Bule Voador

Filosofia da ciência nas ciências

bule_academicoNão raro encontra-se certo desprezo por parte de cientistas, ou futuros cientistas, pela filosofia. “Filosofia não serve para nada”, dizem eles.

Uma postura dessas revela vários desconhecimentos sobre o que é e qual a finalidade da filosofia($1). Nesse momento pretendo restringir-me a um breve rascunho sobre a filosofia da ciência e como ela se relaciona com os praticantes da ciência. A indiferença, ou no pior nos casos o desprezo, denuncia pelo menos dois problemas: i) um desconhecimento histórico de como a ciência evoluiu e ii) uma pretensão que não cabe aos cientistas.

Relativo ao problema (i) é importante destacar que no passado o que hoje chamamos formalmente de ciências era nomeado de Filosofia Natural. Não por acaso, portanto, que o termo PhD – que se mantém até hoje -, significa, no Latim Philosophiae Doctor (Doutor em Filosofia). Historicamente, uma notável evidência disso é o título de umas das obras mais importantes da história da ciência: Philosophie Naturalis Principia Mathematica, de Isaac Newton. Costumo dizer que é um patricídio intelectual negar a colaboração histórica da filosofia para com a ciência; é assassinar os próprios pais. Para alguns, é não reconhecer a legitimidade de seus progenitores: um ato de atear fogo em sua própria casa.

  susanEm relação ao problema (ii) equivale a uma postura endeusada da ciência que muitos tomam em um discurso totalmente acrítico. Nesse sentido, são recorrentes as alegações que tentam desqualificar de antemão outras atividades intelectuais humanas – simplesmente por que não se enquadram em uma definição, na maioria das vezes restritiva, da ciência. Se tais pessoas fossem capazes de reconhecer a importância da filosofia da ciência evitariam equívocos cientificistas(1,2)– pois, como bem destaca a filósofa Susan Haack, a existência de apenas um “método científico” não é consensual, e também não há nenhum modo distintivo de passar pela investigação que seja exclusivo das ciências(3). Talvez seja uma ilusão a existência de um famigerado método científico composto, ao mesmo tempo, de rigor, universalidade, univocidade, rigidez e infalibilidade(4).

Certa vez em um debate, meu interlocutor não conseguia entender o motivo pelo qual a revista Scientific American trazia em uma de suas edições uma capa dedicada aos erros históricos dos cientistas. “Cientistas não erram, eles têm certeza” dizia ele. Pior ainda, dizia que o ato de crer não poderia existir na atividade científica. Após uma breve exposição mostrando que ele estava, talvez, confundindo duas questões distintas, isto é, que nem toda crença é uma fé, mas toda fé é um crença, ainda ele assim não percebia que crer é dar crédito a algo; a ciência é uma atividade humana, e, portanto, está suscetível a erros e está também subjugada a crenças($2).

Posturas que neguem a importância da filosofia da ciência podem ser prejudicais em pelo menos duas vias: em uma delas nega-se o valor objetivo do conteúdo proposicional da atividade científica (‘cinismo’); e em outra há uma elevada valorização (‘deferencialismo’) que, muitas vezes, são responsáveis por alegações pretensiosas de negarem a legitimidade de outras investigações não-científicas (como a literatura, a poesia e a arte em geral – ou ainda a ética, uma área da filosofia). Em casos mais preocupantes encontram-se aqueles que louvam as alegações imaturas de Stephen Hawking que, embora um excepcional cientista, não hesitou em dizer que a filosofia estava morta(5).

projetoHawking, assim como outros cientistas, defende um ponto de vista denominado de ‘realismo dependente de modelos‘. De acordo com Hawking e Mlodinow(6): ‘a ideia de uma teoria física ou uma visão do mundo é constituída por um modelo (geralmente de natureza matemática) e por um conjunto de regras que ligam os elementos desse modelo às observações.’ Em outras palavras, é uma afirmação de que a realidade deve ser baseada em modelos; não faz sentido falar sobre a ‘verdadeira realidade’ de um modelo, pois a única coisa que é significativa é a utilidade do mesmo. O curioso é que, apesar de negarem a filosofia, muitos destes cientistas utilizam um arsenal metacientífico, sobretudo por que não pode ser defendido exclusivamente com base em evidências empíricas. Nessa empreitada, muitas vezes na tentativa de explicar o que é a realidade, não conseguem se abster de um discurso que não é se não outra coisa que a própria filosofia.

Como pode ser destacado dos textos da filósofa supracitada(1,2), e de outros, como Thomas Kuhn, os cientistas muitas vezes não precisam e nem possuem tempo para alocar a uma atividade filosófica. Assim, não estou sugerindo a obrigatoriedade de leituras filosóficas nos cursos científicos. Minha observação é antes algo mais basilar, embora preocupante. Trata-se de um desprezo, que, nesse caso, é mais pernicioso que a indiferença. Enquanto a última representa uma apatia aos textos filosóficos, a primeira transcende isso. O repúdio e o preconceito pela filosofia é um prejuízo no sentido de ignorar um contexto no qual benefício mútuo pode ser adquirido. Nesse sentido, a leitura Kuhniana ajuda-nos(7):

‘Não é por acaso que a emergência da física newtoniana no século XVII e da relatividade e da mecânica quântica no século XX foram precedidas e acompanhadas por análises filosóficas fundamentais da tradição de pesquisa contemporânea. Nem é acidental o fato que em ambos os períodos a chamada experiência de pensamento ter desempenhado um papel tão crítico no progresso da pesquisa. Como mostrei em outros lugares, a experiência de pensamento analítica que é tão importante nos escritos de Galileu, Einstein, Bohr e outros é perfeitamente calculada para expor o antigo paradigma ao conhecimento existente, de tal forma que a raiz da crise seja isolada com clareza impossível de obter-se no laboratório.’

dialogosUm encontro rico entre filosofia e ciência é a publicação da obra do filósofo empirista David Hume intitulada “Diálogos sobre a religião natural”(8). Baseada parcialmente na obra “De Natura Deorum” (do filósofo romano Marcus Tullius Cicero), o filósofo escocês antecipa em 80 anos as conclusões da comunidade científica acerca do mito de criação das espécies. A evolução por seleção natural, descoberta por Charles Darwin e Alfred Wallace, junto com as elucubrações de Hume evidenciam que a filosofia não é, necessariamente, uma atividade distinta da ciência. Embora seja comum que ambas façam uso de métodos diferentes, encontra-se muito interesse comum em ambas as atividades. Nesse sentido, vale salientar a importância da continuidade, que não nega as distinções e peculiaridades de cada atividade. De acordo com o filósofo Lawrence Sklar(9):

‘Não podemos pois ter a esperança de fazer filosofia independentemente dos resultados da física. É evidente que a nossa compreensão dos tipos fundamentais de coisas e propriedades que temos de postular para percebermos a natureza do mundo tem de ter em linha de conta aquilo que a ciência nos diz sobre o mundo. Sem os resultados da física, que filósofo teria considerado as inúmeras possibilidades no que respeita à natureza do espaço e do tempo, da causalidade e dos tipos de objectividade e da sua ausência que as novas teorias radicais da física postularam como possibilidades a ter em consideração?

É importante notar que a filosofia não se limita a depender das ciências unicamente como fontes de dados brutos. Sem dúvida que os resultados da observação que empurram a física para a invenção das teorias novas e radicais que temos estado a avaliar têm um impacto crucial sobre a filosofia. Mas o que fornece à filosofia um espectro ainda mais rico de novas formas conceptuais de lidar com o mundo é também a capacidade, por parte dos que fazem aquelas ciências, para imaginar novos esquemas conceptuais que dão conta dos novos dados. É a imaginação de cientistas como Boltzmann, Einstein e Bohr que é a fonte de formas completamente novas de pensar acerca da natureza da realidade, do conhecimento que temos dela e da nossa capacidade para dar uma explicação dela. É essa imaginação que fornece uma fonte sempre fértil de enriquecimento para o filósofo que procura novas maneiras de lidar com problemas, tanto novos como velhos, apresentados pelo mundo da experiência.’

Sendo assim, a interdependência entre filosofia e ciência é historicamente verdadeira. Entretanto, a empreitada científica, tanto quanto a filosófica, portanto, deve ser conduzida através de uma investigação honesta, metódica, crítica e sistemática. Componentes necessários para evitar abusos e imposturas intelectuais.

Compreender o impacto da ciência no mundo não é atividade simples. Porém, é, definitivamente, necessária para quem está interessado em perscrutar os limites do conhecimento humano. Nesse sentido, a filosofia possui ferramentas hábeis para tal investigação($3). Desprezar avidamente, bem como promover escárnio relativo ao trabalho afanosamente realizado por filósofos durantes séculos, é um atentado intelectual com consequências danosas ao compromisso com a busca pelo conhecimento honesto.

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Referências

1.Haack, S., Six Signs of Scientism. Logos & Episteme, III, 1 (2012): 75-95.

*Texto traduzido para o português (por Eli Veira):  http://lihs.org.br/artigos/Haack_Seis_Sinais_de_Cientificismo_LiHS_2012.pdf

2. Haack, S., Defending Science – within reason: between scientism and cynicism. Prometheus Books, New York, 2003.

3. Entrevista com Susan Haack – a fé cega na ciência, o cientificismo

4. Videira, A., Breves considerações sobre a natureza do método científico; In J.R. Marinho (Ed.) Estudos de história e filosofia das ciências, Livraria da Física São Paulo, 2006.

5.  Norris, C., Hawking contra Philosophy. Philosophy Now, Issue 82 MJan/Feb 2011.

6. Hawking, S.W., Mlodinov, L., The Grand Design. Bantam Books, New York, 2010.

7. Kuhn, T.S., A estrutura das revoluções científicas. Perspectiva, São Paulo, 2011.

8. Hume, D., Dialogues concerning natural religion. Oxford, New York, 1993.

9. Sklar, Larwrence, Philosophy of physics. Excerto retirado do portal crítica na rede

Material complementar

$1

Simon Blackburn, Para que serve a filosofia?

Desidério Murcho, A especificidade da filosofia

Desidério Murcho, As disciplinas da filosofia

John Shand, O que é a filosofia?

Nigel Warbuton, O que é a filosofia?

$2

Desidério Murcho, O dogma e o antidogma

Adam, Morton, As crenças e suas qualidades

Belief, Stanford Encyclopedia of Philosophy

$3

Alan Chalmers, O que é ciência afinal?

Samir Okasha, Philosophy of science: A very short introduction

Véras, Rodrigo. Ciência e Inferência. Parte I: a dúvida de Hume e a solução de Popper.

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 #Agradecimento – ao Rodrigo Véras, pela colaboração na revisão e sugestões ao texto.

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Autor: Cicero Escobar

Cicero Escobar
Editor-Chefe do Bule Voador.
  • Júnior Felippe

    Muito bom. É lamentável que certas camadas da esfera acadêmica (em especial ciências exatas) recusem a filosofia. É neste ponto que tenho um olhar negativo em relação à Feynman, um tremendo físico-matemático, mas que sempre ironizou e recusou a filosofia.

  • Quando nao conseguem responder meu repudio ao cientificismo, geralmente partem para questionar a relevancia de condenar o cientificismo. Ora, a relevancia e’ a mesma relevancia de qualquer atitude para manter a honestidade intelectual. Entao devolvo a pergunta a quem questiona a relevancia de criticar o cientificismo: qual e’ a relevancia da honestidade intelectual?