Bule Voador

O Fracasso Fundamental da Premissa da Psicologia Evolutiva

[Nota do editor: a publicação dessa tradução não significa que o Bule Voador se posiciona a favor da opinião de PZ Myers sobre psicologia evolutiva, e inclusive o texto aguarda uma refutação de um dos membros da nossa diretoria]

Esta é outra adição à minha séria sobre psicologia evolutiva. Aqui está o primeiro, e infelizmente há muitos mais por vir.

Eu tenho um verdadeiro problema com a psicologia evolutiva, e vai direto à raiz da disciplina: ela é construída sobre uma fundação falha. Ela depende de um entendimento ingênuo e simplista de como a evolução funciona (um desentendimento básico que me lembra de outra disciplina hoje morta, sobre a qual falarei depois) – apesar disso, ela atrai muita gente, porque esse desentendimento alinha-se bem com a versão caricatural da evolução na cabeça da maior parte das pessoas, e isso também significa que toda vez que você critica a psicologia evolutiva, aparece um bando de defensores ignorantes que presumem que você esteja atacando a evolução em si.

O desentendimento é o adaptacionismo.

Em uma tentativa desesperada de prevenir a turba que me acusará imediatamente de criacionismo e de negar a seleção natural, isso não quer dizer que eu ache que a seleção seja desimportante ou não essencial. Não quer dizer que eu ache que outros modos de evolução sejam mais importantes. Quer dizer que há uma grande coleção de mecanismos que, todos, têm um papel significativo na evolução, e que você não pode simplesmente fingir que só um é o que importa. Não apreciar a importância desses outros mecanismos é um pouco como ser um eletricista que acha que voltagem é tudo o que importa, e que resistência e corrente podem ser ignoradas.

Particularmente, a deriva genética aleatória, a variação em uma população causada por erro de amostragem, é bem mais significativa do que a maioria das pessoas (inclusive psicólogos evolucionistas) presumem. A maior parte da variação fenotípica óbvia que vemos nas pessoas, por exemplo, não é produto de seleção: seu nariz não tem o formato que tem, que é diferente do meu nariz, que é diferente do nariz do Barack Obama, que é diferente do nariz do George Takei, porque descendemos independentemente de populações que tinham diferentes padrões de seleção natural e sexual para o formato do nariz; não, o que estamos vendo são variações casuais amplificadas em frequência pela deriva em diferentes populações.

Por que? Porque a seleção é cega para pequenas diferenças. O acaso domina, a menos que o coeficiente de seleção seja relativamente alto.

Deixe-me explicar com uma analogia a um cassino de apostas. Se você entender um pouquinho de matemática, você sabe que cassinos são um grande roubo, grandes e brilhantes aspiradores de pó projetados para chupar todo o dinheiro dos bolsos de sua clientela (se você não sabe disso, pare agora, vá ler um livro de matemática e estatística até entender o que está acontecendo). Vou presumir que você entende isso, e que você também entende que, como a seleção, isso é a consequência do poder de pequenas vantagens amplificadas pela repetição. A casa tem uma pequena vantagem (OK, estou mentindo um pouco aqui: a vantagem da casa é tipicamente entre 5 e 20%, dependendo do jogo), mas todo apostador, toda vez que joga o jogo, está encarando a probabilidade de contribuir para os lucros da casa.

E a conta fecha. De vez em quando alguém tem sorte e ganha, mas quanto mais ele joga, maior a chance das probabilidades o alcançarem, e eventualmente, inevitavelmente, ele vai se dar mal, e a casa vai ganhar. Essa é uma consequência estatística poderosa, e a maioria das pessoas entendem também que é assim que a evolução pode funcionar: pequenas diferenças repetidas geração após geração podem eventualmente resultar em extinção (se for uma desvantagem) ou fixação (a diferença se espalha até chegar a ser expressada em 100% da população, se vantajosa).

Mas não é o suficiente. Imagine, por exemplo, que você descobre um furo em um jogo de cassino, e ele é suficiente pra desviar as chances a seu favor. Digamos que você tenha identificado um conjunto de circunstâncias em que uma roleta resulta em vermelho 51% das vezes, dando a você uma vantagem de 1% se você apostar no vermelho quando essas circunstâncias forem favoráveis. Você tem um sistema, e vamos fingir que ele realmente funciona, ao contrário da maioria dos sistemas de apostadores.

Então, equipado com sua impressão favorável do poder da seleção e sua vantagem de 1% nas apostas, você vai até o cassino local e compra uma ficha de $1, convencido de que você pode gradualmente transforma-la em $10 milhões, apenas jogando pacientemente.

Acho que você entende a falha logo de cara. Você vai perder seu investimento de $1 na primeira rodada da roleta em 49% das vezes. Mesmo que você acumule uma pequena pilha de fichas, você pode perder tudo em uma curta onda de azar. Uma vantagem seletiva não representa triunfo inevitável.

De maneira similar, uma desvantagem seletiva não representa uma derrota inevitável. Pessoas ainda ocasionalmente, muito raramente, tem um resultado positivo depois de uma noite jogando na roleta, apesar da robusta vantagem da casa trabalhando contra elas.

Então como você pode vencer com sua vantagem? Apostadores sabem essa: você tem que entrar com uma aposta substancial. Apareça com um milhão de dólares que você distribui em apostas de $10 a noite toda, para que você tenha uma área de amortecimento para lidar com os caprichos inevitáveis do acaso, e as chances serão grandes de que você vá para casa com $1.010.000. (Bem, ou os gerentes do cassino vão perceber seus peculiares hábitos de aposta e vão joga-lo para fora – eles são bem zelosos quanto a proteger a própria vantagem).

Há uma lição importante aí. Como esse é um mecanismo baseado no acaso, você precisa tanto de uma vantagem seletiva quando de um número suficiente de tentativas para que a vantagem funcione. Poucas tentativas: o acaso domina. Muitas tentativas: a seleção comanda.

Em uma população de indivíduos, temos um termo para o número de tentativas: chama-se o tamanho efetivo da população, ou Ne. Lembre-se, na evolução nos importamos com populações, não indivíduos, então a variável de interesse não é quantas vezes um indivíduo roda a roleta, mas quantos membros da população descendem nesse dispositivo. Antes de analisarmos a efetividade da seleção para um traço com um coeficiente de seleção s, também precisamos saber o tamanho da população.

Uma boa regra é que para a seleção ser eficiente,

|s| >> 1/Ne

O que isso significa é que a seleção funciona melhor em grandes populações, enquanto o acaso domina em pequenas populações – você precisa de um s bem grande para fazer a vantagem seletiva sobressair-se acima do ruído gerado pela variação casual.

O que isso também significa é que em qualquer população vai haver uma gama de variação que é efetivamente invisível para a seleção, uma gama que será bem estreita em uma imensa população de bactérias, mas que será relativamente larga em pequenas populações… como, por exemplo, uma população de grandes primatas do Pleistoceno que respiram lentamente.

Novamente, isso não significa que a seleção não se aplicava a nossos ancestrais Paleolíticos. Nascer com um problema cardíaco hereditário significava que você sofria uma forte seleção negativa, e esse traço seria gradualmente eliminado da população; nascer com testículos que produzem esperma volumoso e robusto, ou ter um sistema imunológico que o torna mais resistente a um vírus comum, ainda daria a sua linhagem uma vantagem. Mas tenha em mente que até o alelo mais maravilhosamente vantajoso que surgiu por uma mutação de novo* em você tem uma boa chance de ser perdida pela segregação meiótica (1 sobre 2 elevado ao número de filhos que você tiver, para ser mais preciso), e mesmo que seus filhos herdem esse traço, há uma probabilidade significativa de que um de uma multidão de outros fatores que constrangem a sobrevivência e a reprodução possam trabalhar contra ele.

Repito: Uma vantagem seletiva não representa triunfo inevitável. Uma desvantagem seletiva não representa derrota inevitável. O acaso é um elemento importante para o jogo da sobrevivência.

Aqui vai um exemplo específico: daltonismo. Não ser capaz de discriminar diferenças em uma gama específica de comprimentos de onda é uma desvantagem – provavelmente uma muito pequena, mas está claro que ter visão tricromática chegou até quase-fixação nos macacos do velho mundo e primatas consideravelmente rápido, e de maneira consideravelmente completa… e não te-la é um passo para trás. Então por que a seleção natural não a rejeitou de nossas populações? Isso não é uma inovação recente que não teve tempo de ser corrigida; a tricromia surgiu em algum momento depois da divisão entre macacos do velho e do novo mundo, 30 a 40 milhões de anos atrás. É ligada ao cromossomo X nesses outros primatas, também. Esse alelo defeituoso não deveria ter sumido faz tempo dos primatas?

Não, e há uma explicação simples: daltonismo é um defeito que está abaixo do limiar para que uma forte pressão seletiva trabalhe contra (todos vocês, leitores daltônicos, podem dar um suspiro de alívio – a natureza não virá executá-los).

E se o daltonismo é invisível para a seleção, serei bem cético quando um psicólogo evolucionista tentar me dizer que o gosto de uma menininha por cores rosadas é ou foi uma adaptação funcional: o produto de 100.000 anos de seleção natural. Não é impossível que preferência por rosa possa conferir um benefício, mas a ideia de que uma preferência por rosa tenha sido tão fortemente selecionada para que possamos inferir que ela deve ter tido uma vantagem seletiva é tão improvável que pode ser descartada como totalmente de araque, na ausência de evidência excepcionalmente forte para uma circunstância tão improvável. Além disso, mesmo que uma preferência por rosa existisse como um traço herdável (o que eu duvido), a explicação mais provável para sua presença em uma população seria deriva, não seleção.

Me foi assegurado que esse é um sumário decente da psicologia evolutiva por uma fonte confiável. Se você entendeu o que eu disse acima, você imediatamente vai ver o problema.

*** A psicologia evolutiva é legítima?

A fundação da abordagem é muito difícil de se discordar. Diga-me qual você acredita ser a alternativa incorreta:

1. Órgãos são adaptações funcionais complexas, resultantes de um processo de seleção

2. O cérebro é um órgão

3. Portanto, podemos entende-lo em termos do passado, assim como fazemos para qualquer parte do corpo em humanos e em todas as outras formas de vida na Terra (note que entender a história de uma característica não é o mesmo que dizer que qualquer traço observável seja ou tenha sido adaptativo. Hemoglobinas não são vermelhas porque a vermelhidão foi selecionada. A hemoglobina é simplesmente um bom transportador de oxigênio, e aconteceu de ser vermelha. Ainda precisamos entender isso tudo para explicar a vermelhidão.)

A fundação da abordagem é muito fácil de discordar se você tem qualquer entendimento da genética de populações modernas. É reduzida a pó na primeiríssima premissa.

Para começar, vamos ignorar esse quantificador “complexo”. É irrelevante e muitas vezes não é verdadeiro; funções simples podem também ser produto de seleção (ou deriva!). Meu próximo post dessa série lidará com todo sensacionalismo sobre complexidade, que é algo que notei no passado como sendo uma das principais palavras de efeito de criacionistas do Design Inteligente… e complexidade normalmente não é um produto da seleção, mas principalmente do acaso. Eles a usam para fazer argumentos parecerem científicos quando não o são. Psicólogos evolucionistas gostam de jogar no meio, por alguma razão.

Mas aquela primeira afirmação precisa ser revisada para que se encaixe na realidade. Que tal…

Algumas características de órgãos são adaptações funcionais, resultado de processos seletivos. Outras não.

Agora você pode ver que o primeiro problema que os psicólogos evolucionistas tem que confrontar é se uma característica que estão examinando é de fato uma adaptação funcional; eles podem simplesmente presumir que seja, como frequentemente o fazem, e então prosseguem contentes no seu caminho, construindo hipóteses para explicar uma afirmação que eles ainda não estabeleceram como verdadeira.

Espere, risque isso. Na verdade, a primeira coisa que eles tem que fazer é mostrar que a característica que estão examinando é um produto direto de uma variante genética pra começo de conversa, e que exibe algum padrão de hereditariedade. Frequentemente pulam essa etapa também.

Agora, isso não é dizer que absolutamente todo pesquisador e artigo sobre psicologia evolutiva seja uma porcaria. Já li alguns que eram decentes (e recentemente as pessoas me mandaram mais alguns), mas notei algo interessante: quando mais longe o artigo vai da parte de “psicologia”, quanto mais olha para variações mais gerais em populações, melhor ele é em focar a discussão em traços que de fato exibem padrões de hereditariedade demonstráveis, e quanto mais se afastam dessa bobagem do Pleistoceno, mais força tem. O melhor do trabalho é sobre genética quantitativa e etologia comparativa; quanto mais ele se encaixa sob esse título da hipótese do Pleistoceno, e pior, o AAE (Ambiente de Adaptabilidade Evolutiva) e esse tipo de porcaria terrivelmente centrada no ser humano, o mais longe eu quero jogar o artigo. Nem me fale dos artigos que atribuem profunda significatividade evolutiva aos resultados de pesquisas feitas em aulas de introdução a Psicologia; esses deviam ser mijados longamente.

Com muita frequência, quando vejo esses péssimos artigos de psicologia humana, penso em uma  comparação com meu animal de pesquisa preferido, o peixe-zebra. Os peixes-zebra são ótimos como um sistema modelo para estudar mecanismos de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que são abismalmente deficientes para estudar processos evolutivos. Porém, eu imagino que sua evolução possa de fato ser estudada, com muito trabalho duro observando populações nativas e espécies com parentesco próximo. O mesmo com pessoas: são espécimes trágicos para se estudar a evolução do comportamento, apesar de você talvez conseguir faze-lo com uma pesquisa de escala e profundidade grandes o suficiente. A psicologia evolutiva é uma hipótese que tenta atropelar os requerimentos para uma boa pesquisa de biologia evolutiva.

A única salvação para esse campo de pesquisa é se afastar das bobagens que citei acima.

 Texto de PZ Myers

Fonte: Pharyngula (Science Blogs)
Tradução: Alê GM

*Uma nova mutação que não foi herdada de nenhum dos pais é chamada de mutação de novo. – Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Muta%C3%A7%C3%A3o

  • http://elivieira.com/ Eli Vieira

    Devia ter esperado minha resposta. Esse texto tem um monte de problemas. Publicar sozinho assim dá a impressão de que o Bule concorda com o ataque do PZ Myers.

  • http://www.facebook.com/people/Luiz-Sergio-Dadario/100003572423940 Luiz Sergio Dadario

    Reconheço que estou longe de ter competência para opinar sobre um texto como este, mas devo admitir que agrada-me a idéia de que o acaso teve ( e tem ) um papel importante nas modificações efetuadas nas características de uma população ou populações ao longo do tempo. Sinto um certo cheiro de ¨religião¨ quando tentamos atribuir TODAS essas tranformações unicamente à seleção natural, a menos que eu modifique a expressão para ¨pressões seletivas ao acaso¨. Já está acendendo uma luzinha amarela no meu cérebro alertando para eu parar por aqui. Aguardarei ansiosamente os demais comentários.

  • Felipe Cotias

    O fracasso fundamental da premissa desse artigo é acreditar que a má ciência invalida a ciência. É óbvio que existe má ciência dizendo que traços genéticos podem assegurar se alguém *é* homossexual ou não, por exemplo. Mas isso não significa dizer que a ciência inteira da avaliação de traços genéticos e as tendências a relacionamentos sexuais esteja invalidada. Esse sujeito parte de uma frase que realmente peca ao dizer que o cérebro é uma adaptação funcional (a seleção natural de fato não diz que as coisas funcionam dessa forma), mas isso não significa dizer que não podemos apreciar o cérebro e a psicologia sob a perspectiva da seleção natural. Da mesma forma que todos os aspectos de um olho não são uma “adaptação funcional” mas quem enxergava melhor sobreviveu melhor, em certas espécies, e esses traços passaram adiante. Simples assim. Funcionamentos simplíssimos do cérebro (ex. se ele macho, mate) com certeza foram sim passados adiante (obviamente sofisticados com o tempo) – isso é inquestionável tanto quanto se você largar uma maçã no ar ela cai! – enquanto funcionamentos complexos (ex. gosto de tatuagens de borboletas) realmente não poderiam ter evoluído pela seleção natural. O que esse sujeito está dizendo é que toda uma ciência seria negada porque alguns cientistas podem se afobar demais e chegar a conclusões equivocadas. Nesse momento, ele fracassou numa premissa fundamental.

  • Marcus Valerio XR

    Esse texto, para usar termos do próprio autor, é uma porcaria que merece ser mijada longamente. É sério que ele se baseia num comentário de um artigo de alguém que admite não entender do assunto num blog religioso?! É serio que ele acredita que a preferência de gênero por rosa ou azul é uma proposta da psicologia evolutiva?! É sério que ele crê que a existência de fenótipos irrelevantes depõe contra a existência da seleção natural de fenótipos relevantes?!

    Deusas da Terra! Isso é de uma incompetência inacreditável! É até bem mais grave do que bem disse o Felipe Cotias, pois o autor não apenas tenta invalidar a disciplina inteira pelo suposto mau uso de alguns de seus praticantes, tenta invalidar o conceito inteiro devido ao fato de ele não se aplicar em todos os detalhes irrelevantes onde ninguém jamais pensou em aplica-los. Seu raciocínio, se levado a sério, desqualificaria o evolucionismo inteiro em todos os níveis!

    É o tipo de texto que eu entendo perfeitamente que seja agraciado num site criacionista, mas num site que sé propõe a discutir temas científicos ele é injustificável, pois sequer serve como material de discussão por sequer haver o que refutar. Talvez até por isso o Eli Vieira acabou desanimando de criticá-lo, devido ao conteúdo de baixíssimo nível. Até Michael Behe entendeu e respeitou mais a Evolução Biológica em seu “A Caixa Preta de Darwin”.

    A mim, parece que este texto foi postado aqui como tributo às feministas que odeiam Psicologia Evolutiva, e assim, ficam tendo um link para postar ao melhor estilo criacionista de “cientistas contra a PE”, podendo até fazer citações que, neste caso, nem precisam ser tiradas do contexto.

    Marcus Valerio XR
    evo.bio.br