Bule Voador

O que os médicos dizem a ‘terapeutas alternativos’ quando um paciente morre? Nada. Nunca nos falamos

Homeopatia

A consulta chega ao fim e eu me levando para acompanha-la à saída. Em frente à porta aberta, reparo na fila de espera de pacientes olhando tristemente para a televisão.

“Mas eu ainda não terminei”, diz minha paciente em tom de reclamação. “Eu ainda tenho perguntas”.

Ela já estendeu uma consulta de 30 minutos e eu estou com o tempo apertado. De sua bolsa, ela tira uma longa lista. Com diferentes cores, flechas e bandeiras, parece um complicado mapa de trânsito.

“Eu deveria fazer minha aplicação intravenosa de vitaminas no dia da quimioterapia ou no dia seguinte?”

Eu não tenho tempo de responder antes dela continuar: “Você pode mudar minha sessão de quimioterapia para encaixar uma limpeza intestinal? Eles são muito ocupados, sabe. Sem horários livres por semanas”.

Quase parece pomposa a maneira como fala e eu me sinto levemente irritado.

“E meu amigo está fazendo terapia com imãs”, ela continua. “Ela está quase curada apesar dos médicos tradicionais terem desistido dela”.

Preciso interrompe-la: “Podemos discutir isso outra hora? Temo que haja muitos pacientes aguardando”.

Ela não se abala. “Preciso me sentir ouvida, sabe. Eu quero saber sobre terapia com sucos. Parece muito ‘próxima geração'”.

Eu fecho a porta com o meu pé e me sento. “Eu já perdi pacientes para todos esses tratamentos”, eu digo tranquilamente. “Se você quer minha opinião mesmo, eu diria para evitar todos eles. Sua quimioterapia está indo bem.”

“Claro que você ia dizer isso”, ela responde. Minha irritação aumenta. Eu sei que pacientes de câncer às vezes dizem que seus oncologistas nem se preocupam em engajar a questão de terapias alternativas. Mordo a língua.

“Diga-me por que essas coisas te atraem”, eu sugiro. “Porque são naturais. Elas curam seu corpo de dentro pra fora, e elas garantem resultados”, ela responde, cansada, como se estivesse conversando com uma criança desobediente.

Pesquisas mostram que quase 70% dos pacientes com câncer e assustadores 90% dos pacientes inscritos em testes clínicos de fase inicial usam terapias alternativas. Hoje sabemos que muitas dessas terapias não são apenas ineficazes, mas perigosas. Ervas e suplementos podem interagir com a quimioterapia e reduzir sua eficácia, um verdadeiro retrocesso quando a terapia é feita com intenção curativa.

Jessica Ainscough, que evitou o tratamento convencional de um sarcoma, morreu recentemente. Ele segua a "Terapia de Gerson"

Jessica Ainscough, que evitou o tratamento convencional de um sarcoma, morreu recentemente. Ele segua a “Terapia de Gerson”

Pesquisadores canadenses descobriram que das 44 garrafas de ervas testadas, um terço eram completas substituições – a planta do rótulo das garrafas simplesmente não estavam lá. A impressão digital genética revela que muitos suplementos populares estão cheios de pó de arroz e ervas daninhas. A Organização Mundial de Saúdo chama isso de uma ameaça à segurança do consumidor.

Terapia de elétrons, ondas de rádio, energia magnética e caixas de zul como cura para o câncer já foram consistentemente refutadas por influentes organizações contra o câncer, inclusive a American Cancer Society e a Cancer Council Autralia.

A “terapia Gerson” é promovida como “o tratamento natural que ativa a extraordinária habilidade do corpo de curar a si mesmo”. A o site Cancer Research UK explica que requer que um indivíduo consuma nove (sim, nove) quilos de frutas e vegetais e use três ou quatro enemas de café todos os dias. Há uma menção discreta de que “em certas situações a terapia Gerson pode ser muito prejudicial à saúde”.

A jovem Jessica Ainscough, que dispensou tratamento convencional para seu sarcoma, e recentemente morreu, era uma seguidora.

Em 10 anos sendo oncologista eu já testemunhei algumas consequências devastadoras quando médicos recomendam terapias “alternativas”.

A emagrecida paciente de câncer de mama que foi mandada à emergência porque seu provedor de tratamentos alternativos não podia fazer mais nada para ajuda-la a andar. Nem nós. Ela morreu de compressão do cordão espinhal depois de vigorosa manipulação das suas costas.

O homem cujas finanças e câncer de próstata ambos fugiram de controle quando ele desembolsou U$50.000,00 em injeções de vitaminas. Ele lamentou ter dispensado o benefício comprovado da quimioterapia.

Havia o homem cuja esposa descobriu a extensão da dívida de sua terapia natural apenas depois dele morrer e foi forçada a vender a casa.

Havia as crianças que pararam de estudar para pagar pelas ervas exóticas importadas de seu pai.

Essas histórias não são raras – todo oncologista conta uma história de ruína psicológica e financeira enfrentada pela família por muito tempo depois da morte do paciente.

Muitas pessoas responderão que a experiência da quimioterapia não é menos aterrorizante, destrutiva e até fatal. Eu concordo. A diferença, creio eu, é que há literatura abertamente disponível de fontes confiáveis que lhe dirá isso. Podemos dissecar as nuances do consentimento informado e da comunicação clara, mas a verdade é que os recebedores de quimioterapia são cada vez mais supridos com informação e educação, isso sem falar no monitoramento da toxicidade.

O abandonamento pelo oncologista no fim da vida parece um lamento comum – mas ouso dizer que ele empalidece em comparação o flagrante abandono do dever por parte de médicos alternativos quando pacientes com câncer ficam realmente doentes. Se você não acredita em mim, pergunte a um clínico geral ou a um médico de emergência, os outros profissionais a quem pedem para salvarem esses pacientes.

Sobre o que um oncologista e um terapeuta alternativo conversam quando um paciente como Ainscough morre? Cada um de nós defende sua arte individual, ponderamos a ética médica ou creditamos autonomia individual sobre tudo mais?

Fiz essa pergunta a vários médicos e a resposta foi inequívoca. “Não conversamos”. Ou seja, nunca conversamos.

Oncologistas e médicos alternativos se movem em esferas diferentes apesar de bastante evidência sugerir que acabamos cuidando dos mesmos pacientes. Quando descubro (normalmente muito tarde) que meu paciente passou pela falsa promessa de uma cura não comprovada, eu me sinto deprimido. Quando mais caro, extremo ou exótico o tratamento, pior parece o fim.

Eu tenho pouca expectativa de que alguém que venderia falsa esperança a um paciente vulnerável fosse tentar me explicar suas razões. Uma vez eu encontrei um médico licenciado que orientou a um paciente injeções de vitamina de U$500,00 a pacientes de câncer. O momento em que descobrimos o que ele fazia foi constrangedor pra dizer o mínimo. Minha expressão perguntava: “Por que?”. Eu o vi se debater com a resposta antes de dizer: “Porque os pacientes querem”. Não havia solo em comum para uma conversa e não mantemos contato.

O terapeuta natural, o médico que receita enema de café ou o especialista em terapia de onda discutem cuidados do paciente com um oncologista? Não na minha esperiência. Nunca há uma correspondência escrita ou um telefonema, nem mesmo quando um paciente está desesperadamente doente e pode ajudar saber se algum tratamento não convencional levou a algum nível reversível de toxicidade. Por outro lado, eu ocasionalmente recebo pedidos para testes que o provedor de tratamento alternativo não pode assinar. O último foi: “preciso de um scan para mostrar qual terapia natural vai penetrar melhor no turmor”.

Eu educadamente neguei.

Os praticantes de medicina comunitários que são melhores em se comunicar com oncologistas são fisioterapeutas, enfermeiras de cuidados paliativos e clínicos gerais. Eles não parecem ter receio em relação a compartilhar dúvidas, buscar conselhos e negociar meios-termos.

Mas o apelo de muitas terapias alternativas parece estar nos seus poderes secretos de cura. Eu sei que isso é muito dito, mas eu não considero que arrogância seja uma boa explicação para por que oncologistas e médicos alternativos não conversam. Eu diria, entretanto, que receio e desconfiança são causas importantes. Assim como a compreensão perturbadora que um médico tenha que enfrentar repreensão por erro inadvertido mas um praticante de tratamento alternativo poderia escapar das consequências de causar dano intencional.

Isso não é uma razão para desculpar o primeiro, mas para regular o segundo. Talvez isso tornaria mais fácil seguir o conselho de que médicos precisam se familiarizar com as várias formas de medicina complementar e alternativa. É concebível que algumas medidas que valham a pena estejam manchadas pelo mesmo pincel que muitas das medidas fraudulentas.

O alfabetismo de saúde se move muito vagarosamente. A indústria alternativa de saúde, que vale muitos bilhões de dólares, marcha rapidamente. Ela sempre atrairá pacientes vulnerabilizados que se agarrarão à menor promessa de recuperação sem risco associado. Sempre que dinheiro muda de mãos e a premissa parece boa demais para ser verdade, o lema permanece: Caveat Emptor [“cuidado, comprador”].

Eduardo Patriota
Uma pessoa que sempre gostou de debater e de ouvir diferentes pontos de vista. Blogueiro há muitos anos, se sustenta trabalhando com informática, mas é apaixonado pela área de humanas e psicologia.