Bule Voador

A Ética Cristã

Muitos cristão professam encontrar nos ensinamentos morais de  Jesus as respostas para todas as questões morais da vida modera. Desnecessário dizer, Jesus abordou pouquíssimas das preocupações morais da sociedade atual. Por exemplo, ele não disse nada diretamente sobre a moralidade ou imoralidade do aborto, a pena de morte, guerra, escravidão, contracepção, ou discriminação social ou racial. Infelizmente, não é claro o que se pode deduzir sobre estes tópicos a partir de seus ditos ou de sua conduta prática. Sua doutrina de não resistir ao mal sugere que ele seria contra todo tipo de guerra, porém seu comportamento violento contra os cambistas nos templos sugere que ele pode considerar a violência como uma causa santa justificada. Seu dito “ame seu vizinho”, que implica amar seus inimigos, sugere que ele seria contra a pena de morte, porém suas ameaças ao fogo do inferno aos pecadores sugere que às vezes ele possa considerar a morte ou outra punição violenta como apropriada.

Jesus não faz nenhum pronunciamento explícito sobre questões morais relacionadas ao socialismo, democracia, tirania e pobreza e o que pode-se inferir a partir de algumas coisas que ele diz parece estar em conflito com outras coisas. Considere sua atitude contra a pobreza.  Sua defesa de vender tudo e dar aos pobres (Lucas 18:22) pode sugerir que ele se opunha à pobreza e queria eliminá-la. Entretanto, quando uma mulher usou um unguento caro na cabeça — e assim pudendo ser vendidos e dado o dinheiro aos pobres –, ela foi repreendida por  discípulos, e Jesus a defendeu dizendo que “você tem sempre os pobres com você” (Mateus 26:11). Ele também parecia defender a pobreza material afirmando que um homem rico não pode entrar no Reino dos Céus (Mateus 9:23-24) e também que os pobres são abençoados e que deles é o reino dos céus (Lucas 6:20).

Em alguns casos, o silêncio de Jesus sobre a moralidade de uma prática pode só pode ser interpretada como uma aprovação tácita. Por exemplo, embora a escravidão fosse comum no tempo de Jesus, não há nenhuma evidência de que ele atacou a prática. Como Morton Smith observou (*):

Havia inúmeros escravos do imperador e do estado romano; o Templo de Jerusalém tinha escravos; o Sumo Sacerdote possuía escravos; todos os ricos e quase todo a classe média possuíam escravos. Tanto quanto nos é dito, Jesus nunca atacou esta prática. Ele entendeu esse estado de coisas como garantida e moldou suas parábolas em conformidade. Como Jesus coloca, o principal problema para o escravo não é para se libertar, mas para ganhar elogios de seu mestre. Parece ter havido revoltas de escravos na Palestina e na Jordânia na juventude de Jesus; e um líder milagroso de uma tal revolta teria atraído um grande número de seguidores. Se Jesus tivesse denunciado a escravidão, deveríamos quase certamente deveríamos ter indícios disso. Nós não temos estes indícios, então a suposição mais provável é que ele não disse nada a respeito.

Além disso, se Jesus tivesse sido contra a escravidão, é provável que o seus seguidores anteriores teriam seguido seus ensinos. No entanto, Paulo (1 Corínios 7:21,24) e outros escritores cristãos primitivos guiavam os cristãos para continuar a prática de escravidão.

Infelizmente, a aparente prática de aprovação tácita da escravidão de Jesus é obscurecida pela versão revisada e autorizada do Novo Testamento de uma tradição grega da palavra “doulos” como “servo” Por exemplo, na Versão Revisada Padrão, Jesus diz que o servo é como seu mestre (Mateus 10:25). Uma tradução mais exata seria que um escravo é como seu mestre.

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Fonte: Trecho do capítulo Christian Ethics, do livro The Case Against Christianity, escrito por Michael Martin

(*)Reirado do “Biblical Arguments for Slavery,” em Free Inquiry 7 (Spring 1987): 30.

Tradução: Cícero Escobar

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.
  • AntonioOrlando

    “Amai o teu próximo como a ti mesmo e a Deus sobre as coisas” – esse é o resumo da ética cristã.

  • Cícero

    “Jesus abordou pouquíssimas das preocupações morais da sociedade atual. Por exemplo, ele não disse nada diretamente sobre a moralidade ou imoralidade do aborto, a pena de morte, guerra, escravidão, contracepção, ou discriminação social ou racial. Infelizmente, não é claro o que se pode deduzir sobre estes tópicos a partir de seus ditos ou de sua conduta prática. “

    Ele foi totalmente contrário a esses coisas de modo direto ou implícito em seus ensinamentos nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus. Corroborando depois os apóstolos no restante do Novo Test.

    “Por exemplo, embora a escravidão fosse comum no tempo de Jesus, não há nenhuma evidência de que ele atacou a prática.”

    Há pelo menos dois textos onde Jesus condena mais expressamente a escravidão. O primeiro se encontra em Lucas 4:18-19, que diz:

    “O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para *proclamar libertação aos cativos*, e restauração da vista aos cegos, para *pôr em liberdade os oprimidos*, e para proclamar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:18-19)

    Aqui vemos claramente que Jesus era a favor da “liberdade aos cativos” e queria que os oprimidos fossem “postos em liberdade”. Embora este texto se entenda também de forma espiritual (i.e, liberdade das cadeias do pecado), é inevitável que a aplicação espiritual tenha um fundo de verdade natural, a qual é aqui concebida. Em outras palavras, pôr em liberdade os oprimidos espiritualmente só é algo positivo porque em sentido natural também o é. De outra forma, a aplicação espiritual perderia o sentido. O texto, portanto, claramente coloca Jesus contra o sistema de opressão e cativeiro em que aquelas pessoas estavam inseridas.

    O segundo texto em que Jesus condena a escravidão está em Marcos 10:42-45:

    “Mas Jesus chamou-os para junto de si, e disse: Sabeis que os que são reconhecidos como governadores dos gentios, dominam sobre os seus vassalos, e sobre eles os seus grandes exercem autoridade. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos. Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos’” (Marcos 10:42-45)

    É claro que na época do NT ainda existiam escravos, tal prática ainda estava inserida na condição social prevalecente naqueles dias, mas hoje não.
    Na verdade, foi a aplicação dos princípios bíblicos que derrotou a escravidão, começando na Inglaterra e outros países.
    No NT os ensinos de Jesus e apóstolos rejeitam de forma clara direta e aberta esta prática, com os ensinos de amor, justiça, bondade e liberdade.
    A libertação de Israel, que era escravo no Egito, tornou-se modelo de libertação de todos os escravos.
    O NT diz que todas as classes sociais em Cristo são iguais perante Deus Gl 3:28, e proíbe duramente este sistema maligno de comércio de almas e corpos humanos em Ap 18:13 com terrível juizo sobre eles Ap 17:18.

  • Dalton

    ”Sua doutrina de não resistir ao mal sugere que ele seria contra todo tipo de guerra, porém seu comportamento violento contra os cambistas nos templos sugere que ele pode considerar a violência como uma causa santa justificada.”

    Afirmação falaciosa, primeiramente, segundo a Bíblia, Jesus jamais usou alguma violência contra os cambistas, apenas afirmou que os expulsou, portanto, não pode-se afirmar que ele necessariamente bateu neles com o chicote,e o único ato violo, foi contra os bens materiais que estavam profanando o templo. Os cambistas não possuíam qualquer direito de estar vendendo coisas ali, já que o templo começou a desenvolver uma atividade errada de comércio em um lugar inapropriado, e Jesus, realizando a expulsão, voltou o templo para sua função verdadeira. Segundo, ele poderia ter uma outra justificativa para usar a suposta violência contra eles, esta justificativa é pessoal. Aquilo que quero dizer é que, é impossível concluir que tenha de ser realmente a violência justificada por esse ato de Jesus, pode ser várias coisas.
    “Seu dito “ame seu vizinho”, que implica amar seus inimigos, sugere que ele seria contra a pena de morte, porém suas ameaças ao fogo do inferno aos pecadores sugere que às vezes ele possa considerar a morte ou outra punição violenta como apropriada.”

    Outra afirmação falaciosa é essa “sugestão”, segundo a própria Bíblia, o inferno não existe, o que existe é a morte eterna e algumas traduções que trocam a palavra Seol e Geena por inferno, além de não especificar biblicamente o que é isto. Logo as ”ameaças” de Jesus não são uma ameaça de tortura e violência , mas sim de não receber a sua Graça Divina, esta, que não é algo retirado de alguém mas dado por Cristo, portanto, isto não é punição alguma, é apenas uma consequência da condição de pecador.

    Jesus aparentemente não falou da escravidão, se ele falasse algo diretamente, teria falado em forma de conteúdo moral. A moral, em si, deve ser baseada em princípios, Jesus afirmou os princípios da moral, esta que os teria como base, para assim evoluir junto com o indivíduo/cultura que os adotou, abordando várias coisas e seus aspectos a partir do ponto inicial. O princípio da moralidade para com os humanos é amar o próximo como a ti mesmo. Se as pessoas/culturas nas quais Jesus inseriu os princípios não se desenvolveram ao ponto de reconhecer a escravidão como maldade, certamente a culpa disso não é dele, já que não é Jesus o responsável pelo nosso crescimento moral, ele não veio ao mundo por causa disso.
    Se Jesus se pronunciasse contra a escravidão certamente ele e sua doutrina seriam muito mais perseguidos do que já foram, já que naquela época, quase todas as sociedades existentes se baseavam em escravismo, não possuir escravos não significaria a pobreza apenas do dono, mas o esfacelamento de toda a sociedade, e nesse contexto, Roma. Portanto, se ele falasse contra a escravidão, sua doutrina sequer teria nos chegado hoje em dia.
    E o não pronunciamento da parte de Cristo sobre isso não significa que ele necessariamente aprovasse a prática.