Bule Voador

Exclusão racial em anúncios de escolas e faculdades privadas

Nessa época de matrículas para escolas da rede privada e faculdades, faço um desafio: conte quantos outdoors e outbus de instituições de ensino básico ou superior mostram pelo menos um aluno negro ou aluna negra – incluindo pardos(as). É quase certo que você verá que menos de 30% dos anúncios de estabelecimentos educacionais colocam pessoas não brancas – e, quando as incluem, geralmente só colocam um indivíduo no anúncio, mesmo quando haja dez alunos na foto publicitária.

Constatando-se isso, percebemos algo que soa eticamente absurdo mas é realidade: a educação privada brasileira favorece o racismo, ao usar uma publicidade excludente para alugar suas vagas nas salas de aula e, através dela, mostrar que não considera os negros potenciais alunos nem está disposta a fazer o possível para incluí-los entre seus matriculados. Ao invés disso, segue a tradição de sobrevalorizar a presença e beleza brancas, usar entre 75 e 100% de alunos brancos em seus anúncios e rarefazer ou anular a presença não branca.

E o agravante é que, no caso das escolas, tratam de crianças e adolescentes, promovem a distinção de tratamento entre as diferentes raças. E isso, somado ao restante da racista publicidade brasileira, pode ter um efeito nefasto sobre a autoestima dos jovens negros. Isso porque ajuda a conservar na mentalidade dos brasileiros crenças racistas, como que a raça branca seria a raça padrão e dominante enquanto a negra seria a secundária, e que negros não têm condições de alcançar o status prestigioso que essas faculdades promovem no mercado de trabalho.

E isso corre o risco de realimentar a cultura da exclusão racial entre aqueles que estudam nas cada vez mais caras escolas privadas, leia-se brancos vendo negros como “os diferentes ameaçadores”, “os estranhos”, “os intrusos (num mundo de brancos)”, como pessoas que não se encaixam numa realidade que a publicidade sempre pintou como eurocêntrica e caucasiana – e, por tabela, os negros se vendo como “os estranhos no ninho”, “os secundários”, “os intrusos” num meio institucional que não faz questão de vê-los participando. Não que se tornem racistas agressores, mas acontece de perpetuar que brancos nessas situações vejam negros com olhares tortos, o que inclui acreditar que negros são sempre pobres e incapazes de ascensão social e inclusão em ambientes de poder aquisitivo maior.

Parecem prevalecer entre os publicitários responsáveis pelos anúncios de escolas privadas as crenças de que lugar de negro menor de idade é na escola pública e negros, sendo “potencialmente pobres”, geralmente não têm condições de estudar em instituições pagas. Não parece haver um esforço para mudar essas crenças.

Fica então a dica para as diretorias dessas escolas e as agências de publicidade por elas contratadas: procurem ler sobre violência simbólica – que é resumidamente o ato de, por via de uma linguagem verbal ou imagética, promover desigualdades e estados de dominação e submissão – e entender como estão perpetuando algo que não deveria ser admitido na educação – o racismo, em forma de exclusão e estranhamento.

Deve-se entender que uma política tanto pública como privada de combate ao racismo passa por trabalhar as formas mais sub-reptícias desse tipo de preconceito, as quais, no final das contas, acabam denunciando aquilo que poucos querem admitir – que até as escolas usam de expedientes racistas em seu funcionamento e divulgação.

Autor: Robson Fernando de Souza
Fonte: Consciencia.blog.br

Robson Fernando de Souza
  • Sem sombra de dúvidas esse é um assunto importante e merece toda a atenção da sociedade, mas o que me chama a atenção mesmo é a mudança de foco deste site. Em vez de abordar tópicos como o obscurantismo religioso, o crescimento das seitas neopentecostais no Brasil, os ataques à laicidade do Estado e incentivar a divulgação do paradigma científico, trata de amor romântico, escola de princesas e agora racismo em outdoors. O que é que está havendo?

    • Peraí, mas o blog não é baseado nos preceitos do Humanismo Secular? Sendo assim, não há temas específicos ou uma linha única de postagem… Desde que os textos estejam relacionados à ética, justiça social, a rejeição ao dogmatismo e a razão humana em geral (coisas que, pra mim, estão inclusas nas discussões propostas até então) não há nada de errado!

      Não li o texto sobre o amor romântico ainda para opinar. Mas, o de escola de princesas trata de uma assunto de extrema relevância para uma discussão entre pessoas que se identificam com o Humanismo Secular, assim como este aqui!

      É sim de extrema importância discutir as questões relacionadas ao dogmatismo e suas influências sociais absurdamente negativas. Entretanto, na minha opinião, tratar de assuntos relacionados à exclusão social, questões de gênero e preconceito é tão ou mais importante quanto – se não mais.

    • Gabriel Rodrigues

      Cara, sinceramente acho que essa noção do amor romântico é tanta besteira quanto religião.
      Eu costumava criticar o bule por postar muitos artigos sobre homossexuais, porquê eu achava inútil, o bule querendo ensinar padre a rezar missa? É claro que nós humanistas seculares estamos cientes da luta dos homossexuais!
      Mas depois eu pensei – nem todo mundo sabe disso, e ainda existe muita gente preconceituosa mesmo sem saber, por isso um dos papeis do bule é denunciar essas coisas do dia a dia.
      Concordo que tem muitos exageros acontecendo por aqui, muito mimimi, e isso quase sempre vezes prejudica a imagem do blog – fica parecendo que somos um bando de chatos ultrassensíveis – e acho que tinha que ver isso antes de sair postando qualquer coisa.
      Ainda assim, imagina se o bule só postasse matérias sobre ateísmo? Ai sim ia ser um saco ler. Querendo ou não, o ateísmo é relativamente simples, com um ano de ateu, já da pra ler a maioria dos argumentos e perspectivas para a inexistência de Deus.
      Acho que você tá é com saudade de um bom artigo sobre ateísmo – se for o caso, eu entendo e concordo, tá faltando mesmo.

  • Franco-atirador politicamente correto, Almir. É isso que o blogue virou.

  • Não sei se esse é um fenômeno local, mas aqui na minha cidade as escolas estão cada vez mais preocupadas em mostrar a diversidade de gênero que há entre seus alunos. Em alguns outdoors a imagem do aluno negro está em destaque, em outros é um oriental, um branco, e assim vai… Acho ótima essa preocupação. Não consigo recordar o último anúncio que vi onde só alunos brancos estão presentes.
    Acho que reclamar da quantidade de alunos é forçar um pouco a barra, colocar 15 alunos negros e dois brancos não refletiria a realidade da escola, pelo menos acho que não.

    No mais, concordo com o Almir, a qualidade dos textos do Bule tem caído bastante.

  • Almir Ferreira e demais. Eu encontrei o Bule um pouco depois do seu começo. Era bem na época que comecei a questionar minha conduta e o mundo ao meu redor.

    Encontrava nos texto do Bule uma fonte de inspiração para crítica e estilo de vida, mas realmente, de uns anos para cá a qualidade caiu muito, mas é muito mesmo.

    Como o Emanuel Moura falou, virou um “Franco-atirador politicamente correto”.

  • Falta o que pra esse povo entender que a prioridade aqui é o Humanismo, e não neoateísmo?

    • AlexRodriguesdoNascimento

      Gleice e Rubens conseguiram, em poucas palavras, resumir muito bem a situação atual do Bule e da LiHS.

      2013/1/9, Disqus :

  • O que se defende aqui (neste site)? Não são ideias, ideais, direitos e preceitos fundamentais? Se não é, parece-me que escolhi errado o tipo de Humanismo que realizo. Apenas influir-se e questionar sobre o por quê de não haver determinados temas vez após vez, faz com que limite-se ângulos de visão para uma orientação (Humanismo Secular) quase tão vasta quanto o próprio Universo. Textos como este deixam claros que, mesmo nas menores ou inesperadas situações, pode haver pré-conceito, exclusão ou certo distinguishing. É sim necessário que se haja tais apreciações, os ideais humanistas são universais e não podem focar-se ou dirigir-se apenas a certos entes sociais. Seja humanista, open your mind!

  • Reges Mendes

    Qual a sugestão? Criar imagens publicitárias como representações subliminares da última estatística oficial? Que tal obrigarmos a publicarem a fonte no canto inferior direito? Ou isso seria um preconceito contra os canhotos?

  • Washington Ferreira

    Vou colocar o mesmo comentário que postei no Facebook, já que estou com preguiça de digitar 🙂

    Muitos desses anúncios são meras cópias de anúncios germânicos ou escandinavos. Isso não acontece somente aqui. Assisti a um documentário sobre Hong Kong e praticamente metade dos anúncios nas ruas e nos outdoors retratavam modelos brancos (num lugar onde os brancos não são nem 3% da população). Já tive problemas com isso. Como brasileiro, sou mestiço e minhas raízes remontam aos mais diversos lugares e continentes: tenho antepassados negros, brancos e indígenas. Na minha infância era difícil encontrar alguma referência positiva na TV que não fosse o branco louro; isso num país onde até mesmo os “brancos” são morenos descendentes de portugueses, italianos e espanhóis (latinos, portanto). Infelizmente, muitos brasileiros ainda têm essa síndrome de colonizado e acham que tudo que é bonito, sofisticado e belo vem de fora, principalmente da Europa e América do Norte. Já tá mais do que na hora dos publicitários perceberem que o Brasil não é uma Alemanha ou Dinarmarca e usar modelos que representem de fato toda a população brasileira. Sem mais.

  • Gabriel Rodrigues

    Uma coisa que eu demorei a aprender: não atribua malícia onde é mais provável preguiça ou ignorância.

    Consigo até enxergar a cena: pedem pro estagiário fazer um anúncio. Ele vai em um dos diversos sites de stock photos como photodune (meu favorito!), istockphoto, shutterstock, getty e etc, procura por “kids” e coloca a primeira (ou mais barata) foto que ele acha. Por coincidência, ou talvez por serem sites estrangeiros, na maioria das fotos as crianças são brancas.

    Mesmo quando os anúncios tentam exibir crianças negras ou asiáticas (veja por exemplo as embalagens do kinder chocolate), o resultado continua desastroso: quase não existem crianças puramente negras, caucasianas ou asiáticas no Brasil. Essa ideia de “raça pura”, seja qual for a raça, é uma forma de preconceito!

    Qual a solução? Contratar um fotógrafo profissional para produzir imagens com crianças que representam a população brasileira.
    Essa solução deve ser de 100 a 500 vezes mais cara que comprar uma foto genérica por dez reais.

    • É um absurdo mesmo! Porém ninguém percebeu que esse anúncios não refletem a mesma atual posição estatística de ruivos!

      Outra lástima seria que nos anúncios só aparecem pessoas bonitas, sendo que elas são minoria! Isso é um preconceito contra os feios?!?

      Mais um artigo da série “procurando pêlo em ovo” (2)

      Sinceramente, acredito que as peculiariades da população brasileira não se coadunam com esse pragmatismo divisor de raças que insistem em nos enfiar goela abaixo como cópia de produções acadêmicas predominantemente norte americanas e européias, afinal somos uma mistura.

      Esse tipo de texto só fomenta o preconceito ao tentar importar uma identidade de raça no lugar de uma identidade nacional, acho lastimável!

    • Cara, eu pensei justamente nisso, a facilidade de usar sites de stock photos estrangeiros. Eu fui dono de cursinho pré-vestibular, e admito que fiz isso algumas vezes, e o padrão era maioria branca nas fotos.

  • Clarice

    morro de preguiça do egocentrismo homem-branco-heterossexual-classe média nesses comentários. tudo que não diz respeito diretamente a eles ou que de alguma forma condena seu modo de agir se resume a mimimi, procurar pelo em ovo. e isso vindo de gente que se acha muito humanista fodão.

    • Clarice, será que por causa desse comentário seu devo escrever um artigo sobre o preconceito contra o “homem-branco-heterossexual-classe média”, impetrado pela “mulher-(negra?)-gay-classe baixa” com espasmos pseud-intelectualoides de arrogância!

      tsc tsc tsc

  • Favorece todo tipo de exclusão e é contrária a qualquer tipo de diversidade. Quantas pessoas cadeirantes, com síndrome de Down, PC, entre outras, vc costuma ver nesses anúncios publicitários?!?!?!?