Bule Voador

O que há de podre no Reino da Dinamarca

projeto poder teocraciaÉ da tragédia ‘Hamlet’ a origem da expressão ‘Há algo de  podre no reino da Dinamarca‘. A frase, cunhada por Shakespeare, se referia a traições e homicídios que ocorriam na estória da tragédia.

 Hodiernamente falando, a frase é usada para se referir a cada fato obscuro e podre que se imiscui além das cortinas que cerram algum espetáculo, seja ele político, social ou de qualquer outra origem. Quando dizemos ‘há algo de podre no reino da Dinamarca’, nos referindo sobre qualquer fato, o que estamos dizendo é que por trás daqueles fatos existem outros, não revelados, que fedem. Numa licença quase ‘poética’ (mentira, tem nada de poético nisso), diria que a torta de morango, que permeia o livro ‘A maldição do cigano’, de Stephen King é excelente exemplo do que quero dizer.

Pois bem. Quando se lê todas as notícias relacionadas à eleição de Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados; ou sobre a a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 99/11, recentemente aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (leiam esse texto sobre o assunto); quando se observa a atuação da bancada evangélica no Congresso…..o que te parece? Há ou não algo de podre por trás dessa concatenação?

Há um projeto de instalação de uma teocracia em nosso país. Muito embora o jogo democrático admita que as forças sociais façam ‘cabos-de-guerra‘  para fazer valer os seus interesses; não se olvida que a prevalência de certos interesses de alguns grupos, com completa destruição dos interesses e valores de outros, não tem nada de democrático; não tem nada de constitucional.

Democracia NÃO É o massacre das minorias pela maioria. Não é adequado a ninguém esperar que os outros concordem consigo e  é esse o cerne da questão: o direito de discordar.

Existe um livro escrito por Dalmo Dallari (Teoria Geral do Estado), que diz que a função do Estado, enquanto Sociedade politicamente organizada, é criar condições para que cada indivíduo que faça parte daquela Sociedade, auto determinar-se em busca de sua felicidade pessoal. A ressalva óbvia a essa ‘permissividade’ seria que essa felicidade não causasse danos aos outros indivíduos.

Por trás da nomeação de Marco Feliciano para a CDH; da PEC 99/11 e da atuação da bancada evangélica existe um projeto de poder que visa eliminar a possibilidade da busca dessa felicidade.

Cada indivíduo teria de aceitar o conceito de felicidade posto por uma interpretação restritiva de um certo livro religioso e só poderia buscar esse tipo de felicidade posta. Assim, se a Bíblia coloca as mulheres como seres inferiores e que tem de ser submetidos ao homem, cada mulher nesse país teria de aceitar essa condição; se esse livro diz que a homossexualidade é abominação, nenhum indivíduo homossexual teria o direito de acesso aos direitos civis (que todos os demais não-homossexuais experimentam); se a bíblia diz que não se pode comer camarões, ninguém poderia comer. Ops….exagerei: não vemos intolerantes religiosos pregando isso, apesar disso também ser um mandamento bíblico.

O ‘modus operandi’  desse grupo intolerante, que não consegue supremacia nem mesmo entre os que professam a mesma religião  (graças a deus!), é o seguinte:

a) Conquista de espaço na mídia, objetivando a agregação do rebanho: isso tem acontecido amiúde.  Líderes religiosos tem buscado conquistar autorizações para emissão de sinal de rádio e tv para, com isso, angariar maior número de seguidores.

 b) Conquista do poder econômico: percebemos isso com a tal da ‘Teoria da Prosperidade’, onde esses líderes convencem os seguidores a fazerem ofertas cada vez maiores em prol das denominações.

 c) Conquista do poder político: cada vez maior é o número de líderes religiosos que se candidatam a cargos eletivos. Usam o púlpito das igrejas e os espaços na mídia (item ‘a’ acima) para divulgar suas candidaturas e angariar votos.

d) Militância do rebanho: cada adepto da igreja é convencido a tentar transformar os espaços que ocupa (família, trabalho) em extensões da igreja, divulgando a mensagem e angariando mais e mais adeptos.

 e) O jogo do poder: com os poderes midiáticos, econômico e político, buscam a instalação do projeto, que seria o estabelecimento de uma ‘nação evangélica, governada por Deus’.

Isso tudo está no livro do Edir Macedo, cartilha que tem sido seguida à risca por vários líderes evangélicos atuais.

Esse projeto de poder é bíblico, i.é, faz parte ou está de acordo com o ‘projeto de salvação de Deus’?’

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 Óbvio ululante que esse projeto é uma corruptela da mensagem bíblica. Isso porque não há nada na bíblia que indique que um líder cristão X ou Y conquistaria esse poder. Muito pelo contrário: todo o livro do Apocalipse ou a própria bíblia em si ensina que o reino dos céus não é desse mundo. Ou seja: haveria uma corrupção generalizada na Terra e somente o Deus pai-filho poderia resolver. Não há absolutamente NADA na bíblia que indique que algum líder, em nome de Jesus (o deus vivo, segundo a bíblia) transformaria a Sociedade.

Percebe o engodo? Percebe a mentira divulgada? Esses intolerantes que querem transformar nosso país numa Teocracia não acreditam na Bíblia, pois se de fato acreditassem, saberiam que o único salvador seria Jesus; somente ele poderia acabar com a corrupção e julgar os ‘abomináveis’  e isso no Juízo Final.

O que esse grupo quer não é estabelecer uma Teocracia governada por Deus, mas sim estabelecer uma Teocracia governada por ELES. São eles quem tem sede de poder; são eles que querem ser os protagonistas nessa peça que estão encenando com tanto afinco. Isso não tem nada de bíblico. Ou melhor: pode até ter, se você, cristão, pensar neles como os anti-cristos modernos.

Anti-cristo é uma palavra forte? O que a bíblia fala sobre ele? Ele prometeria a paz. O que esses intolerantes prometem? Que mudarão a Sociedade, acabarão com os comportamentos humanos ‘indesejados por Deus’ e que o mundo (ou nosso país) será melhor com isso. Ele (o anti-cristo) reconstruiria o Templo de Salomão (segundo muitos, esse seria um dos sinais do final dos tempos). E o que uma igreja está tentando fazer? Reconstruir o templo de Salomão.

Não que eu acredite na Bíblia nem nada; o que estou tentando dizer é que quem acredita deveria não reverenciar esses homens intolerantes que querem tomar o poder para si; não deveria apoiá-los; antes deveriam era expurgá-los, porquanto o que eles fazem é completamente dissociado do ‘Projeto de Deus para a Humanidade‘, bem delineado na própria bíblia que dizem observar.

Não quero, como minha mãe diz ‘ensinar o padre nosso ao vigário’, ensinando quem quer que seja sobre como/onde/ou porquê seguir determinado ensino bíblico/religioso;  mas sim revelar que esses homens não seguem a bíblia. Eles DIZEM que seguem, quando tomam  caminho inverso.

Em qual parte da bíblia algum humano foi eleito o julgador de toda a Humanidade? Que eu saiba a própria Bíblia diz que o único que poderia fazer isso seria o Cristo-Deus, único impoluto (II Co 5:10 – “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem ou mal“).

Lembro ainda que em Matheus (7:1-5) consta que:

1 “Não julguem, para que vocês não sejam julgados.

2 Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês.

3 “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho?

4 Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu?

5 Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.

Nesta toada,  esses pastores que se dizem seguidores de Cristo e se põe julgar a todos e querer impor cabresto em toda a humanidade estão é usurpando o poder daquele que seria o unigênito.

Porque isso deveria ser importante para os cristãos? Porque cada cristão nesse país deveria repudiar Marco Feliciano e a bancada evangélica? Pelo simples fato de que esses homens não querem a nova ordem mundial descrita na Bíblia; por seus atos eles demonstram que não querem esperar o julgamento final, onde Jesus seria o governante; porque esses homens desrespeitam o próprio livro sagrado deles; porque na verdade o que eles querem é o poder para si mesmos.

Bem se vê que o ‘algo de podre’ nessa história é o uso de dogmas religiosos, em grande parte deturpados, para a tomada do poder temporal a ser exercido por um determinado grupo (bancada evangélica) em detrimento de todo o restante do grupo (sociedade).

Eu acredito na possibilidade da existência pacífica e ordenada dos mais diversos grupamentos religiosos (cristãos, budistas, hinduístas, muçulmanos, adeptos de religiões afro, etc) e não religiosos; penso mesmo que isso seja possível e desejável e que o mundo seria bom assim. O que eu não penso ser possível é querer fazer isso enfiando dogmas goela abaixo de quem quer que seja; querendo tornar obrigatório que toda uma Sociedade viva sob os desígnios impostos por um livro escrito na Idade do Bronze.

Embora muitos religiosos, por terem recebido do púlpito de certos líderes, informações imprecisas e inverossímeis, pensem que o ‘mundo está degringolando e que isso tem de ser mudado‘, aceitando assim esse projeto de poder como se fosse uma coisa boa; a verdade é que esse projeto não é bom para ninguém.

Primeiro porque esse ‘degringolamento‘ (que eles crêem existir) seria um sinal do fim dos tempos e eles deveriam ficar felizes pois o retorno de Jesus estaria próximo. Tentar impedir isso seria um contra-senso, pois implicaria em tentar impedir um processo que resultaria no que tanto almejam.

Segundo porque quem deve julgar, segundo os próprios dogmas que dizem seguir, não é nenhum desses líderes que se auto proclamaram procuradores de Jesus, mas sim e tão-somente o próprio Jesus.

Terceiro porque foi a própria bíblia (e o próprio Jesus ) condena quem se faz de julgador.

Quarto porque a própria Bíblia coloca toda a Humanidade como pecadora (só Jesus seria impoluto) e que todo aquele que comete um só pecado é culpado de todos os outros (Tiago 2:10).

Quinto porque foi a intolerância religiosa a culpada pela morte do próprio Cristo (não que eu acredite na existência histórica desse personagem, estou partindo do pressuposto de que ele tenha existido, já que é a base da crença cristã).

Some-se tudo isso e teremos que cristãos que apóiam a bancada evangélica e o Marco Feliciano, se a bíblia estiver correta, encontrarão todas aquelas ‘abominações’ (pecadores) no inferno e serão repudiados pelo próprio Deus pai-filho (Matheus 7:21-23).

Porque eu, que não creio na Bíblia estou dizendo tudo isso? Para mostrar que segundo a própria bíblia esses congressistas não passam de fariseus; para mostrar que a defesa do Estado Laico é o único caminho possível para que possamos, de fato viver em paz até que chegue o ‘juízo final’ tão propalado.

 Se eu vou para o inferno ou se alguém que não segue a bíblia vai? Isso não é da conta de ninguém; segundo a bíblia cada pecador que caminha sobre esse planeta terá de prestar contas a uma única pessoa; querer que prestemos conta a outro que não o julgador contradiz os próprios ensinos bíblicos. E quem quer que defenda esses fariseus está é condenando-se a si mesmo a uma vida de tormento eterno. Se você, cristão, se importa com os atos alheios, pois eles podem levar esses pecadores ao inferno , e por isso apóia um projeto de poder que visaria a eliminação do pecado; que tal preocupar-se com seus próprios atos e resistir àqueles que também pecam, ao propalar uma mensagem tão deturpada da bíblia?

A esse ponto acho que já foi possível entender que a primeira parte desse texto é destinada a cristãos, certo? Não que eu ache que muitos cristãos tenham esse blog como favoritado em seus navegadores, mas algum há de ler.

Então você, cristão, ainda que pense que esse projeto de poder atenderá aos auspícios de sua alma, você tem certeza de que está de acordo com tudo o que esses congressistas está defendendo? Está mesmo disposto a dar carta branca a eles para que atuem em seu nome, mesmo que isso implique em desobedecer o próprio Cristo, que determinou que não julgássemos os nossos pares? Está disposto a desobedecer o próprio Deus, que teria dotado a  vontade humana com a liberdade e o poder natural de agir por escolha, sem ser forçada ou predeterminada por alguma necessidade natural para fazer o bem ou o mal (Mateus 17:12; Tiago 1:14; Deuteronômio 30:19)? Está disposto a apoiar quem faz isso?

Como tem sido a atuação de políticos religiosos em nosso país?

Como já foi divulgado ad nauseam em vários portais de notícias, a bancada evangélica é a mais ausente/faltosa, processada e inexpressiva. A luta deles não é para defender o projeto de salvação proposto por Deus; o objetivo é estabelecer uma corruptela desse projeto, utilizando a própria bíblia, enquanto que ao mesmo tempo a desobedece.

 Dentre esses projetos existem vários, dos quais citarei alguns.

a) Direito absoluto do feto à vida (Estatuto do Nascituro): primeiro que falar em direito absoluto, qualquer que seja ele já é um absurdo. Direito é uma construção do mundo cultural e como nada no mundo cultural é absoluto, nada em direito é. Mas no que isso implica?

 – Risco da vida da mãe: uma mulher grávida que esteja em risco de vida por conta da gravidez não poderia abortar. Na República Dominicana, por exemplo, uma jovem de 16 anos portadora de leucemia teve o tratamento aditado para evitar a interrupção da gravidez, já que a Constituição daquele lugar proíbe o aborto em qualquer hipótese.

 Você, mulher cristã, está disposta a sacrificar a própria vida num caso como esse? Você, homem cristão, concorda em arriscar as vidas das mulheres que você ama (esposa, filha, etc)? Ambos concordam em arriscar a vida dos demais, negando-lhes o livre arbítrio (tão propalado) concedido pelo próprio Deus?

– Estupro: Por este estatuto não seria mais possível abortar ainda que em caso de gravidez decorrente de estupro. Você, mulher, concorda em ser obrigada, em caso de gravidez resultante de estupro, a manter a gravidez até o final, arriscado sua própria vida, se o caso (soma do presente caso e do anterior supra descrito), para ter um filho gerado nesse ato abominável? Você homem cristão, dá seu ok para que façam isso com as mulheres que você ama, caso elas sofram tal atrocidade?

Ainda sobre o estupro: o atual presidente da CDH é autor de um projeto de Lei 433/2012 que estabelece que caso um estuprador seja contumaz (ou seja: seja uma espécie de estuprador em série), que ele pode substituir a pena privativa de liberdade pela castração química.

Olha que ‘legal‘: se você, mulher for vítima de um estuprador contumaz e ele for pego, ele poderia substituir a pena privativa de liberdade por tratamento químico (afinal, ele é um ‘doente’, não um criminoso). Se esse estuprador contumaz for um pedófilo, também. E se você for homem e for estuprado, ocorre o mesmo com o algoz.

b) Obrigatoriedade de orações. Segundo a própria doutrina cristã, o relacionamento do homem com Deus deveria ser espontâneo; ou seja: o homem deve querer, pois isso seria parte indissociável do livre arbítrio. E mais: segundo Mateus, a oração deveria ser um ato particular:

 “Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que… o recompensará” -Mateus 6:6

Mas novamente os políticos cristãos ignoram a própria bíblia que tanto dizem querer proteger, e querem obrigar todas as pessoas a orarem. Pergunta: isso, dentro da lógica cristã, seria desejável? Pergunto isso porque orações automatizadas mais afastam as pessoas do sentimento espiritual do que qualquer outra coisa; esse, inclusive, é apontado como um dos motivos que afungentou muitos católicos das missas. Se eu fosse cristã, expurgaria esses projetos.

Em junho de 2012, a Câmara Municipal de Apucarana-PR, aprovou por unanimidade um projeto que obrigaria os alunos de escolas públicas e particulares a, antes do início das aulas, rezarem o pai-nosso. Lei semelhante já tinha sido aprovada em Ilhéus-BA. Ambas, por óbvio, constituem grande afronta ao Estado Laico que é, em última instância, o que garante até aos próprios cristãos o direito à serem cristãos. Como então poderia um cristão concordar com a destruição da laicidade que lhes é benéfica?

c) Bons costumes:

Cristãos deveriam temer a associação da idéia de moral e bons costumes à religião (como se só religiosos fossem morais e tivessem ‘bons costumes’- exclusão total de agnósticos e ateus) e a uma única religião (como se adeptos de outras religiões também não fossem morais ou não tivessem bons costumes), ainda que fosse a deles. Porque isso tais valores são humanos, pertencem à humanidade e não ao grupo x ou y. E é também perigoso, já que hoje é a religião deles quem é associada a tais valores e amanhã pode não ser.

A própria bíblia descreve como os judeus teriam perseguido Jesus e os apóstolos exatamente porque a conduta deles não estaria adequada à religião então dominante (judaísmo); se hoje o cristianismo no Brasil é a religião dominante, esse cenário pode mudar e de caçadores os cristãos podem virar caça.

Myriam Rios, do PSD do Rio de Janeiro, criou um projeto de lei que foi aprovado, chamado ‘Lei dos bons costumes’. O objetivo seria resgatar os valores morais, sociais, éticos e espirituais. O órgão gestor dessa lei seria a Secretaria de Assistência Social e de Direitos Humanos (anote no seu caderno: direitos humanos), que promoveria ações que envolvessem o Estado, a Sociedade, as Famílias, a comunidade religiosa (isso consta expressamente no texto do projeto 573/2011, que infelizmente virou lei) e a iniciativa privada. O objetivo óbvio não declarado é ter o apoio do Estado para fazer proselitismo religioso de uma religião, o que é vedado pela Constituição Federal.

um vídeo interessante sobre o assunto, de autoria do Mateus, do ‘Homens racionais’ (minha única discordância com o vídeo é na ênfase dada por ele no ‘pu’, ao mencionar a ‘deputada’ Myriam Rios. Ficou mal explicado e pode dar ênfase à existência de um desnecessário ataque à política citada. Pode ser apenas uma impressão, mas faço questão de deixá-la anotada).

Esse mesmo caminho foi seguido por um vereador chamado Carlos Apolinário (DEM) em São Paulo; sendo cristão e adotando texto bíblico que condena a homossexualidade, ele resolveu associar os bons costumes à heterossexualidade, por meio do Projeto 294/05 que instituiria o ‘Dia do Orgulho Hetero’:

 “Institui, no Município de São Paulo o Dia do Orgulho Heterossexual, e dá outras providências.

A CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO decreta:

Art. 1o – Fica instituído, no Município de São Paulo, o Dia do Orgulho Heterossexual, que será comemorado, anualmente, no 3o (terceiro) Domingo de Dezembro de cada Ano.

Art. 2o – A data instituída por esta lei passará a constar do Calendário Oficial do Município de São Paulo.

Art. 3o – O Executivo envidará esforços no sentido de divulgar a data instituída por esta lei, objetivando conscientizar e estimular a população a resguardar a moral e os bons costumes.

Art. 4o – As despesas decorrentes da execução desta Lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas, se necessário.

Art. 5o – Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

SALA DAS SESSÕES, Às Comissões competentes.”

Ou seja: apenas o comportamento heterossexual seria considerado ‘moral e de bons costumes’. Acertadamente dito projeto foi vetado e dentre as razões apresentadas  constou:

Essa não é, todavia, a isonomia de tratamento que o comando contido no artigo 2o do indigitado texto pareceu querer por evidência, na medida em que ali está prescrito que, vale a pena repetir, o Poder Executivo Municipal “envidará esforços no sentido de divulgar a data instituída por esta lei, objetivando conscientizar e estimular a população a resguardar a moral e os bons costumes”. Como se vê, o dispositivo expressamente patenteia que o “Dia do Orgulho Heterossexual”, cuja comemoração anual dar-se-á na semana do natal, estará associado ao resguardo da moral e dos bons costumes. Logo, não é necessário fazer grande esforço interpretativo para ler, nas entrelinhas do pretendido preceito, que apenas e tão só a heterossexualidade deve ser associada à moral e aos bons costumes, indicando, ao revés, que a homossexualidade seria avessa a essa moral e a esses bons costumes.

c) Ensino religioso:

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O mercado da fé rende muitos frutos, disso acho que ninguém tem dúvidas. Mas não é mercado inesgotável, o que tem causado disputas entre os mercadores. Os principais, como Valdomiro, RR.Soares, Silas Malafaia e Edir Macedo têm disputado entre si as próprias ovelhas, usando, para isso, o poder midiático conquistado: Valdomiro comprou os horários do RR Soares na CNT, oferecendo à emissora mais dinheiro do que seu rival ( no que foi apoiado por Silas Malafaia). Quando, porém, Valdomiro fez o mesmo com o Silas, tomando o horário da madrugada que esse último tinha na Band, Silas mudou o discurso e passou a chamar o então ‘aliado’ de ‘traíra’ (igualzinho àquela marca de cerveja ‘chorando as pitangas‘ quando Zeca Pagodinho resolveu fazer propaganda da concorrente).

Mas a ameaça maior não está na permuta de cristãos entre as igrejas, mas sim na descrença. É ela quem tem levado muitos ex-fiéis a processarem as igrejas para terem de volta as doações efetuadas (já são vários os pleitos neste sentido que têm obtido sucesso); é ela quem comprime o mercado, impedindo sua expansão.

Muitos portais tem divulgado pesquisas que indicariam o aumento do número de ateus. Apenas a existência de pessoas que não tem crença alguma já constitui uma séria ameaça ao ‘mercado da fé’ estabelecido por muitos líderes religiosos nesse país; o aumento no número dessas pessoas têm levado esses grupos a temer perder a maioridade numérica e o poder que dela advém.  Daí o motivo de tantos ataques ao ateísmo, com associação dessa postura ideológica a todos os males do mundo (‘quem não tem Deus no coração é capaz de tudo’).

A crença em outros deuses que não o cristão constitui outra ameaça: adeptos de religiões afro historicamente tem sofrido com o combo ‘racismo-intolerância religiosa‘, mas agora não é que essas pessoas resolveram se emponderar?  Não é que resolveram se unir para combater o racismo e a intolerância, resolveram se levantar contra a demonização de seus deuses e rituais? Em uma palavra: resistência.

Com isso e ações como Lei 10.639/2003, que obriga os estabelecimentos educacionais a ministrarem aulas sobre história e cultura brasileira e afro (dos quais as religiões de matriz afro são indissociáveis) pode levar as pessoas a vencerem seus preconceitos e adotarem essas religiões, se elas satisfizerem suas necessidades de ter religião. Por isso que cada dia mais se vê o recrudescimento da intolerância religiosa entre os evangélicos, que, incitados por pastores, têm efetuado ataques a templos religiosos de umbanda e candomblé (como fez o Marco Feliciano, nesse vídeo do ‘Seminário Internacional de Teologia’, onde ele ‘profetiza  o sepultamento dos pais-de-santo, a destruição dos terreiros de macumba‘ – se isso não é pregar o ódio religioso, eu não sei mais o que seria).

Também é isso que motiva projetos como o PL 202/2010, de autoria do vereador Laércio Trevisan, na cidade de Piracicaba-SP ou do PL 992/2011, de autoria do deputado estadual Feliciano Filho (São Paulo), cujo objetivo era proibir o sacrifício animal em rituais religiosos.

E a última ameaça fantasma seria a tentativa de reavivamento católico, com ações da ICAR visando atrair jovens para a Igreja, o que explica, por exemplo, a ânsia de Marco Feliciano em atacar os católicos naquele vídeo que todo mundo já deve ter visto. Veja: católicos acreditam no mesmo Deus-Jesus, assim, se a idéia geral fosse defender a bíblia, levar pessoas para a salvação (Jesus) auxiliando-as em participarem do ‘projeto divino’ de salvação, que sentido faria atacar a própria carne? Isso só faz sentido num contexto em que a idéia é defender o seu próprio projeto de poder, em detrimento do projeto divino tão propalado.

É exatamente para reverter esse quadro que constitui perigo à hegemonia cristã-evangélica que  surgiram ações em massa para: a) doutrinar as crianças desde pequenas, começando pela escola, b) aumentar a intolerância contra essas religiões não evangélicas.

Um dos partícipes da bancada evangélica é o deputado Hidekazu Takayama (PSC); é de autoria dele o Projeto de Lei 387/2005, que tencionava incluir a orientação religiosa à criança e adolescentes nos deveres da família, sociedade e Estado.

Quem quer privilégios?

Evangélicos intolerantes adoram dizer que ‘gays querem privilégios’, fazem isso para combater um grupo organizado que está lutando por direitos civis. Fazem isso porque não concordam com a homossexualidade  e porque querem se reservar ao direito de discriminar os grupos que antagonizam.

E não duvidem: se hoje estão fazendo isso contra esse grupo que, por sua organização e militância, tem conquistado espaço, farão o mesmo contra qualquer grupo. Quando as pessoas que professam a fé em religiões afro se organizaram para lutar contra a demonização dessa fé em programas de televisão mantidos por líderes evangélicos, eles atacaram esse grupo, sempre utilizando o mesmo argumento ‘estão querendo acabar com a MINHA liberdade religiosa e de expressão‘. Não deu certo: a rede que veiculou o programa foi obrigada a conceder direito de resposta.

Como tem se observado que grupos de defesa dos direitos da mulher tem se organizado, questionado a sociedade, as leis e ganhado espaço, apareceu o Senhor Marco Feliciano para falar que esses ‘direitos’ da mulher ameaçavam a família.

Ou seja: nenhum ataque é gratuito; nenhum é mera coincidência. Nada disso é por mero acaso. Quando esses senhores defendem a fé ou as posturas deles, alegam em favor de si as garantias constitucionais (liberdade religiosa e de expressão) e usam a lei (como fez o Marco Feliciano ao ordenar a prisão de um manifestante que o chamou de ‘racista’); mas quando outros grupos defendem seus direitos, eles acusam esses outros grupos de quererem privilégios.

 Se não for isso, como explicar que nem eu nem ninguém possamos fomentar a discriminação contra religiosos por conta da religião ou discriminar religiosos por conta dela (já que isso é conduta tipificada pela lei 7.716/89) e esses homens religiosos não querem permitir que a orientação sexual (qualquer ela) tenha tanta proteção quanto a fé? Onde está o privilégio se eles já são protegidos? Onde está o privilégio se o PL 122/06 protegerá qualquer orientação sexual, mesmo a heterossexual?

A resposta é simples: quem quer privilégio é esse grupo. São eles que querem poder utilizar o FGTS para construir  templos religiosos (PL 3044/2011); são eles que querem isentar as igrejas de pagar direitos autorais em apresentações teatrais e musicais organizadas por igrejas (PL 1550/2007); são eles que querem deixar de serem criminalizados por injúria e difamação quando emitirem suas opiniões (PL 6.314/2005); são eles que queriam criminalizar a heterofobia (Projeto de Lei 7382/2010), e somente ela (e ainda tem a cara-de-pau de dizer que isso seria um ‘contra-ponto‘ ao PL 122/2006; mentira lavada, já que dito PL também criminalizaria a heterofobia, se rla existisse); são eles que querem abrir as escolas para cultos religiosos (projeto de autoria de Messias Donato, do  PTdoB), exceto, é claro, para outras religiões que não as deles; são eles quem orientam alunos a deixarem de fazer trabalhos onde o tema é a cultura afro brasileira, demonizando-a  (nota: se o trabalho fosse sobre cultura grega eles incentivariam os alunos a fazerem o mesmo, alegarem que era contra a religião deles, por falar de outros deuses ou que incentiva a homossexualidade? Não, já que a ‘religião grega’ não constitui ameaça ao projeto deles).

 Quem quer privilégios mesmo?

 Enfim: todas essas ações não visam proteger a família, a sociedade, a bíblia, as crianças ou o que quer que seja. Elas são reflexos de um projeto de poder colocado em andamento. E esse projeto não visa o estabelecimento do ‘plano de deus para salvar o mundo’, mas sim o plano deles para instalar uma ditadura teocrática e eliminar toda e qualquer diversidade. Eu luto contra esse projeto e toda a gente (religiosa ou não) deveria fazer o mesmo.

Autora: Fátima Tardelli

Fatima Tardelli
  • Não precisa de tantos FATOS para definí-los: São Criminosos e em Países-Nações de verdade- ao contrário deste aqui- estariam na Cadeia, cumprindo Prisão Perpétua sem direito a Condicional.

  • Acho que o melhor texto que você já escreveu, Fátima. Sensacional.

  • Obrigado pela contribuição ao nosso acervo de refutações e tentativas de explicações sobre a gravidade disso. Muito obrigado!

  • o texto explica através da própria biblia que esses caras estão errados, tem vários trechos dela no texto, e é onde eu digo que a biblia é bacana, por ela até vale a pena se guiar, quem isso desejar, contudo os metidos a esperto conhecem-na bem e a usam através de uma interpretação restritiva voltada aos seus interesses pessoais, quais sejam, em suma, grana. Assim como o fazem magistrados antiéticos que interpretam a constituição restringindo sua abrangência, para aparentemente darem fundamento às suas decisões, como também o fazem advogados, que para ganharem seu troco e evitar a prisão de seu cliente torpe rico e bandido, se contorce pelos artigos até conseguir uma defesa do cliente… ei-nos aqui chegado ao cerne da questão : pra onde se desviou a perna ética dos profissionais do direito e demais ramos sociais? o que, na história, fez com isso se enaltecesse? será talvez a prática em excesso do positivismo puro de kant? será o capitalismo? o que será?

  • Sofia Rosenblatt

    Só não concordo com esse trecho:

    “Também é isso que motiva projetos como o PL 202/2010, de autoria do vereador Laércio Trevisan, na cidade de Piracicaba-SP ou do PL 992/2011, de autoria do deputado estadual Feliciano Filho (São Paulo), cujo objetivo era proibir o sacrifício animal em rituais religiosos.”

    Não entendi essa parte. A que se refere exatamente o pronome “isso”? A autora é adepta do ultra-relativismo ético e acha que não há nenhum problema em maltratar animais em nome da liberdade religiosa? É aceitável torturar animais (detalhe, a tortura e os maus tratos a animais já são proibidos pela própria CF e pela lei 9.605/98, não havendo necessidade de mais leis para vetar essa prática) só porque se pertence a uma religião minoritária? Espero que não seja isso e que eu tenha entendido mal, porque se for, então se trata apenas de substituir um extremismo por outro. Católicos e evangélicos não podem fazer o que quiserem em nome de suas crenças religiosas quando isso ferir direitos básicos tutelados pela Constituição da República, mas o mesmo deve valer para todos os religiosos, inclusive as religiões de matriz africana.

    • Sofia Rosenblat;

      Oi.

      O promome ‘isso’se refere à MOTIVAÇÃO dos projetos citados (PL 202/2010 e 992/2011), motivação essa que no meu entender é também por a intolerância religiosa.

      Quanto ao artigo 32 da Lei 9605/98, ela diz: ‘Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos’.

      Vamos às interpretações possíveis:

      a) Sob o ponto de vista do abolucionismo animal, posição ética que me faz ter respeito por quem o adota, qualquer tipo de uso ‘desnecessário’ de animais (como para a alimentação, por exemplo), eu até entendo que as pessoas manifestem o seu ‘desacordo’. Isso porque o desacordo dos vegans, por exemplo, é contra qualquer uso desse tipo, é essa posiçao ética que os faz não comer alimentos de origem animal.

      b) Sob o ponto de vista geral (e quando digo geral refiro-me ao aceito pela maioria da sociedade), matar animais para comer, por exemplo, não seria considerado ‘abuso’, não para os termos do artigo 32 da lei referida.

      Sacritífios animais em rituais religiosos existiram inclusive no judaísmo e, da mesma forma que no judaísmo, o sangue animal para os adeptos de algumas religiões afro é sagrado.

      O candomblé ou a umbanda, por exemplo, tem no sacrificio animal algo sagrado e não é feito com sofrimento animal (aliás, os cuidados com os animais são muito maiores, por exemplo, do que os ofertados nos abatedouros, já que o animal será ofertado para um deus do panteão deles) e é feito em raríssimos casos (a maior parte das oferendas é feita com pratos feitos com feijões, milho, amido de milho, inhame e etc) e quando feito, somente o sangue e as penas são utilizadas para a oferta (a carne geralmente é limpa e consumida pela comunidade) e com o máximo cuidado para que o animal não sofra (aliás, quando o animal expressa sofrimento ou dor, eles entendem que ocorreu algo chamado ‘quizila’ (pois o sofrimentod o animal causaria um desgosto do deus para quem foi ofertado).

      Atualmente a maioria dos adeptos dessas religiões têm abandonado a prática até mesmo nos casos raros, optando-se por oferendas feitas de vegetais; tenho muitos amigos que frequentam religiões de matriz afro, que constantemente reclamam do que chamam de ‘curiosos’, que aprendem (segundo eles) ‘mal e porcamente’ as doutrinas e saem por aí ‘fazendo bobagens’. Reclamam, p.ex, das destruições das matas (com velas acendidas em lugares impróprios), pois isso ofende a dois deuses* do panteão (Oxoce e Ossaim), que moram e protegem as matas; reclamam do ato de ‘sujar o mar’, pq isso ofende a uma deusa do panteão (Iemanjá); reclamam da destruição de cachoeiras pq ofende a deusas da água doce (Oxum)….e por aí vai.

      O asterisco que coloquei no ‘deuses’decorre do fato de que o conceito de deus não se ajusta completamente a essas religiões, já que os ‘deuses’ seriam forças da natureza.

      Enfim, para o Direito, considerado o contexto social e o contexto litúrgico dessas religiões (que não abusam dos animais, imprimindo sofrimentos desnecessários no abate), os sacrifícios em templos não constitui ofensa à norma do artigo 32 da lei citada.

      Infelizmente a desinformação causa muito preconceito e os adeptos dessas religiões são considerados como pessoas cruéis, primitivas, ignorantes e sem piedade, quando isso não é verdade.

  • AntonioOrlando

    Oi Fátima

    Acho que o seu texto erra ao generalizar. Falar em cristãos evangélicos
    no Brasil, hoje em dia, é como navegar em águas turbulentas.
    Crente, evangélico etc,. são termos, hoje em dia,
    esvaziados de seu sentido histórico e, em função de mudanças
    doutrinárias no seio do cristianismo evangélico [dentre muitas
    outras coisas, questionamento/critica ao neopentecostalismo
    evangélico brasileiro] definições uniformes do que seja ser
    evangélico são, totalmente, anacrônicas.

    Eu como “cristão evangélico” concordo em grande parte com o
    que você diz. E não só eu, setores mais centrados do mundo
    evangélico brasileiro desautorizam as atitudes de caras como
    Bolsanaro, Feliciano, Mafalafaia, igrejas Mundial, Universal e
    Renascer, televangelismo etc. E, sobretudo, não se sentem
    representados pela bancada “evangélica” em Brasília. Este
    ano, a revista evangélica Cristianismo fez duras criticas a todos os
    acima citados. Inclusive, não os considerando cristãos
    evangélicos.

    Defendo, como cristão evangélico, um Estado laico. O cristianismo não está
    na forma e sim no conteúdo. E, sobretudo, no entendimento/vivência
    do significado do signo da Cruz.

    Abs.

    • Felipe ferreira lins

      Ver comentários como o seu me da um pouco de esperança.

    • Antonio Orlando. Oi. O texto critica esses líderes intolerantes e incita os evangélicos e cristãos a não os apoiarem. Não houve uma generalização onde todos os cristãos/evangélicos são chamados de iguais a esses intolerantes.

  • Ótimo texto, padrão Bule Voador de qualidade 🙂

  • Walter Cruz

    Fátima, que texto sensacional. Vejo que você conhece com um certo nível de profundidade o que ensina o cristianismo, e vc acertou em cheio. Eu já fui cristão, e hoje eu ainda conservo ou tento conservar alguma fé, embora não vá a igreja e mal veja necessidade disso. Eu ia até escrever um textos mais ou menos nos moldes do seu, mas saiu muito mais simples e menos profundo, portanto, vou engavetá-lo. Mas dos pontos que eu ia escrever, vc disse o essencial e eu gostaria de colocar o seguinte: segundo o que eu entendo do cristianismo, o sucesso do cristianismo está em sua derrota. A porta é estreita. Jesus nem mesmo tem esse proselitismo típico dos evangélicos, e em diversos pontos dos evangelhos, quando alguém se propõe a segui-lo, ele propõe tantas dificuldades e um nível tão absurdo de entrega ao projeto de vida que a maioria acaba por desistir.

    Ainda segundo penso, o projeto de Jesus não passa pela política, ou melhor, ele não considera que nenhuma forma política de manipulação é capaz de gerar as verdades do evangelho (ainda que possa gerar a prática externa de um comportamento moralista que segundo alguns passa por cristianismo. Quando vejo todo esse rebuliço dos que se dizem cristãos em torno do assunto, me remeto imediatamente à tentação de Cristo, onde mostrando os reinos do mundo a Jesus, o diabo diz: ‘tudo isso te darei se você me adorar’, e vejo como os que se dizem seguidores de Jesus caem muito fácil nessa tentação: obter os resultados que esperam não por meio da força da abnegação e do amor, mas sim por meio de trocas e de barganhas, e no meu entender, sempre que operamos nesse nível de troca de favores, mesmo que por um lado se tenha os reinos do mundo oferecidos a nós, ainda ter-se-á caído no engodo do diabo.

    Tão diferente seria se os cristãos se dispusessem a viver em serviço, se dispusessem a facilitar a vida dos outros… mas não.

    Enfim, excelente texto. Conhece a obra de Jacques Elull? Ele trata muito bem dessa questão de cristianismo e política, de repente seria uma boa você dar uma procurada. Ah, essa visão de mundo de que os cristãos vão impor o reino de Deus na terra tem um nome lá fora, Dominionismo. Tem ainda uma variante pior, que seria o tal do Kingdom Now. São boas palavras chave para você procurar também. Me parece que tal mudança e distorção total dos ensinos de Jesus seria também um fruto bastardo do evangelho da prosperidade. Se o sinal de bençãos de Deus sobre nossa vida é o financeiro, o céu é aqui, e se o céu não vem a nós, tomaremos o mundo a força. Essa parece ser a base desse jeito bastardo de ver o mundo.

    Obrigado pelo texto e desculpe o comentário quilométrico.

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  • oswaldo

    Há aspetos interessantes no texto, o maior deles está na referência ao livro do Dalmo Dallari, que o Lula seguiu, ensinou à Dilma e todo petista tem praticado com êxito absoluto, tomando tudo que for possível, dos outros, para viverem em plena felicidade. – O Dalmo Dallari, o PT e a autora estão certos,-os outros não.!!!

  • Eduardo NP

    Excelente texto. A muito tempo não lia um texto tão longo com interesse. E olha que só fui pesquisar sobre a expressão sobre algo de pode no reino da Dinamarca… Parabéns.

  • Cícero

    Oras, mas qual a novidade? já estava profetizado a ocorrência dos falsos mestres. Jesus disse q nem todos q dizem, Senhor Senhor, entrariam no céu.
    Querem um exemplo verdadeiro de homem de Deus? usado poderosamente por Jesus hoje? pesquisem: TB JOSHUA.