Bule Voador

Educação no Cárcere

Quando o governo fala que vai investir em educação (se for mesmo), me passa uma série de coisas ruins pela cabeça. A referência de educação que tenho, é a que tive na escola pública estadual paulista.

Uma escola cercada com arames _ hoje ela tem muros _ para os alunos não fugirem, tamanha era a vontade de ficar. Tinham grades nas janelas para evitar fugas e a passagem de mercadorias ilegais. Tinha um sinal sonoro de indústria têxtil para avisar a gurizada os horários de troca de aula, de lanche e da liberdade provisória. Tinha inspetora de aluno, que fazia guarda pelos corredores, é como se fosse uma carcereira, colocava para dentro os fujões e levava para a diretora do presídio, digo, da escola, os rebeldes. Tinha uma coisa chamada de delegacia de ensino, e eu morria de msociedade-sem-escolaedo do que podia ser esse negócio, para mim parecia um lugar para prender os alunos _ mal sabia que o preso ali era eu.

Os professores autoritários passavam metade da aula mandando aluno calar a boca e a outra metade falando. Só eles sabiam, só eles falavam. Aos alunos era permitido o direito à fala quando tinham que apresentar trabalho ou quando raramente um professor abria diálogo. Alguns professores deixavam a menina mais _ desculpem o termo _ gostosa da sala passar a matéria na lousa, calando assim os meninos, enquanto o professor copiava matéria no caderno da aluna que passava matéria na lousa. Alguns professores passavam matérias na lousa por dias e dias, até que marcavam uma prova e explicavam o conteúdo copiado na aula anterior. Era raro livros ou apostilas.

Quando um aluno perguntava o porquê daquele conteúdo ser ensinado, poucos professores se dispunham a responder, a maioria ficava incomodada com a pergunta e não respondiam, e outros falavam para o aluno parar de encher com “estas perguntas”.

Dos professores substitutos dava dó, pareciam cegos em tiroteio. Inventavam alguma coisa para passar o tempo dos alunos como filmes, deixavam guerra de papel, giz, borracha e etc rolarem solta, deixavam a galera ir para a quadra jogar bola (futebol ou vôlei). Aliás, as aulas de educação física normalmente eram assim: Um menino pegava a bola, levava para a quadra ou para a grama e já era, futebol! As meninas jogavam vôlei ou ficavam sentadas conversando.

E os conteúdos das aulas? Ah os conteúdos…
Quem não se lembra dos números imaginários? Eles estão na minha imaginação até hoje, e só nela, porque nunca usei esse negócio para nada.
Quem não se lembra dos alcadienos? Aquele negócio de química.
E daqueles nomes maravilhosos da biologia? Metástase, gineceu, mitocôndrias, complexo de golgi, adenina…
E o verbo to be? Awesome!

vol-cilindroEstes dias estava tomando um café, e tive a curiosidade de saber quantos mililitros (ml) havia no copo. Pela primeira vez na minha vida “precisei” medir o volume de um cilindro. O volume do cilindro é igual a pi (3,1416) vezes o raio ao quadrado vezes a altura (V = ᴨ * r² * h) . Raio é a metade de uma circunferência (círculo). Eu estava trabalhando na época, para ter essa curiosidade às 8h30 da manhã, você deve imaginar como eu estava motivado com o trabalho.

Os alunos sofrem bastante com este processo também. Eles são diferentes uns dos outros, alguns são excelentes em matemática e tem sérias dificuldades em português. E seus talentos e dificuldades não são levados em consideração. É uma educação de massa, um sistema de massa. Quem está em conformidade passa, quem não está não passa ou é forçado a passar, mesmo sem aprender _ o que não significa dizer, que quem passou aprendeu. Cria-se numa sala de aula um conceito de inteligentes e burros. Inteligentes são os bons no papel, na nota. Não é exigido dele pratica, portanto ele mesmo pode ser enganado, achando que está bom, mas a realidade é outra: não sabe aplicar quase nada do que aprendeu.

O sistema prisional-industrial de ensino se repete na faculdade. Professores falam, não há interação com o aluno, os alunos são tratados como iguais _ e não são iguais _ mas pelo menos não tem inspetora de aluno e as janelas não tem grades _ em compensação algumas tem policiais nos campus.

learnIsso sem contar, que o objetivo das faculdades cada vez mais não é formar pessoas livres (livres de pensamento, autônomas), é formar mão de obra. A pessoa estuda para entrar em uma profissão, não para ser uma pessoa melhor. Então se na quarta série você estudava para passar de ano, agora você estuda para conseguir o diploma e conseguir competir no mercado de trabalho. Não importa tanto o que você sabe. Importa ter diploma e saber se portar numa entrevista.

Alguns anos atrás alguém previu que a faculdade deixaria de ser suficiente, e que as pessoas teriam que ter uma pós, pois como o acesso a faculdade está cada vez mais fácil, a faculdade deixou de ser o diferencial. Mas a pós não está livre da mesma idiotização da faculdade. Irônico é ver que as pessoas tem mais acesso a educação, mas continuam sabendo tanto quanto antes ou até menos.

Volto a reflexão do início do texto: Quando o governo diz que vai investir na educação, ele quer dizer o que exatamente? Que vai manter esse sistema? Porque se for para isto, por favor, façam outra copa do mundo.

Links

Desescolarização

Finlândia quer acabar com ensino por matérias e pode revolucionar educação ocidental

Pedagogia do Oprimido

Para refletir sobre formas de educação, recomendo o documentário A Educação Proibida, que toca nos assuntos tratados acima de uma maneira profunda e muito interessante.

Ricardo Heavyrick
programador web de profissão, mas curte mesmo história, filosofia e política. Ex - viciado em video game, amante do futebol, heavy metal, do asfalto e da breja com os brothers. Sabe que nada sabe e espera que aquilo que não o mate, o fortaleça.
  • Thaise Roth

    Emoções diversas foram despertadas com esse texto. Engraçado que é a visão de alguém que não trabalha na área completamente iguala minha que trabalho na área. Faça o que posso para auxiliar mudar um pouco dessa visão, muitas vezes limitada pelas ordens ou simplesmente pela força do sistema. Mas peraí, o sistema não somos todos nós que fazemos? O Brasil ainda vive na década de 60 e poucos entendem que o desenvolvimento do humano, como ser humano é primordial para todos! Afinal, existe vida pós ENEM, VESTIBULARES ETC…

    • Ricardo Neves de Almeida Filho

      Thaise, é que os alunos não se dão conta disso, mas eles são expert em como funciona o sistema educacional: 1 ano de pré escola, 8 no fundamental e 3 no médio, mais 4 de faculdade e 1 e meio de pós, e se fizer técnico, mais uns 2 ou 3. É um sistema infeliz que não permite questionamentos, os alunos que deveriam ser o centro, não são chamados para o debate, eles não são ouvidos. É tudo um grande desperdício de tempo e energia.

      • Thaise Roth

        Concordo plenamente em ser um “desperdício”, por não ser direcionado da maneira como deveria no desenvolvimento integral do ser humano. Claro que os alunos entendem, e no mais colocam seus filhos “nas melhores” escolas, quais? Aquelas que mais aprovam no ENEM. Mas e a formação do que você tanto queria quando era estudante? Essas perguntas não querem calar. Vejo muitas escola serem fechadas porque adotam metodologias alternativas, “os pais não querem”, então me questiono sempre “onde estamos errando?”.

        • Ricardo Neves de Almeida Filho

          espero que agora com o Janine as coisas melhorem um pouco. Claro, ele precisa ter condições de trabalho. Ele costuma dizer que a filosofia não é uma andorinha solitária, e nem o próprio ministro é =D

  • Jean Rodrigues Couto

    Materia Perfeita.
    Parabens!

    Jean Rodrigues
    Profissão: Corte MDF
    São Paulo – SP