Bule Voador

Vulnerável como um filósofo na savana: Plantinga tenta atacar ateísmo com evolução

Autor: Eli Vieira

O filósofo cristão Alvin Plantinga elaborou mais um argumento contra o naturalismo/materialismo ateu, porque parece que os anteriores não adiantaram. Ele alega que a teoria da evolução e o naturalismo são como “água e óleo”. Ele lembra, corretamente, que a maior parte dos cientistas atualmente é naturalista, inclusive os biólogos (“biólogos evolucionistas” é algo já meio pleonástico), mas parece que esses cientistas sofrem de algum mal cerebral terrível, por serem ao mesmo tempo evolucionistas e naturalistas, quando as duas posições são logicamente incompatíveis entre si, coisa que, obviamente, somente iluminados como Plantinga são capazes de enxergar.

Você pode ler tudo o que ele diz no blog Coletivo Ácido Cético. O filósofo parece imitar seu colega também cristão William Lane Craig, ao alegar que a maioria dos cientistas são irracionais. No caso de Craig, como mostrou o filósofo Michael Martin quase 15 anos atrás, a implicação lógica de sua epistemologia do Espírito Santo é que a maior parte da humanidade é irracional ao nível dos zumbis. Isso não impede, é claro, que Craig continue repetindo os mesmos argumentos até hoje. No caso de Plantinga, a implicação é que a maior parte dos cientistas é mais irracional que uma cobra comendo o próprio rabo.

O argumento de Plantinga pode ser resumido no exemplo que ele mesmo usou, do sapo que captura uma mosca. Em termos evolutivos, argumenta ele, é tão vantajoso evolutivamente (ou seja, adaptativo) que o sapo creia que a mosca seja mesmo uma mosca quanto que ele creia que a mosca é uma pílula capaz de transformá-lo num príncipe. O que interessa para a evolução é que o sapo que capturar a mosca terá vantagem em sobrevivência e reprodução. Se a seleção natural não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do sapo, também não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do nosso cérebro primata, tornando improvável que uma crença no naturalismo seja verdadeira, pois as nossas capacidades cerebrais teriam sido moldadas pela evolução de qualquer forma como estão, ainda que todas as nossas crenças fossem falsas (Plantinga até ensaia um cálculo de probabilidades, extremamente questionável, mas não vou me dar ao trabalho de atacar isso). Em poucas palavras, a evolução são sabe o que é a verdade, porque a verdade não interessa para as chances de sobrevivência e reprodução.

Para entender completamente a malandragem de Plantinga, alguns conceitos básicos em epistemologia são necessários. Não adianta atacar o filósofo por misturar crença com conhecimento: é tradição na filosofia ocidental tratar conhecimento como crença verdadeira e justificada, conceituação que foi dada ao conhecimento por Platão. Se a ciência leva ao conhecimento, isso significa em termos epistemológicos que a ciência tem uma forma especial de mostrar que as crenças científicas são justificadas e provadas verdadeiras de alguma forma.

Verdade e justificação são os dois pilares que fazem de uma crença em particular um conhecimento. Conhecimentos que usam um certo tipo de justificação são chamados de conhecimentos científicos, e o modo como esta justificação acontece é chamado de ciência. Muita gente alega que é um conjunto de regras pétreas, chamado “método científico”, o que garante a justificação e a verdade das crenças científicas – esta posição é uma posição ingênua, mas não é objetivo deste texto dizer o porquê. Para nossos propósitos, é suficiente lembrar que para saber como as crenças científicas podem ser ditas verdadeiras e justificadas, é necessária uma boa teoria filosófica para o que é verdade, e outra para o que é justificação.

Um foco maior foi dado pelos filósofos da ciência à teoria da justificação, tendo a teoria da verdade sido relegada a segundo plano por vários motivos, incluindo maior dificuldade. O famoso Karl Popper, por exemplo, criou um critério de demarcação baseado em refutações para justificar a confiabilidade da ciência.

Há diferentes teorias da verdade concorrentes na filosofia. As duas principais são a teoria correspondentista da verdade e a teoria coerentista da verdade. Grosso modo, a teoria correspondentista diz que será verdadeiro o que corresponder a certas dimensões fundamentais da experiência, como os dados experimentais ou informações sensoriais (um correspondentista famoso é Aristóteles, considerado o “primeiro cientista” por alguns); e a teoria coerentista diz que será verdadeiro o que for coerente com (ou seja, não contradizer) certas crenças fundamentais assumidas como verdadeiras.

Desnecessário dizer que cristãos como William Lane Craig e Alvin Plantinga são coerentistas, pois são dogmáticos e acham que a verdade fundamental está nas crenças contidas em parte ou em todo na Bíblia. Só será verdadeiro para eles o que for coerente com as crenças cristãs fundamentais.

Foi necessário explicar isso porque o texto de Plantinga atacando o naturalismo com base na teoria da evolução foi uma tentativa de disfarçar que Plantinga discorda do naturalismo em níveis fundamentais sobre o que é a verdade para começo de conversa. Não há dificuldade para o filósofo Daniel Dennett, por exemplo, em dizer que o ser humano evoluiu de modo a descobrir a verdade, porque a seleção natural favoreceu cérebros humanos que fossem capazes de abrigar crenças que correspondessem fielmente a um quadro de referência fundamental, que é o próprio ambiente que nos cerca e investigamos cientificamente hoje! Obviamente, este raciocínio de Dennett só faz sentido à luz de uma teoria correspondentista da verdade.

No meu blog pessoal Tetrapharmakos in Vitro, publiquei anos atrás uma cena de um documentário da BBC que mostra um caçador africano usando certos procedimentos para encontrar e abater um animal. Eu disse, numa introdução ao vídeo, que “um caçador na África, assim como um cientista” usa múltiplas hipóteses e descarta as que não funcionam pelo teste. O caçador é da tribo San, a técnica de “caça de persistência” que ele usa é considerada a mais antiga em caça, e coincidentemente esta tribo está entre as mais próximas do tronco de ascendência genética entre todos os humanos vivos. Confira a belíssima cena abaixo.

Entender corretamente minha interpretação da caça de persistência como um pensamento legitimamente científico tem duas utilidades.

A primeira é que refuta o argumento de Plantinga, na medida em que ajuda a reforçar a noção correspondentista da verdade, e a apontar que, se o povo San pode ser tomado como amostra da humanidade de milênios atrás (e em alguns sentidos pode), nós temos habilidades mentais naturais para distinguir entre hipóteses funcionais e não funcionais tendo em mente certos propósitos para os quais concebemos nossas teorias científicas (ou novas crenças). Com a palavra “funcional” e o verbo “funcionar”, estou fazendo referência à teoria da ciência de Thomas Kuhn, segundo o qual o progresso em ciência se dá pela resolução de problemas, e novas teorias devem solucionar todos os problemas solucionados por teorias antigas além de novos problemas que as últimas não resolviam. Sendo Thomas Kuhn um confesso anti-realista (vide posfácio à segunda edição de seu magnum opus), estou isento de acusações de estar apenas me aferrando ao naturalismo ou realismo científico, posições metafísicas às quais de fato me subscrevo.

A seleção natural favoreceu a sobrevivência e reprodução de mentes com melhor capacidade de descobrir a verdade, especialmente em situações em que a crença está diretamente ligada à sobrevivência, como a caça. Ainda que abandonemos a noção correspondentista da verdade, a noção coerentista serve para mostrar exatamente a mesma coisa: a seleção natural favorecerá mentes que tenham a necessidade da caça como crença fundamental, e que tenham instrumentos para gerar novas crenças coerentes com esta crença fundamental, mantendo intacta a linha da verdade quando saber a verdade é um pré-requisito para sobreviver e gerar mais filhos.

Em questões não tão acopladas à sobrevivência, como por exemplo elaborar teorias que valham para todos os contextos possíveis, de fato a evolução dotou mais pobremente nossas mentes e cérebros individualmente… e é por isso que existe tanta gente acreditando em absurdos, como por exemplo o absurdo cristianismo de Alvin Plantinga, que ele aparentemente é tão incapaz de sustentar argumentativamente que baseia seus textos direcionados ao grande público mais no ataque aos ateus do que na defesa de suas próprias crenças.

Outra razão pela qual o argumento de Plantinga é ingênuo é que os biólogos sabem muito bem, especialmente desde a crítica de Stephen Jay Gould e Richard Lewontin em 1979 (mas Darwin já sabia disso) que a seleção natural não é o único mecanismo da evolução, e achar que toda característica, inclusive da mente humana, deve ser uma adaptação é uma posição refutada chamada de “pan-adaptacionismo”. A capacidade de encontrar a verdade poderia muito bem ser fruto de processos naturais outros que não a seleção natural, como o são todos os comportamentos de origem puramente cultural.

Outra utilidade de entender a relação entre justificação científica e práticas funcionais como a caça é que se expõe o argumento de Plantinga pelo que ele é: uma defesa intransigente do coerentismo dogmático, mesclado a um apelo ao estilo “Deus das lacunas”, por estar fundamentado na presente grande ignorância da ciência sobre como o cérebro é capaz de produzir crenças (estando estabelecido, por outro lado, que embora os detalhes sejam largamente desconhecidos, não se pode disputar mais que o cérebro de fato é a ‘morada’ natural das crenças, e não espíritos fantasmagóricos indetectáveis que nada mais são que hipóteses pouco parcimoniosas).

O argumento “evolucionista” de Plantinga contra o ateísmo de posição metafísica naturalista (posição metafísica por vezes descrita como naturalismo, materialismo,  fisicalismo ou realismo) não sobrevive à luz da teoria correspondentista da verdade, que como o Bule Voador já informou é a mais popular entre filósofos. Não sobrevive à luz da filosofia da ciência, ainda que seja filosofia não-realista, como mostrei. E não sobrevive, acima de tudo, à luz de uma justa interpretação teológica da teoria da evolução, o que já fiz no texto “Opiniões, Mentes e Peixes“.

A vulnerabilidade do argumento de Plantinga ao conhecimento é até maior que a do próprio filósofo se ele tivesse que viver da caça no meio da savana africana.

Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org