Bule Voador

Catolicismo e Evolução: Pode um Católico Romano Ser Darwinista? (Parte II)

Nota do Editor

Essa é a segunda parte do texto “Catolicismo e Evolução: Pode um Católico Romano Ser Darwinista?”. A primeira encontra-se aqui. O texto é de autoria de Owen Flanagan (do livro The Really Hard Problem) com tradução de Luan Rafael Marques.

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Minha Análise

colher1. Todos os partidos acima concordam que Deus é criador. É isso o que significa ser teísta. Então, se a seleção natural explica a forma corporal/evolução, Deus, sendo onisciente e onipotente, a planejou deste jeito. Ele pode ter estabelecido o plano quando plantou a singularidade que explodiu e criou o cosmos, ou pode ter intervindo em algum lugar pelo caminho durante o tempo histórico-mundial e adicionado princípios darwinianos à mistura, pensando-os ser uma boa ideia. Se for o primeiro caso, temos o Deus dos deístas, que é menos do que a Igreja Católica deseja. Se for o segundo, então Deus, um ser puramente espiritual/imaterial, interage causalmente com o mundo em tempo real. Essa é uma ideia da qual ninguém jamais fez sentido. O que acontece, é claro, é que os cosmólogos, os evolucionistas, e assim por diante, dirão educadamente que criação ex nihilo não é algo que eles possam rejeitar de antemão. Mas verdade seja dita, não é algo a que eles possam fornecer qualquer apoio lógico, dado um comprometimento geral com as leis físicas conhecidas. Permitir algo como o Deus dos deístas é, pelo que posso dizer, uma questão de cortesia política entre aqueles que pensaram bem sobre a sua ciência mas não veem razão nenhuma para incomodar quem adota uma crença (eles esperam) inocente como essa. Há também, lamentavelmente, muitos cientistas que simplesmente não pensaram bem sobre a sua ciência e assim acreditam ser epistemologicamente responsável para eles acreditar em um Deus criador. Não é. Os budistas têm a ideia melhor aqui. Seja ateu, agnóstico ou quietista sobre a questão.

 2. ‘‘Teorias da evolução que, por causa das filosofias que as inspiram, consideram o espírito ou como emergente das forças da matéria vivente, ou como um simples epifenômeno da matéria, são incompatíveis com a verdade sobre o homem.” E assim devemos crer que na concepção Deus “implanta” uma alma humana única.

 Dois Comentários sobre o Item 2: Implementação da Alma na Concepção

Primeiramente, a evolução de fato considera a senciência, incluindo a senciência humana, como um fenômeno biológico emergente. Mas precisamos entender por que isso é um problema além do fato de que é inconsistente com a doutrina da “implementação da alma”. E isso não nos dizem. Mas, em segundo lugar, não é verdade que a evolução trata “o espírito” como um “simples epifenômeno da matéria”. Se “espírito” significa uma alma imaterial, então os pensadores evolucionários não engolirão a existência de uma coisa dessas. Se significa “a mente consciente incorporada”, então tudo bem. A mente consciente e seus poderes causais não são problema, ao menos em princípio. A cada dia a neurociência está desvendando novos segredos sobre o modo como nossas mentes incorporadas funcionam. A subjetividade é real, ela emergiu evolutivamente e seu lar é em nossos cérebros/eus incorporados. Um epifenômeno é um efeito colateral de algum processo que em si não faz nenhum trabalho causal interessante. Mas mentes, segundo a teoria da evolução, fazem bastante trabalho. Temos mentes, realizamos ações intencionais, etc. Nossos efeitos cármicos são abundantes e visíveis em todo lugar. Além do mais, cada mente é única pois emerge de um conjunto único de processos biológicos e de desenvolvimento. Se Deus implanta almas, então ele está exercendo o tipo de poderes causais em tempo real que nenhum cientista respeitável acharia possível. A situação é muito pior até do que a intervenção que imaginei quando Deus decidiu trazer a seleção natural ao mundo—digamos, quando o Big Bang explodiu, ou quando a Terra veio à existência. Ele está literalmente envolvido em cada e todo evento de fertilização humana!

 3. Há mais um problema. Ou almas fazem trabalho causal ou não fazem. Se elas fazem trabalho causal, elas não o fazem de acordo com princípio algum que a ciência aceita. Se elas não fazem trabalho causal, elas são epifenomenais!

 4. Por que os católicos ligam para almas imateriais? Minha opinião é que tudo se resume à escatologia católica. Corpos morrem, decaem e dispersam. Talvez isso não aconteça com coisa imaterial. Assim, a ideia parece ser exigida se a visão costumeira da recompensa e da punição eternas tiver qualquer chance de ter credibilidade. Se você quiser jogar esse joguinho misterioso, então você terá que ter imaginação. Há outra óbvia rota que você poderia tomar. Deixe que Deus seja deísta, permita que seu plano seja que o mundo se desdobre como ele planejou, posicionando-nos para ver que a bondade dá frutos. Deixe que Deus do lado de fora deste mundo marque o placar de cada vida. Quando você morrer, permita que Deus em Seu mundo crie uma réplica de você em ectoplasma imaterial. Ele recompensa “você” em “Seu Mundo” como lhe aprouver. Alguns, não todos, os problemas com a interação se tornariam menos problemáticos se os teólogos seguissem esse conselho.

Porque essa ideia concede um pouco de espaço à ideia de um Deus onisciente e onipotente em algum outro mundo, ela pode ser algo que os cientistas deixarão passar, não porque a achem verdadeira, mas porque veem as crenças envolvidas como relativamente inofensivas. Como David Sloan Wilson em seu livro Darwin’s Cathedral (2003), eu acho que por vezes enfatizamos além da conta a importância de ideias teológicas incríveis na religião e perdemos de vista um tanto da importante sabedoria moral que elas contêm (mas, reconhecidamente, têm de tudo um pouco).

O resultado da discussão é este: Se você for um crente verdadeiro no que a Igreja Católica Romana diz que você deve acreditar sobre Deus, sua contínua intervenção em todo evento de fertilização humana e sobre a natureza imaterial das almas, então seu compromisso com o que a ciência ensina é muito fraco. A teoria da evolução é muito bem confirmada e nega ou implica a negação do que é exigido que você acredite como um católico romano. Há um tipo de católico romano que pode acreditar na evolução. Eu talvez me encaixe na descrição: Não acredite em nada da teologia ou da metafísica. Mas seja um católico cultural ou étnico (da maneira que muitos ateus judeus são). Vá à missa, medite e reze da maneira católica se assim desejar, consulte os santos corretos dependendo das suas necessidades, divirta-se, etc. Essa é uma maneira razoável de afirmar sua identidade, você pode encontrar orientação moral nos locais e pode deixar de lado toda a baboseira mágica. Esse negócio é ridículo, impróprio para almas ponderadas e pode ser perigoso.

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.