Bule Voador

Tudo é possível! Mas, quão provável é cada possibilidade?

Autor: Homero Ottoni

Quimera é uma figura mística caracterizada por uma aparência híbrida de dois ou mais animais e a capacidade de lançar fogo pelas narinas, sendo portanto, uma fera ou besta mitológica.

Tudo é possível. Sério, eu estou defendendo que tudo, mesmo, é possível, até mesmo que deuses existam, ou unicórnios, ou fadas e mesmo URI, o Unicórnio Rosa Invisível. E não estou brincando ou sendo sarcástico.

E não apenas eu penso assim, a ciência, os cientistas e os céticos também pensam dessa forma. Na verdade, apesar da constante acusação de “falta de imaginação”, teimosia, mente fechada e incapacidade de pensar fora da caixa contra os cientistas, essa posição é a base da ciência que se considere, inicialmente, que tudo é possível.

Mas como isso pode ser? Como se criou a sensação de que a ciência lida com certezas e que defende impossibilidades? Que sua posição é de rigor contra “os absurdos” da imaginação? E como eu posso defender algo tão absurdo assim, que tudo é possível?

Galileo Galilei

É preciso entender que a ciência se baseia na dúvida. Um tipo de dúvida específica, embasada, coerente, lógica e racional. A decorrência de ser assim é justamente considerar que tudo é possível. A dúvida garante isso. Por exemplo, embora tudo pareça indicar, todas as experiências pessoais, todo bom senso e toda tradição que objetos caem em velocidades diferentes, dependendo de seu peso, indicando que objetos mais pesados caem mais depressa, a dúvida científica nos leva a pensar, “e se não for assim?”.

Um cientista chamado Galileu pensou dessa forma e duvidou de algo que parecia claro e bem estabelecido, e descobriu, para espanto de todos, que objetos de qualquer peso caiam com a mesma velocidade. Seus experimentos inauguraram a ciência moderna.

Continuando sua tarefa de duvidar das coisas, descobriu, ou melhor, provou que a certeza de que o Sol girava em torno da Terra estava incorreta também.

Instrumento que Galileo usou para abduzir a lei da queda dos corpos no vácuo, quebrando a tradição aristotélica, que o peso de um corpo não exerce influência na velocidade da queda livre.

Claro que refutar certezas acaba provocando conflitos com quem realmente vive de certezas, as religiões, a fé religiosa, por exemplo. Sempre acusando a ciência de ter “certezas absolutas”, na tentativa de desviar a atenção de suas próprias certezas e verdades absolutas. Se alguém tem certezas sobre as quais não abrirá mão não importa o que aconteça, nem as evidências disponíveis, é a religião e a fé. Embora eu e a ciência estejamos dispostos a aceitar a possibilidade de existência de deus, alguém pensa que um religioso, digamos o Papa, aceite a possibilidade de NÃO existir deus? Seu deus?

Mas se a base da ciência, do conhecimento científico, é a dúvida, se esta considera que “tudo é possível”, como ela pode fazer afirmações, construir conhecimento confiável, que elimine determinadas alegações, e reforce outras? Como ter confiabilidade e segurança nesse conhecimento, que permita a derivação tecnológica, os desdobramentos como computadores, medicamentos, informação sobre o universo, a vida e tudo o mais?

A resposta é que embora tudo seja possível, nem tudo é possível com a mesma probabilidade. Entre as coisas que são “possíveis”, algumas são mais prováveis que outras. E é essa a tarefa da ciência, e é isso que dá segurança ao conhecimento científico, que é, em resumo, o conjunto de conhecimentos sobre as coisas que são mais prováveis e sobre as que são improváveis.

Algumas coisas são tão prováveis, tem tão alta probabilidade de ser, que beiram a certeza, e muitas vezes são confundidas com estas. É altíssima a probabilidade do Sol surgir amanhã. Quase uma certeza. Quase. A ciência sabe que é possível (tudo é possível!) que algum fator totalmente desconhecido sobre a natureza, evolução ou fim de uma estrela como o Sol possa fazer com que exploda esta noite e destrua a Terra, de forma que não tenhamos “nascer” do Sol amanhã. Pode ser.

Mas o que sabemos, no momento, torna essa possibilidade, embora real, muito improvável, quase desprezível. Quase uma certeza. Quase. A maior parte das teorias científicas está nessa classe, são quase certezas, sendo desprezível a probabilidade de serem incorretas.

Todo conhecimento científico tem essa natureza dupla. Ele é o mais provável que podemos sustentar no momento, e muitos deles beiram a certeza. Mas são, qualquer um deles, todos eles, apenas uma possibilidade, e as alternativas sempre podem ser “possíveis”, ainda que improváveis.

Um experimento mental, para tentar entender a questão das possibilidades e probabilidades, pode nos ser útil.

Você está visitando um haras de um amigo que cria cavalos de raça. Mostrando a propriedade em uma longa caminhada, vocês encontram marcas de cascos na trilha por onde andam.

Resolvem então tentar adivinhar a que tipo de ser pertencem. Vocês fazem uma aposta, em que as possibilidades são estas:

  1. um cavalo
  2. um burro
  3. uma zebra
  4. um unicórnio
  5. um centauro

Considerando que “tudo é possível”, qual das opções acima você escolheria?

Parece brincadeira, claro, mas temos de responder, não apenas porque escolhemos uma delas, mas principalmente porque NÃO escolhemos uma das outras. Lembre-se, estamos concordando que tudo, TUDO, é possível.

O raciocínio que podemos apresentar seria mais ou menos este: é um haras, então a quantidades de cavalos deve ser maior que em outros lugares, o que coloca o cavalo como a escolha mais provável. Em seguida viria o burro, que pode ser usado em um haras como transporte ou animal de trabalho.

Depois a zebra. É improvável, mas existem zebras, sabemos que existem. E existem circos. E zebras podem escapar de circos e de zoológicos. Então, uma zebra ainda está dentro da probabilidade de ser correta como escolha. Se você tiver lido no jornal de manhã, por exemplo, que uma zebra escapou do circo ontem, pode resolver correr o risco, e ganhar mais apostando no pouco provável (como apostadores em corridas de cavalo às vezes tentam ganhar mais apostando no azarão).

Em seguida vem o unicórnio. Não, não ria. Concordamos que TUDO é possível, então temos que considerar essa possibilidade. Como avaliaríamos essa probabilidade, dentro da possibilidade que seja um unicórnio?

Bem, um unicórnio é em boa medida um cavalo. Sabemos que existem cavalos, e sabemos que existem animais com chifres. Não é uma impossibilidade nem biológica nem genética que um ancestral do cavalo tivesse evoluído para ter um chifre, nem que se descobrisse, bem na propriedade de seu amigo, uma espécie desconhecida.

Evidentemente eu não acredito nessa “possibilidade”, ou melhor, eu dou baixíssima probabilidade a ela. Certamente não arriscaria dinheiro apostando nisso. Mas é uma possibilidade.

E por que ela está acima do centauro?

Porque o centauro, metade homem metade cavalo, viola muitos dos conhecimentos que temos sobre o universo. Ele não poderia evoluir neste planeta (em outro, quem sabe), ele não poderia compatibilizar a biologia de um cavalo com a de um humano, as estruturas ósseas não se ajustariam, etc, etc, e nunca se encontrou um centauro antes.

Ela é obviamente a última opção, a mais improvável, mais até que o unicórnio, em termos de resposta a questão, que ser vivo fez as marcas de cascos na trilha. Mas não impossível. Tudo é possível.

Não é raro que eu escute a pergunta, “mas não acha que é possível que deus exista, não acha arrogância ter certeza de que não é possível” ?

Sim, eu acho que é possível, porque, como a ciência, eu acho que TUDO é possível. Mas uma vez determinado isso, que tudo é possível, é preciso esforço e dedicação, dentro de um método rigoroso, para determinar o quão possível esse tudo é, cada aspecto do que é alegado ser possível e quais evidências existem que sustentem essa possibilidade.

Um modo de demonstrar como a ciência admite que tudo é possível é examinar as coisas aceitas por ela, e que, em uma primeira análise, seriam consideradas impossíveis ou mesmo absurdas. Muitas dessas coisas se tornaram teorias universalmente aceitas, que não nos provocam mais espanto ou surpresa, pela familiaridade, mas que são espantosas em sua natureza mais profunda e frente ao nosso “bom senso”.

Até hoje minha mãe, com seus 73 anos, brinca com o fato de achar absurdo, impossível, espantoso, um telefone celular. Ela move as mãos no ar e diz, “olhe, palavrinhas voando de um lado para outro e chegando exatamente aqui, no aparelhinho, isso é impossível!”.

É uma brincadeira, claro, mas se pararmos para pensar, com atenção, é realmente espantoso, e seria considerado impossível por qualquer de nossos antepassados (ou simplesmente bruxaria). Pegue um aparelho celular, ligue para uma pessoa no Japão, e pense, enquanto conversa com ele, nas distâncias envolvidas e no conhecimento e tecnologia que sustentam essa invenção, de computadores a satélites geo-estacionários, das equações de Maxwell a relatividade, entre outros. É espantoso. E é absurdo. E é impossível. Pelo menos na visão de nosso bom senso e conhecimento limitado das teorias envolvidas.

The Cow Pock-or-the-Wonderful Effects of the New Inoculation! James Gillray (1757-1815) Photographic reproduction of an etching appearing in Vide — The Publications of ye Anti-Vaccine Society, June 12, 1802 National Library of Medicine Collection

O eletromagnetismo não é uma exceção. Continentes que se movem de um lado para o outro, colidem, erguem cordilheiras, se separam, etc, foi considerado impossível. Micro-organismos invisíveis, mas que podiam matar seres humanos, também. Vacinas, que absurdo! Sem falar em um ancestral em comum para todos os seres vivos e parentesco com chimpanzés! Parece que a cada teoria científica que se apresentou para análise, os gritos de “impossível” foram sua primeira recepção.

Mas foram aceitas, pelo peso das evidências. E este é o outro elemento importante, fundamental, do conhecimento científico. Tudo é possível, pois devemos duvidar de tudo. Mas não se deve “parar” na dúvida, e sim seguir em frente, para o próximo passo. Nem tudo é possível com a mesma probabilidade, e descobrir essa probabilidade, as evidências que sustentem uma possibilidade, é o segundo passo para produzir conhecimento confiável.

Mesmo teorias científicas bem estabelecidas seguem o padrão da dúvida racional: tudo é possível, até mesmo que sejam incorretas ou precisem de ajuste. É necessário, entretanto, para serem demonstradas incorretas, o mesmo tanto de evidências e provas (ou mais) quanto as que as sustentam no momento.

Um exemplo dessa forma de ver o mundo, a dúvida e a admissão de que TUDO é possível, foi o recente estudo que parecia indicar que algo podia se mover mais rápido que a luz. Eu disse parecia, justamente porque é preciso muitas evidências para refutar uma das mais confiáveis e bem estabelecidas teorias científicas, a Teoria da Relatividade de Einstein.

Mas mesmo sendo a relatividade uma sólida teoria, uma quase certeza de realidade, e tendo resistido a quase um século de testes, estudos e tentativas de refutação, ainda assim os cientistas admitem a “possibilidade” de que esteja incorreta, ou precise ser ajustada ou modificada.

Não vão aceitar um único e ainda não validado estudo ou experimento como prova ou refutação, mas aceitam a possibilidade de que seja assim, e se dispõem a tentar replicar o estudo, analisar o experimento, verificar tudo de novo, para ver o que ocorreu na realidade. E, claro, estão dispostos a aceitar a mudança, mesmo em uma teoria como a Relatividade.

Se comparada com as certezas das religiões, e sua recusa firme, fanática, cega, de aceitar qualquer mudança ou correção, fica evidente onde a “mente aberta” existe na realidade.

Tudo é possível. Unicórnios rosas invisíveis, fadas, deuses, Odin, o Pé Grande e Nessie, Aquiles e Hércules, Quetzalcoatl, Elfos e Hobbits e até o Super Homem. Tudo, tudo mesmo, é possível. É possível que este universo todo tenha sido criado há 5 minutos atrás, e que será “descriado” daqui a 5 minutos. Tudo nele, espaços e galáxias, e suas memórias de sua vida, foram criados há 5 minutos. É possível porque não pode ser demonstrado, de forma confiável, que não é assim. Mas, quão provável seria isso?

Como todo assunto complexo, este não se esgota aqui. Há várias questões e desdobramentos, inclusive filosóficos e lógicos, como as posições agnósticas, atéias, teístas, deístas e mesmo a interessante posição em oposição à certeza absoluta, a dúvida absoluta, extrema, o solipsismo. São assuntos que merecem outros posts e análises.

Quão possível seria qualquer alegação? Pense nisso sempre que alguém apresentar uma possibilidade para você.

Referências

André