Bule Voador

A sua saúde depende da saúde do planeta

colher IIA espécie humana surgiu aproximadamente há 200 mil anos e foi beneficiada a um extraordinário legado provido da evolução de um planeta de 4,6 bilhões de anos. E em pouco tempo, uma única espécie conseguiu deteriorá-la, conseguiu habitar cada espaço como nenhuma outra espécie e modificou a estrutura desse planeta. A Terra regula sozinha seu clima e composição, mas a espécie Homo sapiens a detém como tivesse no comando desse processo, como a tivesse escrava de suprir somente as suas necessidades. Em decorrência disso, vivemos um momento de crise.

Apesar das controvérsias quanto às causas antropogênicas do aquecimento global, o fato é que ele está acontecendo. Segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) que têm como base pesquisas científicas para sua realização, a temperatura terrestre poderá aumentar de 2,6 ºC e 4,8 ºC ainda neste século, e o nível dos oceanos poderá subir até 82 cm. Essas previsões são o resultado de uma dilatação térmica proveniente do aumento da temperatura e do derretimento de geleiras. E o relatório ainda aponta a ação humana como a maior responsável por tais prognósticos.

O clima da Terra é alterado, a longo prazo, a partir de eventos naturais, tais como: atividade vulcânica, mudanças da radiação solar e da composição química da atmosfera. Entretanto, o aumento da temperatura média global em um período relativamente curto, está ocorrendo devido às altas emissões de gases do efeito estufa. Nem todo o calor da luz solar é absorvido pelo planeta, parte dele é refletido de volta para o espaço, obviamente, se não houver nenhuma barreira para sua saída. O excesso de dióxido de carbono e metano na atmosfera bloqueia a saída desse calor e o planeta torna-se extremamente quente. Um agravante é o degelo do Ártico. Por se tornar mais escuro, há uma redução da refletividade da luz solar, consequentemente maior absorção de calor e mais degelo. Um ciclo sem fim. Deste modo, os processos naturais mudam, desencadeando um abrupto desequilíbrio ecológico.

As elevações da temperatura média global têm alterado o ciclo hidrológico, ou seja, ele se intensifica a ponto de mudar o tempo, quantidade e local das precipitações. Regiões se submergirão enquanto outras secarão. Em um planeta em que 1 bilhão de pessoas já vivem com a falta de água, imaginar como será sem os maiores fornecedores de água pura, tais como as geleiras do Himalaia e dos Andes torna a crise mais preocupante. Além disso, o degelo do Ártico modifica o teor de salinidade do oceano, mudando as correntes e influenciando na vida marinha e de populações costeiras. E nessa onda de desencadeamento sem fim, as migrações e evacuações dessas áreas, podem levar a conflitos e guerras.

As mudanças climáticas e a depleção dos recursos energéticos são capazes de desestruturar nações e destituir governos. A intensa seca no país sírio entre os anos de 2006 e 2010 impedindo a produção agrícola fez com que milhares de camponeses se deslocassem para a cidade. Os protestos na Turquia foram causados pela defesa da última área verde de Istambul. O governo queria fazer um shopping center no local. Há um possível elo entre o risco de escassez de recursos hídricos na Tunísia, no Egito e na Líbia, com a primavera árabe. E por fim, os protestos nas ruas brasileiras originaram-se a partir de um drama de mobilidade urbana. Portanto, podemos fazer uma conexão entre o clima, terra, água, alimentos, recursos, mobilidade urbana, estresse econômico e político. Ou seja, a crise climática se converte em uma crise humanitária.

Concomitantemente, passamos por uma crise global da biodiversidade. Estima-se que 10 mil espécies são extintas por ano, um valor muito acima do natural. Alguns cientistas arriscam falar em uma sexta crise de extinção, porém, a sua diferença entre as outras cinco que ocorreram no planeta ao longo do tempo geológico, é que essa tem sido causada pela espécie humana. A velocidade que utilizamos os recursos naturais e influenciamos os resíduos de CO2 na atmosfera são os principais motivos dessa perda. A biodiversidade da Terra está ligada aos alimentos e remédios que consumimos, uma cadeia de organismos é necessária para cultivar uma única planta, e a perda de qualquer espécie desestrutura o fim desse processo. Hoje em dia, colhemos mais de 50 mil espécies de vegetais para uso medicinal em todo o mundo. Sem contar a contribuição ecológica das espécies, a qual é essencial para a regulação climática e controle biológico de epidemias. Portanto, nossa saúde é inerente à saúde natural da Terra e todas as formas de vida são imprescindíveis para o equilíbrio ecológico.

Contudo, a crise ambiental que vivemos não foi algo imposto a nós por catástrofes cíclicas e normais de um planeta. A crise foi criada pela única espécie que tem consciência dela, o Homo sapiens, o homem sábio. Sendo assim, nos tornamos responsáveis pela preservação e restruturação da natureza. Com tais previsões, conseguiremos nos adaptar com essas mudanças? A humanidade nunca passou por um problema climático tão relevante, problema esse que afetará nossa saúde, a terra, a segurança alimentar e a água. Se continuarmos com esse consumo insustentável, se não tivermos um limite a esse consumo que vai contra o equilíbrio natural, serão a natureza e os fenômenos físicos que vão impor limites ao desenvolvimento humano. Apesar da grandeza que é o aquecimento global, acreditar em mudanças locais e globais com pequenas escolhas faz toda diferença. Você, consumidor, tem esse poder de exigir seus direitos, ou seja, você pode abolir produtos e empresas que não atendem ao consumo consciente, e obviamente, começar a consumir menos energia, utilizar menos seu carro, usar sacola retornável, lutar por menos derrubadas de árvore, preservar o ecossistema e principalmente sua saúde e a do planeta.

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Para saber mais:

http://www.theguardian.com/science/scienceofclimatechange

http://www.americanprogress.org/issues/security/report/2013/02/28/54579/the-arab-spring-and-climate-change/

http://www.bulevoador.com.br/2013/04/evidencias-do-aquecimento-global-antropogenico/

http://wwf.panda.org/about_our_earth/biodiversity/biodiversity/

Assine a petição – http://www.savethearctic.org/

Autora: Vanise de Medeiros – graduanda em ciências biológicas ULBRA/Canoas

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.
  • Érico Martins

    “Apesar das controvérsias quanto às causas antropogênicas do aquecimento global”
    Não existe controversia, entre os cientistas da área, mais de 98% concordam com o AGA. São institutos de propaganda, financiados pelas industrias sujas (petróleo, carvão e gás) que atraves de mentiras e manipulações da a impressão que ainda existe alguma controversia sobre o assunto.

    • Vanise de Medeiros

      É verdade, não me aprofundei a essa questão no texto, mas a
      maior problemática de ainda existir céticos sobre o aquecimento global é o
      espaço reservado na mídia para o debate. Os 2% de cientistas que não concordam
      com as medidas severas propostas pelo IPCC, como tu mesmo citaste, são
      claramente financiados por empresas de petróleo, carvão, indústria
      automobilística e até mesmo organizações religiosas, e eles detém 50% dos meios
      de comunicação. Apesar de concordar com a liberdade de imprensa sendo imprescindível
      a disponibilização igualitária para espaços com divergentes opiniões, ainda
      assim, acabam deturpando a grandeza das mudanças climáticas. Também não entrei
      na questão política e governamental, apenas porque, encorajar uma mudança para
      uma visão mais sustentável do seu cotidiano, traz o problema e a solução para
      mais perto das pessoas. Uma grande atitude que podemos tomar é na hora de
      votar, por exemplo. Quantos de nós pensamos em pesquisar o que cada candidato
      tem feito para o bem do meio-ambiente? Obrigada por lembrar esse ponto, Erico.
      Um abraço.