Bule Voador

A incoerência dos “meritocratas”

A história de muitos que se esforçaram e miseravelmente fracassaram nunca é tomada como exemplo de motivação. Os aplausos sempre são dados àqueles que venceram os entraves da vida. Desde cedo, as propagandas e o grande marketing inculcam em nossas mentes que, não importa se você estiver à sombra do fundo do poço, trabalhe duro e, como recompensa 100% garantida, o pedaço mais suculento do filé será seu. Em contrapartida, a pessoa que trabalha com ardor todo santo dia, dando tudo de si, recebendo um salário incapaz de lhe oferecer um pingo de dignidade e conforto, no final de sua jornada se dará conta de que não conseguiu sequer atingir seu primeiro cargo como gerente de uma pequena fábrica de calçados. Nem é difícil perceber que um operário de fábrica não é o único que quer se destacar no emprego; consequentemente, uma competição gananciosa é criada em detrimento da cooperação comunitária entre grupos de autogestão. Sabendo disto, se faz preciso muito mais do que inspiração no ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, para fugir do fracasso profissional.

Afirmar que todo cidadão “favelado” pode, se quiser, seguir o exemplo de pessoas como Joaquim Barbosa, além de ser politicamente perverso, revela uma ignorância a respeito das condições sociais de um país que, recentemente, deixou o mapa da fome da ONU e catapultou a vida de 40 milhões de brasileiros à classe média. Não podemos cair no erro crasso de confundir injustiça social com incapacidade pessoal. Em outras palavras, corremos um grande perigo de discutir com alguém que encare as condições de pobreza – sejam elas superadas ou não – como uma fonte de inspiração desejável, portanto, necessária para a vida de alguns como consequência da própria incapacidade. Ou seja, se a maioria das pessoas consegue transpor a miséria, além de a pobreza deixar de ser um dos grandes impedimentos para o sucesso, já que é tão fácil vencê-la, ainda deve ser incorporada como uma prescrição útil e enobrecedora na busca pela vitória.

Ora, já que todo pobre consegue se tornar rico, como insistentemente sugere a jornalista Rachel Sheherazade e seus fiéis telespectadores, quais diferenças existem entre quem nasce numa manjedoura de palha daquele que reluz em um berço de ouro? Há uma consequência abominável neste raciocínio, que é transformar cada um em responsável por infortúnios inevitáveis do ponto de vista pessoal. Afinal, para que erradicar a pobreza se quem está com fome, “comendo calango”, escolheu esse sofisticado prato que só os requintes da penúria podem conceder? Diante dessa ampla e complexa realidade, é uma postura adequada se opor a agendas progressistas de políticas públicas pautadas em justiça social, que promovam melhorias como a redistribuição de renda para famílias desamparadas?

Não é difícil encontrar o abismo quase inexplorável, chamado desigualdade social, que separa a maioria pobre de uma minoria rica e controladora. Já seria o suficiente para reavaliar algumas estruturas ideológicas (com viés conservador) que as pessoas acolhem, se elas se atentassem a apenas um fator friamente ignorado: a sucessão patrimonial entre as famílias abastadas oferece aos herdeiros um ponto de partida vantajoso em relação aos de classes menos beneficiadas; nascer em família rica e herdar seus bens é um evento tão fortuito quanto ser o vencedor do grande prêmio na loteria. Se considerarmos essa situação, então é legítimo ter o Estado estabelecendo estratégias, tanto sociais quanto econômicas, que equilibrem eficazmente a disparidade de renda familiar e, sobretudo, que atenuem os nocivos conflitos de classe.

Os que saem às ruas insultando o governo, reivindicando reformas na saúde, educação e segurança, questionando as irregularidades das gestões públicas, esquecem o maior de todos os detalhes: são verdadeiramente os pobres que estão submetidos a essas adversidades. Entretanto, na visão crítica dos “meritocratas”, os interesses de associações sindicais ou rurais de trabalhadores merecem a menor das atenções do governo, embora sofram frequentes golpes do poder privado. É incompreensível que exatamente quem sinta de perto o fedor dos serviços públicos esteja fadado a ser menos socorrido, “porque viver na pobreza não tem nada a ver com o fracasso”. Por essa e tantas outras razões, assegurar que as oportunidades sociais contemplem horizontes cuja igualdade seja possível, se tornou um valioso princípio a ser conquistado. Quanto mais pessoas se convencerem disso, mais forte será a oposição contrária aos nocivos substratos que condicionam milhões de pessoas ao insucesso.

Introduzir consciência de cidadania, política e ética na educação das pessoas, bem como priorizar a cooperação social, se tornou imprescindível para a sobrevivência da própria civilização. Se há outra maneira de esculpir um futuro mais satisfatório, ninguém ainda descobriu.

Ricardo Silas
Faço estudos sobre revoluções históricas e sou perdidamente apaixonado por literatura russa. Não invejo a fé dos crentes. Aprendi a nunca ser um espectador da injustiça e da estupidez, pois o túmulo me dará muito tempo para o silêncio.
  • Tem gente que nem percebe que quando diz: “Meus pais pagaram com muito esforço meu estudo e eu ralei muito para vencer na vida” já está implícito que você está numa classe com CONDIÇÕES de disputar um bom emprego, ter uma boa vida. Esquecem que tem gente que mora em locais onde não há dinheiro e nem escola e nem nada… mas não… dos nossos quartos quentinhos, através de uma internet band larga, o cara baba de ódio ao dizer que pobre preguiçoso não vence na vida mesmo e é assim que tem que ser…

  • Leonardo Hamachi

    As questões do Liberalismo, se é que posso chamar assim, me parecem todas seletivas. É muito difícil encontrarmos alguém assumidamente Liberal, defender liberdades e méritos de maneira universal. As liberdades e méritos são aqueles dos empresários, já o professor que faz greve pelo reajuste de seu salário, não deveria estar protestando e tem uma remuneração baixa porque não se esforça suficientemente, ou pior, quando escolheu a profissão sabia que seria assim.

  • O Salsichão do Amor

    Deixem eu entrar na discussão e passar um ponto de vista diferente que merece ser debatido de forma saudável…

    SOBRE MERITOCRACIA…

    Meritocracia é um conceito que a esquerda não ensina. Mas também, a esquerda não entende porra nenhuma de meritocracia. Só entendem que devem atacar pois é um conceito simples que faz funcionar tanto a Democracia, o Livre Mercado, o Respeito por Direitos Humanos e as Liberdades Individuais…

    Meritocracia não vai te fazer ficar rico como o Silvio Santos, mas vai ajudar muito. Mas como essa cambada de esquerda aprendeu a pensar que a meritocracia só tem há ver com dinheiro, fica difícil aprender sobre ela em escolas e faculdades.

    Meritocracia tem muito mais haver com CONQUISTAR RESPEITO e DIGNIDADE. A pessoa que conquistar o respeito das outras pessoas vai acabar sendo tratada com dignidade. Tornando mais difícil para alguém pensar em desrespeitar uma pessoa digna de respeito.
    Significa cultivar atividades e atitudes que dão dignidade por si sós.

    Como o trabalho honesto.
    O trabalho ensina a tratar as pessoas com humildade e cordialidade. E se você pratica a humildade e a cordialidade, então vão te tratar com humildade e cordialidade também.
    O serviço pode prover pequenos sonhos como ter uma casa, uma TV, roupas próprias e outras coisas.
    Isso é mérito.

    Estudar…
    Estudar é se preparar para o futuro. É fazer boa parte da sorte. Estudar não vai te deixar rico como o Bill Gates, mas já ajuda a conquistar sonhos e estar preparado para dar passos importantes na vida.
    Ter empregos especializados para ter um salário capaz de realizar grandes sonhos como ter uma família.
    Isso é mérito.

    Cultivar uma boa índole.
    Cultivar uma boa índole de ajudar as pessoas, ser um cavalheiro (ou uma dama), entender sobre o bem e o mau, ser um bom exemplo principalmente para as crianças, honestidade, altruísmo, bons valores e virtudes.
    Cultive a boa índole para fazer o bem e também farão o bem para você.
    Isso é mérito.

    A meritocracia não se trata de dinheiro, mas da velha lei do retorno.
    Faça o bem e alguém vai fazer o bem pra ti. Faça o mal e as consequências do mal voltaram para ti.
    O mérito é tão bom que funciona em inúmeras áreas da vida humana.
    Pratique esportes e tenha uma boa saúde, use drogas e sua bunda vai virar uma droga. Economize e terá para depois, gaste mais do que ganha e terá dividas.
    Mérito é algo bom que a esquerda nem sabe explicar…

    Exemplos positivos da meritocracia.

    Se você é lésbica, gay, bissexual ou travestitranssexual: O vitimismo ensina que você é praticamente uma vitima incapaz de se defender ou conquistar respeito, dignidade e felicidade em nossa sociedade. Bom, a Meritocracia ensina o contrário! Você é plenamente capaz de conquistar respeito e dignidade!

    Comece partindo da ideia de que CERTO e ERRADO não são valores relativos.
    Roubar, agredir, sequestrar, estuprar, torturar e matar é que são atitudes erradas. A sua sexualidade não! Não existe motivo para sentir vergonha da sua sexualidade se você não faz mal a ninguém.
    Logo, comece mudar a suas ideias, levante a cabeça e vá cultivar bons motivos para as pessoas lhe darem respeito e dignidade!

    Outro exemplo?

    Se você é nego, o vitimismo ensina que você também é um inútil incapaz de conquistar o seu respeito, dignidade e felicidade perante a sociedade. Como se ser nego fosse algo ruim.
    Pare de ser vitima! Levante a sua bunda do sofá, arregace as mangas e vá lutar pelo seu lugar!

    A meritocracia é 100% garantia de respeito, dignidade e felicidade?
    Lógico que não! Nada é 100%! Todo mundo está sujeito a humilhação, escarnio e até violência vinda de gente ruim.Eu mesmo estou sujeito a ser humilhado, esculachado e morto amanhã mesmo num assalto. Mas a meritocracia é um meio de aprender a levantar, sacudir a poeira, limpar o sangue da cara e voltar a luta…

    Duvidas?

    • AntonioOrlando

      Salsichão (sic)
      Chamar negros de “nego” não é algo que ajude na sua argumentação…
      Ademais, racismo é algo muito mais complexo do que a sua tangencial ponderação a respeito.
      1. No Brasil, o negro, tem um atraso de mais de 400 anos para sua entrada na “corrida de meritocracia”, ou mercado de trabalho. Antes disso, ele trabalhava sem nada receber;
      2. Por ocasião do fim da escravidão, por conta da politica de branqueamento, apoiada dentre outros pelo eugenista Monteiro Lobato, o Brasil, em menos de 10 anos, trouxe mais de cinco milhões de imigrantes, brancos e europeus, que ocuparam os postos de trabalho, na Agricultura, dos negros. No sul do país, imigrantes alemães, receberam, do governo brasileiro, de graça, terras que viraram, depois, cidades;
      3. Até meados dos anos de 1960, no Brasil, a maioria dos negros eram analfabetos e até a Igreja Católica não os aceitava para serem padres;
      4. O negro, quando escravo não tinha liberdade, e depois, liberto, teve que lidar com racismo que lhe fechou, e ainda fecha, inúmeras portas.
      Enfim, qualquer coisa, ou ações afirmativas, ainda é muito pouco para compensar as perdas, em todos níveis, a que foram submetidos os negros. O negro, no Brasil, é um forte. Sobreviveu á tentativa de Nina Rodrigues, e outros, inclusive o governo brasileiro, de branqueamento. acreditava-se, final do século XIX e inicio do século XX, que em 100 anos não haveria mais negros no Brasil. O negro é um forte. Resiste, mesmo sendo maioria os jovens negros os mortos por morte violenta no Brasil. O negro é um bravo. Lida, no cotidiano, com o racismo e mesmo assim avança em suas conquistas e manutenção de auto estima.
      Abs.

      • Ricardo Silas

        O Salsichão do Amor, sua resposta está registrada no facebook. Não preciso repetir para você a mesma debilidade que atribuí à sua péssima interpretação de texto.

      • emersonluispsy

        QUATROCENTOS ANOS?

        Filhos e netos dos judeus, orientais e outros grupos que vieram para o Brasil na miséria há 50 anos estão em situação razoável. Como explica o economista negro de origem pobre Tomas Sowel, eles não tiveram militantes lhes dizendo que eram pobres vítimas.

        • AntonioOrlando

          Emerson
          Respeito a sua ignorância sobre o assunto…
          Se você estudar a história do Brasil, verá, sem muito esforço, que os imigrantes que vieram para o Brasil, final do século XIX e início do XX, vinham, não raro, com promessa de emprego. Isto é, eles tinham o mínimo necessário para começar a vida no Brasil. Ademais, esses imigrantes, brancos e europeus, faziam parte de um projeto, do governo brasileiro, de branqueamento do Brasil. Ou melhor, a ideia era, artificialmente, diminuir o número de negros na população por conta de o Brasil ter sido o último país, no mundo, a acabar com escravidão, ou seja, o Brasil estava sendo pressionado pela comunidade internacional. Em especial a Inglaterra. Sem muito esforço você, também, irá perceber que a vinda desses imigrantes, europeus e brancos, era financiada com dinheiro do erário público. ou, com dinheiro de todo o povo brasileiro.
          No Rio de Janeiro, o governo, proibiu negros de ficarem nas praças, sob pena de serem presos por vadiagem. No entanto, onde conseguir emprego se, após o fim da escravidão, se eles foram ignorados em seus direitos de cidadania? Nascem os morros/favelas cariocas…
          Enfim, você, como Ali Kamel, deve acreditar que, no Brasil, não há racismo… Sobretudo, que o racismo é culpa do negro…
          Abs

  • A meu ver a meritocracia é uma das formas mais dignas e legítimas que o ser humano tem para conquistar seu bem estar. Fico perplexo de ver como demonizamos todos que conseguiram, à despeito de sua condição inicial, ter uma posição de destaque na sociedade pelo sucesso financeiro ou profissional. Preferimos idolatrar pessoas que estão, ou estão chegando a uma melhor posição social, por intermédio da retórica populista proveniente das associações, movimentos sociais ou até de sindicatos, ao invés de batermos palmas para os empresários, profissionais liberais ou empregados em ascensão, que trazem riquezas ao país e que sustentam todo o restante da população, no que tange o acesso gratuito à educação, saúde, cultura, etc, frutos dos impostos que pagam. No Brasil, somos ensinados que o “importante é competir” e que sempre que errarmos ou não nos esforçarmos o suficiente, alguém virá e passará a mão em nossas cabeças, nos dando outra chance. Não cultuamos o sucesso individual, que em última instância, se tornará o sucesso coletivo e sim o contrário. Preferimos as histórias tristes de sofrimento aos invés de histórias vencedoras. Estamos criando uma nação de pessoas medíocres (e medíocre quer dizer mediano…) que são mais fáceis de serem controladas do que pessoas que se sobressaem. Veja, não sou contra os programas de renda mínima ou coisa parecida. Porém, precisa haver uma contrapartida que seja tangível, verificável. Que a próxima geração seja capaz de conseguir seu sustento por conta própria e que seja a base para que a terceira geração já não seja considerada de baixa renda. Do jeito que estamos, daqui a 5 gerações o país não conseguirá arcar com a crescente massa que ele deveria diminuir. Talvez a meritocracia não seja perfeita, mas a tal “distribuição de riquezas” é bem menos justa.

    • Ricardo Silas

      Denis Andrade, você defende precisamente as posições que considero mais nefastas para o bem-estar social. Explico: em primeiro lugar, o meu texto discorre críticas a respeito da incoerência contida nos discursos de direita que defendem a meritocracia. Fica claro que sua concepção meritocrática é profundamente distorcida e nefasta. Antes, você precisa tomar nota de algo muito importante: eu não demonizei a meritocracia, e sim os “meritocratas” atuais, que vejo sintetizados em sua opinião equivocada. Sei, com clareza, que a meritocracia atrai benefícios que asseguram um tratamento proporcional àquele que demonstrou maiores esforços em sua elevação de capacidade profissional. Isso, de fato, garante que determinados serviços sejam prestados por pessoas hábeis em suas funções. No entanto, existem ambientes sociais onde a intromissão do critério meritocrático se torna incabível e injusto. É sabido que há aqueles socialmente prejudicados em relação a outros, e não é por incapacidade pessoal, mas sim por alcance insuficiente dos serviços básicos que proporcionem uma linha inicial de igualdade, a partir da qual o indivíduo poderá ascender. Essa linha ainda não existe, e caso você não saiba, essa exigência de igualdade inicial é defendida desde a construção do liberalismo clássico de Adam Smith, mas acabou sendo corrompida pela distorção neoliberal alinhada ao poder privado. Se você reler o meu texto com atenção, saberá a que estou me referindo. Os argumentos que expus estão muito bem esclarecidos e coerentes com os fatos observáveis. A distribuição de renda é apenas uma devolução dos lucros que são extraídos da força de trabalho proveniente das camadas mais pobres da sociedade. Um empresário não enriquece sozinho. Ele compra mão-de-obra a preço barato e lucra astronomicamente com isso. As pessoas estão unidas por uma coletividade que não pode ser deixada cheia de relevos e crateras que separam a minoria rica e manipuladora, da maioria pobre e historicamente oprimida. Antes de você exigir mais capacidade profissional das pessoas, pelo menos verifique e mensure se a condição inicial na qual elas estão lhes proporciona o mínimo necessário para buscar melhorias significativas. Qualquer coisa que rejeite reformas nessa direção se configura como uma estúpida anuência para com a pobreza e a miséria social. Não consigo entender como as pessoas não enxergam tamanha disparidade.

      • Olá Ricardo Silas. Em primeiro lugar, obrigado por dispender um pouco do seu tempo
        respondendo o meu comentário. Porém, quando você me ataca diretamente dizendo que “Fica claro que sua concepção meritocrática é profundamente distorcida e nefasta.” mostra que infelizmente não estamos discutindo ideias e posições. Isto é exatamente o que abomino na esquerda: desconstrói-se quem é o antagonista para que fique claro que ele não está a altura do debate. Mas lendo tanto o seu texto, quanto o seu comentário, vejo que posso tentar ter um debate de ideias com você – claro, se você me permitir. Imagino que os seus argumentos estão bem embasados, mas partem da sua visão da sociedade. Isto não quer dizer que, necessariamente, ela está correta. Permita-me contar a minha história (se você achar muito enfadonha, não perca o seu tempo) para mostrar o meu ponto: venho de família bem humilde de lavradores, quase nada tinham para comer. Na verdade, se não plantassem, não comiam. Para poder mudar de vida, meu avô acordava às 04h00 da manhã, ia até a cidade mais próxima, vendia a galinha que a muito custo criava, voltava para a roça e trabalhava até anoitecer. Depois, com o dinheiro conseguido de manhã, saía atrás de mais frangos, para ter como fazer o mesmo no outro dia. Esse homem sem instrução e sem qualquer ajuda, conseguiu dar um pouco mais de oportunidade para seus filhos. Eles já não passavam fome, mas continuavam a trabalhar na roça. Eu e meus primos, graças a estas duas gerações, tivemos bem mais oportunidades. Porém, aos seis anos eu ainda trabalhava na roça. Tive que pagar integralmente os meus estudos, enquanto continuava a trabalhar. Hoje, pelo esforço de meus ancestrais e muito do meu esforço, já posso dar o conforto que sempre quis ter aos meus filhos. Porém, o que sempre norteou estas três gerações, foi a vontade de vencer e principalmente a consciência de que tudo que precisávamos era de tempo e trabalho duro. Nós tínhamos como objetivo estar como as pessoas que já se encontravam em melhores condições que as nossas. Contudo, ao nosso lado haviam pessoas que estavam nas mesmas condições iniciais dos meus avós que, por um motivo ou por outro, preferiram não correr atrás e pouco melhoraram. A riqueza do nosso país é produzida em sua maior parte por aquele empresário que luta para manter seu negócio, empreendendo e principalmente empregando pessoas. Ele tem um objetivo: o lucro. É do lucro que ele vai manter sua vida e possivelmente vai investir, para obter mais lucro. No caminho, vai empregar mais pessoas e manter mais famílias. É um ciclo que já vem mudando a vida de muitas pessoas e que mantém o país de pé. Então, quando digo que a meritocracia ainda é melhor forma de mudar a vida, falo por experiência própria.

        • Wismar Zanella

          Denis, permita-me intrometer na discussão de vocês.

          Sua história de vida (e de sua família) é fantástica, seria uma tremenda insensatez de qualquer um que viesse aqui e tentasse “demonizá-la” e desmerecê-la! O que você e muitas outras pessoas falham em perceber é que, para cada história vencedora como a sua, existem dezenas (talvez centenas) de pessoas e famílias que, a despeito de suas tentativas, não conseguiram e/ou provavelmente nunca consigam alcançar seus objetivos de vida e ter uma “vida confortável”. Sua história é exceção, não regra!! Usar exceções para propagar pela sociedade coisas como “basta querer e se esforçar para qualquer um vencer na vida” é de uma desonestidade assustadora e é o que mais vemos em qualquer lugar da mídia. Ninguém gosta de histórias tristes, a elite econômica brasileira (e creio que de quase qualquer outro país, principalmente aqueles com grandes desigualdades sociais) se aproveita justamente de histórias como a sua para gerar falsas esperanças por toda a classe baixa e até boa parte da classe média de que todos podem ser “bem-sucedidos” na vida e garantir que, ainda que não alcancem isso, a culpa seja exclusivamente delas, de sua “falta de esforço”, e não do sistema econômico falido que vivemos atualmente! Resumindo, a intenção não é demonizar histórias de sucesso e de grande esforço, e sim como essas histórias são utilizadas para enganar e iludir as classes mais baixas e assim mantê-las sob controle!

          Só comentar mais 2 pontos que vc tocou que achei absurdos:

          1 – “Talvez a meritocracia não seja perfeita, mas a tal “distribuição de riquezas” é bem menos justa.”

          É sério isso?? Primeiro que não acho que de forma alguma meritocracia e (re)distribuição de riquezas sejam conceitos antagônicos para que haja uma comparação de “mais ou menos justo” entre eles. Segundo, sobre esta última, peço que, se possível, assista esse vídeo em inglês e as fontes destacadas na descrição do vídeo:
          http://migre.me/pClvr

          AS 85 pessoas mais ricas do mundo tem a mesma quantidade de riquezas que METADE da população mais pobre! Ainda assim você acha que redistribuir riquezas não é algo justo??

          A meritocracia só é um parâmetro justo (e funciona muito bem) quando há o MÍNIMO de equilíbrio de condições sociais e oportunidades, o que claramente não é o caso.

          2 – “A riqueza do nosso país é produzida em sua maior parte por aquele empresário que luta para manter seu negócio, empreendendo e principalmente empregando pessoas.”

          Errado! A maior parte da riqueza do país é produzida por alguns poucos mega-empresários de grandes empresas (em sua maioria multinacionais que nem brasileiras são), que nada têm a ver com o micro e pequeno empresário que “luta para manter seu negócio”. Aliás, ainda no vídeo que te mandei, há outro dado perturbador: uma pesquisa com alguns desses mega-empresários mostrou que eles ganham 354 vezes o que ganham os seus próprios funcionários em média! Ou seja, o sucesso individual até hoje não levou e, do jeito que o mundo se encontra atualmente, NUNCA levará ao sucesso coletivo.
          Enfim, a maior parte da riqueza produzida serve única e exclusivamente para enriquecer ainda mais aqueles que já são abastados.

          • Ricardo Silas

            Wismar Zanella, sua resposta está fantástica. Não me atrevo a acrescentar mais nada. Obrigado por presentear o debate com argumentos tão ricos e frutíferos.

          • Eduardo Mattei

            Olá Wismar.
            Gostaria de comentar alguns pontos que colocaste.
            Tu fala que os conceitos de distribuição de riqueza e meritocracia não são antagônicos mas infelizmente muitas vezes são. Riqueza só pode ser redistribuída de duas maneiras, de forma voluntária ou por força. Redistribuição voluntária engloba trocas comercias por bens e serviços, o que por sua vez também gera riqueza, e através de doações ou caridade. A outra forma se dá através do uso da força. Embora a sua utilização possa ser defendida por argumentos morais e éticos aparentemente válidos, suas consequências em geral são desatrosas para a sociedade. Uma vez defendida essa alternativa devemos levantar os seguintes pontos: Se podemos redistribuir riqueza através da força, quem o fará? Quais pessoas terão sua riqueza subtraída e quais serão beneficiadas? Quanto de riquezas deve ser confiscada? Por quanto tempo deveremos confiscar essas riquezas? Se a instituição encarregada de tal tarefa possui poder suficiente para retirar riqueza mesmo das pessoas mais ricas quem impedirá essa instituição quando ela cometer abusos? E a questão mais importante, se confiscamos riquezas daqueles que mais produzem qual incentivos estes terão para produzirem no futuro? E se beneficiamos aqueles que menos produzem que incentivos estes terão para aumentar sua produção?
            Infelizmente quando aplicamos a redistribuição de riquezas através do uso da força suas consequências acabam por aniquilar a economia das sociedades em que é praticada. Um grande número de exemplos históricos demonstram o fracasso desse modelo.
            Estes pontos apenas evidenciam a ineficiência de tal proposta, mas também é preciso notar que o principal argumento em defesa de tal método é o combate à desigualdade social. Acho difícil definir o que é desigualdade social, mas vou assumir que se trata de diferença de riqueza. Acho que apontar a diferença de riqueza entre membros da sociedade como um problema é uma ilusão baseada em ignorância econômica ou possui motivação imoral.
            Não é possível argumentar que uma sociedade completamente igualitária em que todos possuem uma renda de um dólar por dia seja melhor que uma sociedade em que os mais ricos possam ser cem ou mil vezes mais ricos que os mais pobres, mas os mais pobres nessa sociedade tenham uma renda de cem dólares diários. Claramente a pobreza absoluta é o problema que deve ser combatido. Mas se você é o pobre da segunda sociedade e têm acesso a todos os items básicos para sua vida, por que você se preocuparia com a quantidade de ferraris do seu vizinho milionário? Só existem duas possibilidades, ou é pura inveja, ou você é extremamente materialista e quer ser como seu vizinho. Mas em nenhuma delas há preocupação moral, ética ou social.
            Reitero que a pobreza absoluta deve ser combatida, mas utilizar a desigualdade social como argumento não procede, e combate-lá através da distribuição de riqueza através da força apenas destruirá a economia e a sociedade.

  • Beto_Caldas

    E a incoerência do texto?… lamentável ver um texto desse por aqui.

  • Eduardo Mattei

    O texto comete um erro bastante comum. Muitos confundem um conceito meritocrático em economia com esforço ou trabalho. Na verdade a recompensa econômica está ligada somente a geração de valor. Como exemplo podemos imaginar um músico que dedicou anos de estudo e esforço em se tornar o mais hábil instrumentista de gaita de fole. Toda sua energia, tempo e trabalho podem ser investidos em produzir a mais magnífica obra musical em gaita de fole. Isso necessariamente significa que o mercado o recompensará? Não. Em compensação podemos imaginar um compositor de música sertaneja que sem nenhum conhecimento formal em música pode juntar um par de acordes e produzir uma única música que se torna febre em todo o país. Esse cantor sertanejo pode ganhar rios de dinheiro com somente uma música. Afinal, qual foi o mérito do cantor sertanejo? O mérito dele foi apenas gerar mais valor. As pessoas em sua maioria não gostam de músicas com gaita de fole, mas adoram música sertaneja. Milhares de pessoas julgaram livremente que aquela música sertaneja tem muito mais valor que um compêndio de sinfonias de gaita de fole. E por isso recompensaram o cantor sertanejo comprando sua música.
    É possível discutir se isso configura alguma injustiça, mas com certeza esse não é um problema econômico. Fora do âmbito econômico e analisando um conceito mais amplo de mérito, é possível que o músico de gaita de fole tenha sua recompensa através do reconhecimento de seus pares pelo seu talento. Ou apenas o prazer solitário de dominar com maestria a técnica musical. Tudo isso pode ser analisado do ponto de vista de mérito, mas economicamente apenas a geração de valor é recompensada.
    Por isso confundir esforço e trabalho com mérito configura uma ignorância em economia e pode levar a conclusões erradas, como a necessidade de certos padrões mínimos que todos necessitam para poder competir entre si. No exemplo o cantor sertanejo tem menos estudo e menos talento e mesmo assim foi recompensado. Quem julga o mérito econômico é o mercado.

  • Marx Oak

    O que foi escrito já percebi logo cedo! Ao fazer 20 anos levei cinco anos para percebei que toda essa dedicação ao trabalho arduo como empregado não leva a nada além da manutenção de um famigerado status social de classe média proletária! Os ricos são ricos não porque trabalham, mas porque fazem os outros trabalharem por eles. Por isso a pirâmide é o símbolo favorito da Elite mundial.