Bule Voador

A descrença no youtube

Autor: André Taffarello

Todo não-crente que veio de uma família religiosa sabe como é duro e tortuoso o caminho de desconversão (e perdoem-me a frase genérica e desprovida de evidências – é inofensiva). E é também um caminho muito diverso; cada indivíduo tem uma história própria, que muitas vezes envolve vergonha, rejeição e dor.

Surpreendentemente, o Youtube teve um papel muito marcante na minha desconversão pessoal, em conjunto com os livros do Carl Sagan e (como imagino que quase sempre aconteça) com uma postura de questionamento constante. O Youtube é uma fonte realmente impressionante… existe uma gama muito grande (principalmente pra quem entende bem inglês, mas não apenas) de vídeos no website tratando de filosofia, humor e de situações do dia-a-dia com as quais ateus se deparam constantemente.*

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Na semana que passou, vi três vídeos (infelizmente, os três em inglês) que me interessaram muito sobre o funcionamento da mentalidade humana diante de argumentos e contra-argumentos sobre suas crenças/descrenças. O primeiro vídeo começa comentando uma mensagem recebida pelo autor, Mitch, em que um teísta afirma o seguinte (a tradução é minha):

‘Se o seu objetivo ao ler a Bíblia é simplesmente desacreditá-la, você está jogando fora seu tempo com crentes verdadeiros que nunca mudariam de ideia, não importando as coisas que você pessoalmente declara como contradições. E sobre os que mudam de ideia depois do vídeo, pode ser dito que eles não eram crentes verdadeiros e tinham apenas uma tendência intelectual [ao teísmo] e não uma conversão verdadeira.’

No vídeo, o autor comenta essa mensagem e, utilizando passagens da própria Bíblia, mostra a construção de uma visão do não-crente como um crente que falhou, alguém que não tem o ‘coração aberto’, um irracional, um idiota que não enxerga o que está diante de seu nariz. A falácia do escocês na mensagem original é óbvia (‘o crente que deixa de ser crente não era um crente de verdade‘), mas a questão vai muito além disso. É muito comum em debates na internet se deparar com uma citação do Salmo 53, que diz o seguinte:

‘Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniquidade; não há ninguém que faça o bem.’

Além de desqualificar o descrente, a passagem reafirma a crença valorizando o grupo ao qual o crente pertence. A Bíblia têm várias referências desse tipo: Você crê porque não é um néscio, um idiota como os que não crêem. Você é um ‘eleito’. Você é um escolhido por Deus, um dos poucos que irão para uma eternidade de felicidade.

Sem contar as inúmeras citações de clérigos e crentes que poderiam ser adicionadas, Datena é um exemplo evidente e bem próximo**. É de se notar aqui que ‘descrente’ não se aplica necessariamente apenas a quem não possui nenhuma crença, mas também a seguidores de religiões diferentes. Por exemplo, os descrentes frequentemente citados em cartas por São Paulo eram os judeus (que, segundo a Bíblia, tinham os corações endurecidos pelo próprio Deus até que a hora da conversão houvesse chegado – Romanos 11:25. Quer exemplo melhor de lógica tortuosa?).

Mas mais interessantes ainda são dois vídeos relacionados, sobre as ‘Dunas móveis das evidências e argumentos’. Mitch discute a influência de argumentos sobre princípios fundamentais que escoram a visão de mundo das pessoas. William Lane Craig, talvez o mais famoso apologeta cristão vivo, afirma em seu website:

Deus proveu uma fundação mais segura para nossa fé do que as dunas móveis das evidências e argumentos.’

Em outras palavras, evidências e argumentos podem fazer parte de seu arsenal retórico, mas não são sobre elas que repousa sua fé. Isso está intimamente ligado com a afirmação contida na mensagem original do primeiro vídeo: para ser um crente verdadeiro, você precisa de uma fé (irracional?) que ultrapassa argumentos e evidências.

Os vídeos giram em torno do fracasso de argumentos teológicos e contrateológicos para converter ou desconverter as pessoas. O autor fala de um artigo publicado por Jennifer Faust sobre como crenças enraizadas são pouco suscetíveis a mudanças por argumentos externos. Jennifer afirma em seu artigo que crenças religiosas (e antirreligiosas) são fundamentais nas visões de mundo da grande maioria das pessoas e que princípios assim, tão profundamente enraizados, são muito raramente descartados à luz de novos argumentos ou evidências. Argumentos são construídos ou aceitos a partir de uma visão de mundo já estabelecida e não o contrário (por exemplo, Santo Anselmo acredita em Deus e só então enuncia seus argumentos para prová-lo).

Mitch discorda da autora, afirmando que ela está certa no caso de crentes em geral, mas que os ateus (por já terem sido crentes um dia, na maioria dos casos, e por terem uma posição normalmente mais questionadora) são em geral mais suscetíveis a bons argumentos do que os crentes. A discussão é interessante, mas essa é uma questão de pouca importância. O que fico pensando é: se argumentos não funcionam muito bem, o que seria mais útil como ferramenta de desconversão?

Meu palpite: várias frentes. Humor, muito humor, blasfêmias diversas. Argumentos, sim, argumentos também. Inteligência, sarcasmo, cordialidade, mau humor, enfrentamento. As pessoas são diferentes, é de formas diferentes que devemos nos dirigir a cada uma. Afinal, não queremos ver o mundo todo homogeneizado, um grande amontoado de ovelhas se comportando sempre da mesma forma. De jeito nenhum.

* Recomendo:
ProfMTH,
Pat Condell legendado,
Edward Current,
TheoreticalBullshit

** Impressionante como o discurso de ódio do Datena pode ser relacionado ao Salmo 53. Nada de novo, a Bíblia está cheia de passagens com citações equivalentes.

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Alex Rodrigues
Carioca de nascimento (15/07/79), por