Bule Voador

Sobre o direito de protagonizar

De todas as “regras” de ativismo que já vi nas redes sociais, a mais idiota é a que defende o protagonismo na luta por direitos. Na maioria dos movimentos organizados, a ideia do protagonismo tem ganhado a mesma sobrecarga que um dogma, e, para quem busca maior visibilidade em suas manifestações, a vivência se tornou o ingrediente mais requisitado. Ou seja, cada grupo específico tem o seu estúdio particular, onde as mulheres vítimas do machismo, os negros alvos de racismo e os gays sangrados pela homofobia devem limitar a participação de homens brancos e héteros na militância, por portarem as características biológicas dos opressores.

O dogma do protagonismo segue um roteiro muito superficial e pouco sofisticado: primeiro, o indivíduo decide atrair os refletores baseado nas pressões sociais que o atingem; em seguida, armado com um megafone e enchendo os pulmões de ar, ele vocifera para o mundo os seus protestos; por fim, quando outra categoria de pessoas se propõe a fazer críticas construtivas ou contribuições intelectuais de grande valor, o protagonista tampa as orelhas e acusa o seu argumentador de não ter vivência o bastante para opinar. Mas em primeiríssimo lugar, o que importa em um debate é o que está sendo dito, e não o caráter de quem está dizendo. Pensar de outro modo resulta em colisão com a falácia ad hominem, que consiste em preocupar-se mais com as qualidades do argumentador do que com a qualidade dos argumentos.

Além disso, nem de longe a vivência é o único critério capaz de validar uma tese ou argumento, e, em muitas ocasiões, isso pode até induzir as pessoas a terem conclusões equivocadas, reforçando o famoso viés de confirmação e o senso comum.

Na maioria das vezes, o protagonista alega estar certo não pelos argumentos que utiliza ou pelas evidências que possui, mas sim pelas características pessoais que o inserem num certo grupo socialmente oprimido. Esse raciocínio é risivelmente ilógico: uma mulher, em sua busca por empoderamento, nem sempre estará correta no que diz somente pelo fato de ser feminista. O mesmo se aplica aos gays, negros, trans e veganos. Não importam as causas de nossa militância ou a que grupo pertencemos; nenhum de nós jamais estará imune a pequenos e grandes enganos. A ideia do protagonismo tem exatamente a mesma aparência da falácia de apelo à autoridade (a autoridade, neste caso, é o próprio protagonista que recorre a si mesmo como prova de que está certo).

A maior contradição dos protagonizadores talvez se encontre no clima atual dos movimentos feministas. Na mentalidade das mulheres mais autoritárias, a função dos homens no feminismo se limita apenas ao papel de coadjuvante ou de um anônimo sem voz ativa. Mas sujeitar as mulheres ao mero papel de coadjuvante dos homens não é um aspecto intrínseco ao próprio machismo? Por que algumas mulheres sentem tanto orgulho ao imitar o há de pior no universo masculino? Se a “regra” da protagonização fosse efetivamente cumprida, somente as mulheres que foram estupradas teriam o direito de esbravejar contra a cultura do estupro.

Mas as contradições não terminam aqui. Suponhamos que eu seja um pai heterossexual e que o meu filho me confesse que deu início a um belo relacionamento homoafetivo. Como sou o tipo paterno autêntico e amável, me proponho a aceitar essa novidade com alegria e sem nenhum embaraço. Passam-se os dias e, para a minha infelicidade, recebo a horripilante notícia de que o meu filho e o seu namorado, enquanto caminhavam de mãos dadas pela rua, foram cercados e espancados até a morte por arruaceiros homofóbicos. Então, movido por uma angústia interminável, tomo a decisão de lutar publicamente contra a homofobia para evitar que outros gays sejam torturados e mortos. Pergunto: quem ousaria me dizer que eu preciso ter a vivência de um gay para contribuir com as causas LGBT’s? Haveria alguma criatura estupidamente burra, insensível e arrogante neste mundo disposta a me calar?

Simplesmente afirmo que a única coisa digna de destaque é o nosso interesse de aniquilar as injustiças e consertar o mundo. A lógica dos movimentos sociais está em atrair aliados para enfraquecer todas as formas de preconceito com mais rapidez e eficiência. Isso inclui pessoas brancas contra o racismo, homens contra o machismo e heterossexuais contra a homofobia, livres de qualquer banalidade ao longo da nossa trajetória rumo ao progresso. No final da ilusória busca por protagonismo não haverá um Oscar para premiar o suposto vencedor. Pessoas verdadeiramente preocupadas em acabar com as discriminações sociais não perdem tempo disputando o foco dos holofotes. Já é hora de amadurecermos: o protagonismo é uma vaidade ideológica que aprisiona e emburrece a mente.

(Parafraseando uma das melodiosas canções de Pink Floyd: é melhor ser o coadjuvante numa batalha do que o protagonista numa cela.)

Ricardo Silas
Faço estudos sobre revoluções históricas e sou perdidamente apaixonado por literatura russa. Não invejo a fé dos crentes. Aprendi a nunca ser um espectador da injustiça e da estupidez, pois o túmulo me dará muito tempo para o silêncio.
  • Nicolas Dias

    1. Eu sou negro, eu tenho vivência, e Isso me torna o suprassumo da humanidade? Quando o assunto for racismo eu jamais estarei equivocado, nunca terei interpretado nada errado porque sou negro? Eu não acredito nisso, para mim isso é estupidez, posso ter vivência mas continuo sendo humano, e como qualquer outro humano, eu sou um ser falho, sujeito erros, e nem sempre estarei certo.
    2. Geralmente discursos de protagonismo são hostis, agressivos, e afastam as pessoas, gente que toma consciência da opressão, mas quer mudá-la, apoiar, e ajudar, são afugentadas, pois tentam participar e continuam sendo tradadas como vilãs, e sendo hostilizadas, isso é um tiro no pé de qualquer causa.

    • Ricardo Silas

      Nicolas, concordo com você. Obrigado por comentar.

  • Márcio Peres Biazotti Júnior

    “[…] Por que algumas mulheres sentem tanto orgulho ao imitar o [QUE] há de pior no universo masculino?”

    Errata! Pode apagar meu comentário após corrigir. Obrigado!

  • Márcio Peres Biazotti Júnior

    É bem provável que Hitchens apreciaria este texto. Parabéns!

  • Julia

    Apaga essa merda que dá tempo!

    • Állan Wesley

      Argumentos?

      • Julia

        É o que faltou no texto.

        • Állan Wesley

          O texto está cheio de argumentos. O seu comentário é que não tem nenhum.