achou um disparate o namorado não “defendê-la”. Do que? Dum elogio virtual? Ela precisa de um macho protetor 24h por dia? Ela não poderia se posicionar de maneira assertiva? Independente? Se tentasse defendê-la seria capaz também de ser acusado de paternalismo. Defendê-la nesse caso, seria tão inútil e estúpido quanto puxar uma cadeira para uma mulher por cavalheirismo. Estamos retroagindo? Há possibilidades futuras de começarmos a exigir um ressarcimento masculino em jantares e moteis pela opressão histórica da mulher?
O “lugar seguro” não existe, pois se os homens são indiscutivelmente para muitas ativistas possíveis agressores estejam dispostas a conviver com aflição e pânico, pois estão definitivamente em todos os locais: Escolas, TV, filmes, livros, mercados, praças, ruas, política, medicina, praias, jardinagem, famílias e até “embaixo da sua cama tentando puxar o seu pé”

O mundo dos homens historicamente foi difícil, exigente, cruel e lhes deu independência porque o risco, a responsabilidade da maioridade era paga (mesmo quando eles não queriam tal responsabilidade e liberdade!!) e é por isso que se exige tanto das mulheres em argumentos, fundamentos, calma e clareza, pois a “colher de chá” no mundo deles é mais rara. Homens são zombados quando demonstram sinais de “café com leite”.
Simone Beauvoir disse no 1° vol Segundo Sexo: “A sina dos homens é ser forte, a das mulheres é ser fraca.”

Um movimento que deveria se alimentar das exigências e minúcias para alcançar e superar qualquer limite estipulado acusa e despreza o conhecimento desenvolvido sob suor com “academismo, elitismo, produções patriarcais.”

Um movimento que antes foi e ainda por alguns é visto como de mulheres fortes de “grelo duro”, tornou-se um antro de choro, dor, divãs que se tornaram palanques, e marianismo. Marianismo? Sim. O valor de que mulheres precisam ser mártires, que ascendem sob o sofrimento e dor. Os traumas são troféus.
Um movimento que estimula as pessoas pensaram que são melhores a cada degrau que descem, elas sobem. Eis, o “oprimômetro”:
(1)Mulher;
(2)Negra;
(3)Lésbica;
(4)Trans;
(5)Traumas;
Alguns podem interpretar que ignoro opressões institucionais e sistemáticas e lhes digo que estão errados, mas que somos mais que categorias hipersensíveis.
Não é mais errado não ter status quo baixo, é belo e moral. Não deve ser superado, precisa ser endeusado, respeitado, desejado.
Porque é através disso que poderemos dar valor às opiniões e indivíduos.

mulher

O livro sci fi Fahrenheit 451 narra a história de uma sociedade em que bombeiros ironicamente queimam livros e que chega a temer poesias. Num dado momento mulheres tem a certeza dos seus perigos após lerem algumas poucas palavras de um livro de versos simples, pois as fazem chorar, entrarem em contato com suas crises existenciais, dúvidas. As poesias são perigosas, pois desestabilizam. Estamos tão longe desta distopia?

O feminismo virou uma bolha protecionista de mulheres hipersensíveis que não aguentam contestações públicas mesmo quando o que elas dizem: É público.
Liberdade de expressão é isso: Falar o que quiser e ter de aguentar as consequências póstumas independente do grupo que se faz parte.
Homens quando escrevem livros, desenvolvem teorias as vezes por décadas podendo ser refutados em poucos anos após e ainda com títulos referenciados à suas obras: “Uma resposta ao fulano de tal.” Não há pena os impedido de criticá-los incisivamente. Isso é ter crédito no meio político, literário, científico, adulto: Ser criticado. Pôr-se em risco.
Mas atualmente se se critica devidamente com respeito e dedicação autores de movimentos minoritários se trata de exposição de mina/da mulher negra, humilhação, machismo, indelicadeza. Antigamente isso se chamava debate, agora é motivo para desespero.
Alguém pode pensar que vejo o movimento feminista como vitimista em si mesmo e não é isso: Eu penso que ele pode se tornar isso.

Não existe liberdade sem responsabilidade e esse é  um dos nossos eternos e mais conflituosos dilemas como diz Bauman: Liberdade x Segurança. Se não quer dúvidas ou rebeldia, autonomia de pensamentos diante de vossas posições e opiniões não as manifeste e viva sempre acalentado, seguro no silêncio e passividade.
É impossível conquistar o mundo sem riscos, pedras, obstáculos e o mínimo de questionamentos. O ser humano quer razões, respostas. Dê-lhes conhecimento, motivos e não ordens.

Finalizo com um os melhores trechos de Voltaire:

A natureza diz a todos os seres humanos: fiz com que todos vocês nascessem fracos e ignorantes para vegetar durante alguns minutos sobre a terra e para fertilizá-la com seus cadáveres.
Uma vez que são fracos, busquem socorro; já que são ignorantes, esclareçam-se e busquem apoio. Quando todos vocês tiverem a mesma opinião, coisa que certamente não há de acontecer nunca, caso só haja um único indivíduo com opinião contrária, vocês deverão perdoá-lo: porque sou eu que o faço pensar como pensa.
Eu dei a todos vocês braços para cultivarem a terra e uma minúscula luz de razão para conduzi-los; coloquei em seus corações um germe de compaixão para que todos vocês se ajudem mutuamente a suportar a vida. Não sufoquem esse germe, não o corrompam, compreendam que ele é divino e não substituam a voz da natureza pelos miseráveis furores escolares.

Tratado sobre a tolerância, 1763

Glenda Varotto
Formada em publicidade e propaganda ao invés de seguir seus objetivos passionais. Bailarina clássica e jazz dance dos 12 aos 22 com muita dor e amor.
Escritora amadora de poesias e com um conto publicado.

Com esse trecho não há nada do que esconder, sonhadora e idealista, apesar de ao mesmo tempo assombrada por sentimentos niilistas motivados pela consciência da nossa natureza.
  • AntonioOrlando

    Parabéns pelo texto! Se as mulheres derem chance, os homens irão se harmonizar com as expectativas delas e elas com as deles. Temos que acabar com os mundos de “Luluzinhas” e “Bolinhas” e, sobretudo, criar as crianças, meninos e meninas, sem colocá-los cada um em seu gueto. O conhecimento, ou contato, com as idiossincrasias de cada um, home e mulher, os preparara para um convivencia

  • Igor

    Fui agraciado com esse belíssimo texto, com uma reflexão extremamente lúcida sobre o que se tornou o feminismo atualmente. Me acendeu até uma pequena chama de esperança de uma possível mudança do feminismo, largando essas bandeiras intolerantes, hiperprotetivas, supralegais e até misândricas.

    Parabéns!

  • Rafael Monico

    O feminismo é a coisa mais cooptada que existe. Poucas coisas servem tão bem aos interesses da direita como o feminismo. Logo logo vamos ter privatização de presídios aqui no Brasil, na maior parte dos divórcios a mulher fica com as crianças e o homem com a pensão. A maioria (95% eu acho) dos mendigos são homens (e negros). Os homens têm muito maior incidência de vícios em todas as drogas que as mulheres. Quase via de regras os homens depois de velhos (leia-se: que não pode mais prover sustento) são abandonados pela família…..

    Ver isto:
    http://www.huffingtonpost.com/2012/09/11/men-women-prison-sentence-length-gender-gap_n_1874742.html

    E isto (pra descontrair):
    http://carceraria.org.br/wp-content/uploads/2012/09/relatorio-mulherese-presas_versaofinal1.pdf

    E estou pegando super leve aqui. Isso foi só uma cavucada de 5 min no pai google (opa, mãe google, matei 5 mulheres com esse palavreado). Escolha o seu viés: Bolsonaro, Olavo, Feminismo, Petismo, MRA (Men Right Activist), Livre Mercado, Comunismo, Anarquismo, Anarcocapitalismo, enfim, a lista vai longe….. Note que todos esses “vieses” são de fundo político, em maior ou menor grau.

    Saudade da década de 90 quando os sugestionáveis não tinham o palanque da internet e acreditavam em óvnis…….

  • Comecei a série “O Puritano-Feminismo” em junho de 2013, justamente mostrando como o pior do Conservadorismo se une ao pior do Feminismo: http://avezdoshomens.blogspot.com.br/search/label/puritano-feminismo. Uma feminista publica “Feminismo Vitoriano” três anos depois no Bule Viadô. Hua, hua, hua, hua, hua!