Bule Voador

Sobre as intervenções ativistas nas universidades

   Com frequência, temos visto nas universidades atos conhecido como “intervenções”, “performances” ou “problematizações”. Seja em nome de causas feministas ou por questões de gênero, há algo em comum nesses eventos. Apostam em uma espécie de impacto visual para chamar atenção à sua causa: pessoas aparecem nuas dançando ou se banhando em óleo; outras vezes urinam em baldes e ameaçam transeuntes; masturbam-se em público; ecoam gritos contra o patriarcado ou contra imposições de gênero. Causam ao mesmo tempo estranheza e adoração. O que está em jogo é algo defensável: tentar minimizar preconceitos enraizados na sociedade, como o machismo, homofobia, transfobia e racismo. Portanto a questão seguinte merece atenção: as intervenções ativistas vistas nesses locais contribuem de alguma maneira à causa defendida?

     Primeiramente, é necessário reconhecer a necessidade de sensibilizar cognitivamente as pessoas pertencentes do grupo ao qual é desejado persuadir. Se o ativismo praticado é aquele que pressupõe eficácia por adesão numérica de pessoas através de suas performances em detrimento de argumentos, isso implica em desacreditar na possibilidade de chegar a resultados relativamente consensuais usando argumentos com premissas universais (tanto quanto possíveis) nos quais todas as pessoas possam aceitar. Isso não significa minimizar a arte como força revolucionária — só implica que a qualidade de suas premissas não é proporcional às apresentações esdrúxulas. Ora, se em um argumento dedutivamente válido é considerado cogente (um bom argumento) quando as premissas são verdadeiras e são mais plausíveis que a conclusão, é razoável o paralelo que uma performance ativista pretendendo entregar uma mensagem proposicional (a saber, agir ou pensar de tal forma é moralmente errado) deve ter suas ações pautadas de maneira mais moderada do que a mensagem final desejada (pelo menos para o estado cognitivo do receptor). Em outras palavras, causar estranheza ao seu público alvo não parece uma maneira eficaz de transmitir ideias.

     Para fins ativistas, é razoável defender uma união entre manifestações artística e argumentação dedutiva. O ponto central é: a performance e/ou as premissas dos argumentos deve ser suficientemente convincente para atingir seu público alvo. Um argumento pode ser válido e concomitantemente ruim; da mesma forma, a performance pode alcançar um público numeroso e mostrar-se igualmente ser ruim. E é ruim quando falha precisamente por convencer o receptor da importância do seu ato.

     Que um argumento pode ser logicamente válido e ao mesmo tempo ruim é ponto pacífico para quem tem minimamente um estudo sobre lógica dedutiva. Detenho-me então na seguinte afirmação: independente da extravagância ou moderação visual de sua performance, ela só terá eficácia se o se ato for mais palatável para o destinatário do que para emissor; o último já está convencido da importância da sua finalidade, então é o primeiro que merece maior atenção.

      E como defender a afirmação acima? A resposta precisa contemplar a tese que entende como positiva as manifestações com performances transformadoras, com consequente adesão a determinada causa. Essa é uma tese empírica, e, portanto merece uma investigação igualmente empírica. As evidências alertam para a pouca eficácia da performance agressiva e excêntrica. Inúmeros estudos têm mostrado que incutir alguma mudança efetiva no comportamento moral das pessoas pode ser feita através da exposição interpessoal de cunho afetivo. Por exemplo, a convivência com gays próximos, parentes ou amigos, tem mostrado mais disposição das pessoas em minimizar seus comportamentos homofóbicos. Grosso modo, isso é o que pesquisadores nas áreas de psicologia e sociologia chamam de hipótese do contato – cujos resultados de estudos têm demonstrado que atitudes mais favoráveis a gays podem ser conseguidas quando grupos potencialmente homofóbicos têm experiências positivas com gays. Evidências também mostram melhoria de integração por contato inter-grupos para os casos de muçulmanos na Europa, para pessoas negras e para etnias sociais.

     Não há evidências de que atos com padrão visualmente agressivo, grotesco e/ou excêntrico incentive alguém mudar seu pensamento e comportamento moral. Temos razões para acreditar precisamente o contrário: segundo o estudo da Bashir e colaboradores, é comum pessoas evitarem se afiliar com ativistas por os enxergarem como militantes/agressivas e excêntricas/não-convencionais. Essa tendência de atribuir estereótipos negativos faz com pessoas sintam-se desconfortáveis em aderirem às motivações de mudança que os ativistas advogam. Se a conclusão está correta, a mensagem é cristalina: pessoas depositam estereótipos fortemente negativos sobre ativistas, e esses sentimentos reduzem sua vontade de apoiar aquilo pretendido por eles. Isso não sugere que tudo está perdido nas causas ativistas. Esse mesmo artigo sugere que pessoas foram mais motivadas a adotar comportamentos alinhados aos ativistas quando eles demonstram menos aspereza. Ainda nas palavras da autora, “convertidos” em potencial para a sua causa “podem ser mais receptivos a ativistas que desafiam os estereótipos ao se mostrarem como agradáveis e amigáveis”. Outra forma de sensibilizar seu público-alvo é expor argumentos e evidências científicas sobre o assunto em causa.

     A resistência individual para a mudança social é mais difícil do que parece supor os ativistas performativos: um estudo projetado para medir a minimização de estereótipos e preconceitos em proporções populacionais falhou em diminuir os níveis de antagonismos após a implementação de um programa com acompanhamento; embora nos primeiros dias após a intervenção os níveis de preconceito medido tenham diminuído, após 3 meses voltou às condições iniciais. E embora as políticas de intervenções de redução de intolerância abundem, tem-se visto que, ironicamente, o efeito final possa resultar em exatamente o contrário do inicialmente pretendido. Nesse sentido, promoção da autonomia regulada de preconceitos (ou seja, encorajamento pessoal do valor da diversidade e autonomia) parece ser mais eficiente do que apenas pressão social (como linguagem agressiva) pura e simplesmente.

     Manifestantes dos atos de performances vangloriam-se que estão “causando”, e assim acreditam que terão mais pessoas adeptas à sua causa. Entretanto acreditar nisso esbarra em um efeito limitante: só os iniciados comprarão a ideia — talvez funcione para pessoas que não tinham encontrado ainda um terreno confortável para se manifestar, e enxergam nesses atos uma espécie de libertação epistêmica. Por outro lado, há algo de pernicioso e equivocado nessas ações. Elas parecem estar preocupadas mais com contagem de auditório do que qualidade de argumentos. Parece estar implícito que chocar pessoas com imagens pouco convencionais daquilo que se espera do cotidiano tenha alguma força, se não argumentativa, pelo menos de adesão à causa — fomentando assim a reflexão futura. Tendo em vista a literatura recente, estas tentativas de promoção de igualdade não tenderão a gerar bons frutos.

     É importante reconhecer a potencialidade das ciências sociais em discutir publicamente a minimização de preconceitos. Em tese, essa é uma das tarefas da academia. A pergunta é: as pessoas ativistas estão sendo atualizadas com dados empíricos sobre o que tem sido feito em pesquisas que envolvem a percepção social sobre grupos minoritários? E mais, estão atualizadas sobre as evidências empíricas de vieses implícitos, e sobre o reforço de estereótipo negativo em manifestações de ativistas? A julgar pelas performances surgindo nas universidades a resposta é não.

 

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.
  • Priscila Chaves

    Cícero querido, aqui no nosso sul do Rio Grande do Sul, tenho preferido ñ entrar nessas discussões, pela superficialidade com que têm sido abordadas. Mas a qualidade da tua construção argumentativa nos incita à. Começo dizendo do quanto pra mim ainda é frágil essa tentativa de objetivar (quantificar) aquilo que é subjetivo (ou como dizem por aí, das humanidades). Assim, já inicio pensando que essas “contribuições” não são passíveis de pesquisas empíricas a curto prazo de um modo geral. Elas se prestam mais a propostas (anti)hermenêuticas, que ñ visam a pensar os acontecimentos segundo uma progressão unificadora.
    Seguindo, tenho apostado muito na educação dos sentidos, essa que não faz parte do conjunto de prioridades e que, para os que normatizam a educação, não tem a questão política mais importante. Ainda assim, tenho acreditado mais em algo que faça refletir por meio do movimento imanente de sentir-pensar.
    Contudo, essa é uma capacidade que não leva “alguém a mudar seu pensamento e comportamento moral” de modo imediato (e talvez por isso ela esteja tão obsoleta, por não permitir capturas quantitativas substanciais de modo mais ágil). Por isso que “não há [nem haverá] evidências de que atos com padrão visualmente agressivo, grotesco e/ou excêntrico incentive[m] alguém [a] mudar seu pensamento e comportamento moral”, pois essa educação estética da qual falo ñ se presta a ser mesurada após uma intervenção – e talvez aí resida seu maior potencial: não consiste em mera “ideia a ser comprada”.
    Em que pese meu respeito à referida área, desconfio fortemente que o ato de “expor argumentos e evidências científicas sobre o assunto em causa” possa sensibilizar alguém, como sugerem. Acho que podem ser meios de tentar incutir uma outra moral, que se distingue fortemente da ética. Penso que não da pra reduzir esse tipo de intervenção à “tentativa de eficácia por adesão numérica” (e se apresentasse uma grande e imediata adesão numérica seria um forte sinal de que algo ñ vai bem, pq desconstruir paradigma leva tempo e esforço tenso do conceito). Creio mesmo que o objetivo seja provocar a discussão e fazer pensar. O caso que acabamos de presenciar aqui atingiu esse objetivo. A temática dos últimos dias, por meio de inúmeros posicionamentos, tem sido essa (que de certo modo penso tbm ter motivado, em parte, a tua escrita). Nos colocamos a pensar sobre, a falar sobre e, por vezes, a nos posicionarmos sobre. Se estamos falando de intervenção ou performance, a mensagem pode até parecer “proposicional”, mas creio que não panfletária, uma vez que transcende a simples afirmação. Por isso discordo que a finalidade seja “convencer o receptor da importância do seu ato”. Como defende Walter Benjamin, seria infrutífero.
    Por fim, ainda não consigo acreditar no potencial universal de algum comportamento moral. Penso que na universalização resta capturada a face mais empobrecida das causas, aquela que é meramente reproduzida e, na maioria dos casos, adotada sem o crivo da reflexão. Acredito até que algumas pessoas ativistas estejam se atualizando “com dados empíricos sobre o que tem sido feito em pesquisas que envolvem a percepção social sobre grupos minoritários”, mas creio que esses sejam objetos de discussão pra outro tempo e espaço que ñ aquele da intervenção.
    Um forte abraço 🙂

    • Cicero

      Oi Priscila, obrigado pelo comentário. Tem sido difícil mesmo dialogar racionalmente com algumas pessoas: é xingamento pra lá, e muito jargão pra cá. No fim, se você discorda, e aponta razões, é por ser homem-branco-cis-opressor. Isso cansa e não leva a lugar nenhum.

      Vou só comentar algumas coisas.

      1. Não entendi o que você quis dizer com “movimento imanente de sentir-pensar”.

      2. Quando um coletivo espera um resultado prático no mundo, é razoável supor que consequências disso podem ser estimadas.

      3. Não é só a partir de subjetividade que pessoas se expressam. Se você quer sensibilizar seu público-alvo, só tem a ganhar se a mensagem for a mais objetiva possível.

      3. Não é infrutífero convencer o receptor da importância da mensagem. Se assim fosse, mulheres ainda não teriam direito a votos, a escravidão ainda seria tolerável e homossexuais ainda seriam presos por sodomia.

      4. Quando refiro-me a premissas universais é simplesmente reconhecer que é a partir delas que podemos estabelecer problemas os quais todos podem racionalmente entender. Vou dar um exemplo:
      imagine que queremos mostrar para um indivíduo de uma sociedade X que bater em mulher é um ato moralmente condenável. Possível argumento 1:

      Premissa 1: Se a violência física constitui um desrespeito dos direitos da mulher, então é moralmente errado fazê-lo.
      Premissa 2: Ora, a violência física de fato constitui um desrespeito ao direito da mulher.
      Conclusão: Logo, a violência física é moralmente errado e não deve ser praticada.

      Comentário: para maioria das pessoas esse seria um argumento cogente, ou seja, é válido e as premissas são mais plausíveis que a conclusão. Teríamos aí premissas universais (1 e 2) que convencem o agente cognitivo que o é nosso público-alvo (o preconceituoso). Mas estamos na sociedade X, e a violência é tão enraizada que o argumento 1 não convence todas as pessoas — eles não considerariam o argumento cogente.

      Então podemos refinar o argumento. Adicionando outro como suporte ou atualizando as premissas. Temos o argumento 2:

      Premissa 1: Se a violência física provoca dor e sofrimento e se uma mulher não se torna necessariamente melhor após apanhar, então é moralmente errado praticar a violência física.
      Premissa 2: Ora, a violência física de fato provoca muita dor e sofrimento na mulher, e a mulher que sofre o abuso não se torna necessariamente melhor.
      Conclusão: Logo, a violência física é moralmente errado e não deve ser praticada.

      Veja que com o argumento 2 teríamos uma melhor defesa da nossa tese, a saber, que violentar a mulher é ruim e deve ser evitado. Veja também que a força das premissas devem convencer o violentador, pois quem defende os direitos das mulheres já está convencido da necessidade de protegê-las. E como podemos checar a veracidade das premissas? Olhando para evidências empíricas e/ou incutir mais argumentos e reflexão ética. Após todo esse processo, a pessoa que continuar sendo violenta (estando a par dos argumentos e das evidências), estará sendo irracional. E mais: não seria alguém que pudesse estar em condições de viver socialmente com outras, e é por isso que sociedades que, na média, entendem a violência como algo ruim e concordam em prender esta pessoa.

      • Priscila Chaves

        Claro Cícero, entendo o que dizes e a tua construção lógica é bem elaborada/fundamentada.
        Mas respondendo aos teus apontamentos, o que mais quis fazer menção com o comentário é que, se estamos falando de intervenção, estamos falando de arte e então estamos falando de uma ‘formação’ que extrapola a lógica, o informar, ou o convencer, no sentido mais usual do verbo. É sabido que se vc perguntar pra essas pessoas quais são os seus objetivos elas dirão que são aqueles atrelados à transformação social radical. Entretanto, por meio da arte, essa mudança ñ é i-mediata a ponto de ser quantificada por meio de pesquisas de base empírica. Um pequeno exemplo: Você veria sentido se, em seguida que a obra de Balzac fosse publicada/lida as pessoas fossem demandadas por alguma pesquisa se enxergam a sociedade burguesa de outra forma?
        Pra mim essa é a principal distinção entre tentar incutir uma moral em alguém (ainda que ela esteja fundamentada em valores universais – e isso ñ quer dizer que eu ñ acredite neles) e provocar uma alteração ética por meio da estética. Tentando ñ ser muito teórica mas ao mesmo tempo dando os devidos ‘créditos’, aqueles com quem mais tenho tido afinidade pra pensar esses assuntos têm sido os Frankfurtianos, que por desacreditarem em um educação altamente afinada com a técnica (como era a alemã), apostaram em uma razão que não é instrumental e sim sensível. Obrigada pela atenção. (:

  • Fernanda Arantes

    Olá. Não conheço quais intervenções você tem presenciado, mas como designer, conheço muitas pessoas do meio e posso te dizer que existem inúmeras intervenções que não apelam para o estranhamento, muito menos utilizam cenas que poderiam chocar transeuntes. A maioria das intervenções que chegam ao meu conhecimento utilizam grafite, estêncil e pôster lambe-lambe. Mas também posso estar com a visão comprometida pelos meus contatos virtuais. Acredito que o ideal seria conversar com alguns coletivos para saber realmente qual o verdadeiro cenário no país.