Bule Voador

A ciência comprova minha religião

Quando leio ou ouço isso me pergunto se a pessoa realmente compreende como a ciência funciona e se realmente sabe o que “provar” significa. Suspeito que não, que não sabem nada disso e, se sabem, desonestamente ignorcolheram. Pois bem, o que significa provar algo? Vejamos o que Sean Carroll tem a nos dizer:

Eu diria que a “prova” é o conceito mais mal-entendido em toda a ciência. Ele tem uma definição técnica (uma demonstração lógica de que certas conclusões seguem a partir de certas suposições) que difere muito da forma como o termo costuma ser utilizado em conversas casuais, que está mais próxima de significar “fortes evidências a favor de alguma coisa”. Há uma incompatibilidade entre a forma como os cientistas falam e a forma como as pessoas escutam, pois esses têm uma definição mais forte em mente. Seguindo esta definição, a ciência nunca prova nada! Então quando somos perguntados “Qual é a sua prova de que evoluímos a partir de outras espécies?” ou “Você pode realmente provar que o aquecimento global é causado por ação antrópica?” nós tendemos a titubear ao invés de simplesmente responder “É claro que podemos provar”. O fato de que a ciência nunca prova nada, mas simplesmente cria teorias cada vez mais confiáveis sobre o mundo, mas que ainda assim estão sempre sujeitas a atualizações e melhorias, é um dos aspectos chave do porquê a ciência é tão bem sucedida.

Bem, eu não conseguiria ser mais claro em relação a esse ponto. A ciência não (com)prova religião algum.

Os religiosos na maioria das vezes, ou negam completamente a ciência, ou desvirtuam-na para apoiar suas crenças. São raros (e isso eu digo com base no que vejo, leio e conheço) os casos de religiosos que têm uma atitude honesta para com a ciência, e, até, para com sua própria religião. Falarei aqui dos que desvirtuam a ciência – os que negam serão assunto para um próximo texto, quem sabe.

“Ciência cristã”, “criacionismo científico”, “mecânica quântica e espiritualidade”, esses são apenas alguns dos exemplos das tentativas desesperadas de dar status de “científico” para crenças sem respaldo nenhum, o que não passa de desonestidade. Mas precisamos analisar essa questão mais a fundo, buscar uma causa desse “apego” à ciência, dessa necessidade de uma fundamentação, o que é uma clara demonstração de fraqueza, já que só a fé deveria bastar.

Depois de centenas de anos combatendo a ciência e vendo que isso não surtia o efeito esperado, resolveu-se então desvirtuá-la para adequar-se às crenças religiosas. Aparentemente segue-se aquele ditado: “se não podes vencer o teu inimigo, então junta-te a ele”. A ciência tem prestígio e notoriedade, todo mundo e tudo quer ser “comprovado” pela ciência. Desde cosméticos a “detectores de maconha”. Já virou um jogo de marketing análogo ao do “gourmet”.

“A ciência tem nossa confiança e se algo é comprovado pela ciência necessariamente vai ter nossa confiança também”, é assim que marqueteiros sejam religiosos ou não, pensam. Usam do prestígio da ciência apenas para o que lhes convém e negam todo o resto – isso é uma falácia, escolha de evidências. E se a ciência “comprovar” que sua religião está errada? O que você faria? Negaria ou desvirtuaria a ciência? Aceitaria e mudaria sua opinião? Se você é um dos que diz ou pensa que a ciência comprova sua religião reflita sobre estas questões.

Em suma, quem diz que a ciência comprova essa ou aquela religião ou está enganado, ou está enganando, pois como já vimos, a ciência não prova nada, muito menos alguma religião. Dizer isso é querer o rótulo de científico para tornar suas crenças mais confiáveis e mais verídicas, é tentar ludibriar a mente das pessoas com um “cientificamente provado” tal qual fazem as propagandas de creme dental na TV. Prestem atenção quando alguém afirmar isso, procurem entender as motivações e os objetivos ocultos, mostrem a quem disser isso que não é bem assim. Afirmar isso é buscar no prestígio da ciência uma justificativa desesperada para ter alguma religião.

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Autor: Uelbert Alves

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.
  • Marcelo Gaio

    Sem dúvida a atitude mais honesta, inteligente e simples para com a ciência e a religião é tratar cada uma em separado. A melhor atitude tanto para ateus quanto para religiosos.

  • Antonio Porto Rosa Filho

    Mas se usarmos o mesmo critério para a evolução ele teria que ser descartada
    e não chamada de “fato”.
    Fato que eu acho uma grande desonestidade,
    mas nesse caso dizem que a ciência se corrige.
    Quando se encontra algo com milhões de anos mas que é idêntico ao atual,
    dizem que não precisou evoluir!!
    Precisar evoluir?
    Uma teoria que explica tudo, não explica nada.