Bule Voador

5 estereótipos de gênero que costumavam ser o exato oposto

Fonte: Cracked
Autoria: J.F. Sargent
Tradução: Guilherme Balan

(Introdução do tradutor:) A Cracked é um site de humor, mas que trata de todo tipo de tema, como história, biologia, fatos curiosos ou macabros, tudo sempre com muitas piadas e às vezes sarcasmo. Muitos dos artigos lá são em tópicos (“5 coisas que…”) e eles normalmente não se explicam por completo o que estão afirmando (normalmente só o suficiente para informar, dar uma lição e para fazer tirar humor daquilo). Mas há sempre links para outros textos pela Internet que detalham o tema – portanto, se alguma alegação parecer suspeita ou mal explicada, sugiro seguir as fontes e descobrir por si mesmo se o que estão afirmando faz sentido. Tenho vários artigos da Cracked que gostaria de traduzir, mas esse texto sobre estereótipos que saiu nessa terça-feira (24 de abril) foi tão marcante que resolvi começar já por ele, tanto pelo meu interesse por questões de gênero, quanto pela minha experiência como cético.

Lendo sobre ceticismo e aplicando ele na minha vida, eu aprendi a gostar de desvendar alegações paranormais e todo tipo de lendas que se espalham pela Internet (via Ceticismo Aberto em boa parte das vezes, com sua investigação impecável). Com o tempo, vim tentando espalhar essa atitude para outras áreas, como minha visão geral da história (descobrindo, por exemplo, que a África tem uma história imensa!), noções de saúde e de realização pessoal, e também o padrões sobre relações pessoais, noções de grupo ou de estrutura familiar, e também estereótipos de gênero. Eu vejo muitas vezes essas distorções sendo causadas por crenças transcendentais, superstições ou tradicionalismo cego. Só que elas também podem ser causadas por noções erradas ou dogmatizadas da própria ciência, tanto pela inculcação de ‘propósitos biológicos’ em comportamentos culturais quanto pela negação de predisposições genéticas que alguns ou todos nós temos. Seja qual for a origem desses estereótipos, a perda é sempre gigantesca, tanto pra quem fica preso no modelo, quanto pra quem é segregado por estar fora do “normal”. Então vamos tentar quebrar alguns deles, dessa vez com humor.

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Os estereótipos mais difíceis de quebrar são aqueles tão velhos que vêm lá de trás, dos nossos dias de caçadores-coletores. Afinal, como você pode discutir com biologia? Mulheres carregam os bebês, homens têm a força no tronco para caçar gazelas. Ninguém inventou isso do nada.

Mas se a sociedade nos ensinou uma coisa, foi a facilidade que temos de enfiar mais e mais emendas nessa lei, a ponto de alegarmos que todos os estereótipos sexuais e de gênero remontam aos primórdios da evolução humana. Claro que, na verdade…

5. “Rosa é coisa de menina” é uma ideia recente

Para a maioria das famílias, descobrir o sexo da criança logo cedo é crucial, já que todo mundo precisa saber a cor da roupa e dos brinquedos pra dar a elas – rosa ou azul? Quase imediatamente depois de nascer, um bebê é equipado com o uniforme dele ou dela (uma camisetinha azul ou um lacinho rosa, respectivamente) para que não haja confusão. Você não quer que sua criança se torne gay, não é?

“Margaret, tire esses trajes do pequeno Steve imediatamente”

Se é uma menina, não se esqueça de pintar o quarto de rosa e arranjar cortinas rosas. Rosa é uma cor inerentemente feminina, que nos faz pensar em flores, aromas gostosos e delicadeza, enquanto azul é, hm, futebol, caminhões Chevy… Smurfs… aquela gatinha azul sem camisa do Avatar

Mas houve um tempo…

Se está começando a parecer arbitrário, é porque é completamente arbitrário. Até o início da 1ª Guerra Mundial, as pessoas não se importavam com as cores das fraldas das suas crianças, porque era a droga do século 19. A cor do tecido embaixo do cocô do bebê é a última coisa que você pensa quando você tem que lidar com taxas de mortalidade infantil insanamente altas, a Guerra Civil, cólera e os grupos errantes de lobos comedores de criança (olha, os tempos passados eram difícies, ok?).

Não se preocupe, Júnior, cachorros são amigos!”

Felizmente, todos os nossos problemas de gênero foram resolvidos lá pra 1910, quando decidimos dar uma cor para cada “time”: azul para meninas e rosa para meninos. Não, não foi um erro de digitação: um editorial de 1918 da Earnshaw’s Infants’ Department [“Departamento Infantil de Earnshaw”] afirmou que rosa era “uma cor mais forte e decidida (…) mais apropriada para o garoto; enquanto azul, que é uma cor mais delicada e graciosa, é mais atraente para as garotas”. Faz sentido: rosa é a cor de um delicioso e másculo bife cru, ou o sangue de seus inimigos manchando um uniforme branco.

Por isso que o Matt Stone parece muito mais másculo que o Trey Parker.

Mas as coisas começaram a trocar lá pra 1927, quando houve discordância sobre que gênero deveria ficar com qual cor – a revista Time até publicou uma table mostrando que lojas estavam defendendo que cor. Não foi até 1940 que as cores trocaram e os anunciantes decidiram ficar com o rosa para as meninas.

Isso vai além de cores, aliás. Por exemplo, repare nessa criança:

Naquela época, botas de couro até a coxa eram pra bebês, não dominatrixes.

Bonitinho, né? Agora vamos ver como ela se parece toda crescida:

Ela é a que está na cadeira de rodas.

Isso mesmo, é Franklin Delano Roosevelt naquele vestido. Naqueles tempos, era comum enfiar toda criança em um vestido, porque e daí? Assim, verifica-se que o verdadeiro perigo de vestir de maneira andrógina é a de sua prole ser eleita presidente dos EUA quatro vezes seguidas.

4.Chorar costumava ser um símbolo de hombridade

Quiz: qual é a diferença entre Bruce Willis e Ben Afflec? Resposta: quando os dois estavam engajados na tarefa de impedir um meteoro de destruir a Terra, um deles chorou e o outro salvou o mundo.

Na foto: o que não é o herói.

Um homem chorando em um filme só pode ser duas coisas: ou ele perdeu o controle, ou ele é mais do tipo romântico e sensível do que um herói de ação. Por isso que Leonardo DiCaprio derramou lágrimas de indecisão em praticamente todos os filmes que ele já fez, enquanto sabemos que Liam Nesson em Busca Implacável nem mesmo possui canais lacrimais. É natural: nós vemos um homem que chora como fraco e incapaz – mulherzinha, se você prefere.

Homens que choram não aplicam o golpe do soco no pescoço.

Mas houve um tempo…

Quando os épicos da Grécia Antiga foram transferidos pro papel pela primeira vez, pode apostar que eram papéis manchados com as lágrimas de seus protagonistas. Odisseu (o cara que matou um Ciclope e ganhou a Guerra de Tróia) caía em lágrimas periodicamente, pelo menos uma vez porque ele ouviu uma canção sentimental. Isso é porque na cultura da Grécia antiga, “era esperado do homem que ele chorasse se a honra de sua família estivesse em jogo”. Um dos grandes sinais de hombridade verdadeira era derramar lágrimas.

“Eu choro, pois agora terei que estrangular uma bela criatura com minhas próprias mãos”

É, mas isso é a Grécia, né? Eles eram todos meio andróginos! Pelo contrário: essa ideia se espalhou por muitas culturas, continuou pela Idade Média e chegou até o Movimento Romântico. Samurais japoneses, heróis medievais e até o próprio Beowulf, todos choraram como bebês durante suas aventuras. Até pouco, no século 19, lágrimas masculinas eram na verdade aclamadas como um sinal de honestidade, integridade e força. E não no sentido de “você é corajoso o suficiente para demonstrar suas fraquezas”, mas como um símbolo de que você se importava de verdade. Provavelmente significava também que você tinha confiança de que ninguém ia tirar sarro, já que você tinha acabado de ganhar uma batalha ou de desmembrar um monstro usando apenas suas mãos.

3. TPM não deixava as mulheres irritadas

Ah, vai, todo mundo sabe sobre tensão pré-menstrual, ou TPM. São aqueles dias do mês em que o ciclo de uma mulher transforma ela em um ser irracional que só sabe gritar. Por isso que não podemos ter uma mulher presidente: teríamos uma guerra a cada 28 dias (porque presidentes podem mesmo decidir se a gente vai ou não pra guerra)! É também por isso que as mulheres têm que ficar na cozinha fazendo sanduíches, porque machismo machismo machismo.

“A gente acabou de bombardear o Canadá porque ele disse que ficamos gordas com esses sapatos”

Mas houve um tempo…

Enquanto cientistas sempre acharam motivos para descartar como irracionais qualquer opinião feminina, suas desculpas são bem inconsistentes. Na Grécia antiga, Hipócrates colocava a culpa do mau humor feminino em um deslocamento do útero que bloqueava o coração, e portanto a mulher devia fazer o máximo de sexo possível para empurrar o útero de volta pro lugar.

Quando sexo começou a ser considerado mais como um pecado com a chegada do cristianismo, essas explosões “irracionais” de raiva começaram a ser culpa de muito sexo. Daí, pro final do século 18, eram consideradas um efeito colateral de ficar muito tempo sem engravidar.

Se com “muito tempo” você quer dizer “um mês”

Então o que a ciência diz? Bom, se os pesquisadores não contam para as participantes o que eles estão procurando, eles não encontram nenhuma relação entre alterações de humor e o ciclo menstrual. Até entre os estudos que encontram correlação entre TPM e humor, muitos deles encaixam a TPM em lugares completamente diferentes no ciclo feminino.

“Eu não estou de TPM – eu tô furiosa”

Não estamos dizendo que hormônios não alteram o comportamento – eles alteram sim, tanto em homens quanto em mulheres – mas há pouca evidência pra sugerir que mulheres ficam emocionalmente comprometidas ou irracionais durante a suposta fase de “TPM”.

O maior problema aqui é separar a cultura da biologia. Ou, mais especificamente, o jeito que nós descartamos efeitos culturais como biológicos. Nós somos ensinados desde a infância que o ciclo da mulher vai fazer ela ficar “toda nervosinha”. Independentemente da verdade, isso dá carta branca para uma mulher ficar de mau humor, e para um homem descartar qualquer reação emocional feminina como uma série de ruídos causados por suas partes íntimas.

2. Estereótipos de gays trocam mais do que as roupas de um homem gay

Se existe uma coisa que péssimos roteiristas de sitcoms nos ensinaram, é que fazer pessoas gays e heterossexuais interagir um com o outro tem consequências looooooucas! O motivo é obviamente que homens gays tem muito em comum com mulheres hetero, enquanto mulheres gays que não são “lésbicas femininas” são, claro, motoqueiras duronas tatuadas.

Mulheres não podem sequer segurar uma chave inglesa até tirarem seu Cartão Lésbico.

Claro, todo mundo que já conheceu (ou é) uma pessoa homossexual sabe que essas coisas não são necessariamente verdadeiras, mas é difícil quebrar estereótipos com séculos de idade. Por isso que você ainda ouve coisas como “Eu não sou homofóbico, mas, vamos admitir, aquela afetação gay e aquela grosseria feminista são esquisitas, não são? Eu não me importo que sejam homossexuais, desde que eles se comportem normalmente

Mas houve um tempo…

Como essa lista está aos poucos demonstrando, “se comportar normalmente” nunca foi a mesma coisa por muito tempo e… supresa! É o mesmo para o comportamento homossexual! Mais uma vez, tentar separar influências culturais de biologia dá uma confusão enorme.

Acima: saias masculinas tradicionais de samurai

Por exemplo, apesar do estereótipo atual de que homens gays são afeminados, durante a Renascença boa porte de ser “macho” era ser bissexual. Até pouco, nos anos 1930, mulheres “masculinas” (isso é, mulheres que gostavam de esporte e agiam como moleques) eram vistas como garotas hetero perigosamente promíscuas, o tipo de menina desandada que mostra sua vulgaridade dançando em cima de mesas e se recusando a se dar bem com a sua mãe, por mais que ela capriche na torta.

É como nossos vovôs diziam: “se ela gosta de arremesso, ela gosta de uma enterrada”*

Uma boa parte disso é a ideia relativamente recente de que “gay” é uma classe distinta de indivíduos, algo que não apareceu de verdade até a década de 1860. Não nos entenda mal – sexo homossexual era amplamente considerado como imoral bem antes disso, mas até então, qualquer um podia ser alguém que praticava. E não havia jeito de reconhecê-los porque, bem, além de suas práticas sexuais, eles eram como qualquer outra pessoa.

1. O “lugar do homem” e o “lugar da mulher” é qualquer um que faça sentido economomicamente

Pergunte a qualquer um e eles vão te dizer que enquanto a emancipação das mulheres é uma coisa boa agora, a verdade da questão é que ela passa por cima de milênios de evolução. Por todo o tempo que a sociedade existiu, homens foram os caçadores-coletores e as mulheres foram as domésticas. Não há nada sexista nisso (eles vão insistir), é só a realidade. Por toda história existiu o “mundo do homem” e o “mundo da mulher”, e nunca os dois deverão se encontrar.

 A não ser que eles estejam se “doisando”, se é que você entende (estamos falando de sexo)**

Mas houve um tempo…

Apesar do que os Flintstones devem ter te ensinado sobre valores familiares das cavernas, a distinção entre “mundo dos homens” e “mudo das mulheres” é na verdade bem nova, e por bem nova queremos dizer a Revolução Industrial.

Cuidar de uma casa não é um passeio no parque mesmo hoje em dia, mas como mencionamos no início desse artigo, era um pesadelo no século 18. Enquanto um pai contemporâneo que sabe trocar fraldas e lavar a louça é considerado “bom partido” ou “progressista” (ou “domado”, dependendo da sua perspectiva), antigamente isso era… ser um pai. Garantir que um bebê ia viver tempo o suficiente para trabalhar na fazendo era uma responsabilidade importantíssima, e ao invés de discutir de quem era a tarefa, as pessoas só faziam.

“Pronto, Billy, terminamos aqui. Volte pra plantação”

Há muitos motivos para as coisas terem mudado, mas basicamente se resume à chegada do trabalho fora de casa. Trabalhar nas fábricas significa não estar em casa o dia todo e homens pegaram a maioria dos trabalhos nas fábricas porque… você sabe, século 19. Foi então que o “culto à condição feminina verdadeira” apareceu e a ideia da maternidade como um trabalho de período integral se tornou popular e aceita. Conforme o mundo industrial se tornou mais brutal e competitivo, uma fronteira mais forte entre as duas esferas virou a norma, e antes que você percebesse, BUM: Mad Men aconteceu.

Aconteceu no estilo patrão.

Quanto mais estudos nós fazemos, mais parece que o único comportamento consistentemente considerado normal é a tendência de sermos rígidos demais com o que um comportamento normal tem que ser – e daí sermos uns escrotos com as pessoas que não se encaixam. Então, da próxima vez que você ouvir alguém ser criticado por não ser “masculino” ou “feminino” o suficiente, lembre-se que, em boa parte, a única coisa impedindo que seja o completo oposto são os números no calendário.

Você pode ler mais de J.F. Sargent no Doc Sarge’s Funkademy of Antagonistics e no PCulpa.com. Também no Twitter.

Notas:

* a frase original se referia a sexo anal

** o trocadilho original era com a palavra twain (dois), a foto era de Mark Twain e o verbo inventado era “twaining

Guilherme Balan
  • O pior desses estereótipos de identidade de gênero é como as crianças absorvem isso rápido.
    Uns dias atrás, um dos meus sobrinhos, de 6 anos, me pediu pra desenhar um dragão pra ele. Eu fiz, e uns 5 minutos depois veio a irmã dele, de 4 anos, e disse que queria um também, mas que fosse “de menina”. Eu fiquei uns 5 segundos olhando pra ela e pensando no que responder, porque um dragão é um dragão, ele não é nem “de menino” nem “de menina”, mas como explicar isso pra uma criança de 4 anos? Acabou que eu fiz exatamente o mesmo dragão pra ela que eu tinha feito pro irmão, só que com um laço na cabeça pra agradar ela.

    Meu outro sobrinho, com 4 anos na época também, ao me ver escovar os dentes com uma escova rosa me questionou porque eu tava com uma escova “de menina”. Até tentei explicar pra ele que todo mundo pode usar coisas de todas as cores, mas ele não curtiu muito a ideia.

    É difícil competir com a educação machista que eles tem tanto em casa, quanto na escola.

    • AlexRodriguesdoNascimento

      Quando eu vejo as pessoas à minha volta esperando ansiosamente que seus amigos que vão ter um filho confirmem logo se o bebê é menino ou menina, para só então comprarem um presente (porque na cabeça deles não tem meio termo, é azul pra um e rosa pra outra), me dá um desânimo…

      Em 26 de abril de 2012 15:20, Disqus escreveu:

      • Comprem preto! Clássicos sempre serão clássicos 🙂

  • Marcelo Gaio

    Eu acho lindo as meninas se identificarem com rosa e os meninos azul como atualmente, é uma grande referencia que é mais positiva do que negativa, individualiza os sexos biologicos. Hoje os brinquedos, roupas e lapis de cor tem uma gama enorme de tons de rosa e azul, tipo rosa bebê, azul bebê, turqueza, pink, vermelhos claros, rosa chá, rosa coral, electric blue etc o que é mais interessante ainda pra criançada.
    As meninas estao gostando muito de um roxo clarinho, meio intermediario entre azul e rosa. Os bonecos, bonecas, carrinhos e mini-cozinhas estão explorando muito essa combinaçao.

    Eu aqui no meu trabalho, sempre que tem criança, pego os sinais que elas mesmo me passam. Por exemplo se uma criança ja tem um lacinho rosa, eu escolho rosa sambem. Se a criança vem com motivos mais militares, eu pego um verde, se vem com camisa de futebol, mesma coisa. Sempre existe uma referencia por tras.

  • Para a revolução industrial funcionar e o mercado – que antes se determinava por peças indiviuais, feitas sob medida para cada cliente – absorver um novo tipo de produto padronizado e comum precisou haver um grande trabalho normativo. O séc. XIX é cheio de tomos sobre isso e aquilo. Há um livro chamado “O mito do amor materno” que ilustra bem como a ideologia da família nuclear se formou e foi absorvida pela cultura européia que até então via os filhos como “prova do pecado do sexo” e os mandavam ser criados por amas de leite do outro lado do país ainda bebezinhos (quanto mais distante, mais rico era o pai). Como mudou?

    Tornou-se necessário, com os novos meios de produção, padronizar o próprio desejo para que as individualidades não viessem a impedir o comércio dos produtos padrão. Foi quando a população tornou-se massa em seu sentido mais farináceo. Os especialistas, valorizados agora como detentores e produtores de conhecimento, passam a produzir inúmeros guias sobre psicologia, comportamento humano, sociologia, medicina, etc. Tudo extremamente tateante, sem praticamente nenhuma expmentação profunda por trás, mas recoberto de determinismos. Foi a época de Schreber, outro livro fantástico (Memórias de um doente dos nervos), dos mecanismos bizarros de corrigir a postura, dos sapatos ortopédicos… A padronização atingiu desde cedo o próprio corpo, afinal, um pé chato não comprará meus sapatos feitos com um molde só! E apesar da variabilidade dos produtos que o séc XXI alcançou, parece, entretanto, que estamos muito mais atados hoje à padronização do desejo e do corpo do que na época dos grandes tomos.

    Não fomos geneticamente preparados para essa estandartização do existir e muito mais do que a repressão do sexo, a repressão da individualidade tem causado sintomas e desajustes preocupantes. O poder da igreja sobre o instinto reprodutivo apropriou-se da repressão para atuar. O poder do mercado sobre as indívidualidades não é tão eficaz assim e para tornar indivíduos em massa foi necessário lançar mão de recursos tão mais sutis e disseminados que torna-se virtualmente impossível distinguí-los a tempo de se lutar contra eles. Um exemplo atualíssimo é o crescimento do movimento ateísta que a princípio foi visto com satisfação pelos ateus sólitários de antes da internet, mas que ao virar massa está perdendo todo o sentido e hoje encontramos discussões por todos os lados sobre como resolveremos o problema.

    • Bem perspicaz, Kátia.

    •  Exatamente.
      E sabendo disso, eu acho triste e assustadora a forma como as coisas acabam se naturalizando. É até compreensível que os comportamentos acabem ficando cristalizados, pois como tu bem expuseste, fazem parte de um processo histórico que não pode ser deixado de lado. Agora, ser pressionada a se encaixar nesses estereótipos, com o argumento de que “é natural”, é desanimador.

  • Mia Teixeira

    ahahahahaha

  • rayara almeida

    Essa é a proposta da loja de gênero neutro: http://www.azulparameninas.com.br

  • rayara almeida

    Sim sim, como acabei de falar, essa é a proposta de uma loja de gênero neutro:

    http://www.azulparameninas.com.br/blogs/azul/17606776-manifesto-azul

    Criança tem que ser CRIANÇA.

  • marcus

    Muito mais estiloso que qualquer rosa ou azul! :v