Bule Voador

Catolicismo e Evolução: Pode um Católico Romano Ser Darwinista? (Parte I)

Nota do Editor

O texto a seguir é de autoria de Owen Flanagan. A tradução foi realizada com permissão da editora do livro The Really Hard Problem:  Meaning in a Material World. O tradutor  é Luan Rafael Marques. O texto foi dividido em duas partes, com a segunda agendada para amanhã.

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Embargo: Infalibilidade Papal

Há muita confusão sobre este assunto. Em strictu sensu, um pronunciamento papal é infalível apenas quando (a) é relativo a uma questão de fé ou dogma e (b) é pronunciado segundo as regras bem formais que governam a fala ex cathedra. Creio que a última vez que (a) e (b) ocorreram foi nos anos 1950, quando a assunção corporal direta aos céus da Virgem Abençoada se tornou um dogma formalmente exigido e infalivelmente afirmado. Então, certas coisas como as opiniões católicas romanas sobre contracepção não foram feitas infalivelmente, mas talvez elas se concluamcolher dedutivamente de alguma doutrina que tenha um status infalível. Essa questão de implicação lógica causa uma complicação interpretativa a respeito da questão da evolução. Embora nenhuma das declarações relativas à evolução tenha sido declarada da maneira infalível ex cathedra, elas (estou bem certo) se concluem logicamente de questões de fé e dogma que há muito foram declaradas dessa maneira com o imprimatur da infalibilidade.

Meu amigo Michael Ruse escreveu um livro interessante chamado Can a Darwinian Be a Christian? [Pode um Darwinista Ser Cristão?] (2001). Sua resposta é “Sim, mas não é tão fácil assim”. Aqui eu viro a questão de cabeça para baixo e pergunto mais especificamente “Pode um católico romano ser darwinista?” (ou, melhor talvez, “devia um católico romano ser darwinista?”). A intenção da força de “dever” aqui é de nos colocar na vizinhança desta questão mais específica: Se você acredita no que o Catolicismo Romano diz que você deve acreditar a respeito de Deus e da alma, pode você de forma lógica e coerente acreditar na evolução? Eu acho que a resposta é Não—se o Católico aceita o que a Igreja exige. O ensinamento católico estrito fará o “aspirante” a darwinista católico manter visões estranhas, possivelmente incoerentes, a respeito da causação mental. Eu oferecerei minhas razões para pensar isso após reprisar a posição da Igreja sobre a evolução. Se estiver certo, isso nos ajudará a entender por que (na América e talvez alhures) os números dos que não aceitam o Darwinismo são tão altos—na área dos 50 por cento. Afora aquelas que não compreendem o que é o Darwinismo em questão, em sua maioria as religiões não são na realidade logicamente compatíveis com o Darwinismo.

 

I. Em sua encíclica de 1950 Humani Generis, o Papa Pio XII faz alguns gestos conciliatórios para aqueles que desejam estudar o desenvolvimento da vida na Terra. No entanto, é importante que a encíclica carregue este subtítulo: ­CONCERNENTE A ALGUMAS FALSAS OPINIÕES QUE AMEAÇAM MINAR OS FUNDAMENTOS DA DOUTRINA CATÓLICA A NOSSOS VENERÁVEIS IRMÃOS, PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E OUTROS ORDENADOS LOCAIS QUE DESFRUTAM DE PAZ E COMUNHÃO COM A SANTA SÉ.

O conteúdo relativo à evolução pode ser resumido da seguinte forma:

 

1. A igreja não proíbe que (…) pesquisas e discussões, da parte de homens com experiência em ambos os campos, ocorram com respeito à doutrina da evolução, na medida em que ela investiga a origem do corpo humano como vindo de matéria preexistente e vivente.” (ênfase adicionada)

2. Os católicos estão livres para formar suas próprias opiniões sobre a evolução, mas deviam fazê-lo com cuidado; não devem confundir fato com conjectura e devem respeitar o direito da Igreja de definir questões relativas a revelação e ética.

3. Os católicos devem crer, no entanto, que a alma humana foi criada imediatamente por Deus. Dado que a alma é uma substância espiritual, ela não é trazida à existência pela transformação da matéria, mas sim diretamente por Deus, de onde vem a unicidade especial de cada pessoa.

4. Todo homem descendeu de um indivíduo, Adão, que transmitiu o pecado original a toda a humanidade. Os católicos, portanto, não podem crer no “poligenismo”, a hipótese científica de que a humanidade descende de um grupo de humanos originais (que havia vários adãos e evas).

 

Alguns chamaram de neutra a visão do Papa. E muitos terão problema com 4. Outros descrevem a visão como “compatibilista”, como uma tentativa de impedir que as duas teorias se contradigam. Depois de falar mais a respeito da história das visões da Igreja, explicarei por que eu penso que nenhuma compatibilidade real é alcançada.

 

II. Em 1996, o Papa João Paulo II foi além da abertura judiciosa de Pio XII com respeito à possibilidade da evolução natural do corpo humano para a aceitação da história como verdadeira com respeito ao corpo. João Paulo II escreveu:

 

Em sua encíclica Humani Generis (1950), meu predecessor Pio XII já afirmou não haver conflito algum entre a evolução e a doutrina da fé relativa ao homem e sua vocação, contanto que não percamos de vista certos pontos fixos. (…) Hoje, mais de meio século depois da aparição dessa encíclica, algumas novas descobertas nos levam na direção do reconhecimento da evolução como mais que uma hipótese. De fato, é notável que esta teoria tenha cada vez mais influência sobre o espírito dos pesquisadores, seguindo uma série de descobertas em diferentes disciplinas eruditas. A convergência nos resultados desses estudos independentes — que não foram nem planejados nem buscados — constitui em si mesma um argumento significante em favor à teoria.

 

Na mesma “Mensagem à Pontifícia Academia de Ciências sobre a Evolução”, João Paulo II reiterou a rejeição de qualquer teoria da evolução de ofereça uma explicação materialista para a alma humana:

 

Teorias da evolução que, por causa das filosofias que as inspiram, consideram o espírito ou como emergente das forças da matéria vivente, ou como um simples epifenômeno da matéria, são incompatíveis com a verdade sobre o homem.

 

III. Em parte porque um novo papa, Bento XVI, foi instalado em 2005, numa época de contínuos e por vezes ferozes debates sobre criacionismo e design inteligente, as pessoas abriram os ouvidos para quaisquer pronunciamentos do Vaticano. Uma considerável comoção foi causada por um artigo do New York Times em Julho de 2005, “Finding Design in Nature” [Encontrando Desígnio na Natureza], no qual o Cardeal Schönborn, um colega próximo do novo papa e o cardeal arcebispo de Viena, escreveu:

 

Desde 1996, quando o Papa João Paulo II disse que a evolução (um termo que ele não definiu) era “mais que uma apenas uma hipótese”, os defensores do dogma neodarwinista têm invocado com frequência a suposta aceitação — ou ao menos a aquiescência — da Igreja Católica Romana quando defendem sua teoria como de alguma forma compatível com a fé cristã. (…) Mas isso não é verdade. A Igreja Católica, ao passo que deixando para a ciência muitos detalhes a respeito da história da vida sobre a Terra, proclama que à luz da razão o intelecto humano pode pronta e claramente discernir propósito e projeto no mundo natural, incluindo o mundo das coisas viventes.

A evolução no sentido de ancestralidade comum pode ser verdadeira, mas a evolução no sentido neodarwinista — um processo não guiado e não planejado de variação aleatória e seleção natural — não é. Qualquer sistema de pensamento que nega ou busca varrer para debaixo do tapete com uma explicação as evidências devastadoras para o desígnio na biologia é ideologia, e não ciência.

Numa nova e infeliz deturpação nesta velha controvérsia, os neodarwinistas recentemente buscaram retratar nosso novo papa, Bento XVI, como um satisfeito evolucionista. Eles citaram uma sentença a respeito da ancestralidade comum de um documento de 2004 da Comissão Teológica Internacional, observaram que Bento era na época líder da comissão e concluíram que a Igreja Católica não tem problema com a noção da “evolução” como é utilizada pela corrente dominante de biólogos — isto é, sinônimo de neodarwinismo. (…) O documento da comissão, no entanto, reafirma o ensinamento perene da Igreja Católica a respeito da realidade do desígnio na natureza. Comentando sobre o difundido abuso da carta de 1996 de João Paulo sobre a evolução, a comissão avisa que “a carta não pode ser lida como uma aprovação geral de toda teoria da evolução, incluindo aquelas de proveniência neodarwinista que negam explicitamente à providência divina qualquer papel verdadeiramente causal no desenvolvimento da vida no universo”. 

 

Além do mais, de acordo com a comissão, “Um processo evolutivo não guiado—um que se põe fora das fronteiras da providência divina—simplesmente não pode existir.’’ (…) De fato, na homilia em sua instalação apenas algumas semanas atrás, Bento proclamou: “Não somos um produto causal e insignificante da evolução. Cada um de nós é o resultado de um pensamento de Deus. Cada um de nós é desejado, cada um de nós é amado, cada um de nós é necessário.”


Parte 2

 

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.
  • Legal. “CONCERNINDO”? Tradução inadequada…