Bule Voador

Homeopatia na Scientific American Brasil

Autora: Harriet Hall

Fonte: Science-Based Medicine

Editor: Alex Rodrigues

Também republicado no site do Desafio 10:23 e no blog O Lado Oculto da Lua

Introdução do Editor: Foi com certa surpresa que vi um nota sobre homeopatia ao ler meu exemplar de abril/2012 da revista Scientific American Brasil. A figura ao lado é uma reprodução  da nota, publicada sob o título “Eficiência Questionada da Homeopatia” (mais abaixo no texto de Harriet Hall há uma transcrição da matéria).

Pouco depois de ler essa nota, enviei um email para a redação da revista, na esperança de vê-lo publicado no mês que vem para fazer um contraponto ao que foi divulgado. Segue o meu email em azul:

A nota publicada na edição de abril/2012 sob o título “A eficiência questionada da homeopatia” pareceu-me  meio deslocada em uma publicação do porte e da qualidade da Sciam Brasil.

Ao longo dos anos acumulam-se evidências da ineficácia de ação dos preparados homeopáticos e da implausibilidade dos pressupostos dessa forma de terapia (cito, por exemplo, uma extensa revisão publicada na revista The Lancet em 2005, além de outras revisões disponíveis nas bases de dados científicas).

Apesar do tom crítico do título da nota, o texto em si é composto apenas de informações jogadas pela autora sem uma mínima apresentação de quaisquer evidências confiáveis. Cabe resslatar que apenas dizer que “pesquisas têm sido feitas” não diz muita coisa, haja vista não sabermos a qualidade metodológica das mesmas. Outra estratégia da autora é simplesmente atacar os agrotóxicos e as técnicas atualmente utilizados no controle de pragas e doenças agrícolas, como se os malefícios causados por estes venenos fossem motivo para, automaticamente, acreditarmos que a homeopatia tenha alguma eficácia.

E como não poderia deixar de ser, a autora ainda apela para os conceitos de “energia” e “física quântica” (já que com a química ela não pode contar) para fugir da constatação óbvia de que compostos homeopáticos são nada mais nada menos que água pura.

Para minha surpresa, houve até certa repercussão internacional, motivada por um email de um leitor brasileiro do site Science-Based Medicine. Felizmente o artigo que Hariett Hall escreveu se encontra disponível em inglês e em português, o que me fez publicá-lo no site do Desafio 10:23 e agora neste blog (reprodução na íntegra abaixo, gentilmente autorizada pela autora).

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Título original: Scientific American Brasil declara homeopatia indispensável para o planeta e a saúde humana

Recentemente recebi um email de um dos leitores do SBM no Brasil, Felipe Nogueira Barbara de Oliveira, um aluno de Doutorado em Ciências Médicas e que possui Mestrado em Ciência da Computação e está tentando promover pensamento crítico e medicina científica no seu país. Ele me enviou uma cópia em .jpg de uma pequena matéria publicada na edição de Abril de 2012 da Scientific American Brasil. Ele ficou horrorizado que isso apareceu sob a alcunha da Scientific American, e eu também. A matéria é a seguinte.

Aviso: isto é doloroso.

Eficiência Questionada da Homeopatia

Aplicação dessa técnica à agricultura acena com recuperação de plantas e ambiente

A homeopatia é conhecida como tratamento alternativo para os seres humanos, mas poucos conhecem sua utilização em animais, plantas, solos e água. Essa técnica é alvo de críticas quanto aos resultados e eficácia. Uma delas diz respeito ao “efeito placebo” de seus remédios, que não contém nenhum traço da matéria-prima utilizada em sua confecção. Para responder a essa abordagem é necessário um esclarecimento: a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados.

A aplicação da técnica homeopática à agricultura não é recente, como a maioria das pessoas podem considerar. Um dos primeiros estudos feitos nessa área remonta à década de 20, com pesquisas em plantas realizadas pelo casal Eugen e Lili Kolisko, baseadas nas teorias de Rudolf Steiner para agricultura biodinâmica. Desde então muitas pesquisas tem sido feitas em países como Franca, Índia, Alemanha, Suíça, Inglaterra, México, Cuba, Itália, África do Sul e Brasil. Aqui a Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, é pioneira nessa área.

Não é preciso ser especialista em saúde ou em meio ambiente para perceber que o método convencional de tratamento de pragas e enfermidades na agricultura gera um desequilíbrio no ecossistema e, consequentemente, no ser humano. Agentes patogênicos e pragas vão adquirindo, com o tempo, resistência aos agrotóxicos – que, por estratégia de mercado, passaram a ser chamados de “defensores agrícolas”. Assim, a quantidade e a agressividade desses produtos químicos tem ser aumentadas para contornar essa situação, provocando um efeito cascata desastroso: o solo se torna mais pobre e diminui sua produção; trabalhadores rurais ficam gravemente doentes pelo manuseio constante desses produtos tóxicos; as águas, incluindo as subterrâneas, são contaminadas; e os seres que dependem dos frutos da terra recebem toda essa carga de veneno, desencadeando uma série de problemas de saúde.

Com exceção das indústrias de agrotóxico e fertilizantes químicos, quem mais se beneficia com a prática desses tratamentos convencionais?

Se Hipócrates pudesse reavaliar o seu principio dos contrários, representado pela alopatia, e suas posteriores conseqüências nos seres vivos e no meio ambiente, ele o excluiria suas considerações. Já a homeopatia como técnica sustentável, economicamente viável e ecologicamente correta torna-se imprescindível ao equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem.

Autora: Nina Ximenes, bióloga, é pós-graduada em educação ambiental.

É tão ruim que não sei nem por onde começar. Homeopatia não é nada mais que um sistema elaborado de distribuição de placebos. É baseado em pensamento mágico. Ciência básica nos garante que a homeopatianão pode funcionar como afirma (com água lembrando uma substância que não está mais presente e com soluções mais diluídas produzindo efeitos maiores).

E não há evidência confiável que possui algum efeito terapêutico em humanos, muito menos em animais, plantas, solos e água. Não tem nada a ver com física quântica: efeitos quânticos são significativos apenas nas escalas atômica e subatômica, e não explicam a afirmação da homeopatia que a água “lembra” a substância original, muito menos como essa memória poderia afetar a saúde. A afirmação que a homeopatia “trabalha com energia” é apenas imaginação, não demonstrada por evidências.

Rudolph Steiner foi um filósofo que criou o movimento espiritual chamado antroposofia. A ciência de Steiner é a tão chamada “ciência espiritual.” Medicina antroposófica e agricultura biodinâmica são dois ramos da “ciência” de Steiner que ainda são populares em alguns círculos, mas que foram perfeitamente caracterizados como pseudociência por verdadeiros cientistas. Se quiser saber mais sobre medicina antroposófica, você pode ler o que Dr. Gorski escreveu (em inglês) sobre isso aqui.

A autora usa uma linguagem inflamatória para fazer extravagantes  afirmações de danos de pesticidas e fertilizantes, sem nenhuma tentativa de prover alguma evidência para apoiá-las. Ela usa o termo “alopatia”, uma palavra pejorativa sem significado inventada por Hahnemann, o criador da homeopatia, para denegrir seus principais rivais. A autora refere-se ao “princípio dos contrários” de Hipócrates, uma distorção e simplificação de suas idéias. Hipócrates foi um homem esperto, e eu gosto de pensar que, se ele estivesse vivo, ele teria rejeitado a antiga teoria dos “quatro humores” e homeopatia, e teria adotado o método científico. A autora questiona “quem mais se beneficia” das convencionais práticas na agricultura. Eu argumentaria que há benefícios para pessoas que poderiam ter morrido de fome devido a escassez de alimentos se fertilizantes e pesticidas não tivessem funcionado para aumentar a disponibilidade de alimentos. Isso não significa que as práticas correntes não devem ser melhoradas e que não devem ser feitas com mais segurança, mas descartá-las de uma só vez e substituí-las por homeopatia dificilmente é a resposta!

Eu gostaria de saber se isso é algum tipo de sátira, mas eu acho que não. A matéria está na seção “Avanços” e com o rótulo “Saúde”. A autora está nos caçoando, ou ela realmente acredita que “a homeopatia torna-se imprescindível para o equilíbrio do planeta e à saúde de todos os seres que nele vivem”? Talvez ela esteja falando de algum planeta em um universo paralelo, ou dos sonhos dela. Se a Rainha Branca de Alice no Pais das Maravilhas tentasse acreditar nisso antes do café da manhã, o cérebro dela poderia explodir.

Se isso é o que se passa por ciência no Brasil, Brasil está em apuros. Aparentemente as coisas não mudaram muito desde que Richard Feynman teve seu encontro decepcionante com o sistema de educação brasileiro. No entanto, é claro que não é justo destacar apenas o Brasil, porque essas mesmas coisas acontecem em outros países.

Se isso é o que se passa por ciência para Scientific American, a revista é uma caricatura repreensível e deveria cortar a palavra “scientific” do seu título. No que os editores estavam pensando quando eles impuseram esse tipo de lixo aos seus leitores? Que vergonha!

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Nota do Editor: Em 05/04/2012, a Scientific American Brasil, por meio de seu editor-chefe, Ulisses Capozzoli, publicou no Blog da Sciam Brasil uma nota de esclarecimento chamada “Erro de Avaliação”. Segundo Capozzoli,

“Quando cometi o erro de avaliação a que me referi há pouco, atropelei o conteúdo conceitual: Scientific American, refletindo talvez a maioria das opiniões no meio científico, entende que homeopatia não é ciência.

Leitores indignados com minha avaliação enviaram e-mails à redação e abordaram a questão na rede social, o que permitiu que eu me desse conta da falha que havia cometido.”

O texto completo está disponível no Blog da Sciam Brasil.

Vale ressaltar que a autora do Science-Based Medicine, Harriet Hall, também publicou um post (disponível em inglês e português) comentando a nota do editor-chefe da Sciam Brasil.

Alex Rodrigues
Carioca de nascimento (15/07/79), por
  • Anônimo

    O “quântico” está se tornando o novo “sustentável”.

  • Anônimo

    Uma retratação que não soa como retratação, e sim como tentativa de justificar o injustificável. Não só isso, mas o mesmo editor no post anterior do blog da SciAm Brasil vem tentar mostrar as graças da acupuntura e colocá-la como ciência???

    Isso é vergonhoso e revoltante, o editor da filial nacional de umas das mais reconhecidas revistas de divulgação científica é um adepto da nova era…

  • Anônimo

    Relendo os dois posts citados (retratação sobre homeopatia e defesa da eficácia da acupuntura) eu notei que o editor tem uma característica bastante marcante. O uso excessivo da falácia Ignoratio elenchi. Sempre trazendo comentários sobre a história da ciência quando estava prestes a dar uma conclusão e evitando assim qualquer posicionamento problemático.

  • Anônimo

    Luiz, concordo em parte com você. Mas não posso deixar de notar que o erro foi reconhecido e, em algum grau, reparado. O que mostra que, apesar dos deslizes que sempre ocorreram e sempre ocorrerão, a revista voltou-se para a ciência, negando a homeopatia.

  • Anônimo

    Rídiculos são os comentários no blog que o editor fez a retratação. Esse papo de que a ciência é dogmática dói nos nervos.

  • Anônimo

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  • Anônimo

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  • Anônimo

    Sou leitor ávido do SBM, alias não conheço nada do nível Brasil. Não me surpreendi ao ver nosso páis retratado como divulgador de pseudociência. Oque mais me chamou atenção foi o fato de ter sido divulgado pela SA

    Vejo que aqui no Brasil não há abertura para discussão verdadeiramente científica nem nas melhores universidades. Recentemente discuti com uma enfermeira do Hospital do Cancer (HC – SP) sobre o absurdo do uso de acupuntura. Ao final da discussão acabamos discordando sobre ética/moral, porque ela percebeu que na parte cientifica tinha perdido

    Se ao menos as pessoas entendessem oque é ciência ou quem foi Karl Popper (entre outros). Teríamos a oportunidade de abrir os olhos das pessoas para a possibilidade de estarem sendo enganados ou auto-enganados 

    Espero que o próximo dia de overdose homeopática seja maior e melhor que do ano passado. Só assim poderemos chamar a atenção da mídia e consequentemente das pessoas para a discussãoPS: Não consigo logar no SBM para comentar. Alguém sabe porque ? 

  • Anônimo

    Quando li a matéria na edição de Abril também “levei um susto”. Fico mais calmo de saber que a matéria foi reconhecia como um erro pelo editor.