Bule Voador

Breve reflexão sobre a origem da moral

Se existe um terreno espinhoso para debater e refletir, esse é o da questão da moralidade humana. As origens e a estrutura da moral já foram matéria de estudo por todos os grandes paladinos da filosofia e da moralidade na história, de Sócrates a Hume, de Buda a Jesus Cristo e Ghandi. De onde vem a moral? Como ela é formada? Como ela é distorcida e transformada no caos de valores que vemos no mundo? Para onde ela vai?

Tais perguntas aparecem frequentemente na vida de todos nós, especialmente quando nos deparamos com algo a que consideramos extremamente imoral, ou seja, que fere profundamente a ética de uma determinada época e cultura. Ao nos depararmos com crimes bárbaros, ficamos sempre impressionados com nossa capacidade de sermos maus com nossos semelhantes – homo sapiens, nesse caso. Sempre vamos precisar de uma explicação para essa ausência do “bem” no mundo, e mais especificamente, naquela pessoa, que cometeu aquele crime.

Já é bastante difícil – para não dizer impossível – definir qual é a moral válida para qualquer época, lugar e cultura. A lei nos obriga a certos comportamentos e nos proibe de fazer um grande número de coisas, mas não quer dizer que a lei traduza a ética fielmente. Em muitos casos, a lei existe, mas ninguém a segue, ou ela já não representa mais os valores vigentes. Pegue o caso do homossexualismo, por exemplo, que ainda no século passado era considerada crime na Inglaterra. Pode-se dizer que a moral é um fenômeno social e dinâmico, em constante mudança. A lei escrita é incapaz de acompanhar o avanço e mudanças de valores em uma dada sociedade.

Apesar disso é possível observar que a moral caminha geralmente para melhor, o bem maior, apesar de muitos não conseguirem enxergar isso e outros até acreditarem ser o oposto. O conjunto de valores morais da humanidade em geral vem se aprimorando ao longo da história, o que fica bem evidenciado, por exemplo, ao sermos capazes de nos reunir e elaborar algo chamado A Declaração Universal dos Direitos Humanos. Durante séculos, divergimos no próprio fundamento da questão dos direitos humanos pois sequer éramos capazes de considerar todos os humanos como iguais. A moral de épocas passadas considerava outros povos raças inferiores, com serventia apenas para serem escravos – algo que hoje em dia é considerado absurdamente imoral na maior parte do mundo – mesmo que ainda haja milhões de pessoas fazendo trabalho escravo devido as pressões do capitalismo; a grande diferença é que hoje, é velado, pois já não é mais aceito e validado, nem mesmo nas leis. Grandes homens, considerados progressistas em suas épocas seriam considerados idiotas hoje em dia. Abraham Lincoln, um dos heróis do fim da escravidão nos EUA, escreveu diversas vezes que considerava a raça negra como inferior.

Ainda que se concorde que desde que o mundo é mundo os valores morais vem caminhando (mesmo que a passos curtos e por vezes, tortos) em direção a um “bem maior” ainda é possível ver diariamente exemplos de atrocidades, que já deveriam ser parte apenas da história, escritas como lei e aceitas em nome da tradição. Exemplos variam de obrigação de uma mulher estuprada se casar com o estuprador, mutilação genital infantil, apedrejamento como punição para adultério e pena de morte para homessexualismo. Não é muito difícil tentar traçar uma linha, mesmo que indireta, entre essas práticas e a fé religiosa, ou pelo menos às suas consequências diretas (como a inferiorização das mulheres, por exemplo).

Seria extremamente leviano e estúpido da minha parte, prosseguir com essa argumentação tentando provar que todo o mal do mundo vem da religião. Além de ser um insulto aos nomes citados no primeiro parágrafo. Me dêem algum crédito, não sou um idiota. Não é nada disso e vou explicar. Na verdade eu gostaria de propor uma reflexão quase inversa, partindo do pressuposto de que a grande maioria dos religiosos, defendem que a própria origem da moral humana é a religião – cada um na sua, claro. Um católico vai defender que a moral vem de Deus, um muçulmano de Alá, e um judeu, de Yahweh. Como essa moral chega a nós, reles mortais de carne e osso? Pelas escrituras, ora bolas. De onde mais?

Essa defesa da origem divina (ou sobrenatural) da moral é percebida facilmente, bastando ver o discurso padrão que as religiões tem em relação aos ateus. “Se você é ateu, como pode ser bom? Sem Deus, para que ser bom?”. Ou traduzindo melhor: “se você não tem medo do inferno, o que te impede de ser um completo filho da puta”? Vamos analisar bem o que significa a religião ser a origem da moral, para saber se faz sentido.

Poderíamos pegar milhares de exemplos das mais diversas escrituras religiosas, seus rituais e práticas para esta argumentação, mas isso facilmente renderia um livro e não um post em um blog. Para facilitar, direto na Biblia, que é o disparado o livro mais vendido da história e fonte de inspiração para bilhões. Será mesmo que os católicos tiram sua moral da Biblia? (Ou: será que os religiosos em geral tiram sua moral de suas escrituras?)

Existe uma frase muito boa do Isaac Asimov, propícia neste momento: “Lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida”. Pois é. A Biblia (versão oficial de King James) é um dos livros mais sangrentos e imorais já publicados. Os diversos evangelhos, que frequentemente se contradizem, contém histórias recheadas de comportamentos absolutamente inimagináveis nos dias de hoje. São encontradas em diversas passagens menções diretas (e não metafóricas) a: ódio contra outros povos (não judeus), ódio e desprezo a mulheres, ódio a homossexuais, estupro, genocídio, infanticídio, vingança, inveja, ganância, entre outras pérolas. “Ah, mas isso são textos do Velho Testamento e não os consideramos mais hoje em dia” dirá rapidamente um teólogo em defesa. O Novo Testamento, apesar de ser uma melhora significativa (Jesus foi, de fato, um grande inovador ético) ainda possui diversas passagens detestáveis para os padrões atuais. “Abandone tudo, sua casa, amigos, e sua família, e venha me seguir”. Que papo é esse? Se fosse hoje em dia, seria considerado uma seita louca, e o Jesus de nossos tempos levaria um tiro de sniper na testa, provavelmente ao vivo na CNN. Sem falar no conceito do pecado original, onde toda humanidade é culpada pelo erro de Adão ao comer a maçã da árvore do conhecimento. Já nascemos devendo e culpados por algo que não fizemos. Nice one.

Mas o oposto também é igualmente verdadeiro, afinal não é novidade para ninguém que sacerdotes interpretam como lhes convier melhor as escrituras, especialmente quando isso lhes confere algum poder, notadamente político. Vi em uma reportagem recente sobre o uso de crianças e adolescentes como homens-bomba pelo Talibã, e esse fenômeno tem ocorrido por que é mais fácil enganá-los já que são em sua maioria analfabetos e não sabem o que diz no Corão. Nunca o li também, mas já obtive de diversas fontes que lá diz explicitamente paranão matar, coisa que é facilmente distorcida se assim for a vontade dos “donos da verdade” ou os únicos que “podem” interpretar as sagradas escrituras.

O problema é: se a moral vem de Deus (ou Maomé, ou Buda), que nos é passada através de escrituras, as quais foram escritas por homens, de diversas épocas, muitos deles que as vezes nem se conheceram, como podemos confiar nessas escrituras? Por acaso existe algum manual dizendo “essa é uma lenda ou parábola com ensinamento de valor moral válido; essa e essa não”? Não, não existe tal manual nem nada parecido. Devemos considerar que Lot foi correto ao oferecer suas duas filhas para serem estupradas por toda a cidade de Sodoma, para proteger os anjos enviados por Deus, ou refletir e absorver como valores apenas os ensinamentos do Sermão da Montanha? Sem um manual explícito, sem um documento minimamente estruturado, como decidir? Não dá, né? O que nos resta, então? Termos as escrituras interpretadas para nós, por qualquer um que se ache apto para isso, e a quem damos esse direito sem pensar muito. E bom, não preciso explicar por que isso é evidentemente um problema seríssimo quando estamos falando de valores básicos, que são os alicerces de qualquer sociedade.

Existem tribos indígenas que não possuem deuses e nem ritos religiosos conforme os conhecemos. Podem ser considerados ateus para nossos padrões de religião. E não os vemos como loucos sanguinários sem nenhum direcionamento do que é certo e errado, cada um fazendo apenas o que é melhor para si ou seus familiares mais próximos. Eles possuem um código moral, cuidam uns dos outros, colaboram, tem famílias, punem más ações e nada disso veio de escritura alguma – afinal, sequer possuem língua escrita.

Um outro belo exemplo que vale citar é a história dos primeiros navegadores ao desembarcarem nas Ilhas Maurício, que, ao se depararem com os gentis dodos, não pensaram que estavam fazendo nada de mal ao exterminar a todos na base do porrete. Simplesmente acharam que era o que se devia fazer ao se deparar com uma espécie totalmente desconhecida. Nem sequer os comeram, pois diz-se que tinham gosto horrível. Imaginem algo assim ocorrendo nos dias de hoje. Ia ser capa de todos os jornais como um crime ambiental sem precedentes, carregado com conotações de crueldade e ignorância. Com certeza você não vai achar em escritura alguma que se deve exterminar novas espécies ao encontrá-las pela primeira vez. Analogamente não vai encontrar que devemos fazer carinho e amá-las. É simplesmente algo que vamos aprendendo pelo caminho.

Podemos tentar concluir então que não, nossa moral (nem a boa, nem sua prima má,) vem dos céus, da religião ou das escrituras. É claro que, para religiosos, especialmente os fundamentalistas, as escrituras possuem um enorme peso (quase esmagador) na formação da base moral, mas isso não se observa em toda a humanidade, que, como já falei, está constantemente mudando seus valores de certo e errado ao longo das eras e culturas – inclusive, mais lentamente, refletida na forma de leis. Ninguém precisa de religião para fazer o bem – nem o mal, obviamente.

Portanto, de onde vem a nossa moral? Ainda não sabemos. Não é exatamente uma ciência exata. Será uma vantagem evolutiva possuir empatia e colaborar com aqueles que você nem conhece? Estudar a evolução da moral na humanidade pode ser uma peça chave para melhor compreender por que temos tanta dificuldade em fazer com que essa evolução seja mais homogênea e eficaz. Talvez a resposta esteja em estudar nossos ancestrais macacos e demais espécies. Finalizo deixando o vídeo abaixo para que possam refletir.

Publicado originalmente no blog Orgulhosamente Desajustado.

Christian Dechery
DJ amador, blogueiro de ocasião e filósofo de botequim. Pseudo-vegetariano, viciado em ler (não-ficção prioritariamente), cinema e música eletrônica.
  • AntonioOrlando

    O autor deveria ler os livros que critica. No caso a Bíblia. O autor, no caso, faz o que os ateus condenam [equivocadamente] nos cristãos, isto é, a leitura “literal” da Bíblia. O cristão lida com a hermeneutica e não com a literalidade.

    [[[Existe uma frase muito boa do Isaac Asimov, propícia neste momento: “Lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida”. Pois é. A Biblia (versão oficial de King James) é um dos livros mais sangrentos e imorais já publicados. Os diversos evangelhos, que frequentemente se contradizem, contém histórias recheadas de comportamentos absolutamente inimagináveis nos dias de hoje. São encontradas em diversas passagens menções diretas (e não metafóricas) a: ódio contra outros povos (não judeus), ódio e desprezo a mulheres, ódio a homossexuais, estupro, genocídio, infanticídio, vingança, inveja, ganância, entre outras pérolas.]]]

    Ao se ler a Bíblia, ou qualquer outro livro, carece se contextualizar história/cultura/costumes e, não raro, fazer um estudo semântico do mesmo. A King James há muito não é exemplo de boa tradução do original bíblico. Será que, hoje em dia, “ódio entre povos” seria algo “absolutamente inimaginável”. Bósnia, regime comunista, ou seja, secularista ou ateu, foi assolado por uma guerra civil sangrenta e devastadora, onde ocorreu “ódio e desprezo a mulheres, ódio a homossexuais, estupro, genocídio, infanticídio, vingança, inveja, ganância e RACISMO entre outras pérolas.”

    Dentre outras “barbaries” bíblicas, o dote que era pago à família da mulher, era guardado e caso houvesse divórcio, esse mesmo dote, era dado à mulher para que recomeçasse sua vida. Isso há mais de 3.000 anos atrás. Ademais, era costume receber estrangeiros e tratá-los bem. Dentre esse “tratar bem”, estava lavar os pés do estrangeiro e lhe dar a melhor refeição. Não bastasse isso, o anfitrião era responsável pelo bem estar do estrangeiro. E por estrangeiro entenda-se não hebreu ou cristão.

    Abs.

    • Tales84

      Cara, desculpe, mas acho que você não entendeu o texto. A questão é que se qualquer um pode interpretar a Bíblia, então como podemos distinguir qual a interpretação certa? Como podemos afirmar que o embasamento do deputado Feliciano está certo ou errado? E se a questão é saber interpretar, porque deveríamos escolher a Bíblia e não o Alcorão ou o Bhagavad Gita?

      A questão é que não podemos ter uma resposta única. Simplesmente isto é uma questão individual e cada pessoa vai responder simplesmente de acordo com a moral que esta já tem, que foi passada a ela pelos pais e pela sociedade. E por isso mesmo é que parece tão leviano dizer que a moral veio de determinada crença ou religião.

      • AntonioOrlando

        Tales84

        Se a interpretação da Bíblia fosse algo como “qualquer um pode interpretar”, não haveria teologia. Que, grosso modo, serve como um parâmetro para se entender os meandros da Bíblia/Cristianismo.
        Entre as denominações cristãs, e aí incluem-se católicos e protestantes/evangélicos, à exceção de Testemunhas de Jeová Adventistas e Mórmons [que não são consideradas cristãs] há divergências minimas na interpretação do cristianismo por meio da Bíblia.
        O que você diz faz parte de um folclore, em geral de quem não é cristão, de como, nós cristãos, lidamos com a nossa fé.

        Eu tenho nove bíblias de estudo. Cada uma com uma temática diferente: semântica, arqueológica, costumes etc. Ademais, em complemento leio história e filosofia. E esse comportamento, via de regra, é seguido por boa parte dos cristãos que conheço.
        O que eu disse é que para se entender a origem da moral, carece lidarmos com a história, a filosofia e a religião – posto que as três, não raro, se complementam.

        Abs.

        • Tales84

          A origem da moral está interligada com a religião simplesmente porque o próprio conceito de religião como algo separado é bem recente e não havia distinção entre esta e a sociedade até bem pouco tempo atrás.

          Entendo que “qualquer um pode interpretar” tenha sido um exagero, mas isso não foi uma das propostas de Lutero? E de qualquer forma não é isto o que ocorre em certas denominações? O fato é que a maioria dos religiosos não sabe ou ignora grande parte da teologia envolvida.

          Porém eu acho que o texto quis dizer que a moral, no sentido individual não depende da religião para surgir, uma pessoa sem fé e sem religião tem também sua moral e ética, ela não se torna um perigo à sociedade somente porque este rejeita a ideia de fazer parte de uma religião.

          • AntonioOrlando

            Tales84

            Um pessoa sem fé e sem religião pode ter sua moral. Concordo. Não raro, quando falamos de moral, queremos dizer algo como um código de condutas que muda no tempo e no espaço. Normas de comportamento que são estabelecidas, via de regra, por uma comunidade qualquer – “civilizada” ou não.

            A moral cristã quando afirma “Amai a teu próximo como a ti mesmo”, não está negociando uma norma de boa convivência que se altera no tempo e no espaço. “Amai a teu próximo como a ti mesmo” é perene. E no espaço e no tempo permanece inalterável e inegociável. Enfim, não é simplesmente um código de conduta.
            Abs.

          • Tales Zuliani

            Caros,

            Recomendo a pesquisa sobre “O Dilema de Eutífron”, que demonstra logicamente porque a Moralidade NÃO PODE advir de uma divindade.

            Há um debate entre Sam Harris e William Lane Craig no qual o primeiro demonstra todos os erros com a “Teoria do Comando Divino”, advogada por Craig, a saber, que diz que qualquer coisa que Deus ordene é automaticamente correto simplesmente pelo fato de que Deus é Deus. Em suma, um Argumento de Autoridade

          • Tales Zuliani

            Antonio,

            O conceito de “Amai a teu próximo como a ti mesmo” não é originário do Cristianismo, e sim da famosa “Regra de Ouro” da Reciprocidade. O conceito é muito mais antigo do que a religião cristã ou judaica.

            Um conceito universal que apareceu em diversas culturas ao redor do mundo.

          • AntonioOrlando

            Tales Zuliani
            Usar os conceitos de Lao-Tsé ou Confúcio, dentre outros, como semelhantes ao “Amai a teu….” cristão, não raro, é desconhecer rudimentos de história. Confúcio e Lao-Tsé, dentre muitos outros, fazem parte de um aspecto obscuro da história da filosofia. Isto é, não há registro da existência de nenhum dos dois. Ademais, A filosofia de Confúcio e Lao-Tsé, existiu como tradição oral até circa 400 antes de Cristo – época em que o Judaímo e Cristianismo já tinham seus escritos sendo levbados pelo mundo antigo.
            Quanto ao “Amai ao próximo como a ti mesmo”, esse princípio cristão não fala em reciprocidade. Na verdade, “Amai….” é próativo e, sobretudo, positivo. Não quer dizer que eu deva amar o próximo se o próximo me amar. Ao contrário, eu como cristão devo amar o próximo sempre, não obstante, esse próximo me amar ou não. Isto é, para o Cristianismo, amar o próximo não é algo negociável. É sobretudo uma mandfamento perene e que subexiste no espaço e no tempo.
            Abs

          • Tales Zuliani

            Dois pontos sobre isso.

            (1) Ainda que o conceito de “amai ao próximo” tenha nascido no cristianismo, isso não serve como evidência para as alegações sobrenaturais. A discussão aqui não é sobre a existência ou não de Deus, eu sei, mas sob o ponto de vista cristão, a moralidade (a bondade) é algo derivado de deus e não do homem. Neste cenário, portanto, as pessoas não são boas por ter chegado a esta conclusão por mérito próprio, por aprendizado e evolução, e sim porque ou Deus injetou o conceito ou somos “bons” porque tememos o Inferno e almejamos o Céu (seriamos, portanto, adestrados a sermos bons).

            (2) Acho ao mesmo tempo fascinante e terrível uma religião que foi (aparentemente) fundamentada no conceito do amor ter sido por tantos séculos uma das maiores fontes de dissidencia, guerras e mortes. Atualmente, é a maior fonte de homofobia e machismo patriarcal misógino da sociedade ocidental.

            No minimo, o Cristianismo é uma religião muito estranha, pois ao mesmo tempo que produz uma pessoa de bondade e moralidade exemplares, é capaz de produzir máquinas de ódio e violência (cito Malafaia e Feliciano)

          • AntonioOrlando

            Tales Zuliani

            1. Se você ler Dawkins, Sam Harris, Dennet, Steven Pinker, dentre outros, isto é, se você ler os cientistas ou pensadores evolucionistas ou neuricientistas e, não raro ateus, inferirá pelos livros deles que tudo é relativo: a vida, a moral e, sobretudo, que os conceitos de bem e mal estão, não raro, a serviço da evolução/seleçao natural. Dawkins nunca se referiu ao fato de que a fortuna da família dele ter sido construída com o trabalho de escravos que sua família tinha. Dawkins, talvez, não tenha nenhum conflito moral em relação à isso, afinal a seleção natural preconiza a sobrevivência do mais “apto”…
            Em um de seus livros Pinker defende a idéia de, entre os humanos, há diferentes “raças” e, nesse sentido, o racismo não seria moralmente condenável – novamente o mais “apto”.
            O Cristianismo lida com conceitos absolutos. “Amai…” não é algo para ser feito em contraposição ao “inferno”, mas por que se todos se respeitassem, dentro do amor filadélfia, a humanidade viveria mais feliz e, sobretudo, faria uso mais racional dos recursos do planeta: alimento, água etc.

          • Tales Zuliani

            Preciso mesmo lembrar que a escravidão do africano foi apoiada pela Igreja Católica? Que a Bíblia em si apoia a escravidão?

            Se os conceitos do Cristianismo fossem absolutos, então jamais haveria mudanças nas regras. E tenho certeza de que você será um dos primeiros a negar as leis do Velho Testamento (e acho que também não preciso lembrar que em Mateus, Jesus deixa claro que nenhuma Lei do Velho deixou de ser válida, ainda que quase nenhum cristão tenha fé suficiente para continuar a obedecer a abominação que eles chamam de Deus)

          • AntonioOrlando

            Tales
            É fundamental que você faça a lição de casa, isto é, ler a Bíblia. Livro basilar para o entendimento do Cristianismo. Há um negócio chamado denominações religiosas, catolicismo é uma delas. Fui católico e, depois, estive ateu por dez anos. Em muito, aspectos do Cristianismo me desagradavam e muitos anos depois voltei a ser cristão, no caso evangélico. Hoje em dia, sou um cristão desigrejado, no entanto, nunca fui mais cristão. O Cristianismo é maior do que denominações religiosas.
            Como negro, no Brasil, lido com o racismo no cotidiano. E pode ter certeza, o racismo não tem denominação religiosa, partido politico ou afins. Racistas estão em todas as classes sociais, sobretudo, entre ateus ou religiosos. É uma característica do ser humano, em todas as suas vertentes, que não pode ser explicada pela evolução ou ciência neurocientifica. Muitas das restrições que você tempo catolicismo, eu tenho. Mas o catolicismo não é, necessariamente, o Cristianismo.
            Abs

          • Tales Zuliani

            Ler a Bíblia é a melhor forma de uma pessoa racional e humanista se tornar atéia. Qualquer pessoa racional e com integridade intelectual consegue encontrar o mar sem fim de erros, contradições, ideias horrendas etc. A divindade descrita nela é contraditória.

            Fora que eu conheço mais da Bíblia do que a vasta maioria dos cristãos que eu conheço. A maioria nunca se deu ao trabalho de lê-la, ficando apenas no punhado de versículos mais bonitos, enquanto hipocritamente ignoram todos os outros.

            Bem que dizer que a Bìblia é o “grande livro de multipla escolha”. Você pega na prateleira os ingredientes que mais gosta e inventa um novo tipo de cristianismo.

            O Catolicismo é um tipo de cristianismo, mas não venha querer desabonar o cristianismo de todas as atrocidades que já foram feitas em seu nome. A Bíblia tem sido sistematicamente usada para causar muito mais desgraça do que sido usada para fins benéficos. E, em qualquer caso, nada prova que existe uma divindade.

            O que ela faz de melhor é criar dezenas de diferentes denominações, todas movidas por diferentes interpretações de um mesmo texto.

          • AntonioOrlando

            Tales

            Estás a confundir religião com Cristianismo. o Crisitianismo/Jesus, não raro, é refem de denominações religiosas. O que a Igreja Católcia fez no passado – inquisição e outros -, contrasta com o que caras como São Francisco fez. Sobretudo, o Crisitianismo não é responsável por ” homofobia e machismo patriarcal misógino da sociedade ocidental”. Sociedades seculares, ou seja ateias, até a medula, como China, União Soviética e atual Rússia, China e Coréia do Norte são, como ideologia, homofóbicas, patriarcais, misóginas, racistas etc. Isso além de China, União Soviética e atual Rússia, China e Coréia do Norte terem chacinado/matado e torturado, em apenas, alguns anos dezenas de milhões de pessoas. Número de mortes jamais alcançado pela Igreja Católica em mais de 400 anos de inquisição.
            Quanto ao feminino no Cristianismo recomendo a leitura de “ESPIRITO SANTO aspectos de uma pneumatololgia solidária à condição humana” de Alessandro Rocha. Nesse livro, Rocha lida, ou melhor descontrói os conceitos de masculino e feminino em Deus ao ressaltar o feminino no Cristianismo por meio do estudo da palavra “ruah” que, em hebraico, quer dizer espirito ou hálito, vento, sopro. Por meio de estudos fundamentados Rocha desenvolve o conceito do Espirito Santo como o aspecto feminino da Trindade.
            Abs.

          • Tales Zuliani

            Pra começo de conversa, “Cristianismo” é religião. Pode ter várias denominações, mas ainda assim é uma religião.

            Os crimes da Igreja Católica são tantos, tão vastos e tão graves que será necessário muito, mas MUITO mais do que apenas um Santo para sequer começarmos a falar em compensação. Especialmente porque até hoje ela continua fazendo merda. Continua sendo contra camisinha (tendo o Papa tido a pachorra de ir falar isso na África), continua sendo contra pesquisas de células-tronco, continua com o processo criminoso de esconder padres pedófilos. Isso sem contar o escândalo do Banco do Vaticano.

            O Cristianismo não é o único responsável, mas é uma das maiores fontes da “homofobia e machismo patriarcal misógino da sociedade ocidental”

            Ao citar os “países seculares” (e a maioria dos que você citou não o são), você cometeu uma pequena falácia: não se deriva nada do ateísmo. Um cristão que lê a Bíblia e se torna contra os gays deriva sua homofobia da Bíblia. Mas um ateu homofóbico NÃO é assim por conta do ateísmo. Não existe NADA no ateísmo que pode ser linkado a qualquer outra coisa, exceto uma: ausência de crença em divindades.

            Interessante. Quero ver como o Alessandro Rocha consegue “reinsterpretar” a Bíblia para justificar Efésios 5:22-24, 1 Corintians 11:7-9, 1 Timóteo 2:11-12, 1 Pedro 3:1 só para citar alguns. Todas passagens que demonstram o papel de submissão da mulher na mitologia cristã

          • AntonioOrlando

            Tales

            Não vou tentar explicar o que você não entendeu. ‘Tô sem tempo. Enfim, como cristão, na minha casa, em muito, eu é que sou submisso à minha mulher. Dividimos todas as tarefas da casa: a faxina e cozinhar ficou comigo. Temos horários alternados de trabalho. Ademais, ajudo minha mulher a cuidar da minha sogra, 91 anos. Creio ser essa a regra entre casais cristãos que eu conheço: respeito ao outro. Há uma pastora [dentre muitas], Helena Tannure, o equivalente e padre, que prega em igrejas para homens e mulheres. Provavelmente, enquanto isso, em casa, seu marido cuida das crianças.

            http://youtu.be/u7dKKakfWkY

            Se você desconsidera o fato de que Coréia do Norte, China, antiga União Soviética e atual Rússia, China, Albânia, dentre muitos, são sociedades seculares e ateias e que, sobretudo, em especial Mao e Stalin, mataram e torturam circa 50 milhões de pessoas, isso em pouco mais de três décadas, você, Tales, é incapaz de entender o Cristianismo e muito menos o ateísmo.

            Um ateu homofóbico, acima de tudo, é um ser humano e, independente de sermos religiosos ou ateus somos falhos e imperfeitos. Ou seja, os católicos da inquisição humanos, falhos e imperfeitos, ancorados na religião, e não em Deus/Cristianismo, foram cruéis com aqueles que pensavam de forma diferentes. Do mesmo modo, as sociedades seculares e ateias, supracitadas, mataram e torturaram milhões de pessoas, escudadas por uma ideologia politica – comunismo/socialismo – que tinha como líder um cara, Marx, que disse que a religião era o ópio do povo. Desse modo, dizimar cristãos ou religiosos em geral, era uma forma de fortalecer o partido/ideologia. Isso é fato. Se você desconsidera isso o seu problema não é religioso ou ateu – é falha cognitiva.

            Abs.

          • AntonioOrlando

            Tales84
            Cara, estou lendo o último livro do Steven Pinker, já li outros dois, “Os anjos bons da natureza”. Raras vez vi tanta distorção de fatos culturais, científicos e religiosos. Pinker é considerado um dos mais ativos ateus, ao lado do Dawkins. Ademais, Pinker é um dos maiores proselitistas ateus, no entanto, carece voltar para a escola.
            ABS

          • Renato Branco

            Comecei a ler o texto e foi me dando uma vontade de responder cada linha, mas ao ler os comentários vi que o Antônio Orlando respondeu tudo, parabéns Antonio. A quantidade de abobrinha que um ateu consegue escrever quando o assunto é religião é realmente algo inimaginável.

          • Tales Zuliani

            Se qualquer um pode interpretar o texto, e as interpretações usualmente tendem a ser diametralmente opostas, então o texto não é suficientemente bem escrito. Logo, não poderiamos jamais supor que esta é a obra de uma entidade com conhecimento e sabedoria tão vastamente superior à humana.

            Mas é perfeitamente plausível se passarmos a vê-la como de fato é: um livro de mitologias que retrata o momento histórico e cultura dos povos que fizeram parte de sua origem

  • Geremias Bristot

    Muito bom o texto, mas acho que não posso simplesmente responder que não sei de onde vem a minha moral (como ateu), eu ia ficar desmoralizado!(trocadalho do carilho). Embora seja muito complexo ter a precisão de como chegamos á moral dos moldes contemporâneos, pode-se, ao menos, afirmar que a moral surgiu com o nascimento de sociedade. É, basicamente, regras que buscam garantir a integridade da sociedade. Como ela em si é muito heterogênea, fica complicado criar regras para seres tão distintos seguí-las, é como uma caixa de encaixar daquelas que as crianças brincam para desenvolver o senso cognitivo. Peça quadrada para buraco quadrado. Posso afirmar, então, que a moral dos que não possuem encaminhamento divino é a moral embasada no bem comum. É uma resposta vaga más me parece mais sólida e convicta do que ter moral porque alguém mandou ter, caso contrário queimarás na eternidade.

    • Tales Zuliani

      Sou da opinião de que a moralidade nasce de uma programação evolutiva presente nos mamíferos que faz com que nós instintivamente desejemos preservar a nossa espécie, a nós mesmos e uns aos outros.

      Obviamente, a nossa auto-consciência torna a questão muito mais complexa do que em qualquer outra espécia da Natureza.

      Concordo com Sam Harris: Moralidade é sobre o bem-estar de ser conscientes (e me atrevo dizer que, até certa extensão, devemos incluir os outros animais nisso)

  • Petherson Steffen

    Amigão, só a cargo de informação e pra evitar futuros erros, deus é um título, assim como Alá (tradução do termo deus na cultura islâmica). Cristãos e judeus – de repente até os árabes rsrs – prestam culto a uma mesma divindade.

    Abraço e parabéns pelo texto.