Bule Voador

O verdadeiro escândalo trans não é a falha de um doutor, mas a crueldade de muitos

Indignação por conta dos ataques a Richard Curtis levou à criação da hashtag #TransDocFail no Twitter, que uniu a comunidade trans.

Dr. Richard Curts está sendo investigado pelo Conselho Geral de Medicina (GMC).

 Seu médico já riu da sua cara durante uma consulta? Negou que seu problema existisse? Ou simplesmente disse que você era feio demais para merecer tratamento?

Ultrajante? Sim, mas também praticamente parte do percurso se você for trans. Você deve se preparar para um universo de abusos e humilhações ao encarar até a mais simples das interações com a profissão médica, relacionadas ou não a você ser trans. Quanto a fazer uma reclamação, poucos arriscam: a maioria é coagida ao silêncio, por conta da ameça implícita de que causar conflito pode fazer com que cancelem o tratamento do qual necessitam desesperadamente.

É claro que nada disso é novo. Sempre que houver um desequilíbrio de poder entre pacientes e profissionais que controlam o acesso aos recursos, há o risco de se criar uma relação insalubre. Do paternalismo benigno ao assédio moral e o desprezo explícitos, o padrão se repete a cada nova desigualdade – com mulheres, pessoas com deficiências e doentes mentais normalmente no lado oprimido.

Agora, porém, uma explosão totalmente imprevista de tweets indignados – vários milhares nas últimas 48 horas – podem ter rompido o silêncio em cima dessa questão de uma vez por todas. A história começou, sem muitas promessas, com um artigo do Guardian revelando que o doutor Richard Curtis, um dos poucos médicos que prestavam apoio a redesignações de gênero fora do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra (NHS), estava sendo investigado pelo Conselho Geral de Medicina (GMC) a respeito de uma série de reclamações feitas sobre sua prática. Isso tocou em um nervo sensível, de diversas maneiras. Como Curtis oferece atendimento particular, seus serviços não estão ao alcance de todo mundo, bem como ele não pode oferecer todo o apoio providenciado pela NHS. Porém, por ser a principal – e provalvemente a única – alternativa na cidade, sua prática contínua oferece uma perspectiva diferente do percurso pela NHS, que é largamente tido como lento, controlador e indiferente.

Com novas estruturas de comissionamento prestes a se materializar, intensifica-se o medo de que a totalidade dos recursos para pessoas trans está prestes a ser forçada em uma camisa de força de tamanho único. Nessas circunstâncias, “a escolha do paciente” geraria nada além de pura risada.

A indignação trans se focou em dois aspectos da história: o fato de que Curtis, um indivíduo que mesmo com suas falhas é extensamente reconhecido como um herói da comunidade, pode estar sendo alvo de ataque do establishment da medicina; e o fato de que, com tanto abuso médico contra o povo trans sendo cometido diariamente, a pauta dos jornais pode mais uma vez retratar essa história por um ângulo prejudicial.

Em alguns dias, essa indignação se tornou algo bem extradiordinário, quase inteiramente por conta dos esforços genuínos de duas ativistas LGBT: Zoe O’Connell e a vereadora pela Lib Dem*, Sarah Brown. O rompante de inspiração de Brown foi lançar a hashtag #TransDocFail no twitter, pedindo para pacientes trans relatarem suas experiências (não apenas com especialistas em procedimentos relacionados a gênero, mas também o tratamento que recebem de profissionais da medicina em geral). Alguns milhares de tweets depois, ninguém pode mais ficar sob a ilusão de que o maior problema da comunidade trans do Reino Unido é com um especialista renegado, em vez da transfobia institucional presente no Serviço Nacional de Saúde (NHS), no Conselho Geral de Medicina (GMC) e também entre clínicos gerais (GPs **).

Enquanto isso, uma seleção de apenas alguns desses tweet reunidos por O’Connell ilustra o problema em termos claros: de negações de tratamento até abusos explícitos, há uma grandeza apavorante nessa acumulação de crueldades. Alguns dos tweets podem fazer você rir. A maior parte deles – a grosseria, a rejeição, a sabotagem clara – são causa de lágrimas. Aqui estão alguns exemplos:

Æðelþryð @ethulhu
Recusa clara e direta de se referir a mim pelo meu nome correto, coisa que psiquiatras que não eram da GIC [Clínica de Identidade de Gênero] faziam sem nenhum drama.
9 Jan 13

Cheryl Morgan @CherylMorgan
GP [clínico geral] se recusou a confirmar que eu fiz a cirurgia para que eu conseguisse um GRC [Certificado de Reconhecimento de Gênero]. Eu tinha meus documentos do hospital e, você sabe, uma vagina…
8 Jan 13

Liam @AutistLiam
Psiquiatra do NHS me disse que eu queria transicionar para homem porque eu era feio demais para viver como uma mulher. Também me disse que eu nunca conseguiria ser reconhecido como um homem
8 Jan 13

Jules LoVecchio @Diran_Sky
RT fui mandada embora da recepção de ginecologista que gritava sobre ‘aquela coisa’ e ‘ela tem uma vagina?’ – eu precisava remover um granuloma externo  8 Jan 13

Emma Brownbill @embrownbill
3 anos depois de explicar o quão perigoso (e ilegal) é fazer isso, meu médico pessoa ainda faz prescrições de HRT [Terapia de Reposição de Hormônios] para “Sr. Emma Brownbill” 
8 Jan 13

A mobilização enorme acionada pela popularidade da hashtag foi a catalizadora de iniciativas novas e possivelmente marcantes para a comunidade trans do Reino Unido. Ativistas mais experientes comentaram que nunca haviam visto a comunidade tão unida em volta de uma causa comum. Há um sentimento à solta de que as coisas precisam mudar agora, e enquanto um tweet furioso não é um fim em si mesmo, há um senso de que o mundo todo precisa finalmente sentar e ouvir. Um sinal de progresso hoje mesmo foi o próprio GMC de olho na linha do tempo da hashtag #TransDocFail e encorajando pessoas trans a encaminhar reclamações a respeito de profissionais da medicina.

Agora, com certeza, até aqueles com pouca ou nenhuma experiência direta com questões trans devem ter consciência de que o problema real não é toda a quimera de arrependimentos tão perseguida por tablóides, mas a dose diária de desrespeitos banais perpetrados diariamente por médicos nos quatro cantos desse país. Com certeza devem. Não devem?
, 10 de janeiro de 2013
Fonte: The Guardian

* Sarah Brown é uma “councillor” (na cidade de Cambridge), que é uma posição municipal eleita pelo povo na Inglaterra e que lembra a de vereador no Brasil. Ela também escreveu um texto excelente sobre o assunto, em tom de denúncia, com o título “É hora da mídia mudar seu discurso sobre serviços de saúde para trans“.
** GPs são médicos designados pra atender todas as famílias de uma área, que seria como  médicos de família e comunidade aqui no Brasil, e tecnicamente funcionam com clínicos gerais.

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[Nota do tradutor:]  Por conta do último parágrafo desse artigo, na parte em que fala sobre o problema dos “arrependimentos tão perseguidos por tablóides”, resolvi traduzir um trecho do texto “Trans erasure in the news” (“Apagamento trans nos noticiários”), sobre o mito do arrependimento em volta das cirurgias de redesignação:

“Frequentemente, aqueles que não conseguem se imaginar fazendo uma cirurgia de redesignação de gênero pressupõem que as pessoas que fazem provavelmente irão se arrepender dos resustados. Isso é quase sempre acompanhado pela presunção de que essas pessoas foram coagidas a fazerem procedimentos médicos por psiquiatras malignos, o que ignora a origem bem-documentada de pedidos de terapia por transexuais, que vieram lá de trás batalhando constantemente com a profissão psiquiátrica para que a autenticidade de sua condição fosse reconhecida. Por muitos anos a mídia procurou por esses arrependidos imaginários. O punhado que consigaram achar entre dezenas de milhares que passaram por esse tipo de cirurgia foram transformados invariavelmente em manchetes de primeira página e os mesmos poucos indivíduos ainda aparecem. Nada podia estar mais longe da verdade. Estudos revelam que números tão altos quanto 98% não expressam nenhum arrependimento e que, no caso de quem expressa, se tratam de resultados cirúrgicos deficientes em vez de desejo em destransicionar. Para qualquer outro procedimento médico isso seria uma margem de sucesso assombrosa.”

Pesquisas recentes pelo próprio NHS (Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido) repetem a margem de sucesso desse estudo, como explica o artigo “The NHS consults“: “98% dos pacientes (de 647 respostas) estão felizes com os resultados, apesar de 49% achar que os serviços nas clínicas de identidade de gênero poderiam melhorar“.

Guilherme Balan
  • Gabriel Rodrigues

    La vem o Guilherme Balan com sua mania de categorizar toda luta por igualdade de gêneros dentro do grupo feminismo…

    • Hahahaha! Lá vem o Guilherme Balan falar a verdade, né?!
      Insistir em tentar difamar feminismo é desonestidade intelectual.

      Muito bom Guilherme. Só tá faltando uma boa revisão, tem um parágrafo em inglês ali.

  • eltonBorges

    Estudos assim são mais fáceis em países como a Grã-Bretanha, se bem que nem sei bem se Grã-Bretanha é um país ou não. E caramba, bela informação! Acredito que seria válido tentar colher algumas informações de pacientes nas mesmas situações, mas por aqui. Só não seria fácil.

  • Washington Ferreira

    Tudo bem que não tem muito a ver com a postagem, mas há certos feminismos que promovem a misandria e a elevação dos interesses femininos (ou feministas) acima dos interesses dos homens. É inocência afirmar que o feminismo defende a igualdade quando há feministas que eram homofóbicas e transfóbicas. Inclusive, li um livro da década de 1990 do dr. Ronaldo Pamplona da Costa em que ele criticava a insistência de algumas feministas e militantes gays de criticarem travestis e/ou transexuais, por acreditarem que elas reforçavam o modelo heterossexual de relacionamento (em que elas assumiam o papel de mulheres). Claro, muita coisa mudou de lá para cá, mas é um registro de que qualquer pessoa pode ser preconceituosa.

    Estou do lado das feministas que defendem a igualdade entre mulheres e homens. Já aquelas que querem privilégios para as mulheres; passo longe. Acho extremamente injusto termos idade de aposentadoria diferenciada para homens e mulheres. Por que isso? E não venham com o papo de dupla jornada. Elas sempre partem do princípio de que todo modelo de família é constituído pelo modelo clássico de pai, mãe e filhos. Homens solteiros também têm dupla jornada, assim como casais formados por dois homens ou pais solteiros ou viúvos. Aliás, também acho injusta quando cria-se formas de privilegiar as mulheres, como a guarda dos filhos.

    • Pois é, Washignton,

      Como praticamente todo movimento, o feminismo foi se redefinindo ao poucos, e ainda tem dentro dele algumas idéias que circulam desde lá de trás que distorcem seus ideiais de desigualdade. É bom lembrar que existem idéias antigas que até acabam por diminuir a própria mulher, como a luta contra a prostituição, ou a defesa sobre ideias femininos, ou também sobre como a mulher deve parir. Inclusive a causa trans, assunto desse post, é um assunto bastante novo principalmente no Brasil, e que eu espero que tenha chegado de vez e que contagie todo o movimento :). Infelizmente não vamos ter unanimidade em vários assuntos por um bom tempo, o processo é lento, mas no final se compensa.

      um abraço!

    • Nelson Góes

      Pois é amigo, também acho um absurdo elas terem o privilégio de menstruar uma vez por mês, o privilégio de passar nove meses tendo alterações estúpidas na sua fisiologia, como que parasitada pela sua própria prole ou ainda pior, o privilégio de fazer xixi sentadas, enquanto nós, pobres homens temos que fazer em pé.
      Igualdade de direitos não significa dar a mesma coisa para cada um sem levar em conta as suas particularidades. A aposentadoria diferenciada da mulher tem estreita relação com a capacidade que ela tem de perpetuar a nossa espécie e o custo dessa operação no seu organismo, nunca vi nada associando a aposentadoria da mulher a dupla jornada.

      E sobre a guarda da criança, a lei não privilegia a mulher, mas o menor.

  • Gabriel,

    Primeiro, se a definição de feminismo não é igualdade de gêneros, você precisa avisar a Wikipedia, os dicionários e várias faculdades (se você disser que é tudo um plano conspiratório eu vou rir de você, hein? rs).

    Daí, legal seus links, e é uma pena você não ter lido eles muito bem, porque veria que eles provam praticamente o contrário do que você está falando.

    Seu link sobre a mulher negra que não se sentiu representada no feminismo fala sobre as políticas dentro do movimento que ela conhece lá nos EUA. Ela inclusive diz no último parágrafo (recomendo) que pretende ainda lutar por direitos das mulheres, só que sem o rótulo ‘feminismo’. Minhas perguntas: você conhece o movimento feminista brasileiro pra saber se as mulheres negras daqui não estão sendo representados por ele? E se não, você também acha que o Brasil tem um histórico de luta pelos direitos das mulheres negras *fora* do feminismo, como a autora diz que é realidade nos EUA? Porque pra mim, se esse fosse o caso, o lobby devia ser dentro do movimento pra mudar o direcionamento dele, não fora E contra o feminismo – que tal?

    Ela também diz que o movimento quer agregar mulheres únicas e dar um rótulo em comum pra elas pra unificar a luta, e que isso é errado. Você sabe se isso é realidade no Brasil? Você sente que trans e lésbicas não têm espaço no movimento pra suas causas únicas – já falou com alguma, por ex? E eu, você acha que não tem espaço pra mim no movimento?

    Isso me leva a seus dois últimos links (ignorando seu julgamento de valor bizarro aí, querendo definir que amizades feministas gostam e por quê). A mulher que mandou os homens saírem da sala foi bastante criticada, você viu por quem? Por *feministas*, duh, inclusive as que estavam na sala. Ela aplicou um radicalismo bobo, pegou todo mundo de surpresa, falhou em provar que fazia sentido aquele ser um espaço só pra mulheres – como existem casos em que isso é uma atitude certíssima, por milhões de motivos, e principalmente se for combinado previamente; a mulher só errou ao aplicar naquele momento. E o segundo link, uma pena você não ter prestado a atenção, porque ela dá boas lições sobre o que é feminismo enquanto explica como muitos homens falham em entender que certas posturas são erradas se você pretende lutar por igualdade de gêneros. O post é muito claro: se você quer dizer que está contra a opressão, você tem que abandoná-las, e pelo menos ouvir quando colegas de luta te dão um toque sobre você estar vacilando. Não dói, serião, vale a pena, e o texto é justamente sobre isso ser possível: homens feministas pra valer.

    Então, que pena que você não leu os links que você me enviou. Recomendo, e também esses outros dois. Um é sobre um homem que parou de ser masculinista, pra você comparar com a frustração da mulher do seu link e ver se faz sentido dizer que, como historicamente o feminismo fez isso aquilo, ele é inválido (que não é nem o que a autora acha). O outro é sobre um homem que parou de se proclamar cético, que é uma coisa que imagino que eu e você somos, pra você pegar uma idéia do que significa rejeitar um movimento sem rejeitar suas idéias, igual o que a New Black Woman fez:

    http://weekwoman.wordpress.com/2012/08/03/seeing-the-feminist-light-an-ex-mra-tells-his-story/

    http://plover.net/~bonds/nolongeraskeptic.html – o Alexandre do Bule traduzi esse, dá pra ver por aqui (role a barra pra baixo): http://www.bulevoador.com.br/category/bule-voador/arquivo-editores/alexandre-marcati/

    um abraço e boa sorte!

  • Nível altíssimo de auto engano por aqui. Se Rebecca Watson não merece, que ateia merece?

    • Não sei qual ateia merece, mas talvez algum outro ateu mereça, não? Acho que foi isso que ele quis dizer.