Bule Voador

A imagem do humanismo é a classe média branca?

Voltaire-lecture

Plateia ouvindo Steven Pinker na Voltaire Lecture, palestra anual promovida pela Associação Humanista Britânica. Foto: Rationalist Association

O texto abaixo foi publicado no site da Associação Racionalista (RA), uma organização britânica com mais de 125 anos de existência. A  pergunta que dá título a este post é bem provocadora, e não tem sido abordada com a regularidade e consistência necessárias nas discussões sobre humanismo no Brasil. É importante observar, primeiramente, que o texto abaixo trata da realidade britânica. Ainda assim, ele nos diz muito. Embora o autor dê mais atenção ao aspecto de classe na percepção dele sobre os eventos humanistas em Londres, ele também trata da questão étnica. Afinal, a face organizada do humanismo — suas organizações e seus eventos — é uma face branca e de classe média? Eu acrescentaria: uma face masculina?

No caso do Brasil, o cenário parece-me bem parecido com o que o autor descreve em relação à Inglaterra. Em relação à LiHS, por exemplo: dados sobre autoidentificação étnica e sobre renda ainda estão por serem melhor levantados entre a base de membros, mas a composição por gênero aponta menos de 20% de mulheres entre filiados(as). Este é um ponto, em específico, que demanda outras abordagens, como o do histórico apartamento da mulher em relação ao espaço público, o que está refletido na própria dificuldade de se eleger representantes mulheres no país, a despeito de serem maioria na população.

Esta curta introdução, na verdade, tem o objetivo de contextualizar um fato tanto agradável quanto surpreendente: o texto abaixo foi escrito por um jovem de apenas 16 anos, chamado Carnun Marcus-Page. Ele tem um blog, Os Devaneios de um Jovem Ateu, e coordena um grupo na escola dele para promover discussões baseadas em racionalismo e livre reflexão. Marcus-Page está no começo do Ensino Médio e pretende seguir carreira na área da Física. Boa leitura.

O humanismo tem um problema demográfico?

Se o humanismo quer crescer, ele precisa alcançar pessoas além da classe média branca, afirma Carnun Marcus-Page.

Eu sempre fui humanista. Mas só recentemente fiz um esforço de envolver-me com o humanismo de forma mais ativa.

Na minha escola de Ensino Médio, eu coordeno um ‘Clube de Perguntas’ — “um espaço para discutir, com racionalidade, empirismo e com tudo que o pensamento crítico envolve”, diz o cartaz do clube, “absolutamente todos são bem-vindos” — que tem ido bem.

Cada vez mais, também tenho feito o esforço de comparecer a cursos, palestras e conferências sobre Humanismo e Ciência, meus temas favoritos. Uma das minhas recentes incursões nesses eventos foi ir à Voltaire lecture feita pelo psicólogo experimental Stephen Pinker e organizada pela Associação Humanista Britânica [BHA] (o áudio do evento pode ser conferido aqui). Foi uma ótima exposição, e o tema — “Os melhores anjos da nossa natureza: uma história da violência e da humanidade(*) — certamente deixou a mim e à minha mãe com muito o que pensar enquanto voltávamos para casa.

O único problema é que a nossa discussão voltando para casa, desta vez, parecia constantemente retornar a um tema diferente daquele apresentado por Pinker. Nós ficávamos nos perguntando: “por que a plateia nestes eventos é sempre tão branca e de classe média?”

Acho, honestamente, que isso não é representativo dos humanistas como um todo. Minha mãe e eu somos ambos, orgulhosamente, da classe trabalhadora, e moramos num distrito que acredito ser um dos mais diversos culturalmente de Londres — Haringey. Assim, toda vez que vamos a um desses eventos, sentimos que há um contraste gritante entre as pessoas na plateia e as pessoas que nos rodeiam em nosso no dia-a-dia, muitas das quais nós sabemos que são humanistas.

Supondo que isto é um problema, o que o causou? Alom Shahaescreveu sobre questões raciais para o Guardian, mencionando como “existem questões que ateus negros e asiáticos enfrentam que ateus brancos não, por exemplo, grande pressão para aderir à religião das comunidades em que eles vivem” — afirmação com a qual concordo inteiramente. Com frequência, esquece-se que, enquanto alguém pode, internamente, identificar-se de forma integral como ateu e discordar das alegações do que é verdade da religião de seus pais, pode ser extremamente difícil para este indivíduo traduzir isto para uma crença exposta, uma vez que ele pode arriscar tudo, desde a ofender seus amigos e família até à completa exclusão de toda sua comunidade. E, em casos bem extremos, pode haver violência.

E o que se passa com as classes sociais, então? Assim como em relação à raça, duvido que a natureza desta exclusão seja acidental. O preço do ingresso para esses eventos é fixado de forma bem razoável (o preço para estudantes, que eu paguei para ouvir Stephen Pinker falar, foi de 5 libras) pela simples razão de que muitos desses eventos são organizados por organizações filantrópicas como a BHA, que deseja alcançar o maior número possível de pessoas; então, acho que isso pode ser descartado. A questão aqui é mais complexa definitivamente.

Considere, por exemplo, a duração de uma semana de trabalho média no país. De acordo com a Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Moradia e Trabalho, “trabalhadores do Reino Unido em empregos de tempo integral trabalham, em média, 41.4 horas toda semana, uma hora e meia a mais do que a média dos demais 27 países-membros da União Europeia” — mas o que isso significa? A primeira questão que me ocorre é que aqueles trabalhando mais horas simplesmente têm menos tempo livre para comparecer a palestras. O que deve ser salientado aqui é que a média de 41.4 horas é, provavelmente, um valor médio também – indicando muito bem que há muitos que trabalham mais horas do que isso, e têm menos chances ainda de comparecerem (apesar de talvez desejarem). E, antes que se saliente isso, a duração da semana de trabalho de uma pessoa pode não indicar seu salário, mas estou certo de que, enquanto certamente há banqueiros que fazem longas jornadas, não há razão para assumir que eles precisam ou que uma parcela significativa disso seja sem remuneração.

Algumas, talvez triviais, despesas para os mais abastados precisam ser consideradas também. Local para deixar as crianças é uma delas, assim como custos com deslocamento e alimentação. Entretanto, talvez de modo mais significativo, isso tudo pode ser resumido num fator similar, eu acho, responsável por algumas das distorções raciais entre humanistas organizados: as pessoas tendem a preferir socializar com um grupo similar. Isso não as faz racistas (ou, na verdade, classistas), mas isso deve ajudar a explicar parte deste problema.

Nas sagazes palavras da minha mãe: “Eu não sei o que é, mas estar na presença de tantos profissionais brancos de classe média me faz querer fazer algo malcriado.”

Foi apenas uma brincadeira, mas realmente acho que isso demonstra bem o desconforto interno sentido por aqueles que, geralmente, não comparecem a estas palestras, cada um por muitas razões diferentes.

Então, como as organizações humanistas podem lidar com isso? Fazendo transmissão simultânea destas palestras para alcançar uma audiência mais ampla? Envolvendo-se com política econômica? Precisamos de mais apoio de grupos como o Ateus Negros de Londres?

Não sei (a não ser por um forte “sim” quanto à última pergunta). Mas certamente há um problema que precisa ser discutido, e logo, se a imagem do humanismo pretender ser, algum dia, a da humanidade como um todo — e não só a da classe média branca.

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(*) Esta é uma tradução livre do título da obra mais recente de Stephen Pinker, chamada The Better Angels of Our Nature: A History of Violence and Humanity (2011).

AutorCarnun Marcus-Page
Fonte: Rationalist Association
Tradução e Introdução: Luiz Henrique Coletto

Luiz Henrique Coletto
Professor, pesquisador e ativista, atualmente é vice-presidente da LiHS.
  • Luiz

    Muito interessantes as ponderações do rapaz e, mais ainda, também o fato de ele ter essa sensibilidade para esse tipo de assuntos. Atualmente leciono no ensino médio, na rede pública de Minas Gerais e, apesar de haver algumas boas exceções, em geral as preocupações não ultrapassam questões de igreja e de consumo. O que nos leva ao centro das próprias questões colocadas pelo texto. Como disse, estou na rede pública e, portanto, trabalho com pessoas de um determinado nível socioeconômico. Sempre me incomodou ver os mesmos tipos de pessoas frequentando os mesmos ambientes. Venho das classes populares e, assim como vejo hoje com meus alunos, preocupação com certo tipo de questões e vivências culturais não fazem parte do cotidiano dessas pessoas. E então, desde que comecei a frequentar a universidade, percebia que era certo perfil de pessoas que frequentavam certos lugares, eventos, cursos… E isso independia de ser pago ou não: muitas vezes, bons eventos (digamos, mostras de filmes ou apresentações musicais – fora do tipo de coisa vendido pela indústria…) eram totalmente desprestigiados, e víamos apenas meia dúzia de “gatos pingados”, sempre aquelas mesmas pessoas, brancas, de classe média, com certo tipo de origem e certa bagagem social. Isso se relaciona também com outros tipos de comportamentos, como o vegetarianismo, por exemplo, ou, como no caso do texto, o humanismo, ou o ateísmo… Descobri uma excelente fonte de reflexões sobre o assunto nos textos do Pierre Bourdieu, que, através de noções como “capital cultural” e “habitus”, mostra como fatores culturais são também altamente importantes na hora de definir certos padrões de comportamento, demandas sociais, legitimidade, investimentos etc. Bom, já me estendi muito. Gostei do texto, queria apenas observar que esse tipo de reflexão é importante, porque muitas vezes as pessoas que se têm como mais esclarecidas acabam perdendo algo de fundamental na compreensão de certas situações e qualificando como óbvias situações que nada tem de óbvias, atribuindo a não adesão a certas causas, legitimas que sejam, unicamente à burrice, obscurantismo etc.

  • sim, humanismo e esquerdismo em geral = coisa de rico.

    Pergunta pra população normal(isso, normal) o que eles acham de pena de morte e maioridade penal hahahaha…

    A elite brasileira é a elite branca intelectual que acha que um dia o Brasil vai ser a Suécia. Enquanto isso, vamos continuar morrendo e sendo estuprados por “vítimas da sociedade com desvio de conduta”.

    Humanismo é religião de rico – não sou rico, nem teísta, mas já tive minha experiência com idiotice por alguns anos – mas pra quem vem da “merda” não demora muito perceber que a maioria desse intelectuais só viajam na maionese pra se sentir bem…

    É bom viajar na maionese, não ? Faz bem se sentir bem … haha
    A ponderação do rapaz ( como disse o Luiz ), é interessante sim. Mas é a mesma coisa com teatros(coisa de classe média branca uspiana) cinemas( to falando daqueles filmes chatos – também coisa de classe média branca uspiana – filmes iranianos ? haha).

    Futebol, Pena de Morte, Diminuição da Maioridade Penal… isso é coisa de gente normal. Não é coisa de branco ou de preto, é coisa de gente que vive a vida de verdade.

    Ainda bem que da pra culpar a classe média… mas vocês são da classe média, não ?

    Não ? Não ? Continuem viajando, vou seguindo vocês… Logo logo teremos o Clube Humanista dos Negros Londrinos da Rocinha !

    • Esquerdista

      Tem de ver o quanto a população “normal” não foi influenciada pelos meios de comunicação que atendem aos interesses da elite

    • Caruê Gama Cabral

      “O Brasil é o único Pais em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita“Tim Maia

      A esquerda sempre foi o pesadelo do rico, pelo menos em principio ela busca o fim ou a diminuição da desigualdade social. Infelizmente boa parte da população pobre estava ocupada demais trabalhando e não teve tempo de compreender oque é a esquerda ou a direita.
      Não tenho duvidas de que se dependesse da maioria, jamais teríamos superado a escravidão e as mulheres não teriam o direito ao voto, são as minorias que movem o mundo.

  • Conspiratus

    Até cerca de 150 anos atrás, Europeus eram donos de Africanos, nas Américas, Europa e na própria África. Modificaram uma doutrina de origem judaica – Cristianismo – e lhe deram santos, santas, anjos e um deus branco, loiro e de olhos azuis. Pintaram o demônio de negro e o colocaram num reino que fica no porão da Terra.

    As ondas de liberdade, garantidas por canhões ingleses e visando expansão do industrialismo, trouxeram uma igualdade postiça. Os negros eram/são livres como os brancos, mas não tem os recursos para desfrutar dessa liberdade. Assim, o emprego nas fábricas, órgãos públicos e mesmo fazendas tomavam – e ainda tomam – a maior parte do tempo dos chamados Afrodescendentes. Não dá para estudar! Filosofia, então, nem pensar! É preciso se concentrar em coisas que garantam casa e comida, pelo menos.

    No serviço, normalmente comandado por pessoas brancas – ou quase – a seleção para cargos de chefia acaba resultando num corpo de gerência de pessoas “clarinhas”. É melhor a comunicação com o Cliente quando ele se enxerga no Vendedor! E o padrão de clientes de carros esportes, casas de luxo, faculdades famosas não é de pessoas negras.

    As classes sociais mais baixas – e é claro que não são formadas somente por negros – são apenas agentes de mobilidade dos recursos financeiros da mão esquerda para a mão direita da Classe A. O salário que as pessoas recebem, por exemplo, nas grandes indústrias é gasto com impostos que remuneram políticos, comida e roupas que formam a receita de grandes fazendeiros e industriários.

    A Revolução, no campo financeiro, seria o que Luther King sugeriu: boicote. Boicote aos produtos fornecidos pelos grandes conglomerados industriais, pecuários e de plantio. No campo político seria o enterro eleitoral dos grandes coronéis, como Sarney, Renan Calheiros, Paulo Maluf e outros. No campo das ideias, a revolução seria o abandono, pelos pobres e principalmente negros, do Cristianismo. Daí, haveria mais tempo para o Humanismo, os excedentes de capital dos ricos seriam queimados por promoções incríveis e pela obsolescência, e os padrões morais perderiam a cor.
    Tudo bem, Lord Conspiraturs, mas não existem só brancos e negros no mundo. E os outros?
    Os outros ficam para um próximo comentário!

  • Guest

    São plausíveis as palavras do rapaz. Mas creio que sim há preconceito na sociedade e esse preconceito em relação a etnia não é bom mas até podemos dizer que é “normal”. Hipócrita é quem afirma não ter NENHUM preconceito. O problema é como você expõe isso, se é de forma agressiva ou pela forma do diálogo ou da coexistência pacífica…

    Também existe obviamente o auto-preconceito que quem é afrodescendente ou de imigrantes dos países do oriente-médio.
    E é claro podemos ressaltar que existem os fatores históricos e geográficos que determinam a diferença sócio-econômico entre etnias….

    Enfim.

  • Guest

    Obviamente quem por fatores sócio-econômicos teve melhor formação cultural… tendem a frequentar lugares onde pessoas semelhantes nesse ponto sócio-econômico frenquentam. É inevitável.

    Mesmo assim não se pode dizer que, por exemplo, só existem humanistas de classe média alta e brancos, assim como não se pode dizer que só existem pessoas de classe média brancas ou que só se formam em grande universidades pessoas brancas.

    Porque quem é afrodescendente tem todo o direito e liberdade de alcançar as coisas na vida. E hoje em dia, vemos inúmeras pessoas negras galgando grandes posições tanta no meio acadêmico como político ou empresarial.

    Se não se perder na vitimização todos podem expressar livremente seu pensamento.

  • Vicente Neto

    Só destacando uma frase de um pessoa que comentou:
    “Humanismo é religião de rico – não sou rico, nem teísta, mas já tive minha experiência com idiotice por alguns anos – mas pra quem vem da “merda” não demora muito perceber que a maioria desse intelectuais só viajam na maionese pra se sentir bem…”