Bule Voador

Ora, direis ouvir estrelas… Astronomia e a adesão do Brasil ao ESO.

– “Astronomia? Mas por quê? Vai viver de estrela? O que você vai comer, poeira cósmica? Por que você não faz alguma coisa que dê dinheiro?”

Parece que todo futuro estudante de Astronomia enfrenta esta incômoda inquisição quando revela sua decisão sobre em que prestar vestibular.

Na minha própria experiência, me senti como se esperassem que eu reproduzisse uma versão da fala do Mestre Carpina em Morte e Vida Severina: “é difícil defender só com palavras a vida”, capitulando em frente ao pragmatismo da tríade direito-engenharia-medicina que acometia meus colegas. Mas eu conhecia a história da Astronomia melhor que meus preocupados inquisidores. Para um jovem coração idealista, o principal retorno à sociedade que a Astronomia proporcionava era o refinamento da nossa visão de mundo. Um papa totalitário possivelmente ainda estaria ditando os rumos da civilização não tivesse Galileu apontado o primeiro telescópio para o céu naquela noite de verão de 1609. Decisivamente mostrando que certos dogmas eclesiásticos estavam categoricamente errados, a Astronomia lançou as sementes para o enfraquecimento do poder do clero, e com isso abriu os portões para 400 anos de uma avalanche de avanços científicos, filosóficos e políticos, culminando nas tecnologias e liberdades individuais da Era Moderna. Astronomia inspira.

Galileu explica o relevo lunar a cardeais. Pintura de Jean-Leon Huens (1921-1982).

Mas se eu esperava haver uma estátua de Urânia em cada cidade esclarecida, ao invés eu era perguntado “Astronomia? Tem certeza?”. Acabei desenvolvendo um leque de respostas ao longo dos anos, para aqueles que, vez por outra, me provocavam a justificar minha existência. “Qual o valor da astronomia?”, pergunta o engenheiro. Respondia-lhe que “a ciência de hoje é a engenharia de amanhã”. Um colega músico uma vez também me perguntou “pra que serve astronomia?”, no que lhe retruquei “pra que serve Beethoven?”. E assim seguia, com uma resposta apropriada a cada interlocutor. Esta semana, porém, senti essa pergunta em escala nacional. “Pra que investir em astronomia?”, se perguntavam muitos dos políticos em Brasília.

Na última quinta-feira, dia 19 de março de 2015, a Câmara dos Deputados aprovou a adesão do Brasil ao ESO, o Observatório Europeu do Sul. A matéria agora segue para votação no Senado. O custo para o Brasil será de 270 milhões de euros, cerca de 1 bilhão de reais segundo a cotação atual, a serem pagos em 10 anos (fato que foi solenemente ignorado por todos os parlamentares contrários à proposta na sessão do dia 19 de março).

VLT – o Very Large Telescope do ESO. Estes instrumentos estão localizados no Chile devido as condições climáticas daquele país. Por lei, o Chile tem 10% do tempo em telescópios em seu território.

O ESO é um consórcio de 14 países  europeus. O maior observatório do mundo, também é o mais produtivo: um terço dos astrônomos do mundo o utilizam. Entre as instalações figuram o Very Large Telescope (VLT), o telescópio terrestre mais produtivo do planeta — perdendo apenas para o telescópio espacial Hubble em número de artigos científicos gerados; e a Atacama Large Millimeter Array (ALMA), uma rede de radiotelescópios de última geração, construída em parceria entre Europa, Estados Unidos, Canadá, China, Japão e Chile. Estes instrumentos geraram avanços científicos como a primeira imagem de um planeta ao redor de outra estrela, e a primeira imagem de um planeta em formação ao redor de uma estrela jovem. O ESO, com a parceria brasileira, irá construir também o primeiro da próxima geração de telescópios, o Extremely Large Telescope (ELT), que permitirá elucidar questões primordiais sobre a origem do universo e comprovar a existência de planetas como a Terra.

Participar deste seleto grupo de nações em pesquisa de vanguarda é um triunfo diplomático para a ciência brasileira. O Brasil será o único país não-europeu a participar do consórcio, tendo um representante brasileiro no conselho diretor para definir futuras políticas de atuação do grupo, e será co-proprietário de todos os equipamentos do ESO. É como ter um Hubble brasileiro.

– “Mas um bilhão de reais?”, diz o deputado Simplício Neto. “Pra olhar estrela?”

Sim, senhor deputado, meio, um ou dez bilhões valem a pena para sair da caverna de Platão. Mas se isso não lhe convence, veja dois erros do seu pensamento. Não estamos simplesmente pegando esse bilhão de reais e assinando um cheque a ser dado ao Chile e à União Europeia. Nem o projeto é simplesmente para ouvir estrelas. Ainda que andemos no mundo da Lua, certo não perdemos o senso.

A Astronomia é uma ciência multidisciplinar. Cada telescópio é um projeto colossal de engenharia moderna. Investindo no ESO estaremos investindo em engenharia, em informática, em desenvolvimento de softwares, em eletrônica, em óptica. Participando do ESO estamos investindo no desenvolvimento tecnológico do Brasil. Não é sem razão que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apoia integralmente a adesão do Brasil ao ESO. Vários segmentos da indústria nacional já manifestaram seu interesse em participar dos projetos do ESO, com a produção de tecnologia avançada em áreas onde já existe capacidade demonstrada. Quer dizer, o investimento no ESO se traduz em investimento na indústria nacional. O ESO garante que 70% desse dinheiro poderá retornar sob a forma de contratos à indústria local, investido em pesquisas e equipamentos desenvolvidos no Brasil. É um investimento direto na economia nacional. Com empreendedorismo, esse número pode se multiplicar, e o investimento no ESO irá então representar um aumento do PIB nacional, ao mesmo tempo ampliando o parque industrial e o desenvolvimento tecnológico brasileiro. Mesmo visando apenas o curto prazo, o retorno é, com o perdão do trocadilho, astronômico.

Isaac Newton e suas muitas descobertas e invenções.

E que dizer do retorno a longo prazo? A Astronomia é chamada de “a mãe de  todas as ciências”, e não sem razão. Foi o movimento regular das estrelas que ensinou à humanidade que a natureza é regida por leis, e que com base no entendimento destas leis, que ela não pode senão obedecer, poderíamos obter controle sobre a natureza. Isaac Newton inventou o cálculo e descobriu as leis da mecânica, que possibilitaram o desenvolvimento exponencial da engenharia, levando à tecnologia dos dias de hoje. James Clerk Maxwell descobriu as leis do eletromagnetismo, cujo entendimento revolucionou as telecomunicações. Niels Bohr desvendou os segredos do átomo, o que possibilitou a revolução digital. O que poucos lembram é que Newton tinha por objetivo explicar o movimento dos planetas. Maxwell queria entender os anéis de Saturno. Bohr estava tentando decifrar a natureza das estrelas. Nenhum deles poderia prever os desdobramentos de suas pesquisas enquanto as desenvolviam, e nenhum deles estava preocupado com a aplicabilidade financeira dos resultados. Mas a humanidade inteira teria perdido caso não lhes tivesse sido dada a oportunidade de continuar pesquisando.

Desde os primeiros registros históricos, percebe-se que a Astronomia esteve na vanguarda do progresso. Se você usa um calendário, você está usando astronomia. Navegando os oceanos, você usa astronomia. Construindo edifícios estamos usando astronomia. A tecnologia de posicionamento de satélites se usa de observações de fontes de luz nos confins no Universo: quando você usa GPS ou Google Earth, você está usando astronomia. As técnicas de imageamento desenvolvidas para pesquisa astronômica encontraram aplicações em outras esferas da tecnologia. Buscando captar mais luz das estrelas, deixamos de usar filme em nossas camêras e desenvolvemos detectores mais eficientes. Hoje em dia esses detectores são usados em câmeras digitais. Quando você bate uma selfie, você está usando astronomia. Quando você faz imageamento por ressonância magnética, você está usando astronomia. Softwares desenvolvidos para processamento de imagens astronômicas são usados em medicina. Quando você faz uma tomografia computadorizada, você está usando astronomia. Como subproduto de uma pesquisa sobre buracos negros nos anos 90, se descobriu como reduzir a interferência de ondas de rádio que reverberavam em espaços fechados. A técnica que se produziu para clarear e amplificar esses sinais levou a um aumento estupendo na velocidade de comunicação wireless. Hoje isso se encontra na forma de um chip em todo computador pessoal, laptop, e smartphone. Quando você usa wi-fi, você está usando astronomia. Usando microondas, raios X, você está usando astronomia. Astronomia, como poucas ciências, mostra claramente como a pesquisa fundamental em fenômenos a princípio longe de qualquer aplicação prática é na verdade um dos principais agentes do progresso tecnológico. Astronomia inova.

Mas, principalmente, o ESO é um investimento no futuro dos brasileiros. O grau de desenvolvimento científico e tecnológico de um país é fortemente correlacionado com o índice de desenvolvimento humano — uma estatística que mede expectativa de vida, educação, e renda per capita. Juntando-se ao ESO, desenvolveremos a infraestrutura da ciência brasileira. Um dos questionamentos simplistas à adesão ao ESO é: de que adianta algo tão de ponta se as crianças têm escolas sucateadas e a saúde vai muito mal? Carlos Wagner Ribeiro, diretor do Planetário Via-Láctea de Cuiabá responde que os que assim questionam “se esquecem que não há futuro para as crianças que quiserem se inserir no contexto mundial do conhecimento se chegarem ao final dessa educação e tiverem que ir para outros países transformando o Brasil em exportador de conhecimento ou se conformarem com o ostracismo”. De fato, que adianta formar cientistas apenas para exportá-los? Sem infraestrutura e apoio à pesquisa, seguiremos perdendo nossas melhores mentes, que vão contribuir para a ciência do primeiro mundo, quando poderiam estar ajudando a desenvolver o nosso país. Participando do ESO, teremos mais acesso aos meios de produzir ciência de ponta, com os melhores telescópios do mundo. Criaremos empregos para nossos jovens cientistas e técnicos, e atrairemos pesquisadores brasileiros em diáspora de volta para o Brasil. É uma situação com a qual só temos a ganhar. Astronomia educa.

Por fim, não percamos de vista que a conta é barata. O valor é uma fração do que custou a Copa de 2014, que não trouxe nem uma fração dos benefícios financeiros e tecnológicos que a adesão ao ESO proporcionará. Soma-se a isso o fato que a taxa de adesão é diluída em dez anos, sendo portanto menos de 100 milhões de reais por ano. No mês passado um deputado pediu a retirada de pauta do projeto, alegando que era muito custoso. Os astrônomos brasileiros em polvorosa passaram a escrever para o deputado, fazendo também campanha nas redes sociais. O deputado em questão, Fabio Garcia (PSB-MT), depois de melhor informado, louvavelmente reviu sua posição. Porém, enquanto tentávamos convencer o deputado e o público dos méritos do projeto, a Câmara aprovou um reajuste de seus próprios salários e benefícios, ao custo de 120 milhões de reais por ano aos cofres públicos. Mais do que a conta do ESO. Foi um momento de completo desânimo, de constatação que se tratava não de falta de verba, mas de falta de vontade política.

As constantes retiradas de pauta do texto deste acordo também quase impossibilitaram sua ratificação e poderiam tê-lo inviabilizá-lo por completo, fazendo com que o ESO retirasse o convite de adesão feito ao Brasil. E nesse caso, a Rússia e a Índia lucrariam: os dois países só estão esperando nossa desistência para lançar suas candidaturas. O Brasil, aliás, já anda com fama de caloteiro junto à comunidade científica internacional, pois não cumprimos o acordo com a Estação Espacial Internacional, o que levou à expulsão do Brasil do consórcio. Em vez de desenvolver o programa espacial brasileiro, optamos pela saída mais fácil, que foi mandar o astronauta Marcos Pontes como turista espacial em uma Soyuz russa.

 

Estação espacial internacional. Admitido em 1997, o Brasil deixou o programa em 2007, por falta de pagamento.

 

Lembramos deste vexame porque o projeto, ainda que tenha sido aprovado pela Câmara, ainda vai ao Senado. A possibilidade de bloqueio é baixa, mas não nula. E mesmo depois do senado, o governo pode bem dar novo calote. É nosso dever como cidadãos comprometidos com a educação e com o desenvolvimento do Brasil pressionar o governo para que a adesão ao ESO se concretize e os acordos sejam cumpridos.

Mas, por hora, podemos nos dar ao luxo de comemorar. A aprovação da Câmara é uma boa notícia, e um bilhão de reais muito bem gasto. Finalmente uma bola dentro. ESO vale a pena.

 


 

Wladimir Lyra, astrônomo. Mestre e doutor (2004-2009) em Astronomia pela Universidade de Uppsala na Suécia e pós-doutor pelo Laboratório de Propulsão a Jato, da Nasa e Instituto de Tecnologia da Califórnia (2011-2015), Museu Americano de História Natural nos EUA (2009-2011), e Instituto Max-Planck de Astronomia, na Alemanha (2009). Bacharel em Astronomia pela UFRJ (2003), realizou estágios de pesquisador assistente no Instituto do Telescópio Espacial nos EUA (2002), Observatório Intercontinental de Cerro Tololo no Chile (2003-2004), Observatório Europeu do Sul (2003) e Universidade de Lisboa (2003). Foi recipiente da prestigiosa bolsa Carl Sagan (2012-2014), oferecida pelo Instituto de Pesquisa em Planetas Extrasolares da Nasa (NExScI).

Contribuíram edições para o texto:

Emille Ishida, pesquisadora visitante do Instituto Max-Planck de Astrofísica, na Alemanha. É bacharel em Física pela Universidade Estadual de Campinas (2003), mestre (2006) e doutora (2010) em Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fontes:

Moção de apoio unânime dos astrônomos da UFRJ ao ingresso do Brasil no ESO.

Sobre a entrada do Brasil no ESO, Sociedade Brasileira de Física.

Apoio dos jovens astrônomos a entrada no ESO.

FAQ ESO-Brasil, em inglês.

Carta elaborada pelo Professor Eduardo Janot Pacheco sobre a adesão ao ESO.

Matéria no Expresso MT

Wladimir Lyra
Professor de astronomia, doutor em astrofísica e pesquisador visitante da Nasa. Cientista com alma de poeta, humanista, itinerante cidadão do mundo, aspirante a violonista clássico e chef nas horas vagas.
  • filiphezucchi

    Professor, excelente seu texto e principalmente sua colocação. Sou um apaixonado por astronomia, ciência e tecnologia e frequentemente me revolto vendo o descaso com que estes temas são tratados em nossos país o que me leva a crer que indiscutivelmente o conhecimento e a qualidade de nossos políticos é péssima. Uma mistura de mal com pior, de absurdo com inacreditável. Vejamos pela frase e proposta do deputado. Ninguém é obrigado a nascer sabendo, mas falar uma besteira como a dele demonstra a completa falta de conhecimento de quem ocupa o posto que ocupa e de quem deveria defender o avanço nacional.

    Acontece que o Brasil vem virando uma espécie de “reinado” onde a classe política faz o que bem quer, entende e vive no bem bom com aumentos sucessivos de gastos e privilégios e o restante – nós – somos os escravos. Pagamos altíssimos impostos para não termos absolutamente NENHUM serviço mediano ou de excelência em NENHUMA área. Não existem METAS CLARAS e DEFINIDAS de domínio público da qual o governo se preocupe verdadeiramente em atingir e administrar e tão pouco temos um projeto de 50 ou 70 anos para o país.

    Ainda daria para citar o gasto absurdo com as olimpíadas de 2016 e todo o dinheiro desviado…

    Tomara que o Brasil não atrase os pagamentos e/ou que não se torne mais uma vergonha como foi com a ISS…