Bule Voador

O 20 de novembro: por que “consciência humana” não serve.

Há uma semana, critiquei uma mensagem que circulou pelo Facebook defendendo uma “consciência humana” durante os 365 dias do ano em detrimento de uma consciência negra. Hoje, Dia da Consciência Negra, escolhido para resgatar a data de falecimento de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695, reproduzo abaixo a crítica que fiz.

Imagem sem autoria divulgada na página Smile.

Imagem sem autoria divulgada na página Smile.

A mensagem criticada, que pode ser vista na imagem ao lado, trazia o seguinte: “não precisamos de um dia da consciência negra, branca, parda, amarela, albina… Precisamos de 365 dias  de consciência humana…“. Eu fiz quatro apontamentos sobre esta ideia, que parece positiva numa olhada apressada, indicando porque ela não é empoderadora e, ao contrário, contribui para a invisibilidade da luta contra o racismo.

1. Discursos “não precisamos” são verticalizados e arrogantes. Quem disse que não precisamos? Foram as organizações do movimento negro? Certamente não, porque muito lutaram para que o 20 de novembro fosse uma data de resgate da memória de Zumbi dos Palmares e, portanto, da própria resistência à escravidão. Afinal, lembrar Princesa Isabel é uma piada em termos de resgate da luta da população negra no Brasil. Quando se utiliza “não precisamos”, é preciso ter clareza de onde falamos e quem o fala. O protagonismo da reflexão sobre a relevância desta data é das pessoas negras, dxs ativistas negrxs e das organizações que atuam no combate ao racismo.

2. A ideia de que exista algo chamado “consciência humana” é uma grande ficção, e nem diria que chega a uma utopia. Se não reconhecemos os privilégios que temos (e todos nós temos alguns, outros muitos), o lugar de onde falamos e o que sabemos ou não das lutas de outros grupos e pessoas, caímos neste conto de fadas de que existe uma “consciência humana”. E o fato de sermos humanistas seculares e atuarmos no fortalecimento tanto da LiHS quanto desta cosmovisão deveria nos deixar ainda mais claro o quanto um “humano universal” e com demandas puramente universais não existe, ainda que haja direitos básicos que entendemos serem universais. Entretanto, na hora de construir um discurso e projetos políticos de intervenção no mundo, é preciso observar a história e as formas de funcionamento do poder.

3. O que a história nos ensina é que para esvaziar uma luta, você descaracteriza seus sujeitos e demandas, despersonifica suas especificidades e dilui pautas específicas em pautas genéricas. É assim que as formas de operação do poder (essencialmente econômico, que deriva para o político e midiático) conseguem esvaziar movimentos sociais, manifestações e reivindicações. E quando se tenta fazer isso pelo discurso desta imagem, não estamos ajudando mesmo. Estamos ignorando a história ao fazer isso. Ignorando movimentos por direitos civis e sociais em várias partes do mundo, ignorando o que as diversas ondas dos movimentos feministas nos legaram e o que o próprio movimento LGBT nos ensinou. Ou seja, quando não damos nome à opressão, aos oprimidos, aos opressores, às formas específicas de opressão, e às formas específicas de combatê-la, nós enfraquecemos uma causa. E o jeito mais comum (por isso clichê) de se fazer isso é apelando para uma consciência humana, uma empatia universal, um “humano global”. Nada disso existe.

4. Por fim, as formas de atuação política que temos no mundo não funcionam com um discurso de diluição das causas e de desejo de permanência da atenção sobre todas elas (o tal “365 dias do ano”). Um exemplo prosaico é observar como uma entidade que se pretende global, as Nações Unidas, tem agendas específicas, com datas e atividades específicas. Se uma “consciência global” fosse suficiente, não seria preciso instituir não só no plano do discurso, mas no das práticas das instituições e seus sujeitos, formas de atuação que lembrem da especificidade de cada demanda, de cada causa e suas complexidades. Quem pode protestar 365 dias do ano em favor de uma causa? Quem vai à Câmara Municipal, à prefeitura ou ao Senado todos os dias, para citar um exemplo? Quem faz isso para todas as causas? Todo mundo? Não, ninguém consegue. Há muita coisa a se fazer no mundo. Por isso este discurso da “consciência humana” é política e historicamente insustentável, além de contribuir, na verdade, para a manutenção do status quo. Ninguém pode se apoderar (colonizar) das causas e pautas das pessoas que são diretamente afetadas por elas. A autonomia e o empoderamento têm de ser destas pessoas, e cabe a quem goza dos privilégios aos quais aqueles sujeitos não têm acesso, apoiá-las, aliando-se às lutas delas e compreendendo que o protagonismo é delas. Então é prudente se questionar: os movimentos contra o racismo não querem esta data? Não querem visibilizar com maior ênfase, neste período, as pautas que têm?

Pelo 20 de novembro, pela Consciência Negra.

Luiz Henrique Coletto
Professor, pesquisador e ativista, atualmente é vice-presidente da LiHS.
  • Gustavo Crivellari

    “Ou seja, quando não damos nome à opressão, aos oprimidos, aos opressores, às formas específicas de opressão, e às formas específicas de combatê-la, nós enfraquecemos uma causa. E o jeito mais comum (por isso clichê) de se fazer isso é apelando para uma consciência humana, uma empatia universal, um “humano global”. Nada disso existe.”

    Impecável!

    Impossível não lembrar de quem se dedicou à campanha de difamação das feministas que quebraram alguns santos cristãos numa MdV. Quando não se dá nome aos bois, é muito fácil se perder nessa estéril retórica da “consciência” abstrata e, por exemplo, esquecer o papel opressor do cristianismo enquanto religião patriarcal.

  • Daniel Carioca

    Na condição de negro eu não preciso de dia da consciência negra e na condição de bom pastafariano eu só comemoro este feriado pelo mesmo motivo que comemoro todos os outros: porque é um feriado, ora bolas.

    Discursos de “não precisamos” não são mais verticalizados e arrogantes do que discursos de “precisamos”. Olha só, você, pós-adolescente provavelmente de classe média tentando dizer ao mundo o que negros como eu precisam ou deixam de precisar. Não soa arrogante, olhando por este lado?

    A ideia de que exista consciência negra ou consciência brasileira não é menos fictícia, consciência é algo individual e mutável, hoje eu sou consciente de coisas que não era há 1, 5 ou 10 anos. Eu não compartilho da sua consciência sobre o que é ser negro, e notando sempre que o negro aqui sou eu, por favor.

    A história nos ensina que os típicos movimentos “igualitários” de esquerda são vitimistas e privilegistas, que existe uma rede de construção de percepções viciadas sobre questões de gênero/raça/sexualidade que envolve cadeiras de “ciências” humanas e que tem como finalidades manter currais políticos, manter vendagem de livros e camisetas vermelhas.

    Se as pautas que o seu movimento de defesa da “negritude” são cotas raciais e coisas do tipo eu quero é encontrar algum modo de ajudar a inviabilizá-las. Mas agradeço a preocupação.

    • Rafael

      Nada haver seu discurso, onde a história ensina que movimentos esquerdistas são vitimistas? Onde tirou que o movimento negro é de esquerda?Fora isso não compreende a palavra “consciência” em toda sua concepção.

      • Claudimir Ventura

        Eu compreendo a palavra consciência no sentido amplo e é assim que deveria ser. O sujeito consciente já superou há muito essa necessidade de dividir a espécie em classes ou categoria. Compreende que somos todos parte de uma mesma energia e que energia não tem cor. Quem pensa ao contrário, talvez seja porque ainda não aconteceu a evolução necessária para conceber essa ideia e assim de nada adianta criar dias específicos para cada causa. E sendo assim, será necessário criar o dia da “consciência branca pobre” e por aí vai. Não existe consciência nenhuma em criar desigualdades entre os seres. Penso que o dia da “consciência negra” é um equívoco cometido por pessoas rançosas e que não querem mesmo que as pessoas evoluam, pois é tão mais simples ser “os coitadinhos”.

  • Guest

    Muito bem falado.

  • Daniela Alves

    Muito bom!

  • Lucas

    Zumbi, considerado o grande herói de Palmares, tinha escravos. Fatos como esse, que ainda passam em branco em muitas aulas de História, fazem parte do lado pouco explorado da escravidão no Brasil. Em vez de meras vítimas, os negros tiveram papel mais complexo na sociedade colonial, às vezes até com status semelhante ao dos portugueses.

    Zumbi estava longe de ser um herói da democracia. “Mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também sequestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo”.
    A vocação para o poder de Zumbi vinha de família. Ele descendia dos imbangalas, considerados os “senhores da guerra” na África Centro-Ocidental. Ou seja, nada mais natural que se considerasse no
    direito de ter seus próprios servos.

    Ou seja, quem oficializou e os grupos que ajudaram a fazer esse “feriado” nada mais são que um bando de acéfalos que não eram bons nas aulas de História ou o professor quis omitir isso também.

    • Rafael

      Não, na verdade isso não era ensinado nas escolas que priorizavam a história eurocêntrica, alias, esses fatos sobre Zumbi só foram trazidos a lume para desmerecer o feriado e a luta do movimento negro. O fato histórico que enseja o dia da consciência negra é a escravidão feita pelos portugueses.

      • Nilberto Goncalves

        É preciso que se diga também sobre a enorme diferença entre a escravidão praticada por tribos africanas e aquela escravidão sistemática praticada pelo colonizador, um verdadeiro empreendimento econômico e político. Caso não se faça as devidas diferenças, corremos o risco de crer que o negro escravizado merecia tal destino por praticar essa exploração ou por conhecer seus efeitos. Trata-se de mais um mito que é usado para desmerecer a luta contra o racismo e suas teses. Talvez não seja fato conhecido, porém, o filho de um escravo na África nascia livre e muitos eram escravizados por varias razões, como guerra tribal e dividas. Nada tinha a ver com a cor da pele ou motivação religiosa, como justificou a igreja católica em suas narrativas bíblicas.
        Recomendo aos “donas da verdade” estudar um pouco mais antes de opinar. Apesar de me chatear com comentários tão rasos eu busco a tolerancia e cito como ajuda aos senhores os nomes de Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes para lhes ajudar a retirar a venda do racismo dos seus olhos.

  • benji solal

    Você conhece a origem do dia da Consciência Negra ? A reposta em http://calendario-feriados-brasil.com.br/quantos-feriados/consciencia-negra/