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Por que o ateísmo é uma crença — parte I

Autor: Gregory Gaboardi
Próximo: Por que o ateísmo é uma crença — parte II

Caspar Friedrich - O viajante sobre o mar de névoa (1818)

Constatei que a pergunta “ateísmo é crença?” provoca muitas confusões e que sua resposta é importante tanto para ateus quanto para teístas ou agnósticos: ao atacar ou defender o ateísmo devemos saber o que ele é e não há como saber tal coisa sem, com isso, saber se é uma crença. Cada resposta já tem seus proponentes, de modo que começarei pela apresentação de argumentos que defendem que ateísmo não é crença. Dividi o ensaio em nove partes e as duas partes iniciais são totalmente negativas: nelas apenas refutarei argumentos e darei o tom do estudo. Ao fim das duas partes iniciais terei mostrado que não existem boas razões para se pensar que o ateísmo não é uma crença, que é uma “ausência de crença” ou uma “descrença” (pensar que o ateísmo é tais coisas é o erro principal que quero denunciar). Contudo, antes de mostrar que existem boas razões sustentando o contrário, me aprofundarei na discussão sobre crenças: da terceira até a sexta parte introduzirei a Teoria dos Sistemas Intencionais de Dennett. Da sétima até a nona parte me ocuparei propriamente da questão do ateísmo ser uma crença e das consequências disto. Antecipo que considero o ateísmo uma crença e sustentarei que negar tal coisa não só é um erro como também pode causar outros erros graves.

Cabe notar que o tal erro principal não é cometido apenas por ateus. Suponho que ele tenha começado e se disseminado pelas tentativas de responder aos teístas que afirmam que ateísmo é crença e que, por isso, depende da fé. Tornou-se comum responder que o ateísmo não é crença, quando o certo seria mostrar que o teísta parte do pressuposto incorreto de que acreditar e ter fé são a mesma coisa. Ao responder que ateísmo não é uma crença, mas uma ausência de crença (ou algo que o valha) o ateu pode imediatamente colocar o ônus da prova sobre o teísta, sem ter que oferecer qualquer argumento positivo para o ateísmo, bastando repetir como um mantra que a ciência dispensa divindades, que religiões são más, entre outras coisas (coisas que podem refutar a argumentação teísta, mas que também poderiam ser ditas por um agnóstico ou, muitas vezes, até por um panteísta) que estão longe de estabelecer que divindades não existem. O que importa agora é que este erro assumiu grandes proporções e ameaça se tornar uma obviedade dizer que “ateísmo é ausência de crença”. Sei que é um erro que também pode ser encontrado na literatura (tratarei disto no fim deste ensaio), mas não busco elaborar aqui um tratado definitivo: quero apenas destacar um problema fundamental e sugerir uma solução.

Argumentos e refutações

Existem pelo menos dois argumentos que tentam estabelecer que o ateísmo não é uma crença. Chamarei um de argumento da fé, o outro chamarei de argumento da prova. Possivelmente existem mais argumentos, mas discutirei apenas estes dois porque, ainda que estejam equivocados, eles são intuitivos e populares. Esta primeira parte pretende antes ser introdutória do que ser uma crítica definitiva, servindo para destacar a relevância do problema e a forma como ele deve ser abordado. Não me preocuparei em citar fontes porque nunca vi qualquer reivindicação de originalidade sobre tais argumentos.

Argumento da fé

Se o ateísmo for uma crença, então o ateísmo depende da fé, o ateísmo não depende da fé; logo, o ateísmo não é uma crença.

As premissas são “Se o ateísmo for uma crença, então o ateísmo depende da fé” e “O ateísmo não depende da fé”. A segunda premissa me parece claramente verdadeira, ainda que em uma interpretação descritiva possa não ser o caso, pois plausivelmente existem (ou podem existir) pessoas que acreditam na inexistência de divindades por fé, sem qualquer justificação racional ou empírica. Porém, penso que a interpretação adequada é normativa, ou seja, temos de compreender a proposição “o ateísmo não depende da fé” como “o ateísmo não deve depender da fé”. Uma vez que aceitamos esta interpretação não há qualquer desacordo interessante sobre a veracidade da premissa.

Para que o argumento estabeleça sua conclusão a primeira premissa também tem que ser verdadeira, e discordo que seja. Tal premissa pode ser formulada como a conclusão do seguinte argumento:

Toda crença depende da fé e se o ateísmo for uma crença, então o ateísmo depende da fé; logo, se o ateísmo for uma crença, o ateísmo depende da fé.

Este argumento, mesmo sendo válido [1], contém somente premissas falsas e, assim, não estabelece sua conclusão. Analisemos primeiro a premissa “toda crença depende da fé”. Antes adotamos uma interpretação normativa de “o ateísmo não depende da fé”, o problema é que com esta premissa nem a interpretação descritiva e nem a interpretação normativa resultam em proposições verdadeiras. É falso que “toda crença depende da fé” se com isso estamos descrevendo como são as crenças, pois existem várias crenças que não dependem da fé (tratarei disso em seguida). Também é falso que “toda crença deve depender da fé”, algo que talvez nem os religiosos mais fervorosos defenderiam. Entretanto, mesmo que ambas as interpretações resultem em proposições falsas, a primeira interpretação é mais plausível que a segunda, por isso assumirei que é a interpretação correta. Ainda assim ela inverte as coisas, porque mesmo que toda fé embase alguma crença, não é o caso que toda crença seja baseada em fé. Acreditamos em diversas coisas por outros meios além da fé (e independentes da mesma): acreditamos que 2+2=4 (através da razão) e acreditamos que a Lua é menor do que a Terra (através da experiência), por exemplo. Poderíamos listar inúmeras crenças que não são mantidas pela fé, desde crenças comuns como as que são expressas em “Creio que as chaves estão em meu bolso”, “Maria acredita que Pedro foi ao cinema” e “Todos creem que amanhã não haverá aula”, até crenças mais sofisticadas como “Maria acredita que a seleção natural explica muitas características psicológicas dos seres humanos” ou “Creio que a democratização do Egito será benéfica para a economia local”.

Crenças são coisas que as pessoas expressam no que afirmam, coisas com as quais podemos concordar ou discordar. Talvez alguns prefiram termos como “pensamento” ou “opinião”, mas isto não muda o fato de que tais coisas são crenças, de que o termo “crença” não é sinônimo de “fé”. Quando descobrimos que estávamos enganados sobre algo descobrimos que acreditávamos em algo falso, não faria sentido dizer que descobrimos que tínhamos fé em algo falso. Em suma, a noção de crença é empregada em diversos contextos e parte significativa destes contextos não se relaciona com os casos em que ter uma “crença” é entendido como ter “fé”.

Há pelo menos três maneiras de se concluir que toda crença depende da fé, em duas se incorre em uma falácia de afirmação do consequente ou em uma falácia inversa do acidente. Vejamos, primeiro, como cada falácia se articula:

Falácia de afirmação do consequente: Se toda crença depende da fé, então toda fé depende da crença, toda fé depende da crença; logo, toda crença depende da fé.

Do mero fato da fé depender de crenças (de haverem crenças baseadas na fé), não segue que toda crença deva ser baseada na fé ou dependa da fé em qualquer sentido. Como foi exemplificado, existem diversas crenças que não dependem da fé.

Falácia inversa do acidente: Algumas vezes “crença” significa o mesmo que “fé”; logo, “crença” sempre significa o mesmo que “fé”.

Em nossa linguagem (o português) “crença” não é unicamente definida como “fé”, tampouco é necessariamente empregada com o mesmo sentido que “fé”. Na maioria das vezes em que utilizamos a palavra “crença” (ou modificações do verbo “crer”) a utilizamos de modo que seria muito mais natural substituí-la por “opinião” do que por “fé”. Isto tampouco implica que “crença” significa o mesmo que “opinião”, no entanto, revela que a ocasional identidade de sentido entre “crença” e “fé” é a exceção e não a regra.

A terceira maneira de concluir que toda crença depende da fé ocorre através de um argumento válido na forma modus ponens:

Se toda fé depende da crença, então toda crença depende da fé, toda fé depende da crença; logo, toda crença depende da fé.

É falso que “Se toda fé depende da crença, então toda crença depende da fé”, do contrário seria possível que, se existissem crenças que não dependessem da fé, então a fé não dependeria de crenças. Porém, além de existirem crenças que não dependem da fé, é impossível que a fé não dependa de crenças, pois a fé é compreendida exatamente como uma maneira (não muito respeitada) de apoiar crenças. Ter fé é sempre ter fé em algo, e este algo será aquilo em que se crê por meio da fé. Esta terceira formulação, portanto, não estabelece sua conclusão porque sua primeira premissa é falsa, mesmo que o argumento seja válido.

Agora podemos retomar a premissa que nos interessa, cuja falsidade compromete todo o argumento da fé: “Se o ateísmo for uma crença, então o ateísmo depende da fé”. Se trata de uma condicional material (condicionais materiais são proposições da forma “Se… então…”) e sabemos que “o ateísmo depende da fé”, que é a consequente (a proposição que fica do lado direito da condicional) é falsa (tanto em uma interpretação descritiva quanto em uma normativa). Condicionais materiais, para serem falsas, precisam ter a antecedente (a proposição que fica do lado esquerdo) verdadeira e a consequente falsa. É verdade que “o ateísmo é uma crença”? Como vimos, não há qualquer razão para se pensar que toda crença dependa da fé, se era isso que nos fazia negar que o ateísmo é uma crença, então não há mais por que negar tal coisa. Isto nos traz ao fim da análise do argumento da fé.

Resumindo a conclusão: o argumento da fé não estabelece que o ateísmo não é uma crença porque uma de suas premissas é falsa (“Se o ateísmo for uma crença, então o ateísmo depende da fé”). Tal premissa é falsa porque sua antecedente é verdadeira e sua consequente é falsa.

Talvez alguns não fiquem convencidos de que o argumento da fé falha, de que “crença” possa ser satisfatoriamente separada de “fé”. Parece haver algo de arbitrário no significado que conferimos aos termos, de modo que a separação entre “crença” e “fé” soa tendenciosa e, portanto, incapaz de garantir uma base para a refutação do argumento discutido. Esta impressão de arbitrariedade se deve, sobretudo, ao fato de que o termo “crença” é um termo impreciso (mais até do que “fé”). Embora seja um termo muito utilizado, seria grande a dificuldade se tivéssemos que defini-lo. Assim, parece arbitrário separar “crença” de “fé” somente se não temos uma compreensão rigorosa do que “crença” pode significar, esta arbitrariedade desvanece logo que dispomos de boas razões (razões científicas e filosóficas) para determinar o que é que chamamos de “crença”, com tais razões poderemos mostrar que não se trata de uma separação arbitrária, de um capricho linguístico. A exposição de uma base segura para a compreensão do que são crenças será oferecida a partir da terceira parte deste ensaio. No momento tudo que posso dizer aos que acharem persuasiva a aparência de arbitrariedade é que tal aparência é neutra. Tanto a separação quanto a união de “crença” e “fé” parecem arbitrárias, talvez a primeira mais do que a segunda, mas ainda assim, por si só, não é algo suficientemente forte para cancelar as considerações negativas feitas sobre o argumento da fé. É, no melhor dos casos, uma razão para inspirar alguma suspeita naqueles que tendem a discordar da ideia de que o ateísmo é uma crença.

Notas

[1] Um argumento é válido quando, sendo suas premissas verdadeiras, é impossível que sua conclusão seja falsa.

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  • gabriel

    “Toda Fé depende da crença, mas a Crença não depende de fé”

  • gabriel

    Não entendo porque os religiosos querem que o ateísmo seja uma crença. Carece de tudo que a considera uma.

    • Marcos Prado Masliaev

      Como provar que a inexistência de um Criador é real? Nunca vi argumento racional válido para esse raciocínio. Dessa forma, o ateísmo é dogmático, pois afirma cegamente, sem nada provar, a inexistência de um Criador. Por esse motivo torna-se igual, no método, ao cristianismo dogmático.

      • gabriel

        Isso é inversão do ônus da prova. Primeiro que quem deve provar essa existência é quem afirma que ela existe, ou seja deve provar que deus existe. Seria o mesmo que alguém for abduzido por aliens e querer que outras pessoas provem que não, não é racional.