Bule Voador

O poder da oração

De olhos fechados ou abertos, prosternados ou de pé, em locais públicos ou na privacidade do próprio lar, bilhões de pessoas acreditam que a oração é o meio de transporte que nos conduz, espiritualmente, ao Criador do Universo. A fé, quando sincera, tem o poder de atrair a atenção divina para os assuntos humanos, que incluem desde queixas banais até cultos de louvor e gratidão aos céus. Alguns teólogos defendem o sentimento ecumênico de que orar o Pai Nosso ou a surat al-fatiha são igualmente capazes de unir o espírito humano ao mesmo ser superior. Isso pressupõe que todas as culturas religiosas, até as mais conflituosas e díspares, são produtos de uma única verdade.

Mas a estrada para o sobrenatural é íngreme e repleta de contradições. Nenhum cristão ou hindu se preocupa em visitar Jerusalém para orar a Deus no Muro das Lamentações, como freneticamente fazem os judeus. Os católicos, por exemplo, colecionam santos esculturais que intercedem por seus fieis, algo que os evangélicos vilipendiam e consideram demoníaco. Experimente rezar a Ave-Maria dentro de uma mesquita islâmica para descobrir quantos muçulmanos aprovam o ecumenismo: garanto-lhe, nem a mais combatente tropa de anjos será o suficiente para manter a sua cabeça presa no pescoço.

Não sabemos se o trono celestial é ocupado por Jeová, Marduk ou Brahma, mas é inegável que a prece, até como fonte de panaceias, é uma das práticas mais egrégias de todas as religiões. Afirmar que a oração tem poderes de cura mágica é algo extraordinariamente curioso. Isso encorajou dezenas de centros científicos de pesquisa a investigarem se há alguma relação de causa e efeito entre uma prece e o estado de saúde do paciente que a recebe. A maior e mais rigorosa pesquisa já realizada – que custou 2,4 milhões de dólares em dinheiro público – foi coordenada por Herbert Benson, cardiologista e diretor do Mind/Body Medical Institute, no Massachusetts. Benson, em um teste duplo-cego, analisou o quadro clínico de quase 1800 pessoas que estavam sob tratamento cardiológico de ponte de safena, dividindo-as em três grupos.

No grupo A, os participantes foram informados de que receberiam orações intercessoras vindas de diferentes instituições religiosas; os membros do grupo B, sem saberem de nada, também receberam as preces. Apenas grupo o C não recebeu amparo espiritual. Na melhor das hipóteses, o grupo C talvez tenha recebido orações em menor quantidade, por exemplo, dos familiares. O resultado da pesquisa, publicado em 2006 no American Heart Journal*, não registrou nenhuma diferença significativa entre os grupos. Aliás, o grupo C (que não foi alvo de orações) sofreu menos complicações clínicas do que os doentes do grupo B, enquanto 59% dos pacientes do grupo A, que sabiam estar sendo alvo de milhares preces, passaram por mais complicações pós-cirúrgicas. Se existe um ser onisciente, onipresente e onipotente ouvindo os clamores que ecoam na Terra, esperaríamos que as curas milagrosas tivessem um efeito mais grandioso do que geralmente costuma ocorrer.

Demonstrada a ineficácia da oração, os cristãos se colocaram na defensiva, insinuando que o poder da fé está além do alcance de pesquisas rigorosamente controladas, ou que, por razões misteriosas, Deus atende às súplicas de uns e ignora as de outros. Se os dados fossem favoráveis aos crentes, muitos estariam se vangloriando de que ciência e fé andam lado a lado, e de que Deus também se revela ao mundo através do trabalho honesto de cientistas. A relação pacífica entre fé e ciência termina quando as descobertas científicas não coincidem com as crenças religiosas. Se, por outro lado, Deus nos impede de mensurar a influência da oração na vida prática, ele está sugerindo que devemos acreditar nas coisas sem ter bons motivos ou pelos motivos errados. Um Deus assim merece o desprezo da espécie humana.

Em sua obra O dicionário do diabo, Ambrose Bierce definiu a prece como “o pedido de que as leis da natureza sejam suspensas em benefício do solicitante; ele mesmo é confessadamente não merecedor”. Christopher Hitchens teve a mesma perspicácia quando disse que “o homem que reza acredita que deus dispôs as coisas todas erradas, mas também acha que pode instruir deus sobre como corrigir tudo”. Há quem diga que a prece, embora seja inferior à medicina, é capaz de confortar os moribundos que definham nos leitos de hospitais. Mas não significa que orar seja o único recurso capaz de consolar uma vida de lamúrias, ou que o medo da morte seja a justificativa para alimentarmos falsas esperanças. Existe a música clássica, a meditação, as grandes obras literárias e momentos felizes em família que fazem as rezas, segundo Hitchens, parecerem “cópias de um servo suplicante diante do monarca mal-humorado”.

Ricardo Silas
Faço estudos sobre revoluções históricas e sou perdidamente apaixonado por literatura russa. Não invejo a fé dos crentes. Aprendi a nunca ser um espectador da injustiça e da estupidez, pois o túmulo me dará muito tempo para o silêncio.
  • Cícero

    Mas também já ouvi sobre pesquisas que mencionam grande chance de melhora em pacientes terminais quando se entregam a oração, ou outros oram por ele. Porém, somente orações dirigidas a Jesus – somente Ele é Santo e tem TODO o poder nos céus e na Terra! – (e não pastores ou homens, mas devemos incluir na oração: que seja feita a vontade de Deus).
    Ocorre é que Jesus não é uma máquina pra satisfazer nossos desejos pessoais. Nem sempre Jesus cura, porque muitas doenças estão ao alcance do homem. Jesus não desprezou os médicos/medicina; pelo contrário; Lucas por ex. era médico.

    Porém, Jesus tem sempre uma resposta aos que se chegam a ele, mesmo que não haja o milagre físico e ainda que a pessoa venha a falecer porque:
    “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos.” Sl 116:15.

    • Giuliano Gasparini

      Onde está esta pesquisa???

  • AntonioOrlando

    Ricardo Silas

    Deus não é um deus utilitarista ou a “handy man”. Sobretudo, Ele não está aí, apenas e tão somente, para apagar incêndios. Em outras palavras, oração não é simpatia e, não raro, carece haver sintonia entre os Deus e quem ora. Ou melhor, mediante a observância de dois mandamentos “Amai a Deus sobre as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, como por “mágica” abrem-se as possibilidades de comunicação com Deus. Sem isso qualquer oração pode ser um discurso vazio. Ademais, não se ora pedindo a Deus “eu quero” ou “eu preciso” e sim: “Senhor faça a Sua vontade”.

    Na minha experiência pessoal, os maiores “milagres” aconteceram quando eu não pedi nada. Não há necessidade de “pedir” Deus sabe do que você precisa. Viver em harmonia com Seus desígnios é, com efeito, a melhor oração a ser feita.

    Logo, essa pesquisa, além de não ter nenhum valor cientifico, igualmente, não tem nenhum valor espiritual e não prova nada. O contrário, ter todas as orações atendidas, do mesmo modo, não provaria nada. Deus não é Papai Noel ou um robot para ser acionado quando precisamos dele.

    Pesquisas como essas são o que eu chamo de visão ingênua, pueril, ou mesmo estúpida, e, sem dúvida, equivocada do que seja ser cristão ou do que seja Cristianismo.

    Abs.

  • Antonio Porto Rosa Filho

    “Não sabemos se o trono celestial é ocupado por Jeová, Marduk ouniverso u Brahma”, aí depende de qual “multiverso” você está falando.

    A ordem neste universo demonstra que existe somente um criador e não vários.

    • Caruê Gama Cabral

      Por qual razão a ´´ordem“ implicaria em um Deus único? Quanto mais o seu deus.
      A unica coisa que podemos inferir deste universo é que os deuses ou deus estão cagando e andando para o sofrimento humano, rezar ou não pouco importa para o estado de saúde ou qualquer outro pedido incluindo os orações nobres ou egoístas.

  • Jupiter Flores

    oração é o melhor jeito de tu não fazer nada e achar que esta fazendo alguma coisa

    • AntonioOrlando

      Jupiter

      Quem disse que a oração exime alguém de “fazer alguma coisa”? Seu comentário só ilustra sua ignorância sobre religião e Cristianismo. Ser cristão, dentre outras coisas, é ser proativo e não ficar esperando que as coisas aconteçam. Já diz o ditado popular: “Deus ajuda a quem cedo madruga”! Se você ler a história do povo hebreu perceberá que, em nenhum momento, houve acomodação às condições adversas que os acometiam.

      Seu comentário está eivado por um preconceito que nasce, sobretudo, da preguiça intelectual de entender as nuances interpretativas daquilo que se critica.

      Abs

      • Jupiter Flores

        Quem disse que a oração exime alguém de “fazer alguma coisa”?

        exato.
        se tu se esforça tu consegue , não precisa ficar orando.

  • Thiago Dietrich

    A crença na oração que intercede por outro é uma afronta ao livre arbítrio, que afirma, também, que cada um é responsável pelos seus próprios atos. Segundo a bíblia a oração é uma forma de comunicação com Deus pessoal e intransferível.

    • Cícero

      Sim, temos o livre arbítrio também de interceder pelo próximo.