Bule Voador

“Tenho tantas dúvidas!”

Autor: Eli Vieira

“Tenho tantas dúvidas!”

– Irmã Aloysius Beauvier, personagem interpretada por Meryl Streep em Doubt (2008).

Esta cena tocante de uma madre superiora de um colégio de freiras, torturada pela dúvida sobre o padre local (Philip Seymour Hoffman) ter assediado um menino, e outras dúvidas subentendidas, é uma interpretação artística de uma faceta humana inevitável: nossas reações emocionais diante da dúvida.

Os riscos que tomamos diariamente em nome do prazer nos levarão a um futuro de dor? As decisões que tomamos em nome de nossas crianças e em nome daqueles sob nossa tutela são mesmo mais benéficas que maléficas no saldo final para eles?

Em contextos assim, expressar dúvida pode parecer expressar fraqueza, e a situação de muitos é que não desejam expressar fraqueza para aqueles que já estão fracos e dependem da força alheia.

No meio cético, gostamos de repetir que preferimos a verdade dura à ilusão reconfortante, mas a verdade dura é mesmo sempre o que damos aos outros, é mesmo recomendável que seja sempre o que devemos dar aos outros?

Façamos um experimento mental: imaginemos Elizabete, uma homeopata que passou 65 anos de sua vida receitando o placebo homeopático a seus pacientes, que a procuravam geralmente com pequenos inconvenientes que em duas semanas seriam resolvidos por seu próprio sistema imunológico, ou pequenas somatizações de angústias do dia-a-dia. Elizabete, terapeuta empática e atenciosa, ouviu milhares de vezes relatos de cura de seus pacientes, anedoticamente creditada à suposta eficácia de seus preparados de água e açúcar. Elizabete tem 80 anos agora.

Que mérito haveria na atitude de um cético de ir até a aposentada Elizabete, armado com cálculos estequiométricos, meta-análises e citações de Hahnemann, tentar convencê-la de que sua carreira inteira foi baseada numa pseudociência e em falsos positivos? Em outras palavras, que qualidade de consequências resultariam de tal atitude?

A prática do racionalismo crítico (ceticismo) precisa ser acompanhada de reflexões éticas sobre as consequências de aplicá-lo nos contextos em que decidimos aplicá-lo. Metralhar a tudo e a todos com o ceticismo equivale a decidir de antemão que a primeira coisa que faremos quando um ET aparecer neste planeta será abri-lo com nossos bisturis.

Quando debati com uma homeopata na TV no ano passado, tive tais dúvidas. Ela não era nenhuma Elizabete, mas, ao conversar com ela nos bastidores e observar o esforço dela em tecer hipóteses acessórias para proteger seu núcleo de crenças preciosas (o que não é só ela que faz, todos fazemos), fiquei com uma pulga atrás da orelha por um ano inteiro.

É preciso pesar em que contexto as ditas crendices devem ser combatidas. Coisas como a homeopatia são maléficas em larga escala, quando o conjunto de praticantes começa a ter mais do que Elizabetes: começa a ter pessoas como a homeopata que me disse tête-à-tête, com orgulho, que jamais vacinou seus filhos e que espalha ao maior número de pessoas possível que vacinas são venenos da indústria farmacêutica. Na escala pública, certamente as consequências do Ministério da Saúde gastar milhões com homeopatia, e do Conselho Federal de Medicina reconhecê-la como especialidade médica, são consequências negativas.

Nesta escala, debates na TV e demonstrações públicas se justificam. Foi por isso que sugeri que a II Overdose Homeopática do Brasil, que acontecerá em maio, tenha o propósito explícito de meter o dedo na política e pressionar os dois órgãos a fazer o que é certo, tanto do ponto de vista científico, quanto do ponto de vista ético que leve em conta os prejuízos de substituir terapias testadas e aprovadas por pajelanças e afins.

Mas sobre confrontar os pajés, não se enganem: tenho tantas dúvidas!

Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org
  • seria interessante saber se a própria elizabete se cura do jeito que ela cura seus pacientes.