Bule Voador

Olhando atrás da cortina

Recentemente, saiu nos jornais a notícia de que um segundo milagre realizado por Madre Teresa de Calcutá foi reconhecido pelo Vaticano. Isto me fez pensar detidamente sobre os milagres, que me passaram despercebidos por tanto tempo. Neste texto argumentarei que milagres não passam de erros de raciocínio e demonstrarei as falhas lógicas de se pressupor um milagre. Venham, vamos olhar o que tem atrás da cortina.

A Igreja Católica tem uma comissão de Inquérito1 que é encarregada de averiguar as alegações de milagres. Para que possa ser reconhecido como milagre, o veredito da investigação é que seja inexplicável à luz da ciência. O Oxford Dictionaries nos diz que milagre é “um evento que não é explicávecolherl por leis naturais ou científicas e, portanto, é atribuído a um agência divina (tradução própria)”2. Pressupor um milagre por sua “inexplicabilidade” nada mais é do que um erro de raciocínio, uma falácia clássica – que tem nome, a saber, de apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam). Supõe-se que algo é verdadeiro porque ninguém demonstrou ser falso. Aplicado à questão dos milagres, o problema se formularia assim:

Não se tem explicação cientifica ou natural de como tal evento aconteceu;

Logo, foi um milagre.

 Supondo que é inexplicável, a Igreja infere que é um acontecimento miraculoso, numa clara demonstração do “Deus das lacunas”. Dessa mesma forma, ufólogos assumem que luzes brilhantes no céu, desenhos em plantações e a construção das pirâmides são obras dos extraterrestres.

Se no século XVIII você usasse um equipamento que emitisse ondas de rádio que fossem captadas por outro equipamento, e assim pudesse se comunicar com outra pessoa à distância, isto seria um milagre? Pelo conhecimento que se tinha na época, seria um “evento não explicável por leis naturais ou científicas”. Suponho que ninguém que tenha prestado o mínimo de atenção às aulas de física – ou que já pesquisou sobre como uma ligação de celular funciona –, diria que isso é um milagre. O “inexplicado” não constitui um milagre, ou o que quer que seja. Como disse Carlos Orsi, “quanto mais ignorante o homem, então maior o número de milagres ele vê ao seu redor”.

Mas muitos aspectos do mundo natural, considerados miraculosos há apenas algumas gerações atrás, são agora inteiramente compreendidos pela física e pela química. Pelo menos alguns dos mistérios de nossos dias serão desvendados pelas gerações futuras. “O fato de não podermos ter no momento uma compreensão detalhada dos estados alterados de consciência em termos de química do cérebro, não é indicação maior da evidência de um mundo espiritual do que, antes de conhecermos o fototropismo e os hormônios das plantas, um girassol seguindo o curso do Sol pelo céu era prova de um milagre literal”.

E se um dia for explicado? E quando deixarmos de ser ignorantes? Deixa de ser milagre? Não, não dá para revogar um milagre, isto seria embaraçoso demais. É mais fácil fingir que não aconteceu nada ou usar alguma cortina de fumaça. Michael Shermer, em seu livro Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas, nos diz que o “inexplicado não é inexplicável”. A incapacidade de explicar algum evento não quer dizer que ele seja um milagre (ou extraterrestre), diz apenas que não sabemos e que talvez saibamos no futuro (como de fato várias vezes acontece).

É difícil imaginar uma questão mais incômoda do que como poderia um milagre (obra causada por Deus) deixar de ser milagre. Talvez alguns respondam dizendo que o erro foi na interpretação (apesar disso estar certo, não passa de uma desculpa para despistar o investigador), o que eu concordo. Basear sua interpretação em erros de raciocínio é fadar-se ao erro. Isso se torna um alerta oportuno para essa precipitada vontade de tachar um evento como milagre, para essa pretensão de mistificar a natureza. No futuro pode ser explicado, não podemos declarar como milagre apenas baseados na ignorância. Nada, portanto, pode ser declarado como milagre (ou extraterrestre) apenas baseado em nossa ignorância, é necessário evidência positiva.

Quando alguém pede a interseção divina em alguma questão e essa suposta interseção acontece, a pessoa ficará convencida de que o pedido dela causou o milagre. Do mesmo modo que ficaríamos convencidos que um remédio cura a gripe, quando melhoramos após tomá-lo. Parece-nos óbvio que uma coisa causou a outra, mas não é tão óbvio assim, pois estabelecer relação de causa e efeito é complicado.

Caímos constantemente em outro erro de raciocínio, o post hoc ergo propter hoc, que em tradução literal significa “depois disso, logo por causa disso”.

Pedi para Santo Antônio que me curasse;

Dias depois eu fui curado, quando já estava desenganado pelos médicos;

Logo, foi um milagre de Santo Antônio.

Ou, em termos mais simples: C aconteceu depois de P, logo P é a causa C.

É muito fácil vermos isso no nosso cotidiano. Por exemplo, quando assopramos os dados antes de jogá-los e conseguimos um bom resultado, intuitivamente acreditamos que assoprar os dados nos dá resultados positivos, i.e., que assoprar os dados causou um bom resultado. Um olhar mais atento – com lembranças das aulas de probabilidade – nos mostraria claramente que não há nenhuma causalidade entre assoprar os dados e ter bons resultados, tanto que, mesmo que assopremos os dados todas as vezes, nem todos os resultados serão positivos. Jogando vezes suficientes, um ou outro resultado corresponderá à nossa expectativa e isso reforçará nossa intuição de causalidade (contamos os acertos e ignoramos os erros). O fato de um evento – o suposto milagre – ter acontecido depois de outro – o pedido por um milagre – não implica uma relação de causalidade. “Correlação não implica causalidade”: apesar de ser uma frase bem conhecida, alguns parecem ignorá-la completamente.

Antes é preciso demonstrar que não foi uma coincidência, que não foi uma fortuita sequência de acontecimentos, e para isso uma experiência apenas está longe de ser suficiente. Para afirmar com um grau razoável de certeza que um milagre não foi uma coincidência precisaríamos que ele se repetisse algumas vezes, embora não seja isso o que acontece. Talvez Deus seja discreto e não fique fazendo milagres aqui e ali o tempo todo – isso daria impressão de um Deus incompetente que tem que intervir o tempo todo em sua obra –, ou talvez os milagres não passem de uma agradável e tentadora coincidência.

Stephen Downes, em seu Guia das Falácias, pontuou dois requisitos para se estabelecer uma relação causal:

Em regra, diz-se que C é a causa do efeito E se e só se:

  1. Geralmente, quando C ocorre, também E ocorre; e
  2. Geralmente, se C não ocorre, então E também não ocorre.

Pedidos de milagres acontecem a todo momento e aos montes, mas apenas alguns poucos são atendidos. Eu conheço várias pessoas que já pediram milagres com toda sua fé e eles nunca aconteceram – você provavelmente conhece alguém assim. Rezar e pedir um milagre (com toda a fé que se possa ter) não implica em milagre. A suposta causalidade entre pedir milagres e eles acontecerem não é coerente, nem constante. No meio de tantos pedidos, é quase certo que um ou outro “milagre” vai acontecer – estranho seria se fosse o contrário.

Quando C não ocorre, E acontece numa proporção similar, o que pode ser evidenciado com “milagres” que não foram pedidos (por que Deus realizaria um milagre que ninguém pediu e ignorar tantos pedidos devotos? Que critério ele usaria?).

Por fim, Downes acrescenta que

muitos especialistas requerem também que uma afirmação causal seja apoiada por uma lei da natureza. Por exemplo, a afirmação “riscar o fósforo é a causa da chama” é justificada pelo princípio “a fricção produz calor, e o calor produz o fogo”.

Que principio da natureza apoiaria um milagre? A resposta é clara e concisa: nenhum.

Olhando por trás da cortina, vimos que os milagres se baseiam em pressupostos falaciosos, são um ataque à inteligência humana e são uma ode à ignorância, pressupondo que, por não sabermos, é um milagre. Não passam de erros, erros que qualquer manual básico de lógica ajudaria a evitar (talvez se ignore os manuais de lógica nos Inquéritos católicos). Alegar que algo foi um milagre é negar-se a continuar a investigar, é uma não-explicação, um dar de ombros, um “sei lá”. Ora, não sabemos de muitas coisas, mas o que podemos fazer é continuar investigando. A ciência é gradual, podemos ansiar por uma verdade absoluta, mas ela sempre nos escapará.

Quando ouvirem dizer que um milagre foi reconhecido, lembrem-se: esse reconhecimento se baseia em erros, não tem validade. Afiem suas navalhas, usem suas reservas de ceticismos. Procurem investigações independentes. Questionem. Será que é realmente inexplicável? E se for, o que isso tem a nos dizer? Será que existe de fato uma causalidade? E se foi apenas uma coincidência? Os investigadores se fazem todas essas perguntas? Por que as investigações não estão abertas à análise dos céticos? Podemos levantar muitas questões, mas para nenhuma delas é dada uma resposta.

Para os que que alegam milagres, basta a “inexplicabilidade” e a sequência em que os eventos ocorreram, basta a ignorância, basta a coincidência, basta a fé. Quando a cortina cai em O Mágico de Oz, um farsante se revela franzino e amedrontado. De modo análogo, quando olhámos atrás da cortina da sacralidade dos milagres, eles se revelam falsos e errôneos. Uma casa que é edificada com falácias desmorona ao primeiro sopro da lógica.

Notas

[1] “§ 2. Os oficiais do Inquérito são: o Delegado Episcopal, o Promotor de Justiça, o Notário e, eventualmente no Inquérito sobre uma cura que se considera miraculosa, O Médico Pericial, ou o Técnico Pericial no Inquérito sobre um presumível de outro gênero.” Retirado de: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/csaints/documents/rc_con_csaints_doc_20070517_sanctorum-mater_po.html

 

[2] No original: “event that is not explicable by natural or scientific laws and is therefore attributed to a divine agency”

 

Referências:

ORSI, Carlos. O Livro dos Milagres: a ciência por trás das curas pela fé, das relíquias sagradas e dos exorcismos. Rio de Janeiro: Viera & Lent, 2014.

SHERMER, Michael. Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas: pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos. São Paulo: JSN Editora, 2011.

WESTON, Antony. A Rulebook for Arguments. 3rd ed. Indianapolis: Hackett Publishing Company, 2000.

Stephen Downes. Guia das Falácias Lógicas do Stephen, Universidade de Alberta, Canadá. endereço: http://www.onegoodmove.org/fallacy/welcome.htm

McGrew, Timothy, “Miracles”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2015 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/win2015/entries/miracles/>.

“Miracles,” by David Corner, The Internet Encyclopedia of Philosophy, ISSN 2161-0002, http://www.iep.utm.edu/miracles/

“Miracle”. Oxford Dictionaries. Oxford University Press. http://www.oxforddictionaries.com/definition/english/miracle

RationalWiki. Correlation does not imply causation. Dispónivel em: <http://rationalwiki.org/wiki/Correlation_does_not_imply_causation>.

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Autor: Uelbert Alves


 

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.