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Curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” é censurado no Acre

Numa recente demonstração de autoritarismo e desrespeito à laicidade do Estado, o premiado curta-metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho” foi censurado no Acre. O filme fazia parte da programação do Cine Educação, projeto voltado à inserção da arte no ambiente escolar. Entretanto, a temática central do filme (o surgimento de uma relação homoafetiva entre colegas de escola, complexificada pela deficiência visual de um deles) desagradou os líderes religiosos locais. Tais líderes, numa atitude absolutamente inaceitável de intolerância, conseguiram proibir a exibição do filme pressionando os políticos locais. Não satisfeitos com essa barbárie, os fundamentalistas homofóbicos conseguiram paralisar o Cine Educação, cujo futuro está agora ameaçado.

O caso já foi notícia em vários canais, como o jornal A Capa e o Cineclick UOL (confira a lista completa no final do post). Uma outra reação de impacto foi carta de repúdio do Movimento Audiovisual Acreano Contra a Censura, com o subtítulo “O ESTADO BRASILEIRO É LAICO!“, que também lista os prêmios nacionais e internacionais que o curta metragem já ganhou. Segundo o Movimento, este é “um dos filmes brasileiros mais premiados dos últimos tempos em vários Festivais de Cinema Nacional e Internacional”.

Assista aqui o filme “Eu Não Quero Voltar Sozinho” , e confira logo abaixo a mensagem da Lacuna Filmes, produtora do curta, na íntegra:>


 

Queridos amigos e colegas,

No início da semana recebemos a notícia de que a exibição do curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, como parte do programa Cine Educação, havia sido censurada no Acre.

O programa Cine Educação, uma parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos, tem como objetivo “a formação do cidadão a partir da utilização do cinema no processo pedagógico interdisciplinar” e disponibiliza diversos filmes cujos temas englobem os direitos humanos, de modo que professores escolham quais são mais adequados para serem trabalhados em aula.

Na semana passada, no estado do Acre, uma professora escolheu o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho e exibiu-o para seus alunos. Para aqueles que não conhecem, a trama narra a história de Leonardo, um adolescente cego que, ao longo do filme, vai se descobrindo apaixonado por um novo colega de sala.

Alunos presentes na exibição confundiram o curta metragem com o “kit anti-homofobia” e levaram a questão aos líderes religiosos, que mobilizaram políticos da região com o intuíto de proibir o projeto Cine Educação como um todo. Nenhum desses representantes públicos deu-se ao trabalho de ir atrás da verdade e descobrir que se tratava de um programa pedagógico com o intuito de levar o debate sobre direitos humanos para a sala de aula. Mais uma vez no Brasil, a educação perde a batalha contra o poder assustador das bancadas religiosas e conservadoras.

Neste momento, o programa Cine Educação está paralisado. Enquanto isso, os secretários de Educação e de Direitos Humanos do Acre estão articulando com o governador a possibilidade de garantir sua continuidade, enquanto os líderes evangélicos forçam o cancelamento definitivo do programa. Pelo que sabemos, mesmo que o programa seja reativado, o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho será excluído do catálogo e não mais ficará disponível para que professores o utilizem no debate de questões que envolvem algo tão elementar quanto a sexualidade humana e tão importante quanto a deficiência visual.

De forma arbitrária, em uma república federativa cuja Constituição atesta um Estado laico, a sociedade está sendo privada de promover debates. Como pretendemos que adolescentes consigam respeitar a diversidade e formem-se cidadãos lúcidos, pensantes e ativos se informação, arte e cultura (sem qualquer caráter doutrinário) lhes são negadas?

Eu Não Quero Voltar Sozinho não é um filme proselitista, tampouco ergue bandeiras de nenhuma natureza. É apenas uma obra de ficção amplamente premiada em festivais de cinema no Brasil e no exterior, cujos predicados artísticos e humanos transcendem qualquer crença. Ademais, se assuntos referentes à orientação sexual dos indivíduos e seus respectivos direitos civis estão na pauta do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, por que não debatê-los em sala de aula? Que combate sombrio é esse, que reacende a memória de um obscurantismo Inquisidor?

Produtores do Eu Não Quero Voltar Sozinho

Daniel Ribeiro e Diana Almeida

Abaixo, o curta metragem na íntegra:


Posts e Matérias:

Cineclick – UOL: Premiado em Paulínia, filme gay é censurado em projeto educativo

ACapa: Curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” é proibido no Acre, confundido com kit anti-homofobia

No Ghetto: “Eu Não Quero Voltar Sozinho” censurado no Acre.

Papo de Homem: Dois casos de censura

Anderssauro: Eu Não Quero Voltar Sozinho

Update or die: Eu Não Quero Voltar Sozinho

Gay1: Premiado em Paulínia, curta gay é censurado em projeto educativo

Autor da matéria: Gustavo Crivellari, editor do Bule

Guilherme Balan
  • Bolsonaro JR.

    É…agora já não basta aceitá-los (tolerá-los) e aplaudi-los: Agora somos obrigados também a concordar com campanhas INCENTIVANDO nossos jovens ao homossexualismo (com ISMO, mesmo) !!! Me pergunto quanto tempo levará até que ser Heterossexual seja considerado crime !!!

    Como alguém já disse: A não muito tempo fumar era considerado bonito e chique ao passo que dar o ‘chibíu’ era considerado extremamente feio. Hoje é exatamente o contrário…(e até incentivado)

    • Cláudia

      Querido, foi comprovado pela medicina que fumar faz mal para a saúde: entre os ingredientes utilizados na fabricação de cigarros constam metais pesados, pesticidas e inseticidas – alguns são tão tóxicos que é ilegal despejá-los em aterros. Fazer sexo anal (aparentemente você não tem maturidade suficiente para usar os termos certos), no entanto, não traz nenhuma consequência negativa a ninguém. Se você rege sua vida a partir do que os outros acham bonito ou feio, acredito que você tenha sérios problemas de identidade.

      E, caso não tenha capacidade para ler o texto inteiro, ele deixa bem claro que o curta metragem “Eu não quero voltar sozinho” é um filme de ficção, e não uma campanha publicitária. Entendeu?

      • Aliás, mesmo que fosse uma campanha publicitária, a abordagem é tão sutil que me espanto ao saber que alguém ficou ofendido com ela.

        • Me fiz essa mesma pergunta. Como alguém pode se ofender com algo tão bonito, leve e singelo?
          Deveríamos agradecer por podermos contar com um material tão importante pra discutir a questão entre crianças e adolescentes.
          O fundamentalismo não tem limites mesmo!!

  • Antrocine

    Que tristeza, Censura numa Democracia?? Também difundimos em nosso espaço: http://antrocine.blogspot.com.br/2013/04/censura-no-cinema-hoje.html

  • Acre que vergonha! Deixar de apresentar uma obra genúina e maravilhosa como esta é desrespeitar e substimar a inteligência dos estudantes do Acre. Os alunos equivocados certamente não censuraram a “Boquinha na garrafa’ Quanta hipocrisia neste país.

  • Bella

    O curta é lindo e doce, aborda a descoberta da opção sexual, é algo tão narural, sem vulgaridade, bem trabalhado, proibir o vídeo sim é tudo o oposto doq o vídeo não é.

  • iofox

    Não me preocupo. A internet está ai pra isso.

  • Snowmeow

    Bem que a Internet poderia fazer os memes virarem realidade, assim o Acre não existiria.
    (Ou, ao menos, só os cabeças-ocas que impõem a censura no Acre)

    • Bianca Lombardi

      Ironia

  • Muito booooooom esse curta-metragem…

  • Bianca Lombardi

    Alguém, -alguma maioria-, elegeu quem censurou o filme, essa pessoa não se elegeu sozinha. Reflete a opinião de uma maioria. Ao caminhar pelas ruas, conte quantos dos cidadãos compartilham tal opinião a ponto de escolher esse representante. O Brasil só não é uma teocracia porque a maioria dos religiosos é não-praticante. A maioria da maioria e quem a representa.

    • A Democracia também proteje os direitos das minorias. Caso contrário, não é democracia.

  • Reges Mendes

    Faltou a informação sobre o público-alvo da exibição. Se era pretendido exibir o curta em turmas do ensino médio, concordo plenamente com as reclamações pela proibição. Mas teria posicionamento oposto caso fosse pra exibir para turmas do ensino fundamental.

  • Caramba, o curta é lindo! Não é à toa que está sendo tão premiado. Muito emocionante, singelo e delicado. Inspirador. Fico muito triste ao perceber que mais uma vez ficamos reféns de grupos preconceituosos, cuja religião se baseia em políticas de opressão, intimidação e manipulação. Mas… existe Internet, vamos divulgar o filme para todos os que foram impedidos de assistir. Os crentes que não quiserem ver, é só não ver. Mas não roubem a liberdade dos outros em evoluir socialmente.