Bule Voador

Reflexão sobre racismo: Contextos e bonecos

Bonecos da empresa Paladone

Bonecos da empresa Paladone

Uma empresa britânica  confeccionou bonecos com penteados de variados estilos, todos eles projetados para limpar louça. São personagens masculinos e femininos que apresentam diferentes características, algumas relacionadas à cor da pele e à cultura pop de décadas atrás. Se consultarmos a linha completa do fabricante, encontraremos a representação de mulheres e homens, brancos e negros, rainhas e membros da guarda real inglesa, e também dançarinos de discotecas, cada qual inserido em seu estilo peculiar. Porém, quando telespectadores do programa Big Brother Brasil 16 flagraram o boneco negro, de penteado black power, exibido na cozinha como utensílio de limpeza que desempenharia a mesma função que uma “bucha de prato”, milhares de pessoas entenderam que aquele momento se configurou como racismo, em mais um dos lamentáveis episódios desse problema em nosso país. Entretanto quando alegam que a imagem do boneco afro possui teor racista, o que exatamente querem dizer? Que o fabricante é racista? Que o consumidor é racista? Ou que, simplesmente, quem não viu maldade naquilo também é racista? A princípio, a hipótese de que a empresa responsável pela criação dos bonecos seja racista me parece um equívoco, pois se ela tivesse a finalidade de degradar os negros, certamente não encontraríamos referência a diferentes culturas musicais, incluindo black music e rock in roll, na linha de bonecos fabricados.

Como não tenho visto muitos argumentos sendo defendidos de modo pacífico, tentarei elaborar ideias equilibradas com base nos comentários que circularam nas redes sociais. Não simpatizo muito com a estratégia do binarismo em tudo o que ocorre no mundo (é ou não é racismo), mas, em nome da claridade de pensamento, talvez eu acabe fazendo isso em um momento ou outro.

Entendo o racismo como sendo discriminação baseada nas características fenotípicas de um indivíduo. Já a discriminação, entendo ser a crença de que determinada pessoa detém caracteres físicos, morais ou intelectuais que a colocam em uma situação de inferioridade.

Um argumento bastante utilizado pode ser posto da seguinte forma: Se a exposição do boneco deixa alguém desconfortável, trata-se de uma exposição racista. O boneco causou desconforto a alguém, logo, sua exposição é racista.

O que se segue é o seguinte: Como objeto manufaturado, concedo que o boneco tenha causado desconforto a algumas pessoas. Meu problema é com a primeira premissa. Afirmar que algo causa desconforto a alguém não estabelece as condições necessárias e suficientes para definirmos o racismo. Talvez, devo admitir, isso seja uma condição facilitadora porque o desgosto da pessoa negra sugere (mas não encerra o debate) que há algo de errado na exposição do boneco. Porém, defender que toda sensação de desgosto é sinônimo de discriminação é alargar, ou até mesmo banalizar, o conceito de discriminação. É por isso que não está em causa o direito de nos sentirmos ofendidos. O que está em causa é que, uma vez que uma pessoa se sinta ofendida diante do boneco, isso não estabelece, automaticamente, um caso de racismo. Para chegarmos a uma conclusão desse nível, precisaríamos de informações mais específicas e concretas além de “achei ofensivo” ou “eu não gostei”.

Pode ser estranho, e quem sabe até constrangedor, que alguém não goste da representação estética do cabelo black power ilustrado no boneco. Mas, ainda assim, tal manifestação poderia ser interpretada como um tipo de preferência para estilos de penteado, e não um juízo de valor contra a pele negra. Não é óbvia a equivalência entre uma predileção estética e um juízo de valor moral, que pode ser discriminatório ou não. De fato, esta é uma confusão recorrente que, com frequência, cometemos em reflexões apressadas.

Em outro caso, aqueles que aprovam a venda e o uso do boneco não devem ser considerados, automaticamente, racistas. Algumas pessoas poderiam destinar o uso do boneco de forma inofensiva, como decoração ou limpeza (a menos que considerem limpar a casa ou lavar a louça como uma prática desonrosa); outras fariam referências discriminatórias contra o cabelo afro, como se cabelo crespo, mais comum aos negros, fosse ruim, e cabelo liso, mais comum aos brancos, fosse bom. Ocorre, no entanto, que a alegação de “gosto pessoal para cabelos” nem sempre serve de informação para acusar alguém de estar sendo racista ou preconceituoso, caso contrário estaríamos diante de uma espécie de Minority Report: É acusatório na medida em que presume a culpa, e o faz com evidências parcas.

Mas não nego que contexto do boneco afro tem certa relevância para o debate. Só que importa pouco se o tomarmos de forma apressada e persecutória. Observe a seguinte pergunta: É razoável acusar João de racismo só porque ele não sente atração sexual por mulheres negras? A resposta é que precisamos, no mínimo, conceder que não desfrutar de sexo com mulheres negras seja algo que João tem em comum com os racistas. Entretanto, ele não se torna, compulsoriamente, racista por causa disso. Em casos assim, é necessário refletir antes de acusar João de racismo, porque i) não temos acesso aos estados mentais do que ele verdadeiramente sente ou pensa sobre sua atração física por mulheres; ii) se for para falhar em nosso julgamento, é preferível fazê-lo com generosidade interpretativa, e não existe nenhuma generosidade em apontar o dedo contra uma pessoa e acusá-la de ser preconceituosa, quando não temos as evidências capazes de suportar nossas acusações.

Entretanto, existe um cenário mais evidente e consensual de racismo em relação ao boneco: A alegação consciente de que cabelo black power é ruim e só serve para substituir o bombril. Assim, o que está em causa é que o boneco com um penteado black power acaba sendo usado, infelizmente, como um símbolo de racismo e discriminação contra negros, embora ele não tenha sido fabricado com este propósito. Isso porque interpretação de uma coisa não é igual a essa coisa. E se começarmos a impedir que qualquer coisa com interpretação dúbia seja tolhida a preocupação pela isonomia de direitos se perde num vácuo de autoritarismo.

Um cenário menos evidente é reconhecer que racismo nem sempre é intencional. É possível que pessoas sejam racistas e preconceituosas sem sequer perceber, ou sem más intenções. Por exemplo: vê-se com frequência, em dados estatísticos, que os brancos são mais profissionalmente capacitados que os negros; então, ao receber dois currículos idênticos de um candidato branco e um negro, a empresa, com base no que apontam essas estatísticas, resolve contratar o indivíduo branco. É defensável que, nessa situação, haja indícios de racismo não intencional, ou até intencional. Isso nos leva a um problema controverso que vem sendo muito estudado, chamado viés implícito, que significa que os membros de um grupo “oprimido” também são capazes de serem preconceituosos.

Pode ser o caso que tenha sido uma má escolha o uso do boneco em um programa televisivo. O que está em causa aqui é que racismo é um mal objetivo e tratá-lo com hipersensibilidade acusatória é ceder a uma estratégia que extrapola o conceito. É necessário reforçar que possibilidade não é certeza, e é prudente usar um freio quando a dúvida não dá margem segura para estabelecer confiança em certas acusações. Daí podemos concluir: existem poucos dados objetivos para acusar os fabricantes, ou os consumidores dos bonecos afro, de racistas. Também não é possível concluir que quem simpatizou com os bonecos seja racista. Por mais que uma parcela de pessoas de um grupo historicamente oprimido se sinta ofendido com o boneco (houve negros que gostaram), não significa que um apontar de dedo acusando os outros de racismo resolverá o problema.

Autores: Cícero Escobar e Ricardo Silas.

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.
  • Perfeito. Além disso, vale refletirmos sobre as reais intenções da fabricante. Na verdade, sequer precisamos fazer uma entrevista com tal empresa britânica para descobrirmos o que importa. Essa coleção de bonecos, obviamente, traz personagens específicos e genéricos da cultura pop, de modo a levá-los ao ambiente doméstico de seus compradores, utilizando-os para limpeza ou decoração. Portanto, se queremos refletir com seriedade a respeito dessa questão, é um dever partirmos desse fato. Se assim o fizermos, veremos que a rainha Elizabeth é um personagem específico da cultura pop, Elvis Presley também. Não obstante, membros da guarda real inglesa, punks de cabelo espetado e negros com black power são personagens genéricos conhecidos ao redor do globo. Desassociar, especificamente, os negros dessa coleção, por um receio de que esteja cometendo racismo ao mantê-los nela, é que seria um verdadeiro racismo, à medida em que, até neste campo particular e de baixíssima relevância para o combate do preconceito racial em nossas sociedade, eles estariam sendo excluídos. Então fica evidente que a intenção em combater o racismo protestando contra a existência de um boneco que representa – quer queiramos ou não – parte relevante da cultura negra ao redor do mundo é, na verdade, uma verdadeira atitude discriminatória e racista. Como o texto aponta, neste caso, há um viés implícito por parte de certos integrantes de movimentos sociais, que acusam contra sua própria representatividade.

  • AntonioOrlando

    Bom dia Cicero!

    Acho que, no Brasil, infelizmente, questiona-se o direito do negro indignar-se com aquilo que ele, negro, considera racismo. Ou melhor, contesta-se o direito de o negro detectar e protestar quando se sente ofendido por atos racistas. No Brasil, delegou-se a pessoas, alheias à comunidade negra, não raro brancas, o direito de “diagnosticar” a problemática étnica ou “racial” – e aí temos Freire, Euclides da Cunha, Buarque de Holanda e outros, com os factoides da mestiçagem (democracia “racial”), sertanejo e afins. Ademais, quando o negro protesta, grosso modo, seus reclamos são desconsiderados. Ou, vistos como racistas ou nazistas (Demétrio Magnoli) ou delirantes (“Não somos racistas” do Ali Kamel). Lamentavelmente, esse é o teor de seu texto – aqui e ali – impregnado de esteriótipos racistas, que eu quero debitar à ignorância.

    Sim, o incidente no BBB foi racista até a medula… pelos menos para os negros. Sou negro sei do que estou falando. É só pegar as perolas do cancioneiro popular brasileiro: “Negra do cabelo duro…”

    Abs.

    • Desculpe Antonio, mas você está argumentando com uma falácia que é: “Porque sinto algo este algo é verdade.” Ora se você tem o direito de se indignar por algo só porque “você” sente que isto é racismo, o outro não teria também o direito de se indignar com “você” porque sente que você está colocando racismo em tudo?
      Racismo não é o que você quer que seja, é um preconceito, uma falha de pensamento e independe da cor da pele.

      • AntonioOrlando

        Edson Marques

        Com o devido respeito, estás a falar sandices, no mínimo. Estamos, eu e você a discutir um fato concreto, isto é, racismo – algo que é cotidiano no mundo inteiro. E em especial no Brasil. Logo, como evento real e palpável, o racismo, pode ser “aferido” de múltiplas maneiras. Uma delas é pela percepção de racismo que a vítima de racismo – no caso o negro – percebe. Impressão que é, não raro, objetiva, e, sobretudo, amparada por parâmetros sociais e estudos sociológicos, psicológicos e outros que corroboram a existência do racismo como cancro em nossa sociedade.

        Uma das formas de racismo mais frequentes é a hipocrisia de se achar que não existe racismo ou que eventos racistas são, na verdade, um mal-entendido. Enfim, achar que a percepção de um evento racista é ofensiva ao racista já é, em si, um ato racista. Isso, no Brasil, existe em decorrência da falta de protagonismo social e econômico. Ou da ausência de visibilidade na pirâmide social do negro. Em outras palavras, no Brasil, grosso modo, o negro ainda não saiu da cozinha e ao se colocar, ou protestar, ele incomoda ao prevalente status quo euro centrista e branco.

        Abs

  • Pingback: Eu sou um SJW de humanas()

  • Está na hora de crescermos e parar de fazer brincadeiras de duplo sentido que podem ofender os outros.
    Exagero (hipersensibilidade) ou não, quem diz se uma ação ofende ou não é a pessoa que sente ofendida. Se não há duplo sentido, o risco de alguém se ofender por “hipersensibilidade” é ZERO.

    No caso dos bonecos a empresa foi infeliz em não tentar ao menos saber o que pensa a sociedade ocidental que viveu séculos numa hierarquia racista ( sim, a cor da pele definiu a existência de milhoes de pessoas nestes séculos – favor não confundir com a escravização ou com pré-conceito que porventura temos) em relação a uma caracteristica natural dos negros e como os tais se sentem em relação a isto.

    Enfim, cresçamos todos…