Bule Voador

Reflexões sobre a páscoa e o ateísmo

Autor: Daniel Gontijo
Fonte: Montando o Quebra-Cabeça

Para início de conversa, eu sou ateu. E o que significa isso? Tal como sugere a etimologia da palavra (a, de ausência ou negação, e theos, de deuses), pode-se dizer que eu nego a existência de deuses. Um teísta, pelo contrário, poderia ser definido como alguém que aceita a existência de Deus — ou, no caso de um politeísta, de deuses. Mas, no meu ponto de vista, não poderíamos parar por aí. Em que, afinal, consiste aceitar ou negar a existência de deuses? Que crenças e condutas básicas caracterizam ateus e religiosos? Após esboçar uma breve resposta a essas questões, tentarei ilustrar como um ateu pode se comportar na celebração da páscoa, época em que os cristãos comemoram a ressurreição de Jesus Cristo.

A Ressurreição (Raffaelino del Garbo, 1510)

O ser ateu

Para muitas pessoas, a proposição “Eu nego a existência de deuses” pode suscitar espanto. “Como assim… você não acredita em nada?” Na verdade, parece melhor redefinir aquela proposição para “Eu creio que deuses não existem”, mesmo que isso ainda não resolva o problema em questão. Afinal, em que crê e o que faz quem não acredita em deuses? Temos uma noção básica do que creem e fazem judeus, budistas e cristãos, mas o mesmo pode não ser dito a respeito dos ateus. Pode ser tentador definir o ateísmo como a ausência de comportamentos ligados à religiosidade. Mas, se não fazer algo já é fazer alguma coisa, é a esse “fazer diferente” que precisamos nos atentar. O ateu não fica simplesmente inerte, parado em feriados religiosos, e não fica sem reação quando coisas inusitadas ou adversas acontecem. Como disse o biólogo Paul Z. Myers (2011), o ateísmo não é “um ideal platônico flutuando em um espaço virtual com nenhuma conexão com mais nada”. Crenças não fazem sentido sem que sejam associadas a comportamentos públicos, e parece razoável dizer que o ateísmo é uma crença.

Uma charge que transmite uma crítica baseada em ignorância. A vida ateísta não é vazia, "em branco" ou indiferenciada.

Nossos comportamentos são contextualizados, e há contextos específicos em que o comportamento religioso aparece. Não: as pessoas não são ininterruptamente religiosas! O comportamento religioso aparece e desvanece conforme variam as situações. Por exemplo, somos religiosos quando, ao sermos exitosos ou ao fracassarmos, agradecemos às divindades ou nos colocamos a orar; quando beijamos estátuas que representam santos; quando procuramos nos unir, através da meditação, ao Cosmos; quando baseamos nossas ações nas prescrições de um livro considerado sagrado; e quando concebemos o mundo como um desígnio divino. Contudo, os religiosos também se envolvem em práticas seculares, isto é, em práticas em que não há o matiz religioso. Exemplos dessas atividades são estudar matemática, comer pastéis e beber Coca-Cola, fazer transações bancárias, pegar um ônibus e acompanhar jogos de futebol. Embora certas práticas sejam ocasionalmente permeadas pela fé (como quando oramos para que nosso time vença), isso não é o bastante para denominá-las religiosas.

Parece difícil a tarefa de delimitar o perfil comportamental básico de um ateu, mas acho que podemos, senão devemos, nos arriscar. Antes de fazê-lo, descreverei alguns atributos que não definem, mas que parecem acompanhar o ateísmo.

Os ateus, ao menos os que eu conheço, são pessoas razoavelmente desconfiadas. Eles estão frequentemente atentos a incoerências ou a afirmações pouco fundamentadas, carentes de evidências, e não tomam certas afirmações como verdadeiras simplesmente por terem sido proferidas por autoridades (por exemplo, por pais, professores e líderes religiosos). Essa sensibilidade costuma levar ao questionamento e a uma postura crítica. Em essência, eu diria que o ateu se comporta com base na ideia de que o outro pode estar enganado ou pode querer enganar. Mas, e como no caso dos religiosos, esse perfil não está presente em qualquer situação. Há quem possa deixar de lado o “filtro do ceticismo” ao se deparar com notícias ou artigos científicos, sobretudo quando se tratam de algo que se queira ouvir. Os ateus são, antes de tudo, humanos.

Esse tópico é um tanto polêmico, mas eu intuo (tudo bem, com base em alguns estudos científicos) que o ateísmo é regado por um bocado de inteligência. A origem do Universo e das espécies, o sentido da vida e as questões morais são alguns dos temas importantes a ser abordados secularmente pelos ateus. Não é tarefa fácil compreender satisfatoriamente o big-bang e a seleção natural, e o convívio com religiosos pode exigir dos ateus um repertório básico de lógica, psicologia e história. A sustentação adequada do ateísmo parece requerer um esforço intelectual incomum, mesmo que isso não se traduza necessariamente em uma “inteligência incomum”. Uma parcela considerável dos ateus que eu conheço valoriza o conhecimento, para não dizer a racionalidade, e se esforça para conhecer cada vez mais.

Em seu texto “Por que você é ateu?”, Myers (2011), em harmonia com o que venho propondo, ressalta que

há mais no ateísmo do que a simples negação de uma afirmação: ele é na verdade baseado em uma atitude científica que valoriza a evidência e a razão, que rejeita afirmações baseadas somente em autoridade e que encoraja uma exploração mais profunda do mundo. Meu ateísmo não é somente uma negativa de deuses, mas é baseada em todo um conjunto de valores positivos que eu enfatizo quando falo sobre ateísmo. Aquele lance de negar a existência de Deus? É uma consequência, e não uma causa.

Desconfiança e esforço intelectual talvez sejam perfis comportamentais comumente encontrados entre os ateus.(1) Se, pelas circunstâncias da vida, aprendemos a desconfiar (ou a ser céticos), a nos perguntar e a investigar, há uma grande chance de nos depararmos com o ateísmo. Com efeito, o ser ateu pode ser um subproduto emergente daquelas posturas, mas que só vem a irromper em contextos em que há um apelo social por intervenções e explicações sobrenaturais sobre o mundo. Se não houvesse o comportamento religioso, talvez não faria sentido falar de comportamento ateísta. Não há religiosidade entre os demais animais, e não é por isso que os chamamos de ateus. Por isso, o ateísmo é um conjunto de posturas que se distingue pela busca de interpretações e explicações naturais para eventos que, entre os religiosos, são frequentemente interpretados e explicados pelo poder e desígnio divinos, que são sobrenaturais. O ateu pode não negar que há mistérios e eventos difíceis de ser explicados no mundo, mas não faz disso um motivo para inventar deuses. Sob um prisma moral, eu diria que saber conviver com a dúvida é uma virtude.

Ser ateu, enfim, é resistir ao ímpeto de criar ou invocar entidades superpoderosas, os deuses, para explicar ou alterar os fenômenos do mundo; em vez disso, é dar prioridade à formulação de hipóteses naturalistas, bem como a se comportar como se as coisas não fossem permeadas por forças mágicas ou divinamente caprichosas. O ateísmo não é simplesmente a ausência de crenças em divindades, mas um conjunto de crenças e posturas que fazem a diferença.

A páscoa e o ateu

Qual é o significado da páscoa?

Antes de ontem, acompanhei parte de um documentário que tratava da morte e ressurreição de Jesus Cristo, a personificação do deus cristão. Pelo que eu vi por lá,(2) a missão de Jesus não era apenas a de levar esperança e prescrições comportamentais para as pessoas, mas a de livrá-las do pecado original. Através de sua morte, Cristo teria trazido a redenção (que só poderia ser adquirida pelo sacrifício de um ser humano perfeito), e as pessoas que nele cressem teriam o privilégio que, no início dos tempos, teria sido perdido no Jardim do Éden: a vida eterna. Quando Jesus ressuscita, três dias após sua crucificação, as pessoas não teriam por que duvidar da legitimidade de sua missão e natureza, e a páscoa seria, então, a data mais importante do calendário cristão. Jesus resgatou para a humanidade a possibilidade de superar a própria morte!

A história de Cristo é tanto bonita quanto dramática, e traz o apelo a respeito de uma entidade poderosa e sobrenatural, Deus, que nos ouve, nos julga e pode intervir sobre o mundo. Geralmente, os cristãos a encaram como um relato verídico e de forma literal, já que está bem documentada e possui mais de um autor (Mateus, Marcos, Lucas e João). Diante disso, como é que ficam os ateus?

Anteriormente, sugeri que os ateus, ou a maior parte dos que eu conheço, são desconfiados e intelectualmente esforçados. Se tivessem nascido em comunidades que cultuam outras religiões, poderiam não ligar para os relatos bíblicos. Mas este não é o caso. No contexto pascal, o ateu pode ser confrontado, indagado e admoestado por seus amigos e familiares cristãos. Imaginando que houvesse um clima propício para um boa conversa sobre o tema, eis o que um ateu poderia fazer.

Indagar. Desconfiado, algumas perguntas poderiam ser levantadas. Por exemplo: Quem escreveu o novo testamento? Isso ocorreu ao longo, logo após ou muito depois da morte de Jesus? Houve modificações nas escrituras desde a primeira edição? Há evangelhos que não foram incluídos na bíblia? O cristianismo poderia servir para fins políticos? Há elementos na história de Cristo que se assemelham a mitos ancestrais? O que faz do cristianismo uma doutrina melhor que as demais doutrinas religiosas?

Explicar e sugerir. Se já tiver se dedicado a procurar algumas respostas àquelas perguntas, o ateu pode tentar explicar por que não parece ser útil ou inteligente crer no cristianismo. Por exemplo, pode-se lembrar do quão suscetível a mudanças são as mensagens transmitidas oralmente, e que as pessoas que decidiram colocar a história de Jesus no papel não foram seus contemporâneos. O argumento, fundamentado em evidências, de que as escrituras foram alteradas ao longo do tempo é primordial, e o palpite de que algumas dessas mudanças e a seleção de uns ou outros evangelhos tiveram um viés político pode ser um bom complemento. Por fim, poder-se-ia sublinhar que vários elementos da história de Jesus parecem ter sido inspirados em mitos adjacentes ou ancestrais, incluindo, por exemplo, aspectos do seu nascimento, de seus milagres e de sua morte e ressurreição. Desse modo, o ateu poderia sugerir que a história de Jesus Cristo provavelmente não condiz com eventos que realmente aconteceram — ou que pode, no mínimo, ter sido muito alterada –, mas que diz, em vez disso, de uma das mais organizadas e pomposas tentativas humanas de significar e lidar com as dificuldades e mistérios da vida.(3)

Participar. A título de curiosidade, admiração ou convenção, há ateus que se permitem participar de algumas atividades cristãs. Compreender certas práticas e ideias religiosas pode ser importante contra o surgimento de preconceito e intolerância, e pode ajudar o ateu a não se precipitar em julgamentos e a formular, em contextos de discussão, objeções melhor fundamentadas. Além do mais, há quem admire a arte, a arquitetura e os rituais cristãos, bem como que extraia bons frutos, sem hipocrisia, de celebrações como a páscoa e o natal. O ateu não precisa ficar de cara amarrada para tudo quanto é coisa religiosa; dar e receber ovos de páscoa e se reunir com os familiares pode ser algo agradável e útil para fortalecer laços sociais. Não é necessário crer no coelho da páscoa, orar e levar a sério a ressurreição de Jesus para que se possa curtir um feriado religioso.

Considerações finais

Definir o que se quer dizer com “ateísmo” pode ser uma tarefa mais difícil do que parece à primeira vista. Se nos restringimos à etimologia, podemos ficar confusos quanto ao que significa aceitar ou negar a existência de deuses. Por isso, torna-se fundamental fazer menção a práticas e ideias que acompanham ou constituem certas crenças. Tal como há variações marcantes em como as pessoas aceitam a existência de deuses, decerto há variações no ser ateu. Sugeri alguns padrões de conduta que são frequentes entre os ateus que eu conheço, e tentei, com algum custo, definir em poucas palavras o que eu entendo por “ateísmo”. Não quero pensar que minhas sugestões e definição são definitivas; espero que colegas possam me ajudar a ajustá-las ao longo do tempo.

Ao final, arrisquei-me a falar sobre a páscoa e sobre como um ateu poderia lidar diante dessa ocasião. Devo ressaltar que aquele trecho não se tratou de prescrições, mas de sugestões ou possibilidades de ação que vislumbrei a partir de experiências próprias, de relatos de alguns colegas e de leituras que fiz. Ateus não precisam se posicionar a favor do aborto, do casamento homossexual e da abolição de crucifixos em repartições públicas, e não precisam necessariamente ser delicados e respeitosos para com os religiosos. Contudo, creio que a força de um grupo pode crescer na medida em que certas posturas básicas são incorporadas. Não estou certo sobre que posturas seriam essas, mas desconfio que o ceticismo e o humanismo são bons candidatos.

Você é ateu — orgulhe-se daquilo em que você acredita, e não daquilo em que você descrê. E, também, aprenda a respeitar o fato de que as pessoas com ideias contrárias às suas não chegaram a suas conclusões em um vácuo. Na verdade, há motivos mais profundos para elas endossarem tão veementemente entidades sobrenaturais, e tais razões nem sempre podem ser reduzidas à estupidez (Myers, 2011).

Notas

(1) Minha conclusão baseia-se em observações assistemáticas e restritas ao meu contexto social (real e virtual). Pode haver o “viés do desejo” por detrás das minhas análises, e pode ser que minhas hipóteses não condigam com a realidade global. No entanto, acho que vale a pena compartilhá-las e discuti-las.

(2) A síntese do significado da vida de Jesus Cristo foi revista pelo meu colega Geraldo Majela.

(3) Abaixo, listo leituras que me ajudaram a chegar naquelas conclusões e sugestões:

  • Botton, A. (2011). Religião para Ateus. Rio de Janeiro: Intrínseca.
  • Ehrman, B. D. (2006). O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse? Quem Mudou a Bíblia e por quê. Rio de Janeiro: Prestígio.
  • Kuhn, A. B. (2006). Um Renascimento para o Cristianismo: Jesus: Homem ou Mito? Rio de Janeiro: Nova Era.

Referência

  • Myers, P. Z. (2011). Why are You an Atheist? Pharyngula. Disponível em: http://scienceblogs.com/pharyngula/2011/02/why_are_you_an_atheist.php e em http://bulevoador.com.br/2011/11/29896/.
  • Anônimo

    Muito bom o texto, parabéns 

  • Anônimo

    É praticamente um artigo. Parabéns pelo texto. Não a nada que eu posso discordar.

  • Anônimo

    so pra ser um pouco chato, o nome do quadro não é ressrection. Ou coloca o nome original em italiano ou coloca a tradução pro português. Colocar a versão do nome em inglês é, no mínimo, de mau gosto.

  • Anônimo

    Gostei. Me pareceu uma atitude científica de enxergar o ateísmo “estatisticamente”, como ele é praticado por autodeclarados ateus. Certamente é um complemento à análise filosófica que permite a conclusão de que, se há algo que o ateísmo é independentemente de contexto, é uma crença na inexistência de deuses. As variações, inclusive as que pretendem negar isso (sem sucesso) fazem todo sentido à luz dessa abordagem “epidemiológica” (hehehe) de descrição de que comportamentos são encontrados entre ateus. Parabéns, textos assim mantêm a excelência do Bule Voador na comunidade secularista lusófona.

  • Anônimo

    Muito bom texto.

  • Anônimo

    Texto simplesmente sensacional, parabéns. 

  • Anônimo

    Obrigado pelas palavras, Eli. Espero num futuro não muito distante pesquisar a prevalência/frequência de certos padrões de comportamento entre os variados grupos religiosos (incluindo ateus e agnósticos).

    Abraço!

  • Anônimo

    Excepcional texto! Muitíssimo bem escrito, claro, sensível, relevante.

    Já estou recomendando para várias pessoas!

    Abraços

  • Anônimo

    Parabéns pelo texto, excelente mesmo. Favoritei em meu navegador, é uma ótima referência.

  • Anônimo

    Obrigado, Pedro e demais camaradas! Fico contente em sentir que algumas de minhas ideias encontraram boa ressonância em outras cabeças…

    Abraços!

  • Anônimo

    Confesso que não encontrei o título original do quadro em minha busca rápida. O título em inglês apareceu nas duas imagens que encontrei, e acabei o utilizando. Alterei para o português.

    Abraço.

  • Anônimo

    Parabéns ótimo texto.

  • Anônimo

    Ótimo texto, aula de tolerância e respeito. Parabéns ao autor.

  • Anônimo

    Daniel,

    Também gostei muito do texto. Como diriam uns amigos meus: Show de bola!

  • Anônimo

    bom um texto simples e esclarecedor de suas ideias para quem pensa o mesmo se identificou com ele . parabéns para o autor

  • Anônimo

    Daniel, eu tenho uma resistência muito grande em fazer uma associação automática do ateísmo com o pensamento crítico, como se o segundo estivesse contido no primeiro, sendo que é o segundo (crítica, razão) quem pode levar ao primeiro (ateísmo).

    Eu aceito que proporcionalmente seja mais fácil encontrar ateus disposto a revavaliar as suas crenças diante de evidências, do que teístas com a mesma disposição, aliás eu também tenho essa forte impressão, mas há menos que tenhamos dados, observações ou evidências robustas demonstrando isso, temos que admitir que é no máximo uma suposição plausível. E ainda que reste demonstrada tal relação, certamente onde apostaria minhas fichas sem hesitar, eu duvido muito que encontrem alguma comprovação de que o fato de alguém ser teísta implica em incompatibilidade com o pensamento crítico ou com o uso da razão. Também conhecemos inúmeras pessoas teístas que nunca utilizam argumentos teológicos em suas argumentações, seja numa conversa informal, seja numa publicação acadêmica, inclusive utilizando o método crítico na construção da sua própria religiosidade.

    Myers recolhe um conjunto de valores que certamente considero muito
    importantes na construção da sociedade, mas que decorrem da reflexão, da crítica, do racionalismo, porém escolhe o termo “ateísmo” para representar esses valores, e nesse ponto acho que ele mandou muito mal.

    Eu não vou ignorar que existe uma turba de intolerantes religiosos incapazes de sequer refletir a respeito do que os seus líderes religiosos ensinaram, mas a existência de entendimentos completamente incoerentes existente até entre os que se chamam cristãos, por exemplo, parece indicar que a religião não é capaz de produzir comportamentos nocivos, mas que é utilizada pelas pessoas para perpetuá-los ou subsidiá-los. A grosso modo se a gente acabar com as religiões ou com o teísmo, sem nos preocuparmos em desenvolver o pensamento crítico nas pessoas, só estaremos substituindo 6 por meia dúzia e inevitavelmente surgiriam ideologia que como o nazismo não teriam um cunho religioso, e pior ainda, afirmando possuir bases científicas quando na verdade não passam de distorções grosseiras das teorias científicas de pesquisadadores sérios. E sob esse novo pradigma, num mundo sem teísmo e ausente de religiões, os grupos sociais mais vulneráreis continuariam enfrentando forte oposição para ter a sua dignidade preservada ou os seus direitos assegurados.

    Alguém se declarar ateu, sobretudo em uma sociedade vastamente teísta como a nossa, com dificuldades em entender que tal crença não implica em ameaça à sua religiosidade, pode ser um bom sinal de ali existe alguém disposto a “cavar fundo”, mas não é condicionante e nem sequer uma evidência segura disso.

    Querer formar uma comunidade que preze o desenvolvimento do uso da crítica, da razão e da reflexão na sociedade chamando-a de aMyers recolhe um conjunto de valores que certamente considero importantes, mas que decorrem da refleção, da crítica, do racionalismo, mas escolhe o termo ateísmo para representar esses valores, e é nesse ponto acho que ele mandou muito mal. teísta, de cara já exclui uma parcela da sociedade que adota esses mesmos princípios, somente por possuir a crença em um criador. Ainda de maneira equívoca essa mesma comunidade criada com base na razão acabará abraçando os ateus que acreditam possuir capacidade de julgar o caráter de uma pessoa baseando-se em sua orientação sexual.

    Enfim, prefiro me juntar às causas de um crente como o frei Leonardo Boff do que estar associado a um ateu quando este compara a luta social pela igualdade de direitos para as mulheres a situação “desagradabilíssima” que é dividir um elevador com alguém mascando chicletes.

    Acho que o Myers poderia aprender muito sobre pensamento crítico fazendo a leitura do seu artigo.

    Essa mensagem foi escrita menos no intuito de querer convencer alguém e mais na esperança de ser confrontado.

  • Anônimo

    Nelson,

    Pois é justamente isso o que eu tentei propor: a postura crítica/cética e o esforço intelectual, que devem estar agregados ao racionalismo, aumentam a chance de um indivíduo, em algum momento, se tornar ateu. Não foi o contrário, e eu acho que o Myers compartilha essa ideia. Eu não entendi que ele estava dizendo que essa “postura científica” deve ser chamada de ateísmo, mas que o ateísmo é uma consequência disso (como fica claro na primeira citação que fiz dele). O que eu e ele tentamos fazer foi descrever alguns comportamentos que parecem ACOMPANHAR o ateísmo. Como você sugeriu, seria muito bacana se pudermos fazer uma pesquisa descritiva/correlacional a respeito dessas variáveis (pensamento crítico, racionalismo, ceticismo/religiosidade). Já li um estudo experimental(*) que mostrou que níveis mais altos de religiosidade estão relacionados a uma medida maior de intuição. Para dizer de outra forma, as pessoas mais religiosas tenderam a dar respostas irrefletidas com mais frequência a um conjunto de perguntas de matemática. Se pudermos dizer que o oposto da intuição é a reflexão, como sugeriram os pesquisadores, acho que já temos um dado a respeito. Quanto menos religioso, mais reflexivo. O curioso é que, ao me imaginar respondendo às perguntas do teste, eu me via tentado a perguntar “Isso não é pegadinha?”, como que prevendo que as perguntas pediam por respostas intuitivas, mas que as respostas corretas exigiam certa avaliação/reflexão — para não dizer de um bocado da boa e velha desconfiança. Se se animar de ler o estudo, deixo a referência aí embaixo.

    Abraços, e obrigado pela participação!

    (*)  Shenhav, A., Rand, D. G., & Greene, J. D. (2011). Divine intuition: Cognitive style influences belief in God. Journal of experimental psychology. General. doi:10.1037/a0025391

  • Anônimo

    Ah, em tempo e para ser estrito, o crer também é, para o behaviorismo, uma resposta contextualizada: crer é uma forma privada de se comportar.

    Abraço!

  • Patrik Gilberto

    pode fazer um resumo,depois resumir o resumo?