Bule Voador

Falha mais uma tentativa de distinguir acupuntura de placebo

Autor: Carlos Orsi
Editor: Alex Rodrigues
Acho que é do Millôr Fernandes a observação de que qualquer qualquer afirmação, independentemente da validade, sempre tem uma chance mais do que razoável de ser levada a sério quando sai da boca de um velhinho chinês. Não sei se o Millôr tinha a chamada “medicina tradicional chinesa” em mente quando formulou o pensamento, mas alguns resultados recentes de estudos sobre acupuntura me trouxeram à lembrança a pérola do Mestre do Méier.

O trabalho mais recente, divulgado nesta quinta-feira, foi patrocinado pelo Instituto Karolisnka — onde ficam os caras que decidem o Nobel de Medicina — concluiu que acupuntura placebo funciona tão bem quanto acupuntura real no tratamento da náusea sentida por pacientes de câncer, submetidos a radioterapia.

O trabalho envolveu 277 pacientes. Desses, 215 foram distribuídos, aleatoriamente, entre um grupo que passou por acupuntura e outro que apenas teve agulhas falsas — cujas pontas se retraem, sem perfurar a pele — pressionadas contra o corpo.

Outros 62 pacientes receberam apenas os medicamentos normais contra náusea, sem acupuntura nenhuma.

(É importante notar que a acupuntura real foi efetivamente aplicada nos pontos do corpo que, segundo a tradição, ajudam a evitar naúsea; já a acupuntura placebo foi aplicada em pontos fajutos.)
 

A taxa de pacientes com náusea, nos grupos acupunturados — real e placebo — ficou em 37% e 38%, respectivamente, contra 63% dos que passaram pelo tratamento padrão. Os pesquisadores reconhecem que o fato de o terceiro grupo — os dos pacientes sem acupuntura nenhuma, seja real ou falsa — não ter sido formado de maneira aleatória pode ter comprometido essa parte da conclusão.

De qualquer forma, o principal fator envolvido parece ter sido expectativa: 81% dos pacientes que achavam que iam passar mal tiveram a profecia confirmada, contra 50% dos que estavam mais otimistas. Este trabalho saiu na PLoSONE.
O outro estudo é de 2008, e indicou — depois de um levantamento duplo-cego de 370 pacientes — que acupuntura falsa é bem melhor para ajudar mulheres a engravidar que a acupuntura real (taxas de sucesso de 55,1% e 43%, respectivamente, dados publicados no periódico Human Reproduction).

A conclusão proposta pelos autores (que desta vez eram chineses, não suecos), foi a de que a acupuntura placebo talvez não seja inerte — e não, como a lógica poderia sugerir, que ambas as modalidades não passam de placebos e que o poder da expectativa é o verdadeiro fator envolvido nos resultados atribuídos às duas intervenções.

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Nota do Editor: Este último parágrafo ilustra bem como fazer para adequar os resultados de um estudo às próprias crenças pessoais.

Alex Rodrigues
Carioca de nascimento (15/07/79), por